Copyright  Nei Lopes, 2011


CAPA:
Evelyn Grumach


FOTOS DA CAPA:
Sylvester Adams, Frans Lemmens/Getty Images e Hiroyuki Matsumoto/Getty Images


PROJETO GRFICO E COMPOSIO DE MIOLO DA VERSO IMPRESSA:




CIP-BRASIL. CATALOGAO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ


           Lopes, Nei, 1942-
            Dicionrio da antiguidade africana [recurso eletrnico) / Nei Lopes.  Rio de Janeiro :
L854d
        Civilizao Brasileira, 2012.
           recurso digital : il.


           Formato: ePub
           Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
           Modo de acesso: World Wide Web
           Inclui bibliografia
           ISBN 978-85-2001-098-3 [recurso eletrnico]


            1. frica - Civilizao - Dicionrios. 2. frica - Antiguidades - Dicionrios. 3. frica - Religio -
        Dicionrios. 4. Livros eletrnicos. I. Ttulo.


11-                                          CDD: 960.03
7141                                         CDU: 94(6)(038)
                 Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, armazenamento ou transmisso de
                 partes deste livro, atravs de quaisquer meios, sem prvia autorizao por escrito.

                 Texto revisado segundo o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.


                 Direitos exclusivos desta edio reservados pela EDITORA CIVILIZAO BRASILEIRA
                 Um selo da
                 EDITORA JOS OLYMPIO LTDA.
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Produzido no Brasil
2012
Aos Guerreiros, Benfeitores e Ancestrais que
inspiraram esta obra.

 memria de meu irmo Ismar Braz Lopes, o
"Mavilis", operrio grfico que, nos anos 1950, ao
presentear-me com meus primeiros livros, inoculou
em mim o amor pelas cincias da humanidade.
"Muitos eurocentristas acreditam que os afro-americanos devem apenas
escrever sobre a escravido e deixar a Histria Antiga para estudiosos
mais `qualificados'. [...] O problema central  que os historiadores
fizeram da escravido sua nica preocupao, e persuadiram os
estudantes a fazer o mesmo.
O dano que isso causou  incalculvel, pois os negros passaram a ter de
enxergar a sua Histria e a da frica apenas pela tica da escravido."
                                                          CLYDE A. WINTERS



                               ***

"No se trata de fabricar, para a frica, um passado que ela no tem, e
sim de pesquisar o passado que ela na realidade teve, qualquer que seja
ele."
                                                                 R. MAUNY
INTRODUO/


COM A EDIO, NO BRASIL,   em 1980, de Histria geral da frica em dois volumes,
organizados pelo historiador burquinense Joseph Ki-Zerbo e publicados pela
Unesco, inaugurava-se um novo captulo dos estudos africanos em nosso
pas. Mais tarde, com A enxada e a lana, do diplomata e acadmico Alberto
da Costa e Silva, dava-se outro salto de qualidade. Entretanto, do nosso
ponto de vista, sentamo-nos ainda carentes de uma obra que popularizasse
esse conhecimento, tornando-o acessvel a um pblico diversificado. Ento,
num momento em que as publicaes acadmicas ainda abordam a frica
preferencialmente por meio de suas relaes com a Europa, no contexto da
escravido, tomamos para ns, de acordo com nossas possibilidades, a
tarefa de difundir parte desse conhecimento, apresentando-o segundo uma
perspectiva africana, inclusive ressaltando a anterioridade das civilizaes
egpcia e cuxita em relao  greco-latina.
       A forma que elegemos foi a de um dicionrio. Porque o conjunto de
informaes que este livro traz a pblico tem finalidade essencialmente
didtica. Um dicionrio, com informaes organizadas em verbetes que
remetam com a mxima exatido possvel a outros que os completem, , a
nosso ver, a forma didtica por excelncia para a transmisso de conceitos
que rematem uma ideia-me, um conceito axial. Essa ideia  a construo de
uma nova viso da Histria africana, baseada na reviso de axiomas como os
que definem "civilizao", "tecnologia", "conhecimento cientfico", "escrita",
"literatura" etc., a partir do que se produziu, antes da chegada de europeus e
asiticos, em vrias regies do continente africano, notadamente no Vale do
Nilo, nas proximidades do Lago Chade, e at mesmo na floresta densa,
durante as milenares e sucessivas migraes dos ancestrais dos atuais povos
bantos. Assim, a seleo dos verbetes, tornando visveis lugares, povos,
eventos e heris cuja importncia jamais foi evidenciada ou avaliada, objetivou
mostrar o continente africano no s como o "bero da humanidade", mas
tambm como o lugar onde a civilizao humana deu seus primeiros passos,
certamente antes das contribuies advindas do contexto indo-europeu.
       A antropologia fsica eurocentrada povoa o passado africano de "raas"
e "sub-raas" irreais. Assim  conforme o antroplogo, linguista, historiador e
fsico senegals Cheikh Anta Diop (1923-86) , a histria que se escreveu
sobre a frica est repleta de referncias a "negroides", hamitas, camitas,
etiopdeos, nilticos, em nenhuma parte constando a palavra "negro". Busca-
se sempre uma origem externa para os aportes civilizadores que fecundaram
o continente, restando apenas aos povos coletores e caadores  pigmeus,
bosqumanos, hotentotes etc. , at hoje congelados em seus ambientes
naturais, a condio de autctones. Da, a abordagem escolhida para este
trabalho.
       Como premissa bsica do Dicionrio, procuramos estabelecer o real
significado de nomes como Axum, Cuxe, Etipia, Querma, Meroe, Napata,
Nbia, Punt, Sab, e mesmo Egito. Para tanto, partimos do princpio de que o
nome "Nbia" se referiria, como ainda hoje, a uma vasta regio; de que Cuxe
teria sido um territrio delimitado geogrfica, social e politicamente, ou seja,
um pas dentro dessa regio, a qual abrigou tambm os reinos da Etipia
(sub-regio tambm chamada Abissnia); de que Querma, Napata e Meroe
foram capitais cuxitas  a ltima sediando mais tarde um poderoso Estado
imperial que acabou por tomar-lhe o nome, e que, finalmente, a sub-regio da
Etipia viu surgir em seu seio, nas proximidades do antigo reino conhecido
como Punt, a cidade-Estado de Axum, fundada por migrantes de Sab, no
atual Imen (ou no prprio territrio africano, como querem alguns
historiadores), mais tarde tambm expandida a dimenses imperiais.
       Outra premissa, sabendo-se que o nome "Etipia" foi concebido pelos
gregos provavelmente a partir do sculo XIII a.C. e que o nome "Abissnia"
tem origem rabe, foi procurar conhecer a denominao verncula de cada
uma dessas unidades talvez a partir do Egito, bero da mais antiga civilizao
no nordeste africano.
       Os antigos egpcios chamavam de "Ta-Seti" ("o pas do arco") a Nbia,
e de "Ta-Neter" ("o pas do sagrado") a Etipia. J "Querma", tambm de
provvel origem egpcia, seria a denominao do Egito (ou Quemet, seu nome
vernculo) para o pas de Cuxe  por sua vez, uma nomeao originariamente
hebraica. J o nome "Abissnia" tem origem, segundo consta, no sul da
Arbia, sendo utilizado, ento, a partir de 1000 a.C., com a chegada de
migrantes sabeus  regio; esses migrantes, alis, tanto poderiam ter partido
do atual Imen, a Arabia Felix dos romanos, quanto de algum lugar mais
prximo, uma vez que o nome Sab, como veremos neste Dicionrio, parece
designar duas regies distintas.
       Desse modo, com essas premissas  estabelecimento do real
significado desses topnimos  esclarecemos sobre a cronologia adotada
nesta obra, a partir de M. K. Asante, alm de Baines & Malek, conforme
explicado no verbete "dinastias egpcias". As dataes foram cotejadas com
outras tbuas cronolgicas, como a de Cazelles para a Histria de Israel.
       Sobre a grafia de antropnimos e topnimos, diante da dificuldade de
adapt-los buscando fidelidade s sonoridades originais ou partindo das suas
verses europeias (gregas, no caso do Egito), optamos por utilizar a regra da
ortografia geral, mantendo, no entanto, a fidelidade s grafias tradicionais j
consagradas pelo uso em lngua portuguesa.
       Quanto ao mbito temporal do Dicionrio, adotamos o conceito de
"Antiguidade expandida"  no mais limitada no tempo nem no espao 
proposto pelo historiador Pedro Paulo Funari (ver verbete "Antiguidade").
Assim, todas as sociedades africanas que floresceram e se desenvolveram
fora do contexto islmico, a partir do sculo VII d.C., ou do catlico, a partir
do sculo XV, so por ns consideradas sociedades arcaicas (de arkh),
tendo vivido cada uma, em seu contexto histrico, uma "idade antiga" do
continente.
       Finalmente, na defesa dos princpios que norteiam este livro  com o
qual nos opomos s teorias que colocam os africanos  margem do
pensamento racional e da experincia humana , damos a palavra ao
historiador e filsofo congols Thophile Obenga, que assim escreveu, em
2002:

     necessria uma grande coragem intelectual, da parte dos egiptlogos e africanistas, para
    colocar a histria dos negros africanos em sua dimenso real e verdadeira.  preciso
    tambm, e sobretudo, que os jovens pesquisadores africanos sejam lcidos,
    desembaraando-se das frmulas escolares, evitem os caminhos j percorridos e se
    recusem a contar as mesmas histrias j sabidas. Essa histria  nossa e deve ser abordada
    com seriedade: ela encerra um panorama da histria da Humanidade.
AAQUEPERR SETEPENR.   Ttulo dinstico e religioso do fara Osorcon I. Ver
FARA:  nomes e ttulos.
ABALE. Personagem da histria de Cuxe, me do fara Taharca. No sexto ano
de seu reinado, em regozijo por uma benfazeja cheia do Nilo, o fara mandou
traz-la de Napata para Tanis, a fim de que ela o reconhecesse coroado, tal
como a deusa sis, segundo a tradio egpcia, vira seu filho Hrus no trono
do pai, Osris.
ABASCE. O mesmo que Abissnia. Ver HABBASHAT.
ABEXIM. O mesmo que abissnio, habitante da Abissnia.
ABIDOS. Cidade egpcia, localizada na Tebaida, s margens do Nilo e a 560 km
ao sul da atual Cairo. Abrigou a importante necrpole dos faras desde a
poca arcaica ou tinita. Cidade sagrada do deus Osris, l foram encontradas,
alm de tmulos e cenotfios como o de Seti I, as chamadas "tbuas de
Abidos", listagens enumerativas dos 76 primeiros faras desde Narmer.
ABILA. Primitivo nome de Ceuta, cidade e porto na costa setentrional do atual
Marrocos, em frente a Gibraltar. Sob o domnio grego, foi chamada
Heptadelfos. Pertenceu a Cartago e, sob tutela romana  quando teve seu
nome traduzido para Septem Fratres, reduzido para Septa e corrompido em
Ceuta , tornou-se capital da Mauritnia Tingitana.
ABISSNIA. Antigo nome da Etipia, mais especificamente da regio planaltina do
macio da Etipia, no nordeste da frica. Deriva provavelmente do nome
rabe Habash ou Habbashat, de uma das tribos iemenitas tidas, pela tradio,
como fundadoras do pas. Outras verses apresentam o nome como originrio
de um vocbulo cujo significado  "mistura de povos".
ABRAO. Patriarca hebreu. Segundo o Gnesis, premido pela seca em Cana,
ao tempo em que seu nome era ainda Abro, foi morar no Egito, onde sua
mulher, ainda chamada Sarai, e no Sara, se viu forada a casar-se com o
fara, que a imaginava solteira. Situando-se a existncia histrica de Abrao
por volta de 1850 a.C., esse fara provavelmente seria Senusret III ou
Amenemat III. Entretanto, alguns textos rabnicos narram esse episdio de
modo diferente. Alguns historiadores negam at mesmo a real existncia de
Abrao.
ABU SIMBEL. Regio da Nbia, no atual Sudo, abaixo de Cartum. Stio
sagrado, era dominado por duas grandes colinas rochosas. Nelas, no sculo
XIII a.C., Ramss II, concluindo obra iniciada por seu antecessor Seti I, fez
erigir dois templos escavados na rocha, nos quais se ergueram, em meio a
paredes naturais, decoradas com belssimos relevos, gigantescas esttuas
encravadas na montanha. Segundo algumas interpretaes, o gigantismo
dessas esttuas tinha a inteno de intimidar os nbios, potenciais inimigos do
Egito, pela propaganda ostensiva do poder e da grandiosidade do fara.
ABUSIR. Cidade egpcia influenciada pelo clero de Helipolis. Nela, boa parte
dos faras construiu seus complexos funerrios, numa tradio rompida por
Djedkar Isesi, que construiu o seu em Sacara, mais prximo a Mnfis, sob
cuja influncia se colocou.
ABUTRE. Ave smbolo do Alto Egito. Em geral estigmatizados na cultura
ocidental, os abutres so, em algumas culturas africanas, devido  altura que
atingem em seus voos, considerados espcies de mensageiros dos humanos
junto s altas potncias do Universo. Assim , por exemplo, o papel da Aura
tiosa (urubu) no culto de If, introduzido pelos iorubanos em Cuba.
AC (AKAN). Denominao geral sob a qual se renem vrios povos do oeste
africano. Unidos pela cultura e pela lngua, os povos ac, dos quais fazem
parte, entre outros, axantis, fantis, bales, agnis e tus, ocupam principalmente
as florestas do centro e as regies mais temperadas da antiga Costa do
Ouro. Os ancestrais desses povos teriam vindo de terras que se situam entre
as atuais fronteiras de Gana e Costa do Marfim, na bacia do rio Volta Negro.
Segundo antigas tradies locais, entretanto, eles teriam migrado
originalmente da Etipia, passando por Egito e Lbia, chegando ao Antigo
Gana e depois s bacias do Benu e do Chade. Por volta do incio da Era
Crist, eles teriam caminhado at a confluncia dos rios Pra e Ofin, evitando
as partes ao norte da floresta. Nessa regio, teriam conquistado os povos
nativos e se misturado a eles, dando origem  lngua tu e a instituies
sociais que perduram at nossos dias. Por volta do sculo XII d.C.,
movimentando-se para o sul e para o norte, organizaram, na orla da floresta,
pequenos principados, os quais foram o germe do imprio axanti, no norte, e
do Estado Fanti ou Fante, no sul. Segundo Asante, as concepes dos povos
ac sobre o universo se revestem do mesmo holismo e da mesma harmonia
encontrados na concepo quemtica do Maat.
ADAMAUA. Planalto elevado da atual Repblica dos Camares, entre a Nigria e
a Repblica Centro-Africana. Foi, em tempos remotos, bero e ncleo de
disperso dos povos bantos.
ADEQUETALI. Rei cuxita em Meroe, aproximadamente entre 134 e 140 d.C. Ver
CUXE.
ADJIB. Fara egpcio da I dinastia,  poca tinita ou arcaica. Seu governo foi
breve, aps o de Den.
ADULIS. Porto fundado em Axum por Ptolomeu Filadelfo (c. 250 a.C.) Situado
no golfo de Zula, prximo a Massau, na Etipia.
FRICA. Ligado  sia pelo istmo de Suez e pelo estreito de Bab-el-Mandeb, e
separado da Europa apenas pelo estreito de Gibraltar, o continente africano 
em contraste com a impenetrabilidade de suas densas florestas e regies de
grande altitude  teve nas guas do rio Nilo sua via natural de comunicao
com as outras partes do mundo antigo, atravs do mar Mediterrneo. Uma
das regies mais frteis do mundo, o vale do Nilo foi o bero das primeiras
civilizaes africanas, e do contato dessas civilizaes com o mundo exterior
nasceram os nomes pelos quais o continente africano  conforme Dapper,
citado por Parreira  seria conhecido ao longo dos tempos: Olmpia, Ocenia,
Herfri, Etipia etc., entre os gregos; Feruch, para os fencios; Afar, entre os
hebreus; Bezecath, entre os indianos; e Lbia, entre os romanos. O nome
"frica" deriva de Afer, personagem mitolgico, filho de Hrcules e
mencionado como "o lbio". Bero da Humanidade  Os primeiros
homindeos, ancestrais do homem moderno, surgiram h aproximadamente
120 mil anos, na poro oriental do continente africano. De l, cerca de 50 mil
anos depois, os representantes do Homo sapiens foram-se dispersando
paulatinamente, em vrias direes, at alcanar todos os outros continentes.
Em 2001, uma equipe de cientistas norte-americanos apresentou, no
congresso da Organizao do Genoma Humano, concluso de pesquisa
segundo a qual os europeus modernos descendem de um grupo de africanos
que h cerca de 25 mil anos migrou de seu stio de origem para a direo
norte. Essa concluso colocou por terra a ideia de que os humanos teriam
evoludo, em grupos de origem distinta, simultaneamente na frica, na sia e
na Europa. frica Profunda  As recentes descobertas cientficas tornaram
sem sentido a denominao "frica Negra", usada para qualificar a frica
Subsaariana em contraposio ao norte do continente. Assim, preferimos v-la
substituda por outra menos arbitrria, como "frica Profunda", por exemplo. E
isso porque, na contramo de autores como Delafosse e Laffont, a moderna
antropologia afirma a origem autctone das populaes denominadas "negro-
africanas". As novas aquisies da cincia afastam cada vez mais as
hipteses de o continente africano ter sido originalmente povoado por
populaes imigrantes. Consoante essas antigas hipteses, todas as
aquisies culturais observadas no continente teriam sido trazidas por ondas
migratrias provenientes da sia. Entretanto, j na primeira metade do sculo
XX se constatava que a frica  como lembra Dimitri Olderogge   o nico
continente no qual se encontram, numa linha evolutiva ininterrupta, todos os
estgios do desenvolvimento humano, do Australopithecus ao Homo sapiens.
Polo de difuso de homens e tcnicas num perodo decisivo da Histria
humana, s muito depois a frica recebeu correntes migratrias retornadas do
exterior. Segundo Cheikh Anta Diop, no incio da pr-histria, um importante
movimento do sul para o norte levou grandes contingentes populacionais da
regio dos Grandes Lagos para a bacia do Nilo, onde viveram durante
milnios. Foram descendentes desses migrantes que criaram a civilizao
niltica sudanesa e o que conhecemos como Quemet ou Egito. Ainda segundo
Diop, essas primitivas populaes negras constituram as primeiras
civilizaes do mundo, visto que o desenvolvimento da Europa ficara
estagnado, desde a ltima Era Glacial, por aproximadamente cem mil anos. A
partir do sculo VI a.C., com a ocupao do Egito pelos persas, os povos
africanos at ento atrados como por magnetismo para o vale do Nilo
espalharam-se por todo o continente. Alguns sculos mais tarde, j na Era
Crist  como provaram os mtodos de datao por radiocarbono , esses
migrantes fundaram as primeiras civilizaes continentais no oeste e no sul:
Gana, Nok-If, Zimbbue e outras. Os Africanos na sia  Segundo a
concepo estabelecida da Histria, a civilizao teria surgido na extremidade
sul da Mesopotmia, com os sumrios, povo tido como construtor das
primeiras cidades do mundo, por volta de 3500 a.C. Durante muito tempo
obscura, a origem desse povo parece ter sido, entretanto, estabelecida por
John Baldwin, que, no sculo XIX, escreveu: "Os povos descritos nas
escrituras hebraicas como de Cuxe foram os civilizadores primordiais do
sudoeste asitico, e na mais remota Antiguidade sua influncia se estendeu a
todas as regies litorneas, desde o extremo leste at o extremo oeste do
Mundo Antigo" (cf. Elisa Larkin Nascimento). Defensores dessa ideia de que
povos cuxitas ou etopes teriam sido os primeiros civilizadores e construtores
em toda a sia ocidental, os seguidores de Baldwin, entre eles os cientistas
contemporneos Ivan Van Sertima e Runoko Rashidi, baseiam-se, segundo
Larkin Nascimento, em evidncias lingusticas e arquitetnicas encontradas
nos dois lados do Mediterrneo, na frica Oriental e no vale do rio Nilo, bem
como no Hindusto e nas ilhas do oceano ndico. A Sumria, segundo essas
evidncias, seria uma das vrias colnias de Cuxe  sua capital tinha por
nome "Kish" , de populao e cultura originrias do vale do Nilo. Os prprios
sumrios, segundo Larkin Nascimento, denominavam-se "cabeas pretas",
numa autoidentificao que os distinguia dos demais povos da regio.
Observe-se que os zigurates, pirmides em forma de escada, criadas na
Sumria, apresentavam um estilo idntico ao que caracterizava os
monumentos nbios. A arqueologia estabeleceu tambm grandes semelhanas
entre a antiga cultura persa do Elam e as do Nilo. Historicamente, Susa,
capital do Elam, foi inclusive o palco da saga heroica de Mmnon, o Etope.
Filho de Titono, governador da Prsia, Mmnon, que viveu por volta de 1250
a.C., aliou-se a Troia, liderando uma fora de dez mil susianos e dez mil
etopes. Louvado por Homero, Virglio e Deodoro da Siclia, era, segundo
alguns contemporneos, "preto como bano".
      Segundo Larkin Nascimento, o Beluquisto, regio que hoje compreende
partes do Ir e do Paquisto, foi conhecida como Gedrosia, "o pas dos
escuros", concluindo alguns historiadores que o pas teria sido originalmente
povoado por "negros, conhecidos pelos gregos como Anacarioi". E mais: a
autora, baseada em fontes seguras, associa o topnimo ingls "Khuzistan"
(regio do sudoeste do Ir no alto do golfo Prsico) ao topnimo Kush ou
Cuxe, traduzindo-o como "terra de Khuz ou Cush". Sobre a Arbia, lembra
Larkin Nascimento ter sido a pennsula arbica povoada originalmente por
populaes negras, chamadas "veddoids". Da Arbia, esses primitivos
africanos teriam migrado para a ndia, atravs do Ir e do Beluquisto, para
formar a "nao etope" que Herdoto observou em Sind, regio
correspondente a partes dos atuais territrios da ndia e do Paquisto. J na
China, segundo Larkin Nascimento, a presena do negro africano dataria do
perodo pleistoceno; e teria sido responsvel inclusive pelo florescimento da
cultura funan, disseminada at o Camboja. Veja-se, tambm na China, que os
soberanos da dinastia chinesa Shang, tida como de origem africana por
Winters, foram conhecidos por nomes iniciados pelo elemento shuan,
traduzido como "preto". Multietnicidade e multiculturalidade  Poro do
continente africano que compreende os atuais territrios de Qunia, Uganda,
Eritreia, Djibuti, Etipia, Somlia, Ruanda, Burundi, Tanznia, Comores,
Moambique e Madagascar, a frica Oriental, por sua situao fsica e suas
condies ambientais, teve grande importncia nos primeiros tempos da
Humanidade. A se situa o bero da espcie humana e, segundo Bernal, o
ncleo de difuso da grande famlia de lnguas afro-asiticas, outrora
conhecidas como hamito-semticas, ou seja, as lnguas cuxitas orientais,
centrais e meridionais; as chadianas, berberes; egpcias e semticas. Essa
presena asitica deriva, certamente, dos contatos que se estabeleceram, em
poca j avanada, atravs do estreito de Bab-el-Mandeb, e no de uma
diferena original das populaes do leste-nordeste africano em relao aos
"verdadeiros negros" da frica Ocidental. A frica, ento, como bem salienta
Ali A. Mazrui, no  um "continente negro" e sim um todo multitnico e
multicultural. Sua fronteira setentrional no  o Saara, mas o Mediterrneo, os
povos hamitas do norte sendo tambm e inegavelmente africanos. A
multietnicidade do continente resultou da convivncia, nele, desde os tempos
mais remotos, de africanos de aparncias diversas, de acordo com as
seguintes procedncias: do norte do continente, indivduos de pele
amorenada, semelhantes ao tipo predominante entre os hoje fixados no
Mediterrneo; do centro e do oeste, indivduos de pele bastante pigmentada e
cabelos crespos, entre eles os negritos ou pigmeus, e em boa parte do
restante do continente, os ancestrais dos atuais bosqumanos, de baixa
estatura, cabelos acentuadamente crespos e pele amarelada  tidos hoje
como os descendentes diretos dos primeiros representantes da espcie
humana. Na Antiguidade, o deslocamento de diversos povos em vrias
direes do continente deu origem a contatos e miscigenaes. Mas nada leva
a crer que, no perodo compreendido entre o alvorecer da civilizao egpcia e
a conquista rabe do norte do continente, as populaes africanas fossem to
diferentes entre si a ponto de acreditar-se na existncia de uma frica "negra"
e outra "branca", da mesma forma que no se distingue, por exemplo, a
Europa escandinava da ibrica. As distines existem sim, mas do ponto de
vista fsico e geogrfico, como, por exemplo, a que, na Antiguidade,
destacava a frica Mediterrnea (Cartago, Cirenaica, Lbia, Numdia e Egito),
de Etipia, Nbia e Punt, do pas dos nigritas e da poro ento desconhecida
do continente. Ver EGPCIOS, ETNICIDADE; MESTIAGEM; NEGRO; NEGRO-AFRICANO.
FRICA OCIDENTAL, Reinos da. Ver GUIN.
FRICA ROMANA. Do sculo II a.C. at o colapso final do Imprio, a costa
mediterrnea do norte da frica e partes do interior estiveram incorporadas ao
imprio Romano. Quando, em 146 a.C., Roma destruiu Cartago, o imprio
tomou toda a regio que os cartagineses controlavam, a partir do territrio da
atual Tunsia, e a denominou "frica". Muitos comerciantes e agricultores
romanos se estabeleceram na regio, e a influncia romana estendeu-se at a
Numdia, mais tarde tambm invadida e ocupada por Roma e transformada na
provncia romana de frica Nova. Num clima de grande insatisfao, no ano 17
a.C. o chefe nmida Tacfarinate liderou uma revolta contra o domnio romano.
Depois de dez anos de luta, os revoltosos foram subjugados e o imprio
estendeu seu poder ainda mais. A regio de Alexandria caiu sob o controle
romano no sculo I a.C., aps a morte de Clepatra, a legendria rainha
grega do Egito. Por volta de 20 d.C., os romanos conquistaram boa parte do
que hoje  o litoral da Lbia, chamado por eles de Tripolitnia, "a terra das trs
cidades"  Sabratha, Oea (a Trpoli atual) e Leptis Magna. No oeste, o reino
de Mauritnia, no atual Marrocos, foi fortemente influenciado por Roma,
permanecendo, porm, independente at o ano 40 d.C., quando seu rei foi
executado por ordem do imperador. Os mauritnios, ento, declararam guerra
aos romanos, mas, derrotados, tiveram seu territrio anexado. Do sculo I ao
III d.C., o norte da frica foi governado diretamente por Roma, e o Imprio
Romano se expandiu para o sul, experimentando grande desenvolvimento
material. A frica Romana, com sua rica agricultura, tornou-se o celeiro de
Roma, assim como recebia, da metrpole, bens de consumo e artigos de luxo.
Nos sculos III e IV, quando o imprio comeou a ruir sob o ataque dos
inimigos, as provncias africanas perderam sua conexo com Roma. Entre 428
e 442, o nordeste do continente cai sob o poder dos vndalos de Genserico,
mas o territrio  retomado em 553 pelos bizantinos, comandados por
Belisrio, general do imperador Justiniano. A partir de 640, os rabes se
apoderam do Egito, da Cirenaica, da Tripolitnia e do Magreb.
AFRO-ASITICA. Grande famlia lingustica, expandida a partir da Nbia para dar
origem s lnguas cuxitas centrais, orientais e meridionais, bem como s
chadianas, berberes, bejas, semitas e iemenitas, alm do egpcio antigo. A
denominao substitui a antiga qualificao "camito-semtica".
AGAR. Serva egpcia de Sara, mulher do patriarca hebreu Abrao, segundo a
Bblia. Grvida do amo, deu  luz Ismael.
AGBONMIREGUM. Lder do povo de Il-If, tido como anterior a Odudua.
Segundo Adky, portava tambm o nome Setilu e  considerado o pai de
If. Com efeito, na tradio religiosa iorubana, inclusive nas Amricas,
Agbonmiregum  um dos ttulos de If ou Orumil, orix da adivinhao e do
saber. Ver IORUBS; MITOS E LENDAS.
AGIZIMBA. Regio africana misteriosa "onde viviam os rinocerontes", referida por
Ptolomeu em seu Tratado de Geografia, conforme Coquery-Vidrovitch.
AGNIS. Povo do grupo Ac, localizado nas atuais repblicas de Costa do
Marfim e Gana. Segundo Ki-Zerbo, suas construes funerrias evocam, pela
semelhana, as do vale do Nilo na Antiguidade.
AGRACAMANI. Rei cuxita em Meroe aproximadamente entre 132 e 137 d.C. Ver
CUXE.
AGRICULTURA. A agricultura surge a partir do momento em que o ser humano
aprende a utilidade das plantas. No mais obrigado a percorrer grandes
distncias em busca de alimento, ele passa a criar habitaes permanentes. A
vida sedentria faz nascer a diviso social do trabalho e surgem as primeiras
sociedades de governo centralizado. Segundo G. Lema, nas antigas
sociedades africanas, a agricultura era apenas parte do sistema global de
alimentao, no centro de uma cadeia produtiva que abrangia a caa e a
captura de animais, a colheita e a pesca. As plantas teis eram consideradas
ddivas: sua abundncia era vista como prmio, e sua escassez, como
castigo. Assim, na frica Antiga  onde a expanso da agricultura se deu
aproximadamente entre 3000 e 2500 a.C. , tal como nas sociedades
tradicionais posteriores do continente, a ligao da personalidade dos reis
sagrados com a agricultura resultava de sua relao com a natureza em geral.
Isso se explicitava no costume de o soberano ter de percorrer todos os anos
seus territrios. Durante a viagem, ele recolhia tributos, alimentava seu squito
e, pela presena fsica, reforava seu poder entre os sditos. Os faras do
Egito, os soberanos de Cuxe, os vice-reis da Nbia e, mais tarde, os reis de
Meroe e Axum procediam desse modo. O significado sacral dessas
inspees, conforme A. A. Gromiko, consistia no fato de se acreditar que o rei
sacro, ao visitar seus domnios, fortalecia seu poder nos santurios e a
fertilidade dos campos. Ainda no Egito, durante boa parte dos tempos
faranicos, as terras, todas pertencentes ao rei, eram cultivadas em grupo
pelos habitantes dos campos, sob as ordens do chefe da comunidade e
auxiliados por escravos. A produo integral era, segundo informao da
Enciclopdia Brasileira Globo (ver bibliografia), entregue aos armazns gerais
de cada nomo, de onde 75% reverteriam ao Estado e aos templos, restando
25% para os agricultores, o que teria sido, muitas vezes, motivo de
inquietao e revolta. Ver REALEZA DIVINA.
AHA. Nome pelo qual passou  Histria um dos faras egpcios da I dinastia. 
provavelmente o mesmo Narmer ou Mens.
AHMARAS. Ver AMARAS.
AHMS. Uma das transliteraes do nome Amsis.
A (AY). Fara da XVIII dinastia egpcia, durante o Imprio Novo. Antigo
funcionrio da corte e j idoso, ocupou o trono por pouco tempo, na falta de
um herdeiro de Tutancamon. Para legitimar sua autoridade real, casou-se com
Anquesenamon, viva do antecessor e sua sobrinha. Aps sua morte, tambm
sem deixar herdeiro direto, assumiu o trono o general Horemheb. Uma gravura
reproduzida em Obenga (1988), apresenta-o como um homem de cor preta,
coberto com uma pele de leopardo. Ver PANTERA.
AIGYPTOS. Ver EGIPTOS.
AKH. Entre os antigos egpcios ao lado do ka e do ba  um dos trs princpios
constituintes da identidade humana. Refere-se  essncia da imortalidade, a
qual, quando da morte, levaria o corpo ao espao infinito, para juntar-se s
estrelas. O akh era representado pela bis com crista. O elemento "akh" est
na origem de nomes como Aquenaton e Aquetaton.
AKHET-ATON. Ver AQUETATON.
AKSUM. Antiga transliterao do nome Axum.
AL-BAHR AL-ABYAD. Ver NILO BRANCO.
AL-BAHR AL-AZRAQ. Ver NILO AZUL.
AL-NIL. Ver NILO.
ALAMEDA. O mesmo que Ella Amida.
ALARA. Soberano de Cuxe em Napata, aproximadamente, no perodo 790-760
a.C. Fundador da linhagem que deu origem  XXV dinastia faranica.
ALBERTO, Lago. Antigo nome do lago Rutanzige.
ALEXANDRIA. Cidade do Egito. Fundada por Alexandre Magno em 331 a.C. e
capturada pelos rabes em 642 d.C., foi a capital mundial do pensamento em
sua poca. Sua famosa biblioteca abrigou grande quantidade de textos do
pensamento quemtico, at sua destruio por dois incndios, o ltimo em
391 d.C. Lourdes Bacha chama ateno para o fato de que, no af de
helenizar o pas, os gregos instituram seu idioma como oficial na cidade,
proibiram os naturais da terra de frequentar o museu e a biblioteca (cujos
acervos eram majoritariamente constitudos de textos egpcios vertidos para o
grego) e de exercer atividade comercial, o que fez com que os egpcios
deixassem a cidade.
ALFABETO. Conjunto das letras de um sistema de escrita. Segundo Pedrals, o
primeiro alfabeto africano, constitudo de 12 caracteres hieroglficos, foi
transmitido por Meroe ao Egito e transformado, mais tarde, em um sistema
novo: demtico-merotico. Ver ESCRITA.
ALMSCAR.    Substncia aromtica extrada do almiscareiro (Moschus
moschiferus), mamfero natural da sia e da frica. Muito apreciado por sua
caracterstica de fixador de perfumes, foi na Antiguidade africana objeto de
intenso comrcio, constituindo-se, inclusive, em valioso item de exportao.
ALMORVIDAS. Ver GUIN.
ALOA. Ver ALODIA.
ALODIA (ALOA). Reino cristo da Nbia. Localizado ao sul da sexta catarata, sua
capital era Soba, sobre o Nilo Azul, a 5 km ao sul da atual Cartum. Ver NBIA
CRIST.
ALOUQA.  Divindade de origem rabe relacionada  Lua, cultuada em um templo
na localidade etope de Yeha, em poca pr-axumita, entre 500 e 100 a.C.
Ver AXUM.
ALQUIMIA. A qumica dos antigos. Os egpcios eram conhecidos pela
capacidade de manipular metais, produzindo um p preto, associado a Osris
e tido como a essncia de todas as coisas. Esse processo, em copta
denominado khem (o que est oculto; magia, sabedoria), foi chamado pelos
gregos de khemeia. Com os rabes, acrescentou-se o artigo al, o que fez
nascer a palavra "alquimia".
ALTA NBIA. Ver NBIA.
ALTO NILO. Regio do vale do Nilo nas proximidades do Faium e at Assu, na
altura da primeira catarata.
ALUA. O mesmo que Alodia.
AMALEQUITAS. Tribo de nmades, descendentes do hebreu Amaleque, neto de
Esa e bisneto de Isaac. Fixaram-se na frica, seu territrio estendendo-se
at Havil, no atual Djibuti.
AMANETE IERIQUI (AMAN-NETELERIK). Ver AMANI-NETE-IERIQUE.
AMANI. Elemento presente nos nomes pelos quais passaram  Histria diversos
soberanos e soberanas do antigo reino nbio de Cuxe. Tal elemento relaciona-
se, provavelmente, ao nome do deus Amon ou Amen.
AMANIASTABARCA. Rei de Cuxe, 510-487 a.C. aproximadamente.
AMANIBAQUI. Rei de Cuxe, 340-335 a.C. aproximadamente.
AMANICATAXAN. Rei de Cuxe em Meroe, 62-85 d.C. aproximadamente.
AMANICABALE. Rei de Cuxe em Meroe, 50-40 a.C., aproximadamente. Durante
seu reinado, provavelmente dividiu o poder com uma dinastia reinante em
Napata.
AMANICALICA. Ver AMANIKHLAITA.
AMANICAREQUEREM. Rei de Cuxe em Meroe, 190-200 d.C. aproximadamente).
AMANIKHLAITA (AMANICALICA).    Rei de Cuxe em Meroe, 170-175 d.C.
aproximadamente.
AMANI-NATAQUI-LEBTE. Rei de Cuxe, 538-519 a.C. aproximadamente.
AMANI-NET E-IERIQUE o u IRIQUE-AMANNOTE. Rei de Cuxe, 431-405 a.C.
aproximadamente. Ainda recebendo a coroa no templo de Amon em Napata,
antes de Meroe tornar-se o local privilegiado dessas solenidades, durante seu
reinado restaurou o templo de Taharca, tambm na antiga capital de Cuxe.
AMANIRENAS. Rei de Cuxe, 40-10 a.C. Segundo Brissaud, teria reinado em
Napata, em uma dinastia paralela  de Amanicabale, reinante em Meroe.
AMANISLO. Rei de Cuxe em Meroe, 260-250 a.C. aproximadamente.
AMANITARAQUIDE. Rei de Cuxe em Meroe, 40-50 d.C. Segundo Brissaud,
durante seu reinado provavelmente outra dinastia reinou em Napata.
AMANITARE ou AMANITR. Rainha de Cuxe, reinante em Meroe, juntamente com
o marido, o rei Netecamani, entre 20 a.C. e 12 d.C., que foi, segundo Leclant,
genro e sucessor de Amani-Xaquete. Segundo algumas hipteses, seria ela a
"rainha Candace" mencionada na Bblia, no livro dos Atos dos Apstolos, no
episdio entre Felipe e o eunuco "etope". A cronologia disponvel, porm,
parece no confirmar essa hiptese. Ver CUXE; JEN DARABA.
AMANITECA. Governante de Cuxe em Meroe provavelmente aps Amanislo.
AMANITENMEMIDE. Rei de Cuxe em Meroe, 50-62 d.C.
AMANITR. Ver AMANITARE.
AMANI-XAQUETE. Rainha de Cuxe, reinante em Meroe, 35-20 a.C. Me de
Amanitare, que a sucedeu,  muito provavelmente a "rainha Candace", referida
pelo historiador grego Estrabo, a qual, por volta do ano 20 a.C., teria oposto
longa resistncia s tropas do general romano Petrnio. A resistncia terminou
com uma embaixada enviada pela soberana at o imperador Augusto, que se
encontrava na ilha de Samos, no mar Egeu. Segundo Davidson, seu palcio,
situado s margens do Nilo, era um belo edifcio de dois andares, ricamente
decorado com estuque pintado e incrustaes de ouro e outros metais. Sua
aparncia, consoante escultura encontrada nas runas desse palcio e
reproduzida em Davidson (1978), era efetivamente a de uma mulher negra, de
nariz largo e lbios grossos. Ver CANDACE.
AMARAS (AHMARAS). Grupo tnico da Etipia. Ver AMHARA.
AMRICO. Lngua falada na parte central do planalto abissnio. Foi a lngua da
aristocracia pelo menos desde o sculo XII d.C.
AMARNA. Forma reduzida de Tel-el-Amarna, regio no centro do Egito, 
margem direita do Nilo, a qual abrigou a cidade de Aquetaton.
AMSIS. Ver AMSIS.
AMBUNDOS (MBUNDU). Grupo etnolingustico do centro-norte de Angola, falante
do quimbundo, cuja dispora se estende pelas regies de Lengue, Songo,
Mbondo, Ndongo, Pende, Hungu e Libolo. O antigo reino dos ambundos,
chamado Ndongo, formou-se no vale do Cuanza, na atual Angola, antes do
sculo XV d.C. Ver BAIXO CONGO; BANTOS.
AMEN. Ver AMON.
AMEN ASERO. Nome de um soberano etope da dinastia de Meneliq,
provavelmente relacionado a Amanislo. Ver ETIPIA.
AMEN-HOTEP. Ver AMENHOTEP.
AMENEMAT (AMENEMHAT). Nome comum a provavelmente seis faras egpcios da
XII  XIV dinastias. Amenemat I  Filho de me nbia segundo Ki-Zerbo, era
vizir de Mentuhotep IV antes de assumir o trono. Iniciador da XII dinastia,
construiu em Hawara, no Faium, um templo funerrio to amplo que se dividia
em 3 mil compartimentos, distribudos por dois andares. Essa construo
ainda existia por volta de 600 a.C. Conquistador, seus exrcitos reabriram as
rotas caravaneiras do sul da Nbia, submeteram tribos locais e alcanaram a
regio entre Assu e Bouhen, onde ergueu uma estela comemorativa de sua
vitria. Fez um governo forte, fundou uma nova capital no Mdio Egito, Ititavi,
estrategicamente distante de Tebas e Heraclepolis, levou a efeito importante
reforma administrativa e associou ao trono seu filho Senusret (Sesstris) I, o
que significava apont-lo previamente como seu sucessor, o que de fato
ocorreu. Homem sbio, Amenemat I foi, segundo M. K. Asante, o primeiro
filsofo quemtico a expressar a viso cnica, no sentido filosfico,
antecedendo o grego Digenes (413-327 a.C.) na formulao da moral
asctica que prega o desdm absoluto em relao s convenes sociais.
Amenemat II  Reinou dando continuidade  obra de seu pai e antecessor.
Segundo Bernal, at o sculo XVIII, foi sempre referido pelos historiadores
como um fara negro, assim como seu pai, Senusret I. Amenemat III  Filho e
corregente de Senusret III, deu continuidade ao esplndido reinado de seu pai
e antecessor. Com inteligncia e habilidade, levou a bom termo grandiosos
empreendimentos, como as obras de represamento do lago Moeris, no Faium.
Amenemat IV  Filho de Amenemat III, reinou primeiro ao lado do pai.
Morrendo durante o reinado, foi sucedido por sua irm e esposa Sobeqnefru.
Amenemat V e VI  Segundo alguns autores, teriam reinado durante o
Segundo Perodo Intermedirio, paralelamente a outros governantes, numa
poca de grande diviso do poder.
AMENEMS (AMENMSS). Fara egpcio da XIX dinastia, tido como usurpador do
trono de Seti II.
AMENEMEPT. Vice-rei da Nbia  poca de Seti I.
AMENEMNESU. Segundo fara egpcio da XXI dinastia, tanita.
AMENEMOPE. Fara egpcio em Tnis, durante o Terceiro Perodo
Intermedirio. Foi sucessor de Psusenes I e antecessor de Osorcon I ou
Aaqueperr Setepenr.
AMENEMOPE, filho de Kanakht. Sbio filsofo e alto sacerdote egpcio do
templo de Amon-Ra em Tebas durante a XIX dinastia. Promoveu a filosofia
das boas maneiras, da etiqueta e do sucesso na vida. Acreditava que, sem um
provrbio para guiar e instruir, desprovido de experincia e saber, o ser
humano no poderia propriamente aprender, e que uma boa sociedade se
baseava na valorizao apropriada dos ancestrais, j que foram eles que
estabeleceram o saber proverbial. Sua filosofia  apresentada por meio de
uma coletnea de provrbios, mximas e aforismos denominada Seboyet, que
encerram o conhecimento e o saber do seu tempo e que foram de grande
influncia na sabedoria proverbial antiga. Segundo Asante, como Confcio na
China, Amenemope legou aos egpcios um saber exemplificado por seu
prprio comportamento.
AMENHOTEP (AMEN-HOTEP), filho de Hapu. Sbio egpcio. Foi, depois de
Imhotep, com o qual seu nome  s vezes confundido, o mais respeitado e
reverenciado dos antigos filsofos quemticos. Por causa de sua diligncia e
seu zelo em ensinar o maat, tornou-se o segundo mestre, depois de Imhotep,
a ser deificado. Foi o arquiteto de muitos reis e o mais reconhecido de todos
os filsofos de seu tempo. Funcionrio do Estado, serviu durante a XVIII
dinastia,  poca de Amenhotep III. Ainda em vida, recebeu uma grande
homenagem: o fara mandou construir uma esttua em sua honra no templo
de Amon, em Carnac.
AMENHOTEP (AMENFIS). Nome de quatro faras egpcios da XVIII dinastia,
Imprio Novo. Amenhotep I  Sucedeu Amsis ou Ahms I, seu pai.
Assumindo o trono por volta de 1525 a.C., aos 10 anos, teve como regente a
me, a rainha Ahms-Nefertari. Aps a morte da regente, governou com
brilho, elevando o Egito  condio de grande potncia. Esse fara aparece
representado como um homem negro de cabelos crespos em uma prancha
reproduzida em Obenga, (1973). Em outra prancha, na mesma obra, o mesmo
ocorre com sua me. Amenhotep II  Filho e corregente de Tutms III, reinou
ao lado do pai. Em guerra contra povos asiticos, aprisionou 36.390
habitantes de Hurru, 15.120 de Shosu e 3.600 de Aperu, entre os quais muitos
reis e prncipes (cf. Cazelles). Amenhotep III  Filho de Tutms IV, seu
governo foi marcado pela paz. Inclusive, consolidou a aliana com Mitani, por
meio de seu casamento, em momentos diversos, com duas princesas desse
reino. Amenhotep IV  Ver AQUENATON.
AMENIRDIS. Ver DIVINAS ADORADORAS.
AMENFIS. Uma das transliteraes do nome AMENHOTEP.
AMHARA. Antiga provncia do norte da Etipia, localizada na bacia do rio Atbara
e s margens do lago Tana. A origem dos amharas ou amaras ainda  objeto
de especulao. Estudos arqueolgicos sugerem que por volta do ano 500
a.C. um povo de lngua afro-asitica, de que os amharas seriam
descendentes, migrou do atual Imen para a regio do norte da Etipia, que
mais tarde se chamou Axum. Denominados hymarites, eles miscigenaram-se
com populaes locais de lngua cuxita, como os agaw, e gradativamente
expandiram-se na direo sul, para o territrio dos atuais amharas. Seus
descendentes falavam gues; e, segundo o Kebra Nagast, os amharas
originaram-se com Menelik I, sendo portanto considerados descendentes do
rei Salomo. Por volta de 1500 a.C., a civilizao amrica, misto, ento, de
antigas culturas sabeias com elementos da ancestral civilizao cuxita, erigiu o
Imprio de Axum. As runas da antiga cidade de Axum so ainda hoje visveis
na atual provncia de Tigr.
AMLCAR BARCA. General cartagins (c. 290-229 a.C.), pai de Anbal. Combateu
os romanos na Siclia e dominou a Espanha entre 237 e 229 a.C. Seu
cognome "Barca", traduzido como "raio", parece relacionar-se com o suale
baraka, originrio do rabe barka, e ligado  ideia de energia, fora vital.
AMIRTEUS (AMIRTEE). Prncipe sata, contratou mercenrios gregos para
defender-se contra os persas. Morto Dario II, proclamou-se fara do Egito,
sendo o fundador e nico soberano da efmera XVIII dinastia.
AMON (AMEN, AMUN, MON). Uma das manifestaes do deus-sol dos egpcios,
cultuado principalmente em Tebas. Segundo alguns autores, o deus
manifestava-se de trs formas, correspondentes s posies do sol: Amon ou
Amen, na aurora; Set no crepsculo e Re ou Ra no ocaso. Seus animais
votivos eram o carneiro e o ganso; s vezes, era simbolizado por um falo.
Segundo Bernal, em torno do mar Egeu, os cultos dos deuses-carneiros eram
baseados tanto no culto de Amon quanto no do carneiro Mendes, no Baixo
Egito; e Amon, como Osris, era tambm representado como um negro.
AMNIOS. Povo africano descrito por Herdoto. Provavelmente, o nome se
refere aos adoradores de Amon, ao tempo de Cambises.
AMON-RA. Amlgama de Amon, divindade tutelar de Tebas, e Ra numa mesma
divindade, feita no Segundo Imprio egpcio. Amon-Ra tornou-se, ento, o
protetor do pas, smbolo da justia, da verdade, da retido e da ordem moral.
Ver MAAT.
AMSIS [1]. Nome comum a dois faras egpcios. Amsis (Ahms) I 
Fundador da XVIII dinastia, expulsou os hicsos, reunificou novamente o Egito
dividido e deu incio ao Novo Imprio, reorganizando o pas, que rapidamente
recuperou a prosperidade. Casando-se com sua irm Nefertari, assim
denominada Ahms-Nefertari ("a Nefertari de Amsis") com ela teve um filho,
Amenhotep I, seu sucessor. Amsis (Ahms) II  Penltimo soberano da
XXVI dinastia, ao fim do Terceiro Perodo Intermedirio. Por volta de 570
a.C., ainda general do exrcito egpcio em guerra contra os babilnios, aliou-
se a estes e deps o fara Apris ou Hofra, assumindo o poder. Segundo
Cazelles, respeitou a dominao babilnica no continente, limitando as aes
de conquista no Mediterrneo, chegando at mesmo a Chipre. Sob sua
liderana, o Egito converteu-se em grande potncia martima, at ser
conquistado pelos persas em 525 a.C.
AMSIS [2]. Escultor egpcio da corte de Aquenaton. A ele  atribuda a criao
da clebre cabea da rainha Nefertite, hoje no Museu de Berlim.
AMRACIANO (AMRATENSE). Relativo ao stio arqueolgico de El-Amra.
AMRATENSE. Ver AMRACIANO.
AMTALQUA ou ARAMATELCO. Rei de Cuxe em Meroe, c. 568-555 a.C., sucessor
de Aspelta.  tambm referido como Altalca.
AMUN. Ver AMON.
ANALMAIE. Rei de Cuxe em Meroe, c. 542-538 a.C.
ANCATIFY. Nomarca de Hieracmpolis, contemporneo e adversrio de Antef I.
Pensador, legou  posteridade importante texto quemtico.
ANCOLE. Reino florescido na regio dos Grandes Lagos entre os sculos XIII e
XV d.C. Um dos tradicionais reinos da antiga Uganda, localizava-se no norte
do atual territrio do pas, a oeste do lago Edward.
ANDRMEDA. Personagem da mitologia grega, filha de Cefeu, rei da Etipia.
Segundo o mito, Cassiopeia, sua me, ao proclamar a superioridade de sua
beleza sobre a das nereidas (as "alvas filhas de Nereu", do verso camoniano
em Os Lusadas), provocou a ira de Poseidon. Ver MITOS E LENDAS.
ANGOLA. Pas contemporneo, localizado no sudoeste africano, banhado pelo
Atlntico. Segundo o conhecimento geral, pequenos grupos autctones de
caadores coletores khoi-khoi ou khoi-san (bosqumanos) foram os primeiros
a habitar o territrio da atual Angola, mas sempre em carter nmade,
deslocando-se em busca da sobrevivncia. Segundo David W. Phillipson,
citado por Obenga (1985), as primeiras populaes sedentrias locais se
fixaram, por volta de 100 a.C., com as migraes de povos falantes de lnguas
do grupo banto, provenientes da regio do Baixo Congo, as quais foram
deslocando alguns grupos autctones, desses khoi-san, para o sul e
assimilando outros. A origem bsica da Angola atual  o antigo reino ambundo
do Ndongo, entre os rios Cuanza e Dande, governado por soberanos que
ostentavam o ttulo ngola. Ver AMBUNDOS; IMBANGALAS; LUNDA; MATAMAN; MATAMBA;
OVIMBUNDO.
ANBAL. General e estadista cartagins (247-183 a.C.), mencionado por Don
Luke (ver bibliografia) como um general negro-africano. Ver AMLCAR BARCA;
CARTAGO; PNICAS, Guerras.
ANLAMANI. Rei de Cuxe em Napata, c. 623-593 a.C., sucessor de
Sencamanisquen e antecessor de Aspelta.
ANQUESENAMON. Ver ANQUESENPAAMON.
ANQUESENPAAMON        (ANQUESENAMON).      Nome    adotado   pela     princesa
Anquesepaaton depois que seu marido e meio-irmo Tutancamon reviveu o
culto de Amon. Era uma das filhas de Aquenaton. Com a morte de
Tutancamon, sem herdeiros, teria tentado aliana, por meio de casamento,
com o rei dos hititas. Com a hesitao deste e sua no chegada ao pas
dentro do prazo protocolar, os sacerdotes de Amon teriam indicado A ou Eje,
ex-conselheiro de Aquenaton, como consorte. Segundo Brissaud, aps a
morte de Tutancamon, ela teria confiado o poder a A, de 60 anos, seu tio, o
qual, para legitimar sua autoridade real, casou-se com ela.
ANQUESENPAATON. Ver ANQUESEPAAMON.
ANTEF (INTEF). Nome de sete governantes do Egito faranico. Os trs primeiros
governaram durante o perodo tebano da XI dinastia. Antef I  Nomarca de
Tebas durante a X dinastia, aliou-se  cidade de Coptos contra Nequen
(Hieracmpolis), proclamando-se "rei do Alto e do Baixo Egito" e "filho de Ra".
Ao derrotar Anqtify, consolidou seu poder, governando, como fara, de
Coptos a Dendera. Antef II  Fara do Alto Egito, sucessor de Antef I,
provavelmente seu irmo, continuou na luta contra Nequen, governada por
Quety III. Antef III  Sucedeu o precedente em um curto perodo e , em
alguns registros, citado no como um fara, mas como um nobre de alta
hierarquia. Antef IV  Referido em algumas fontes como fundador da XIII
dinastia. Antef V a Antef VII  Reinaram em Tebas como integrantes da XVII
dinastia, sendo que o ltimo deles, contemporneo do rei hicso Appi ou
Apfis I, teria reinado em Querma, sucedendo a Nedjeh e aliando-se aos
hicsos contra Tebas.
ANTIGO IMPRIO. Ver IMPRIO, ANTIGO.
ANTIGUIDADE. Comumente estudado como o perodo transcorrido do fim da pr-
histria  queda do Imprio Romano, segundo Pedro Paulo Funari, atualmente
o conceito de "Antiguidade"  bastante amplo. Como existiram civilizaes
elaboradas em outras partes do mundo fora do Oriente Mdio e do
Mediterrneo (o mundo greco-romano); e como em outras regies, como na
frica, surgiram sociedades tambm elaboradas, apesar de grafas, todas
essas culturas passaram a ser consideradas parte de uma Antiguidade
expandida, no mais limitada no tempo nem no espao. Segundo Funari, todos
os povos antigos (sociedades de arkh) possuem caractersticas comuns ou,
ao menos, comparveis.
ANU. Populao neoltica do vale do Nilo, tida como autctone, segundo
Obenga. Denominao de um dos povos negros do Egito pr-dinstico,
segundo Cheikh Anta Diop. Segundo Larkin Nascimento, o vocbulo "anu"
originou-se no Egito, onde designava o negro e a cor preta, tendo se
espalhado atravs do mundo antigo com essa mesma conotao. A mesma
autora, a partir de Ivan Van Sertima e Runoko Rashidi, identifica um povo
negro chamado "ainu" presente na Antiguidade chinesa e tambm no Japo.
ANBIS. Divindade egpcia, patrono dos embalsamadores, curadores e
cirurgies, "senhor da necrpole", deus dos mortos, condutor das almas,
representado como um homem preto com cabea de chacal. Segundo Moacir
Elias Santos em Divindades egpcias (ver bibliografia), a cor preta com que
esse deus  representado se deveria sua relao com a escurido do mundo
dos mortos,  cor da pele das mmias e  da terra frtil do Nilo. Seria, ento,
um smbolo da regenerao, da vida aps a morte, que ele representava.
Entretanto, na mesma obra, a cor tambm preta com que o deus Seth 
representado no  explicada. Enquanto isso, Ali O. M. Sali, no verbete
"Nbia" da enciclopdia Africana, organizada por Gates e Apiah (ver
bibliografia), defende a ideia de que o elemento nub, presente no vocbulo,
conota com a ideia de pretido e negritude. Anbis carregava o epteto de
"senhor do pas da aurora". Seu culto, originrio do XVII nomo do Alto Egito,
difundia-se por todo o pas, sendo provavelmente mais antigo que o de Osris.
Um de seus eptetos era "o senhor da Nbia", o que talvez explique sua
representao antropomrfica. Ver ANU; NBIA.
ANUQUET. Ver SATIS.
APEDEMAQ. Divindade de Meroe, representada como um homem com cabea
de leo. Os deuses cuxitas, durante algum tempo confundidos com outros do
panteo egpcio, teriam, segundo algumas verses, adquirido feio autnoma
a partir do reinado de Aspelta.
APPI. Nome de dois reis hicsos, reinantes no Egito, no ramo que alguns
consideram impropriamente chamado de XVI dinastia, eis que contemporneo
da XV. O primeiro estabeleceu seu palcio em Avaris, delegando poderes a
um soberano vassalo, que governava o Egito, exceto a parte leste do delta do
Nilo. O segundo reinou aps Antef VII e lutou abertamente contra Tebas,
governada por Tao I. O nome Appi parece referir-se tambm ao soberano ou
soberanos conhecidos como Appi ou Apfis.
PIS. Em Mnfis, denominao do touro sagrado, tido como encarnao do
deus Ptah e, por isso, objeto de culto. Distinguia-se por sinais especiais,
relacionados  divindade, que apresentava no corpo. Enquanto vivo, recebia
oferendas e sacrifcios e, depois de morto, tinha seu corpo mumificado, sendo
substitudo por outro com caractersticas idnticas. No sculo VI a.C., o persa
Cambises II, invadindo o Egito, matou um desses animais, sobrevindo-lhe
ento uma srie de insucessos que o teriam levado  loucura, ao assassinato
da prpria irm e ao suicdio.
APFIS. Ver APPI.
APPI. Ver APPI.
APRIS. Fara egpcio, integrante da XXVI dinastia, sata. O mesmo que Hofra.
AQUARATAN. Rei de Cuxe, c. 350-335 a.C.
AQUENATON. Nome adotado por Amenhotep IV, dcimo fara da XVIII dinastia
egpcia, depois que imps o culto a Aton, divindade solar, sobre o culto a
Amon. Entronizado no Novo Imprio, em meados do sculo XIV a.C., logo no
incio do seu reinado casou-se com a princesa Nefertite, provavelmente sua
irm. Impondo o novo culto, mudou sua capital para a regio da atual Tel-el-
Amarna, dando-lhe o nome de Aquetaton. A, destacou-se como reformador
religioso, ao instituir o culto a um deus nico  Aton , e devido  sua apurada
sensibilidade artstica. Sua atuao religiosa  extremamente valorizada pela
implantao, embora efmera, do monotesmo entre os egpcios. Quanto 
aparncia fsica, ao contrrio do que afirmaram diversos egiptologistas com
base nas representaes de sua figura, cientistas como Asante concluram
que o fara no tinha qualquer trao destoante da aparncia dos africanos de
seu tempo.
AQUETATON. Cidade construda por Aquenaton para substituir Tebas como
capital do Egito. Situava-se na atual Tel-el-Amarna, e seu nome significava
"horizonte de Aton".
AQUINIDAD. Soberano de Cuxe. Reinou, provavelmente em Napata, por volta de
18-3 a.C., numa dinastia paralela  de Amanicabale, aps o rei Teritecas e a
rainha Amanirenas, dos quais seria filho.
AQUITISANES. Governante de Cuxe aps Nastasen, provavelmente em uma
dinastia paralela, reinante em Napata.
ARBIA PR-ISLMICA. Regio compreendida entre o mar Vermelho e o golfo
Prsico, a Arbia apresenta trs aspectos distintos: ao norte, uma vasta
poro desrtica; ao sul, uma parte rica em vegetao, distinguida pelos
romanos como Arabia Felix (Arbia feliz); e uma faixa costeira, no mar
Vermelho, atravs da qual se estendia uma longa rota de caravanas ligando a
regio  Etipia, atravs do estreito Bal-el-Mandeb, e ao Egito atravs do
Sinai. Dessa forma, a Arbia desenvolveu relaes com a frica desde
pocas remotas, inclusive estando sob domnio egpcio e etope ou cuxita em
algumas ocasies. A partir, provavelmente, do primeiro milnio anterior  Era
Crist, essas relaes se intensificaram, tanto no Mediterrneo quanto nos
litorais do mar Vermelho e do oceano ndico.  poca do nascimento do
profeta Maom (570 d.C.), os rabes compartilhavam uma lngua, mas viviam
dispersos  cada tribo reverenciava divindades prprias, reunidas no grande
centro religioso de Meca. A essncia dessas divindades era bastante
diversificada, sendo algumas de natureza astral, como Allat, representao do
sol; alm delas, os antigos rabes, como os africanos, cultuavam espritos de
antepassados, aos quais ofereciam sacrifcios propiciatrios orientados por
orculos. Por esse tempo a Arbia, segundo Anta Diop, era "uma colnia
negro-africana", tendo Meca como capital. Em reforo, Diop cita versculo do
Alcoro referente aos 40 mil homens enviados pelo rei da Etipia para conter
a revolta dos rabes, sendo um corpo desse exrcito constitudo por
guerreiros montados em elefantes. A Enciclopdia do Mundo Contemporneo
informa que "nos sculos V e VI d.C. as sucessivas invases dos etopes
cristos", alm de outros fatores, provocaram o fracionamento dos Estados
da Arbia meridional. A unificao dos rabes em torno de uma religio nica
s aconteceu em 632, quando da morte de Maom. Ver ETIPIA; IMEN.
ARAMAS. Antigo povo da frica Ocidental, localizado nos atuais territrios de
Senegal, Gmbia e Mali. Sua origem, segundo Raffenel, seria o imprio de
Fassu e um pas por eles chamado Sut (em francs, Souttn). Esse pas
situar-se-ia ao norte de Missouri (nome pelo qual os habitantes do Saara
chamavam o Egito, segundo o autor citado), no Mediterrneo. Foram
dominados e provavelmente assimilados pelos peles. Baumann cita um povo
"Arma", contemporneo, tido como descendente de "africanos brancos".
ARAMATELCO. Ver AMTALQUA.
ARCA DA ALIANA. Receptculo no qual, consoante os relatos bblicos, o
patriarca Moiss guardou as tbuas da Lei, recebidas de Jav no Monte Sinai,
e que, por isso, constitua o smbolo mais sagrado dos antigos hebreus.
Desaparecida depois de sua transferncia para o templo de Salomo,
segundo a tradio etope estaria at hoje na Etipia, para onde teria sido
levada por Meneliq I, filho do rei hebreu com a rainha de Sab.
ARCACAMANI.  Ver ARCAMANICO.
ARCAICA, poca. Perodo da Histria egpcia, tambm conhecido como Perodo
Dinstico Primitivo, abrange as trs primeiras dinastias.  tambm
mencionado como poca Tinita, em referncia  capital Tinis.
ARCAMANI (ARQUAMANI). Rei de Cuxe em Meroe, c. 218-200 a.C., sucessor de
Arnecamani, e tambm referido como Ercamen, Ergamene ou Ergamenes.
Reinante em Meroe, rebelou-se contra o poder da casta sacerdotal, dominada
pelo clero de Amon, consagrou o templo de Daqu ao deus egpcio Thot e
instituiu um novo culto. Segundo Hintze, citando Brissaud, o nome "Arcamani"
no deveria ser confundido com "Ergamene", tal como o mencionou o
historiador grego Diodoro da Siclia. Entretanto, os perodos de governo de
um e outro, bem como as linhas sucessrias citadas, so exatamente os
mesmos. Ver CUXE  Um Estado Teocrtico.
ARCAMANICO (ARCACAMANI). Rei de Cuxe em Meroe, c. 270-260 a.C.
ARETNIDE (TERITNIDE). Rei de Cuxe em Meroe, c. 85-90 d.C.
ARIAMANI. Governante de Cuxe aps Nastasen, provavelmente em uma dinastia
paralela, reinante em Napata.
ARIESBEQUE. Rei de Cuxe em Meroe, c. 215-225 d.C.
ARICACATANI. Rei de Cuxe em Meroe, c. 1-20 d.C.
RIO. Sacerdote de Alexandria, nascido na Lbia em 235 e falecido em
Constantinopla em 336 d.C. Foi o formulador do arianismo, doutrina hertica
condenada pela Igreja Catlica, que, entre outras coisas, negava a divindade
de Jesus Cristo.
ARITENIESBEQUE. Rei de Cuxe em Meroe, c. 175-190 d.C.
ARITMTICA e LGEBRA. Demonstrando os profundos conhecimentos egpcios no
campo da matemtica, especialmente nas reas de aritmtica e lgebra,
Thophile Obenga informa que, j  poca da primeira dinastia faranica, a
numerao utilizada era a decimal, chegando at a casa do milho, sendo que
a adio e a subtrao eram perfeitamente conhecidas. A multiplicao
expressava a adio de um nmero a ele mesmo, desdobrando-se, por
consequncia, em uma srie de duplicaes. A operao de diviso era o
inverso da multiplicao, pela duplicao do divisor, crescendo at o
dividendo. Quanto ao clculo de fraes, era o ramo mais desenvolvido da
aritmtica egpcia. Do ponto de vista algbrico, os antigos egpcios, segundo
Obenga, sabiam resolver problemas que conduziam a equaes com duas
incgnitas. As progresses aritmticas e geomtricas tambm eram
conhecidas. Com relao a propores e medidas proporcionais, a grande
pirmide de Giz nos ensina muito sobre os conhecimentos egpcios nesse
particular. Na maior parte das comunidades tradicionais negro-africanas,
segundo Obenga, encontram-se disseminados conhecimentos tais como
numerao decimal, duplicao etc., como comprovou, por exemplo, a
importante descoberta, no Congo, na dcada de 1950, de um instrumento de
contagem datado de mais de 20 mil anos. Ver ARQUITETURA; CONHECIMENTO
CIENTFICO; ISHANGO; PIRMIDES; PITGORAS.
ARNECAMANI. Rei de Cuxe em Meroe, c. 235-218 d.C.
ARK. Sistema grfico ou hieroglfico,  base de cordes e bzios, usado
pelos antigos iorubs (cf. Obenga, 1973).
ARQUAMANI. Ver ARCAMANI.
ARQUITETURA. As civilizaes mediterrneas devem aos habitantes do Egito,
segundo Thophile Obenga, a arte de construir edifcios. Champollion, citado
em Obenga, reconheceu nos prticos em Beni-Hassan e nas galerias de
Carnac, executados pelos egpcios bem antes da Guerra de Troia, "a origem
evidente da arquitetura drica dos gregos". Em 1836, ele escreveu que
"examinando sem preveno os baixos-relevos histricos da Nbia e de Tebas
nos convenceremos que a arte dos gregos tem esculturas egpcias como seus
primeiros modelos; que ela de incio os imitou servilmente e penetrou na sbia
simplicidade de seu estilo"; e que assim enriquecida, ela procurou seus
prprios caminhos. Cheikh Anta Diop repetiu, em vrias oportunidades, que a
arquitetura no singular estilo de Djene, cidade do atual Mali, tem por
prottipo as obras do vale do Nilo. Segundo ele, a arquitetura tradicional
africana salvaguardou elementos profundamente egpcios da arte de construir
e decorar edifcios, como os pilares e portais monumentais dos templos;
pirmides; inscries; construes em forma de obuses, como no Chade;
alm de desenhos murais, como nos bronzes do Benin e entre os axantis.
Segundo A. Costa e Silva (2008), no fim do sculo XV, em Axum, os
portugueses encontraram sete obeliscos de mais de 20 metros de altura,
construdos, como monumentos funerrios, em poca anterior  converso
dos axumitas ao cristianismo.
ASMARA.  Antiga cidade etope no territrio da atual Eritreia.
ASPELTA. Rei de Cuxe, c. 593-568 a.C. Sucessor de seu irmo Anlamani,
herdou um reino que se estendia provavelmente de Assu at as proximidades
da atual Cartum, mas reduzido  metade em relao  poca de Piye. Esse
soberano, provavelmente sobrinho-neto ou bisneto de Taharca, teria sido o
ltimo dos reis cuxitas a tentar a reconquista do Egito. Seus planos,
entretanto, foram abortados pela invaso das tropas de Psamtico II, que, em
593 a.C., derrotaram o exrcito de Cuxe, saqueando e incendiando Napata.
Aspelta refugiou-se em Meroe, fazendo dessa cidade a sua capital. Ver CUXE.
SPIDE. Nome comum a vrias espcies de serpentes, entre as quais a naja,
rptil sagrado, representada em inmeros monumentos egpcios e tambm
nas coroas dos soberanos do Egito e de Cuxe.
ASSA. Nome pelo qual  referido, em D. P. Pedrals, o fara egpcio em cujo
reinado realizou-se a clebre expedio de Harcufe ao pas de Punt.
ASSRIOS. Povo guerreiro e conquistador da Antiguidade mesopotmica. Por
volta de 700 a.C., dando curso  sua expanso imperialista, chega s
fronteiras de um Egito j debilitado.  temporariamente detido pelos nbios de
Piye mas, com Senaquerib e Assurbanipal, no sculo VII a.C., logra a primeira
conquista do pas.
ASSU. Ver SIENA.
ASSURBANIPAL. Rei da Assria, conquistou o Baixo Egito em 664 a.C., obrigando
Taharca a retirar-se para Napata, e mais tarde bateu Tanutamon. Foi
derrotado e expulso por Psamtico I, aproximadamente em 652 a.C.
ASTRONOMIA AFRICANA.       Conhecimentos astronmicos, adquiridos pela
observao simples, so comuns a algumas sociedades africanas antigas,
como o povo Dogon do atual Mali, supondo-se, entretanto, que muito desse
saber tenha sido herdado do vale do Nilo, onde o estudo dos astros atingiu
grande desenvolvimento. O calendrio de 365 dias, por exemplo, como o hoje
utilizado no mundo ocidental, teria origem em uma criao egpcia, assim
como a diviso do dia em duas fases de 12 horas. Segundo Estrabo, os
gregos ignoravam a verdadeira durao do ano e outros fatos da mesma
natureza at aparecerem as tradues, em lngua grega, de estudos dos
sacerdo-tes egpcios, bem como estudos e observaes dos caldeus. Ver
CALENDRIO.
ATANSIO, Santo.  Ver SANTO ATANSIO.
ATBARA. Rio da Etipia e do atual Sudo, afluente do Nilo.
TEN. Ver TON.
ATENA. Deusa grega do pensamento, das artes, da cincia e da indstria.
Segundo squilo, citado por Obenga (1973), seu culto era originrio da Lbia.
ATFIH. Nome egpcio da cidade denominada Afroditpolis pelos gregos.
ATLANERSA. Rei de Cuxe em Napata, c. 653-643 a.C. Sobrinho de Tanutamon e
filho de Taharca, foi o primeiro soberano cuxita aps a sada do Egito.
Construiu o templo de Amon no djebel Barcal.
ATLANTES. Antigo e lendrio povo africano, citado na Histria Natural, do
escritor romano Plnio (23-79 d.C.). Ver ATLAS, Montanhas.
ATLAS, Montanhas. Conjunto de elevaes nos atuais territrios de Marrocos e
Arglia. Seu ponto culminante  o djebel Tubcal. Ao sul, eleva-se o Atlas
saariano e zonas de pastagens utilizadas pelos povos nmades do deserto,
provvel habitat dos povos que os gregos chamavam "atlantes". Ver DJEBEL
BARCAL.
TON (TEN). Deus supremo egpcio cujo culto foi criado por Amenfis IV, a
partir da chamado Aquenaton. Era tambm associado ao disco solar, mas
seu culto exclua os outros deuses. Com a morte de Aquenaton, essa tentativa
de criao de um monotesmo egpcio frustrou-se. Ver ATUM.
ATUM. Variao de ton. A ideia subjacente ao nome, segundo Hart,  a de
totalidade, o que nos remete, por hiptese, ao iorub Orum, o cu, o infinito,
ideia presente no culto aos orixs, modernamente expandidos a partir de Cuba
e do Brasil.
AUGILOS. Antigo e lendrio povo africano, citado na Histria Natural, do escritor
romano Plnio.
AVARIS. Primeira capital do delta egpcio; mais tarde, a capital foi Tanis (cf.
Silva, 1996). Por volta de 1780 a.C., os hicsos apoderam-se da regio do
delta e a estabelecem sua capital.
AWAWA. Rei cuxita de Querma, c. 1850 a.C.,  poca de Senusret III.
AXANTIS. Povo da regio central da atual Repblica de Gana. Ver AC.
AXUM. Cidade localizada no extremo norte da Etipia, na regio de Tigr. No
incio da Era Crist, tornou-se a capital de um poderoso Estado, o imprio
axumita, fundado por nobres oriundos da Arbia meridional. Em seu apogeu,
foi o centro do comrcio entre o vale do Nilo e os portos do mar Vermelho, e,
a partir do sculo IV, provocou a runa da outrora poderosa Meroe.
Entretanto, com a expanso rabe, as rotas de comrcio foram modificadas,
e o progresso, interrompido, o que, aliado  converso de sua classe dirigente
ao cristianismo, isolando Axum dos pases vizinhos, colaborou para o seu
declnio. Ver ETIPIA.
AXUMITA. Relativo a Axum; natural dessa cidade-Estado.
AY. Ver A.
AZENATE. Mulher egpcia de Jos, patriarca hebreu, provavelmente no sculo
XVI a.C.
BA.Entre   os egpcios, ao lado do k a e do akh, um dos trs princpios
constituintes da identidade humana. O ba estava sempre presente na
pesagem cerimonial do corao do indivduo aps seu falecimento. Era
representado simbolicamente por um pssaro com cabea humana voando
entre a vida e a morte.
BAB-EL-MANDEB. Estreito no mar Vermelho, entre o atual Djibuti e o Imen. Com
apenas cerca de 30 km, sempre foi a principal via de ligao entre a frica
Oriental e o sul da Arbia. Segundo Willock, os somalis relatam que seus
ancestrais viajaram da Arbia para a frica por terra, atravs do Bab-el-
Mandeb; e o Antigo Testamento, retomando essa histria, conta como os
egpcios, ao perseguir os israelitas, foram surpreendidos e engolfados pelo
mar Vermelho, possivelmente, segundo Willock, por um brao local desse
mar, ento em formao.
BACARE. Um dos ttulos do fara cuxita Tanutamon.
BACHVEZI. Dinastia real do Bunioro-Quitara na atual Uganda, entre os sculos
XIV e XV d.C. Possuidores de grandes manadas de uma raa especial de
bovinos, com longos chifres curvos, teriam vindo do norte, do vale do Nilo, e
imposto seu poder sobre populaes locais, sendo, entretanto, batidos por
migrantes do povo Luo, originrios da mesma regio. Ver BUNIORO.
BACIA DO CONGO. Ver CONGO, Rio.
BACONGOS. Povo da bacia do rio Congo. O mesmo que muxicongos. Ver NIMI-A-
LUQUENI.
BADARIANO. Relativo ao stio arqueolgico de El-Badari.
BAFUR (BAFOUR). Antigo povo africano mencionado em tradies berberes.
Segundo Delafosse, seus membros seriam os ancestrais dos atuais sereres,
sonrais, malinqus, bambaras, dilas. Os saracols e marcas seriam fruto de
miscigenao deles com povos protopeules; e os tuculeres, por sua vez,
seriam fruto de casamentos desses protopeules com seus descendentes
saracols (cf. Pedrals).
BAIXA ETIPIA. Antiga denominao para Angola.
BAIXA NBIA. Regio compreendida aproximadamente entre a cidade de Semna
ou Siena e a segunda catarata do rio Nilo.
BAIXO CONGO. Denominao da regio do curso inferior do rio Congo ou Zaire,
que se estende do Atlntico, prximo  fronteira da Repblica do Congo com o
enclave angolano de Cabinda, at a vizinhana das cidades de Brazzaville e
Kinshasa. Segundo David W. Phillipson, citado por Obenga (1985), as
primeiras populaes locais fixaram-se com as migraes, entre 1000 e 200
a.C., de povos falantes de lnguas do grupo banto, provenientes do territrio
da atual Repblica de Camares e provavelmente seguindo o curso do rio
Chari  a bacia do rio Congo (no qual desguam os rios Ubangui e Sanga) e
seus arredores, incluindo Zaire, Angola, Congo, Gabo e Zmbia, foi
inicialmente povoada por pigmeus, na regio das selvas fechadas, e por
bosqumanos, na savana. Por fora das seguidas vagas migratrias dos povos
bantos, essas populaes autctones foram deslocadas, os pigmeus para o
interior da selva profunda e os bosqumanos para o sul e o sudoeste do
continente. Ver BANTOS; CONGO, Rio.
BAIXO EGITO. Designao da regio, no antigo territrio egpcio, que
compreendia o delta do Nilo e o Faium.
BLTICO, Mar: Africanos no. Ver ROTAS DE COMRCIO.
BAMBANDIANALO. Stio histrico no norte do Transvaal, frica do Sul. Segundo
D.W. Phillipson, citado por Obenga (1985), a povoao local iniciou-se com a
chegada, aproximadamente entre 300 e 400 d.C., de povos falantes de
idiomas bantos provenientes da regio dos Grandes Lagos, atravs das terras
altas a oeste do lago Niassa. Ver BANTOS; TRANSVAAL.
BANDIAGARA. Regio planltica no sudeste do atual Mali, local do
estabelecimento definitivo do povo Dogon no sculo XIII d.C.
BANIARUANDA. Nome tnico que engloba os tutsis e hutus de Ruanda.
BANTOS. Grande conjunto de povos agrupados por afinidades etnolingusticas,
localizados nos atuais territrios da frica Central, Centro-Ocidental, Austral e
parte da frica Oriental. Seus antepassados, falantes de uma lngua ancestral
que se convencionou chamar de "protobanto", empreenderam durante sculos
uma das mais impressionantes migraes humanas de que se tem notcia.
Protobantos e Migraes  Por meio da paleontologia lingustica, Thophile
Obenga reconstituiu o passado dos primeiros falantes de lnguas do grupo
banto. Eles viveram num meio natural aparentemente constitudo por uma
floresta aberta, prxima a grandes cursos de gua, habitada por elefantes,
leopardos, crocodilos, hipoptamos e antlopes, onde cultivavam milho, feijo,
sorgo e bananas, entre baobs e dendezeiros. Desse primitivo ambiente,
localizado na regio dos montes Adamaua, na atual Repblica de Camares,
por volta do ano 1000 a.C., um grupo migrou em direo ao leste,
deslocando-se ao longo da floresta equatorial. Em contato com povos do
Sudo central (j na poca do domnio cuxita no Egito), passaram a pastorear
cabras, carneiros e gado bovino. No mesmo perodo, outro grupo emigrou
para o sul, chegando ao curso inferior do rio Congo, levando consigo utenslios
de cermica e tcnicas agrcolas criadas por seus ancestrais. Entre os anos
400 e 300 a.C., no planalto dos Grandes Lagos, nos atuais territrios de
Qunia, Uganda, Ruanda, Burundi e Tanznia, povos oriundos do Adamaua
desenvolveram uma cultura toda peculiar, expressa principalmente pela
cermica l encontrada em escavaes arqueolgicas. Tempos depois, c. 200
a.C., parte desse povo se expandiu pelos flancos da floresta equatorial at as
savanas centrais e da na direo oeste, at o curso inferior do rio Congo.
Esses migrantes, j dominando tcnicas de metalurgia, levaram seus
conhecimentos s populaes locais. Por volta de 100 a.C., o mesmo ocorreu
na atual Nambia, atravs do que  hoje Angola; e, mais tarde, a partir da
regio interlacustre, at a costa meridional do Qunia e para o norte da
Tanznia. Finalmente, entre os anos 300 e 400 d.C., outra importante vaga
civilizadora, partindo da regio interlacustre, chegou at o sul de Moambique
e a regio da atual Pretria, na frica do Sul. Mas no cessaram a as
grandes migraes dos povos bantos, que perduraram pelo menos at o
sculo X da Era Crist. Durante esses deslocamentos, esses povos, como os
migrantes hebreus, por exemplo, criaram suas tcnicas agrcolas e
metalrgicas, suas instituies sociais e suas lideranas. Ver BAIXO CONGO;
CAMARES; GRANDES LAGOS; TRANSVAAL.
BAQUENRENEF. Ver BOCORIS.
BARIBAS. Povo moderno do antigo Daom. Seus membros so tidos como
descendentes de populaes que vieram do leste, na Antiguidade, para
habitar, seguidamente, o norte do atual Benin, o sul de Burquina e o norte da
Nigria. Segundo Pedrals, guardam costumes semelhantes aos dos antigos
egpcios. Ver BORGU.
BARTARE. Personagem mencionada em Brissaud como rainha de Cuxe em
Meroe, c. 260-250 a.C. O perodo  o do reinado de Amanislo; ento, seria
provavelmente esposa desse soberano. Ou Amaniteca (Xesep-anqh-n-amani),
governante cuxita mencionada em algumas listagens no pero-do que antecede
ao de Arnecamani.
BASCAREQUEN. Rei de Cuxe em Meroe, c. 405-404 a.C.
BASTIT. Manifestao doce e serena da deusa Hathor-Tfenis, em
contraposio a Seqmet, seu aspecto mais violento e terrvel.
BALE. Povo do grupo Ac, localizado na atual Costa do Marfim. Como
observa Ki-Zerbo, as mscaras com pendentes de ouro, caractersticas de
sua apreciada estaturia, mostram uma barba entranada como a da famosa
mscara de ouro do fara egpcio Tutancamon.
BATEQUE. Ver TECHE.
BATN-EL-HAGAR (Ventre de Pedras). Regio ao longo do vale do Nilo, acima da
segunda Catarata. Constitua-se de um trecho pedregoso, de rochas
granticas que tornavam o Nilo impraticvel  navegao por muitos
quilmetros. Segundo A. Costa e Silva, abrigava populaes aparentadas s
de Cartum e ncleos vizinhos.
BEDUNOS. Pastores nmades de origem rabe, localizados no Oriente Mdio e
no norte da frica, onde, desde a Antiguidade, desempenham importante
papel no controle das caravanas transaarianas. Segundo alguns relatos
histricos, grupos de bedunos provenientes da Pennsula Arbica teriam
invadido o Egito j no chamado Primeiro Perodo Intermedirio, aproveitando-
se do caos resultante do colapso do Antigo Imprio.
BEJAS. Povo nmade do leste do atual Sudo e do norte da Etipia. Sem
residncia fixa, seguem seus rebanhos de camelos pelas montanhas e
plancies da regio desrtica do mar Vermelho. Descendentes de populaes
localizadas nesse ambiente h provavelmente 5 mil anos, parte de seu povo 
tambm conhecida como Tigr.
BELQUISS. Ver MAQUEDA.
BELUQUISTO.  Regio do sudoeste da sia, compreendendo partes do Ir e do
Paquisto. Na Antiguidade, era conhecido como Gedrosia, "o pas dos
escuros".
BENI-HASSAN. Aldeia do Baixo Egito, na margem direita do Nilo. Conserva restos
de monumentos funerrios datados da XI e XII dinastias.
BENI-ISRAEL. Antigo povo judeu da ndia, responsvel pela introduo, no leste
africano, do zebu, do carneiro lanoso, da criao de gado e da horticultura. A
vinda desse povo coincide com as migraes iemenitas, que ocasionaram
grandes transformaes na regio entre as montanhas da Abissnia e os
Grandes Lagos.
BENIN. Antigo reino da frica Ocidental, situado a oeste do rio Volta,
estendendo-se at a foz do rio Nger, na atual Nigria. Suas primeiras
unidades polticas foram criadas pelo povo Edo, aparentado aos iorubs, no
primeiro milnio da Era Crist. O territrio dos edos, coberto de florestas, viu
nascer, ao longo dos sculos, numerosos pequenos Estados, entre eles o dos
binis, um subgrupo do povo Edo, aparentado aos equitis iorubanos. Assim
como todos os edos, devotam grande respeito ao seu rei, que  o ob de
Benin. O grande reino do Benin era, ento, no incio, apenas um dos
numerosos miniestados edos. Seus primeiros chefes, os que mandaram
construir as primeiras muralhas, tinham o ttulo de oguiss, "rei do cu".
Segundo a tradio, o primeiro deles foi Igod, cujo filho, Er, criou a espada
cerimonial, o tamborete, o leque redondo de couro, os colares e as
tornozeleiras de contas e outros smbolos da realeza local. Trinta e um
oguisss sucederam-se no poder, sendo alguns do sexo feminino. O ltimo
deles, Eued, foi deposto porque teria cometido o sacrilgio de ordenar a
execuo de uma mulher grvida. Seguiu-se um perodo de anarquia e
turbulncia. Ento, os senhores em luta recorreram a Odudua, o grande lder
de If, pedindo-lhe que mandasse um governante. Odudua no chegou a lhes
enviar o prncipe que queriam, pois veio a falecer. Entretanto, conforme
instrues do pai, seu filho e sucessor Obaluf enviou Orani para assumir e
organizar os edos e govern-los. Do sculo XI ao XV d.C., o Benin
desenvolveu-se como um dos maiores centros mercantis da regio do golfo da
Guin. Segundo Andr Berthelot, citado por Obenga (1973), o Estado teria
criado e mantido, em tempos bem antigos, um corpo de marinha. Nos sculos
XV e XVI d.C., sob os obs Euare e Esigie, o Benin afirmou-se como um
grande imprio.
BENU. Rio da frica Ocidental. Nasce na regio do Adamaua e penetra em
territrio nigeriano, onde desgua no Nger. Segundo A. Costa e Silva, como
indica a glotocronologia, os povos que habitam ao sul, a sudeste e a sudoeste
da confluncia desses dois rios, como iorubs, edos, nups, ibos etc., vivem
nessa regio provavelmente h milhares de anos.
BERBERES. Conjunto de povos de diferentes origens, autodenominados
imaziguenn  e chamados lbios pelos gregos , habitantes da frica
Setentrional e falantes de uma lngua afro-asitica comum, cujo ncleo 
localizado por Martin Bernal (ver bibliografia) na regio da Nbia. As tribos
berberes compreendem hoje os tuaregues, os cabilas do Marrocos e da
Arglia, bem como os habitantes da ilha de Djerba, no sul da Tunsia. Vivendo
no norte da frica desde, pelo menos, 3000 a.C., na Antiguidade eram
principalmente nmades, mas alguns de seus grupos sedentarizaram-se nas
savanas do oeste africano e no norte do continente, principalmente entre 900
e 800 a.C., tornando-se especialmente comerciantes. Os do norte
relacionaram-se com povos do litoral, desen-volvendo um comrcio regular de
caravanas e, j no sculo V a.C., integravam-se paulatinamente na dinmica
do mundo mediterrneo, por intermdio de Cartago. Atravs das rotas assim
estabelecidas, fizeram circular o ouro, o marfim, o sal e outras riquezas. Como
acentua Davidson, os elos comerciais forjados pelos berberes foram de
grande valia para muitos outros povos, no s da frica como tambm
europeus e asiticos. Foram eles, por exemplo, que estimularam o
crescimento de Cartago, que foi durante muito tempo o mercado mais rico da
costa ocidental do Mediterrneo. Ibn Khaldoun e outros viajantes e
historiadores rabes, citados por Boulnois e Hama, afirmaram que berberes
dos grupos Lemta e Houara vagavam nmades, muito antes da Hgira, at os
confins da frica Profunda; e que indivduos desses grupos contavam-se entre
aqueles que, "cobertos com vus", desde tempos imemoriais percorriam as
regies entre o deserto do Saara e a frica Tropical. Aps a chegada do Isl
ao norte da frica, j no sculo VII d.C., muitos grupos berberes, recusando
ser confundidos com rabes, adotaram o cristianismo, por meio da corrente
donatista, seita local surgida no sculo IV. Ver JUGURTA; LBIA; LBIOS; NUMDIA;
ROTAS DE COMRCIO.
BERBERIA.   Antiga denominao da regio setentrional africana, a oeste da
Lbia.
BERBERO-LBIO.   Denominao usada por Lpez-Davalillo para qualificar o grupo
populacional surgido no norte da frica, como consequncia da dessecao
da regio do Saara, entre 2000 e 1800 a.C. Ver BERBERES; LBIOS.
BIAS. Um dos "sete sbios da Grcia" (c. 570 a.C.). Segundo Obenga,
mantinha correspondncia com o fara Amsis ou Ahms (c. 569-526 a.C.).
BIGO. Reino florescido no territrio da atual Uganda no sculo VI d.C.
BIRIMI. Stio arqueolgico na atual Repblica de Gana, associado  cultura de
Quintampo.
BLAMENN. Povo de aparncia negra e suposta origem africana presente,
segundo D. Luke, na Antiguidade da Europa setentrional. Ver BLMIOS.
BLMIOS. Povo da Antiguidade africana, tido como ancestral dos atuais bejas.
Inicialmente nmades, vivendo entre o mar Vermelho e os rios Nilo e Atbara,
depois de adotarem vida sedentria, habitaram as cidades de Calabch ou
Talmis; Preminis ou Ibrim; Addeh ou Adua; Faras ou Pachoras; Gamai; Fiska;
Sa e Uau. Blmios e romanos  Aps a capitulao de Meroe diante dos
romanos (c. 23 a.C.) e do advento do cristianismo, toda a regio da Nbia foi
palco da luta entre cristos e povos nativos, bem como objeto da constante
ameaa de outros povos, principalmente os nmades do deserto. Com a
disseminao do uso do camelo como meio de transporte, no primeiro sculo
da Era Crist, as caravanas de Meroe puderam chegar ao mar Vermelho, a
Axum e ao interior do continente. Mas essas mesmas rotas possibilitaram a
chegada, ao corao de Meroe, desses belicosos povos nmades, os quais,
no sculo III, j ocupavam boa parte do decadente imprio merotico. Durante
o reinado do imperador romano Dcio (249-251 d.C.), os blmios atacam a
fronteira do Egito. O imperador seguinte, Treboniano Gallo, recebe um
embaixador do rei cuxita Tequerideamani para estabelecer uma possvel
aliana contra os invasores. Entre 260 e 297, embora vassalos dos reis
cuxitas de Meroe, os blmios, desrespeitando alianas e tratados, fazem
vrias investidas contra os domnios romanos, invadindo o Egito, a Tebaida e
outras regies. A questo s  resolvida sob o imperador Deocleciano (284-
305), que cria um Estado-tampo, instalando os nobatas nas terras
setentrionais nbias, ao longo do Nilo, entre o Egito e o territrio dos blmios,
no centro da Nbia. Blmios e cristos  Fiis aos seus deuses,
notadamente sis, no sculo V os blmios aliaram-se aos nobatas, assediando
e saqueando os mosteiros cristos, contando com o apoio dos egpcios fiis
aos deuses de seu passado. At que, em 453, o general romano Maximiano
impe capitulao a blmios e nobatas. Morto esse general, os nobatas
reiniciam suas hostilidades. Entretanto, no podendo vencer pelas armas, o
cristianismo vence pelas ideias, quando, em 543, sob o imperador Justiniano,
o rei dos nobatas converte-se  f crist. Os blmios, entretanto, resistem,
at serem derrotados por Silco, rei dos nobatas, em 548. Povo aguerrido 
Blmios e nobatas so referidos por Brissaud como "raa de mestios,
aparentada com os meroticos, possuindo uma grande herana negroide". Na
guerra, usavam lanas, gldios, machados, arcos e flechas, alm de
armaduras e escudos de couro. Seus soberanos usavam as coroas e os
emblemas reais de Meroe. Citados at mesmo na Histria Natural do romano
Plnio, constituram sempre uma ameaa tanto para os egpcios quanto para
os reinos de Meroe e Axum. Tidos como "simples bedunos do deserto", no
obstante foraram o general romano Maximiano a um tratado de paz assinado
em 453 a.C. Foram repetidamente descritos como "brbaros", porque se
opuseram tenazmente s tentativas de cristianizao. O nome "blmio" 
consignado em Saraiva (2000), como "blemyi, orum, povo da Etipia".
BOCO I (BOCCHUS). Rei da Mauritnia entre 118 e 81 a.C. Aliado de Jugurta, rei
da Numdia. Embora fosse genro desse rei, mais tarde o abandonou nas mos
dos romanos, por conta de um tratado de amizade.
BOCORIS (BOCCHORIS) ou BAQUENRENEF. Fara da XIV dinastia sata. Filho de
Tefnacte. Sucedeu-o no trono do Delta quando de sua morte. Foi morto por
Xabaca em c. 712.
BORGU. Regio planltica nos territrios dos modernos Benin e Nigria. Ncleo
do povo Bariba, sediou um importante reino. No sculo XV d.C., a dinastia
iorubana governante de Oi a se exilou, para retomar o poder, fortalecida,
algum tempo depois.
BORIBORI IMFANTSI. Ver FANTI.
BORNU. Antigo reino situado a oeste e ao sul do lago Chade. Seu territrio foi
local estratgico na instalao dos povos que, na Antiguidade remota,
emigraram para a frica Ocidental a partir do leste e atravs do Egito; mas
seu nascimento remontaria a 750 ou 800 d.C., cerca de 300 anos antes de
suas elites dirigentes abraarem o Isl, trazido atravs das rotas de
caravanas do Saara.  poca de seu apogeu, o reino, chamado Canem-
Bornu, estendia-se do Nilo at o Nger. Ver CHADE.
BOSQUMANOS. Conjunto de povos hoje localizados no deserto do Calaari, no
sudoeste africano, e por muitos considerados, com os pigmeus, os mais
antigos habitantes do continente. Tambm chamados San e aparentados aos
khoi-khoi (da a denominao Khoi-san, aplicada a ambos indistintamente),
constituram o principal grupo populacional da frica Austral antes da chegada
dos bantos. Originalmente estabelecidos na regio de planalto da frica
Oriental, por volta do incio da Era Crist foram empurrados em direo ao sul
do continente. No sculo XVI foram deslocados seguidamente ante a presso
de hotentotes, bantos e europeus para as terras desrticas de sua atual
localizao. Ver SAN.
BRITNICAS, (Africanos nas) Ilhas. Ver ROTAS DE COMRCIO.
BUBASTIS. Cidade egpcia localizada no delta do Nilo. A XXII dinastia de faras
egpcios foi chamada "bubastita", por ter sua capital nessa cidade.
BUCAMA. Localidade histrica na regio de Catanga, na atual Repblica
Democrtica do Congo. Segundo D.W. Phillipson, citado por Obenga (1985), a
povoao local iniciou-se com a chegada, entre os sculos VII e VIII d.C., de
povos falantes de idiomas bantos provenientes do leste do continente. Ver
QUITARA.
BUGANDA. Estado florescido na atual Uganda no mesmo contexto do Bunioro.
Nasceu e se desenvolveu a partir da incorporao de pequenas unidades
polticas, entre os sculos XIII e XV d.C. Segundo a tradio, o iniciador
desse processo foi o heri Quintu, reconhecido como primeiro kabaka (rei) e
grande ancestral do povo Ganda. Depois de Quintu, a autoridade dos kabakas
era limitada pelo poder dos cls. Como hiptese de pesquisa, compare-se o
ttulo kabaka ao nome Xabaca, do soberano cuxita; bem como o nome
Xabataca, de outro rei de Cuxe, com o ttulo ssaabataka, que designava o
chefe dos cabeas de linhagem no Buganda. Tais semelhanas podem, talvez,
assinalar uma linha de continuidade, de cerca de 2 mil anos, entre Cuxe e
Buganda.
BUNIORO.  Imprio fundado no sculo XIV d.C. nas terras do sul e do oeste da
atual Uganda. Segundo alguns autores, foi o sucessor do legendrio imprio
de Quitara, pelo que  tambm mencionado como "Bunioro-Quitara". Sua
maior extenso e sua mais perfeita organizao foram alcanadas durante os
reinados de Isaza Niaquicooto, ltimo soberano da dinastia Abatembuzi, e
Ndaura Quiarubinda, primeiro rei da dinastia Abcvezi, entre 1300 e 1500. Por
essa poca, diz-se que o imprio transps as fronteiras da moderna Uganda,
estendendo seu poder  Etipia e a partes dos atuais Congo, Qunia e
Tanznia.
BURUNDI. Ver RUANDA.
BUTO. Cidade no extremo norte do Egito, chamada pelos locais de Kom El-
Fara'in. Foi o centro do culto da deusa Bastet, adorada desde a segunda
dinastia faranica e representada como uma leoa feroz.
CABA (KHABA). Penltimo fara egpcio da III dinastia, poca menfita.
CABACA. Ttulo do soberano do reino de Buganda, na regio dos Grandes
Lagos, florescido j no sculo XVII. O termo parece remeter a Xabaca, nome
de um dos reis cuxitas, tornado fara no Egito.
CACAOURE SENUASRYI. Outro nome (ou transcrio do nome) de Sesstris III.
CACHTA. Rei de Cuxe e fara do Egito, tambm chamado Nimaatre. Soberano
em Napata, em c. 770 a.C. chega a Tebas e toma o trono faranico, iniciando
a XXV dinastia egpcia. Antes, num hbil jogo poltico, convencera a filha do
fara Osorcon III, sacerdotisa "divina adoradora de Amon", a adotar sua filha
Amenirdis, preparando-a para suced-la, o que ocorre no reinado de Piye,
quando a princesa passa a desfrutar do status de rainha e deusa viva (ver
DIVINAS ADORADORAS). Ver CUXE; EGITO.
CACONDA.     Heri mencionado como civilizador do povo Ovimbundo.
Provavelmente  o mesmo Feti. Em bundo, cf. Alves, o elemento konda est
ligado  ideia de "fundamento, causa", da mesma forma que feti significa
"princpio, comeo".
CACONGO (KAKONGO). Antigo reino africano formado nas atuais Repblicas do
Congo e de Angola (enclave de Cabinda) antes do sculo XV d.C. Na
atualidade, o nome Cacongo designa um cl e uma povoao do povo
Bacongo ou Muxicongo.
CAGEMNI. Sbio egpcio (c. 2300 a.C.). Foi juiz, filsofo e sacerdote. Serviu 
administrao do fara Snefru e, provavelmente,  de Huni tambm.
Considerado por alguns o primeiro mestre de tica. Pregou a bondade acima
das vantagens pessoais, a compaixo e o respeito por todas as criaturas.
CAIAN. Soberano do Egito durante a XV ou XVI dinastia, perodo hicso. Ver
HICSOS.
CALABCHA, Templo de. Monumento arquitetnico nbio, localizado na margem
esquerda do Nilo, a cerca de 60 km ao sul da atual Assu. Dedicado ao deus
Mandulis, equivalente nbio do egpcio Hrus, tinha 120 m de comprimento por
70 m de largura, sendo comparvel, em dimenses, a uma catedral gtica.
CALAMBO. Stio arqueolgico situado na Zmbia. Segundo Phillipson, citado por
Obenga (1985), a povoao local comeou a se estabelecer com a chegada,
em c. 300 d.C., de povos bantos vindos do leste do continente.
CALEB. Soberano do imprio de Axum, no sculo VI d.C. Conquistou parte da
Arbia meridional e mais tarde tornou-se monge. Fundador de uma dinastia,
seu perodo de governo  mencionado em um rol de governantes
provavelmente extrado do Kebra Nagast, como transcorrido de 501 a 531
d.C. Ver ETIPIA.
CALENDRIO. Um calendrio , em essncia, um sistema elaborado por
indivduos humanos para contar, de forma racional, o desenrolar e a
passagem do tempo, o que sempre  feito de acordo com os principais
fenmenos astronmicos, como a rotao da Terra, percebida por meio das
posies do Sol e das fases da Lua. Vrias culturas adotam calendrios
especficos, como  o caso do calendrio gregoriano atualmente em vigor no
mundo ocidental e datado de 1582, quando substituiu o calendrio juliano,
criado em Roma  poca do imperador Jlio Csar, bem como do israelita, do
muulmano etc. Na tradio africana, a medida e a contagem do tempo
combinam aspectos astronmicos e climticos com aspectos sociais, segundo
os sistemas religiosos ou poltico-religiosos vigentes nas diversas sociedades.
A Lua e as estaes do ano so as referncias mais usadas; entretanto,
outros fatores interferem sobretudo nas savanas secas, onde o cu  quase
sempre claro. A, algumas constelaes e estrelas especficas servem como
elementos fundamentais na contagem do tempo. O povo Dogon, do Mali, os
povos pastores do nordeste africano e tambm os bosqumanos do deserto
do Calaari, no sul do continente, so conhecidos por suas formas especficas
de contar o tempo com base na observao dos astros no cu. Na
Antiguidade africana, segundo Nascimento (1996, vol. I, p. 13), a astronomia
egpcia era to avanada que "desde 4240 anos antes de Cristo" desenvolveu
um calendrio mais aperfeioado que os posteriores, calendrio esse em que
o ano foi dividido em 365 dias, com 12 meses de 30 dias e mais 5 dias
intercalados. E isso muitos sculos antes da criao do calendrio gregoriano,
em vigor no mundo ocidental. Ver ASTRONOMIA AFRICANA.
CAM. Ancestral bblico, tambm chamado Co. Filho de No,  tido, segundo a
Bblia, como o pai do povo negro. Os povos da Arbia, de Cana, do Egito e
da Etipia so, segundo Boyer, em grande parte os descendentes de Cam, o
qual, segundo a tradio do Gnesis, foi pai de Cuxe, Mesraim ou Egito; Fut
ou Lbia; e Cana. Os filhos de Cuxe foram Saba ou Seb; Hvila ou Havil;
Sabata ou Sabt; Raam ou Regma; e Sabataca ou Sabteca. Os de Raam
foram Sab e Ded. Todos esses nomes designaram, na Antiguidade, regies
da frica Oriental e da Arbia, o que poderia indicar, em termos histricos, a
existncia real desses personagens e seu papel de heris fundadores.
Segundo a mitologia hebraica, Cam foi amaldioado e condenado a ser
escravo, por ter visto o corpo nu do pai, que dormia embriagado. Essa
passagem bblica serviu, durante anos, como justificativa para a escravizao
dos negros, tidos como portadores da "maldio de Cam". Entretanto,
segundo modernas interpretaes, a associao de Cam ao povo negro 
uma falcia histrica, usada apenas como justificativa teolgica para a
escravizao e a inferiorizao dos africanos.
CAMARES. O territrio da atual Repblica dos Camares  o centro da
disperso dos povos bantos, principalmente na regio dos montes Adamaua,
entre os anos 1000 e 400 a.C., segundo Obenga. Por essa poca, ao mesmo
tempo em que a regio viu surgirem, entre 900 e 800 a.C., as primeiras
populaes sedentrias, contingentes populacionais comearam a se
deslocar, em vagas sucessivas, nas direes leste e sul do continente,
difundindo a cultura de novas espcies vegetais e a metalurgia do ferro. Os
grupos remanescentes desenvolveram, nas reas de florestas do sul,
comunidades importantes, como as dos dualas e fangues; e, nas savanas e
nos planaltos do norte, criaram dinastias como as dos bamendas, bamuns e
bamilequs. Segundo algumas correntes, a faixa litornea do atual Camares
teria sido a primeira regio africana visitada por navegantes estrangeiros. O
clebre relatrio atribudo a Hanon, navegante cartagins do sculo VI a.C.,
refere-se a uma "montanha muito alta", de onde se propagava "o rudo das
chamas". Essa montanha, que ele denominou "carruagem dos deuses",
poderia bem ser, como prope Jean Imbert, o atual monte Camares, cuja
atividade vulcnica ainda se manifesta, em intervalos cada vez mais
espaados. Discute-se ainda se o testemunho de Hanon dataria mesmo da
Antiguidade ou teria sido fruto de elaborao posterior. Ver BANTOS.
CAMBISES II. Rei persa, dominou o Egito entre c. 525 e 522 a.C. Aps a
conquista do Alto Egito, Cambises decidiu penetrar na Nbia, para tanto
convocando os assim chamados "ictifagos" de Elefantina, falantes do idioma
de Cuxe, a fim de, a pretexto de misso de paz, espionar os cuxitas  o que
foi prontamente entendido pelo rei de Cuxe, provavelmente Amani-nataqui-
lebte, que o desafiou. Irritado com o desafio e no conseguindo vencer os
cuxitas, Cambises voltou sua fria para o Egito, partindo desarvoradamente
para a guerra contra Mnfis, incendiando orculos e escravizando sacerdotes.
Mas seus exrcitos foram dizimados pela fome, a Histria relatando inclusive
casos de canibalismo entre os soldados. Aps essa derrota fragorosa,
Cambises terminou seus dias na Sria, louco, em 522 a.C. Ver PIS.
CAMELO. Mamfero artiodctilo ruminante da famlia dos Cameldeos, a qual
compreende duas espcies: Camelus dromedarius e Camelus bactrianus,
com duas corcovas. Foi introduzido na frica, atravs do Egito, pelos assrios,
no sculo VII a.C. Sua utilizao como meio de transporte, em substituio
aos muares, disseminou-se rapidamente pelo vale do Nilo, principalmente nas
regies desrticas. Com a completa popularizao desse uso, no limiar da Era
Crist, as rotas de comrcio africanas multiplicaram-se consideravelmente, da
mesma forma que se incrementaram as incurses blicas por parte dos povos
do deserto. Para as populaes nmades, o camelo, alm de transporte,
fornecia, com sua pele, a vestimenta e a cobertura das tendas; e, com sua
carne e seu leite, o alimento e o remdio: as propriedades medicinais de sua
gordura so conhecidas e sua urina  comumente empregada como
desinfetante e estancadora de hemorragias. Ver ROTAS DE COMRCIO.
CAMS (KHAMS) ou KAMSIS. Fara do Egito, provavelmente o ltimo da XVII
dinastia, intitulado Wadjekheperre.
CAMITAS. Conjunto de povos tidos como "filhos de Cam" e originrio do
nordeste da frica, de onde teria se espalhado pelo leste e pelo interior do
continente. So supostamente divididos em dois grupos, um correspondendo
aos berberes, fulnis, haus etc., e outro englobando egpcios, etopes,
galas, somalis, tutsis etc. A etnografia convencional os distingue dos povos
ditos "negroides", por certas caractersticas fsicas, como cor "moreno-clara"
e "nariz bem formado". Mas esse tipo de distino carece de fundamento,
como podemos observar com muitos indivduos fulnis, haus e tutsis, de
aparncia similar  dos indivduos habitualmente percebidos como de fato
"negros". Ver CAM; AFRO-ASITICA; MESTIAGEM.
CANA. Na Antiguidade, regio do litoral mediterrneo, no atual Estado de
Israel. Durante o Antigo Imprio foi por longo tempo ocupada pelo Egito
faranico, o que se traduziu em profundos reflexos na vida e na cultura
judaica, com influncia no judasmo e, por extenso, no cristianismo e no
islamismo. Vejam-se, como exemplo, os fortes laos de personagens bblicos
como Abrao, Aaro, Jos, Moiss, Jeremias, Josu, Baruc etc., alm de
Jesus, com o Egito dos faras.
CANDA. Na tradio dos povos congos, agrupamento de pessoas aparentadas
entre si e possuindo um territrio comum. O mesmo que cl. Cada um desses
grupos era dono das florestas, dos rios, das fontes de gua, das pastagens e
dos terrenos lavrados em seu territrio; no o sendo, entretanto, dos
instrumentos e ferramentas de trabalho, que eram de propriedade individual.
CANDACE. Ttulo, derivado da palavra merotica ktke ou kdke, significando
"rainha-me", atravs do grego kentakes, atribudo a algumas rainhas cuxitas,
como Amanitare, Amani-xaquete e Xanacdaquete, que foram efetivamente
governantes em Meroe. Observe-se que Navidemak e Malequereabar so
tambm mencionadas como candaces em alguns textos, o que  negado na
relao      de    nomes       cuxitas     masculinos  e     femininos      em
www.geocities.com/mariamnephilemon. As mais antigas referncias a essas
rainhas datam da poca de Alexandre, cujo avano sobre a Nbia os exrcitos
da guerreira referida como "a rainha negra Candace" (provavelmente, Nikaula
Candaque pela tradio etope) conseguiram deter. Segundo algumas
verses, ao ver essas tropas perigosa e decididamente formadas em posio
de enfrentamento, Alexandre teria preferido bater em retirada rumo ao Egito,
que efetivamente conquistou. Antecedentes  Taharca, filho de Piye, tinha
passado 18 anos no Egito, ao lado de seu tio Xabataca. Quando foi coroado
fara, fez levarem a Mnfis sua me, Abale. Por sua vez, sua filha Ieturou teve
seu nome perpetuado no templo do Djebel Barcal, erigido por Atlanarsa,
honraria igualmente conferida a Nasalsa, mulher de Sencamanisquen e me de
Anlamani e Aspelta, que teve seu nome gravado numa estela descoberta em
Cava. Nasalsa teve participao destacada tanto na coroao de seus filhos
quanto na indicao de um profeta de Amon. Essa onipresena das mulheres
da corte, registrada em documentos oficiais, estava obviamente ligada a seu
papel poltico. Em Cuxe, antes do advento das candaces, embora os
governantes fossem homens, a filiao materna era que determinava a
sucesso, a qual ocorria de irmo para irmo ou de tio para sobrinho. Morto
um rei, o colgio eleitoral devia escolher o sucessor entre seus irmos
maternos. Quando no os havia, ele era escolhido entre um dos filhos dos
irmos do falecido que j tivessem reinado. Assim, Alara e Cachta foram
irmos; Piye era sobrinho de Cachta e provavelmente filho de Alara ou de
outro irmo falecido desse soberano. Taharca sucedeu em Mnfis a seu tio
Xabataca e foi sucedido por seu sobrinho Tanutamon. Atlanarsa era sobrinho
de Tanutamon e filho de Taharca. Entretanto, com Sencamanisquen e
Anlamani, a regra da sucesso pela linha materna foi quebrada, j que o
primeiro era pai do segundo, seu sucessor. Por isso, Xanacdaquete (c. 170-
150 a.C.) imps-se como soberana, fazendo triunfar toda uma estrutura
matriarcal. O poder feminino em Cuxe  As candaces, que reinaram, no na
qualidade de esposas ou mes, mas por direito prprio, com todos os
poderes de administrao civil e militar, consolidaram o matriarcado, tradio
ainda presente em boa parte das culturas africanas, nas quais as mulheres,
principalmente na condio de sacerdotisas, desempenham papel poltico
importante. Em Cuxe, a presena de mulheres no clero de Amon as tinha
familiarizado com os fundamentos e mistrios do culto e com a base poltico-
ideolgica do Estado cuxita. O carter federativo e o frequente deslocamento
da capital enfraqueciam o aparelho estatal e o obrigavam a adaptar-se,
acomodar-se e integrar-se s contingncias de cada local. Quando a capital
fixou-se nas terras longnquas do sul, estavam reunidas as condies para o
triunfo do matriarcado e a ascenso das rainhas-mes ao poder supremo. Era
o coroamento de um longo processo e a afirmao de uma tendncia antiga.
Observe-se que as representaes icnicas das candaces as mostram em
geral gordas. Essas e outras representaes, mais do que uma expresso da
realidade, revestem-se de um contedo simblico, o volume corporal
figurando, a, como indicativo de forte poder poltico. Finalmente, veja-se que,
aps Amani-xaquete, reinou um soberano, Netacamani, mas em corregncia
com a mulher, Amanitare. Ver CUXE.
CARAGE (KARAGWE).  Reino florescido na regio dos Grande Lagos, entre os
sculos XIII e XIV d.C. Localizava-se a oeste do lago Vitria, no extremo
noroeste da atual Tanznia, fronteira com Uganda.
CARBONO 14. Istopo radioativo do carbono de nmero de massa 14, que se
origina na atmosfera. D nome a um mtodo cientfico modernamente utilizado
para determinar a idade de achados arqueolgicos.
CARCAMANI. Rei de Cuxe em Meroe, c. 519-510 a.C.
CARNAC (KARNAK). Centro cerimonial em Tebas, capital do Novo Imprio egpcio,
onde anualmente, aps a cheia do Nilo, realizava-se a alegre comemorao
do Opet, durante a qual o fara cumpria obrigaes rituais no templo de
Amon.
CARTAGO. Cidade no norte da atual Tunsia. Segundo a tradio, Cartago
constituiu-se como ncleo colonial a partir de uma herona conhecida como
Dido, que, fugindo da tirania do rei fencio Pigmalio, liderou o
estabelecimento de seu povo no local. Do sculo VIII ao II a.C. foi a grande
capital africana do povo fencio. A cidade foi fundada por volta de 800 a.C.,
como um entreposto fencio e base de apoio para a navegao mediterrnea
e, por sua posio estratgica, tornou-se um importante centro comercial e
cultural. Estendendo seu controle sobre os berberes do interior, os
cartagineses desenvolveram ncleos agrcolas no vale do rio Medjerda e
dominaram o comrcio no Mediterrneo, alm de estabelecerem ncleos
coloniais nas atuais Siclia, Sardenha, Crsega, Baleares e na Pennsula
Ibrica. Isso motivou disputas de poder primeiro com os gregos, vencidos no
sculo V a.C., na Siclia, depois com os romanos, com os quais Cartago
envolveu-se no sculo III a.C., nas chamadas Guerras Pnicas. Morto o lder
Anbal e aps atacar o reino da Numdia, ento sob o domnio de Roma,
Cartago foi destruda em 146 a.C., e os cartagineses passaram a ser sditos
do Imprio Romano. Ver PNICAS, Guerras.
CARTUM (KHARTUM). Cidade do atual Sudo, na confluncia do Nilo Azul com o
Nilo Branco.
CASAMENTO REAL ENTRE IRMOS. Ver INCESTO REAL.
CASEQUEMUI. Fara egpcio da II dinastia, sucessor de Peribsen.  tambm
mencionado como Hetepsequemvy e Reneb. Ao contrrio de seu antecessor,
utilizou como smbolos os animais totens de Hrus e Seth, o que parece
evidenciar uma tentativa de unificao do poder faranico sob seu reinado.
CASHTA HANYON. Soberano etope (c. 758-745 a.C.) da dinastia de Meneliq,
conforme mencionado em listagem provavelmente extrada do Kebra Nagast
(cf. www. rastafarionline.com.) Ver CACHTA.
CASTAS. Camadas em que se organizavam algumas sociedades antigas,
inclusive na frica, com estratificao rgida, em ateno a circunstncias de
nascimento ou de ofcio. Como todos os grupos humanos, desde a
Antiguidade os africanos sentiram necessidade de organizar suas sociedades
hierarquicamente. E, em alguns casos, o fizeram por meio do sistema de
castas, embora, ao que conste, em nenhuma delas essa distino
expressasse rgidos antagonismos, como aqueles celebrizados no exemplo
indiano, em que uma diviso de certa forma odiosa sobreviveu oficialmente at
o sculo XX da Era Crist. Na frica, um significativo exemplo da diviso da
sociedades em castas, cuja origem remonta ao sculo IV d.C., no antigo
Gana,  o reinante entre os povos mandingas, localizados no oeste do
continente. Entre os vrios grupos que compem esse conglomerado humano
distinguem-se: a casta dos nobres, que compreende os chefes polticos, os
chefes religiosos, os comandantes militares e os administradores da justia; a
casta dos artesos, gris (poetas, cantores e principalmente genealogistas) e
msicos, e a casta dos cativos, a includos aqueles nascidos na famlia e os
prisioneiros de guerra. Entre os artesos, desfrutam estatuto especial os
ferreiros, como em vrias outras sociedades africanas. Depois deles, situam-
se, aparentemente sem distino hierrquica, os artesos em madeira, os
teceles e os que trabalham o couro. Entre os gris, a distino se d de
etnia para etnia, e isso, evidentemente, ocorre em razo da histria oral de
cada povo, a qual, por suas peculiaridades, distingue cada gri com um
repertrio diferente. Entre os tuaregues, povo do deserto, o sistema de
castas, remontando  Antiguidade, subsistia, at o sculo XX, de maneira bem
marcada, com a organizao social comportando apenas trs classes: a dos
nobres, a dos vassalos e a dos escravos e artesos (conforme N'Diay,
1970).
CATANGA. Regio na atual Repblica Democrtica do Congo, modernamente
denominada Shaba. Segundo David W. Phillipson, citado por Obenga (1985),
a povoao de sua poro oriental comeou a se dar com a chegada, entre c.
400 e 500 d.C., de povos falantes de idiomas bantos, provenientes do leste do
continente, tendo outras correntes migratrias atingido a regio,
respectivamente, entre 500 e 1000 e entre 1000 e 1100 d.C. Por volta do
sculo XIV, teria a florescido um poderoso Estado, comumente referido como
"imprio luba de Catanga". Quanto  parte meridional, teria sido, at c. 1500,
habitada apenas por pigmeus, empurrados para as terras altas com a
chegada de migrantes bantos. A partir da, movimentos migratrios entre os
rios Lufira e Luapula deram incio a novos assentamentos populacionais na
regio. Ver CONGO, Rio.
CATARATAS, Reinos das. Expresso sob a qual se renem os reinos nbios de
Nobcia, Dongola e Alodia, intermedirios comerciais entre o Mediterrneo e
os fornecedores da frica Equatorial.
CAVALO. Smbolo de poder, principalmente militar, o cavalo domstico foi
introduzido na frica, atravs do Egito, pelos hicsos no sculo XVIII a.C. 
poca de Salomo (sculo X a.C.), entretanto, os egpcios compravam
cavalos dos israelitas, que os iam buscar na Cilcia.
CAVIRONDO. Stio arqueolgico no Qunia, datado de 300 d.C.
CEBOLAS DO EGITO. Expresso usada como smbolo de fartura e bem-estar.
"Voltar s cebolas do Egito  voltar aos bons tempos", explica R. Magalhes
Jnior no seu Dicionrio brasileiro de provrbios, locues e ditos curiosos
(p. 69). Tem origem no livro bblico Nmeros, 11.4-6, em que se l, numa
lamentao de israelitas do deserto: "Quem nos dera comer carne! Estamos
lembrados dos peixes que comamos de graa no Egito, dos pepinos,
melancias, porros, cebolas e alhos! Agora estamos definhando  mngua de
tudo. No vemos outra coisa seno man" [semente vegetal moda e feita p].
Segundo o citado Magalhes Jnior, a expresso, muito usada no sculo XIX,
a ponto de ter intitulado uma pea teatral de grande sucesso, teria sido
deturpada ao longo dos tempos. Durante o xodo, os judeus, famintos, se
teriam voltado contra Moiss, afirmando que seria prefervel que tivessem
permanecido cativos no Egito, onde pelo menos estariam sentados junto s
olhas (termo arcaico, o mesmo que "panelas", correspondente ao espanhol
olla) das carnes comendo po. De qualquer modo, a expresso demonstra a
abundncia reinante entre os egpcios, no tempo mencionado, em relao a
alguns povos vizinhos.
CENOTFIO.  Tmulo simblico; monumento tumular em memria de um morto
ilustre que no se encontra nele sepultado. Construes dessa natureza foram
bastante comuns na Antiguidade nbia e na egpcia.
CEUTA. Ver ABILA.
CHADE (Lago). Localizado 250 m acima do nvel do mar, na atual tripla fronteira
de Chade, Camares e Nigria, o lago Chade, com mais de 16 mil metros
quadrados de superfcie,  formado principalmente pelos rios Chari e Logone.
A regio do Sael, da qual a atual Repblica do Chade faz parte, foi habitada
desde tempos muito antigos, como comprova a permanncia, nas partes altas
da regio, de uma tradio paralela  dos textos bblicos; e em vrias tumbas
descobertas na regio das montanhas Tibesti, no norte do pas, encontraram-
se, segundo a Enciclopdia do Mundo Contemporneo, artefatos que datam
de 4900 a.C. O sentido e a origem das grandes migraes que se verificaram
na frica Central desde pocas remotas so conhecidos e  evidente, salvo
raras excees, que os movimentos importantes que afetaram o planalto
chadiano correspondem a um deslocamento geral dos povos em direo ao
oeste. Mas  difcil enumerar com certeza as migraes menos amplas de
grupos humanos secundrios, bem como conhecer suas direes. Provvel 
que, antes de achar uma terra propcia onde se estabelecer, os antigos
habitantes da regio, ancestrais do atual povo Cotoco, tenham levado vida
nmade durante um longo perodo. A regio do Chade, desde tempos
remotos, esteve ligada ao vale do Nilo por rotas de caravanas. Ver CHARI; NILO-
SAARIANO; SAO.
CHAMPOLLION. Sobrenome comum a dois egiptlogos franceses, irmos. O
primeiro, Jacques (1778-1867), ficou conhecido como Champollion-Figeac, em
aluso  cidade de seu nascimento. O segundo, Jean-Franois (1790-1832),
celebrizou-se pela pesquisa que forneceu a base para o deciframento dos
hierglifos do antigo Egito. Segundo Obenga (1973), Jean-Franois
Champollion foi pioneiro no reconhecimento da anterioridade da cultura egpcia
sobre a grega, bem como da unidade cultural existente entre a antiga Nbia e
o Egito faranico.
CHARI. Rio africano, com cerca de 1.200 km. Nasce na atual Repblica Centro-
Africana e desgua no lago Chade por um delta, depois de receber o Logone.
Sua existncia foi fundamental para o florescimento das antigas civilizaes da
regio. Os nomes Chari e Chade, de lnguas locais, esto provavelmente
relacionados ao quicongo Nzdi, grande rio, grande lago, imensido de gua,
por sinal o nome vernculo do rio Congo ou Zaire. Ver CHADE.
CHIFRE DA FRICA. Denominao, em portugus do Brasil, da regio que
compreende, no nordeste africano, os territrios de Somlia, Etipia, Djibuti e
Eritreia, certamente em aluso  forma de seu contorno.
CIPIO, O AFRICANO. Antonomsia do general romano Publius Cornelius Scipio.
Recebeu esse qualificativo em razo de sua campanha militar no continente,
com destaque para sua vitria sobre Cartago em 202 a.C.
CIRCUNCISO. Ritual religioso de retirada cirrgica do prepcio. Entre os
egpcios e etopes, segundo Herdoto, o costume da circunciso remontava 
mais alta Antiguidade, tendo sido esses povos, alm dos clquidos, os
primeiros a adotar tal prtica. Ver CLQUIDA.
CIRENAICA. Parte oriental da Lbia, cujo nome deriva de Cirena, ou Cirene, sua
principal cidade, provavelmente fundada em 631 a.C. por colonos chegados
atravs do Mediterrneo e anexada por Roma em 96 a.C.
CIVILIZAES AFRICANAS. O termo "civilizao", em uma de suas acepes, define
o estado de desenvolvimento econmico, social e poltico ideal atingido por
uma sociedade. Assim, tanto o Egito quanto outras partes do continente
africano viram surgir, em seus respectivos seios, civilizaes cuja criao foi
quase sempre atribuda  iniciativa de povos indo-europeus ou arianos.
Entretanto, no curso do segundo milnio anterior ao advento do cristianismo,
momento da chegada desses indo-europeus, ainda no estado de nmades
rudes, j havia civilizaes na frica Profunda, assegura Cheikh Anta Diop. Os
antigos povos negro-africanos, etnicamente homogneos, criaram seus
prprios elementos civilizatrios, adaptando-se s condies geogrficas
favorveis de seu ambiente natural, notadamente na zona temperada, afirma o
sbio senegals. Desde logo, seus pases tornaram-se polos de atrao, para
onde migraram, em busca de melhores condies de vida, os habitantes das
regies prximas, desfavorecidas e menos avanadas. A mestiagem gerada
por esse contato foi, ento, segundo Diop, uma consequncia da civilizao
previamente criada pelos povos locais e no, como sempre se quis
demonstrar, a causa dos surtos de desenvolvimento civilizacional ocorridos na
Antiguidade negro-africana. Conhece-se com exatido a histria de diferentes
invases estrangeiras, ocorridas no Egito, de povos "brancos", como hicsos,
lbios, assrios e persas. Entretanto, nenhum desses povos invasores legou
qualquer nova contribuio s artes, cincias,  filosofia ou organizao
desenvolvidas pelos sbios e pelo povo egpcio, como acentua Diop. Na
mesma linha de raciocnio, respondendo  questo da existncia ou no de
civilizaes ao sul do Saara durante a Antiguidade europeia, I.E.A. Yeboah
menciona, citando J. D. Graham, antigas rotas de comrcio transaarianas,
entre Nok e Cartago, cobiadas pelos primitivos governantes romanos.
Embora, acrescenta ele, a grande maioria dos antigos povos africanos no
tenha deixado registros to eloquentes como os do Egito, muitos deles
efetivamente constituram civilizaes no verdadeiro sentido do termo. Em livro
de 2008, o antroplogo Carlos Moore (ver Bibliografia) relaciona 15 regies
contemporneas que, na Antiguidade, constituram ncleos de civilizaes
africanas, a saber: Nbia-Egito; Uganda-Ruanda-Burundi; Tanznia-Qunia,
Zaire; Zimbbue-Moambique; Botswana; Madagascar-Comores; Nambia-
Zmbia; Congo-Angola; Nigria-Camares; Gana-Burkina-Costa do Marfim;
Senegal-Guin-Mali; Mauritnia; Marrocos-Tunsia-Arglia; Chade-Lbia. Ver
ROTAS DE COMRCIO.
CL. Ver LINHAGEM.
CLEBULO. Um dos "sete sbios da Grcia", celebrizado pela habilidade de
elaborar enigmas. Segundo Digenes de Laerte, historiador grego do sculo
III d.C., estudou em templos egpcios. Para alguns, trata-se de personagem
semilendrio.
CLEPATRA. Nome de sete rainhas do Egito durante o perodo ptolomaico, a
partir do sculo III a.C. Esposas-irms de soberanos denominados
"Ptolomeu", pertencentes  dinastia macednica dos Lgidas, a mais clebre
delas foi Clepatra VII. Reinou, segundo o costume egpcio, primeiro como
esposa de seu irmo Ptolomeu XIII e, aps a morte deste, como esposa de
Ptolomeu XIV, seu outro irmo, de 51 a 47 a.C. Por meio de Jlio Csar,
assumiu o poder absoluto e colocou contra Roma, sendo, ao lado de Marco
Antnio, derrotada pelo imperador romano Otvio. Segundo Larkin
Nascimento, Clepatra VII no era de origem puramente grega: seu pai,
Ptolomeu XII, seria filho ilegtimo de Ptolomeu XI com uma mulher egpcia.
CLQUIDA. Antiga regio da sia, a leste do Ponto Euxino e ao sul do Cucaso,
parte banhada pelo Fsio e onde, segundo a tradio, os argonautas foram
procurar o velocino de ouro. Localizava-se em territrio da atual Repblica da
Gergia, na antiga Unio Sovitica. Segundo Herdoto, os clquidos eram de
origem egpcia, descendentes "de uma parte das tropas de Sesstris". Eram
negros, possuam cabelos crespos e praticavam a circunciso, sendo, com
egpcios e etopes, segundo o mesmo Herdoto, os primeiros a adotar essa
prtica. Eram tambm os nicos a trabalhar o linho como os egpcios.
CONGO, Rio. Rio da frica Equatorial, com 4.640 km de extenso e uma bacia

de 3.700.000 km2, tambm chamado Zaire. Sua nascente localiza-se no lago
Quizale, na regio de Shaba (Catanga), de onde corre, sob a denominao de
Lualaba, no sentido noroeste, at o equador. Da, descreve uma grande curva
na direo sudoeste, recebe os afluentes Ubangui e Sanga  direita e Cassai
 esquerda, e chega ao Atlntico. A Bacia do Congo  a regio, na atual
Repblica Democrtica do Congo, onde o grande rio recebe esses afluentes.
Formao do Reino do Congo  O povoamento da bacia do rio Congo e
seus arredores, incluindo o antigo Zaire, Angola, Congo, Gabo e Zmbia,
est ligado  longa e sucessiva migrao dos bantos a partir dos atuais Chade
e Camares. Entre 300 e 100 a.C., uma dessas levas de migrantes, vinda j
do leste do continente, da regio dos Grandes Lagos, chega  regio.
Atravessando o rio e encontrando gua, caa e pesca abundantes, os
migrantes a se instalam, fundando o que seria mais tarde Congo-dia-Ntotila, o
ncleo do povo Bacongo ou Muxicongo. Segundo Obenga (1988), a formao
do reino do Congo ocorreu entre os sculos IX e X d.C., com a assimilao
das chefaturas meridionais, dos ambundos, existentes j nos sculos III e IV,
e das setentrionais de Cacongo e Ngoio; pela incorporao dos Estados
orientais de Mpangu e Mbata, que se desenvolviam desde o sculo IV, bem
como do reino de Sundi, limitado ao norte pelo reino de Macoco, do povo
Bateque. Esse movimento expansionista deu origem aos vrios subgrupos da
etnia Bacongo, correspondentes s 28 variaes dialetais listadas por Obenga
(1985). No sculo XV, quando da chegada dos primeiros portugueses, o
Muene-e-Congo, rei do Congo, tinha autoridade sobre vrios reinos, at os
futuros Gabo, para o norte, e Angola, na direo sul. Nimi-a-Luqueni 
Segundo uma tradio local, provavelmente nas ltimas dcadas do sculo
XIII, o luba Nimi-a-Luqueni, guerreiro dissidente do imprio de Catanga,
desceu do norte do Maiombe para o curso inferior do rio Congo, celebrou uma
aliana com bacongos e bundos da regio e fundou a Mbanza-a-Congo, sede
do reino, tornando-se o primeiro Muene-e-Congo. Ver BAIXO CONGO; BANTOS.
CONGOLO. Heri fundador do povo luba, de etnia songu. Por volta de 1420,
estabeleceu seu reino em Muibele, prximo ao lago Boia. Foi sucedido pelo
sobrinho Calala, que o destronou e, no poder, conquistou vrios grupos
vizinhos. Ver LUBA.
CONHECIMENTO CIENTFICO. Partindo-se da premissa de que toda cincia tem
razes nas tcnicas, nos ofcios e nas artes, chega-se  ideia, defendida por
M. K. Asante, de que os africanos antigos estavam entre os primeiros
cientistas. E desde que a experimentao  a base de toda cincia, pode-se
tambm concluir que muitos anos de experincias agregaram  frica um
arcabouo intelectual. A eficcia das tcnicas testa-se na prtica, por meio da
lgica e do bom senso. Desenvolvendo-se a teoria por meio da elaborao,
tem-se ento o conhecimento completo de como tcnica e cincia so
similares. Assim, foi na frica, onde os seres humanos existem h mais
tempo, que a cincia  como acentua Asante  evoluiu na direo de
invenes e descobertas como a do alimento, do abrigo, da roupa e da
utilizao do fogo, aquisies fundamentais da cultura humana. Ver GRCIA E
EGITO.
CONS (KHONS). Denominao de uma divindade celeste dos antigos etopes. O
termo seria transliterao do nome Kush (Cuxe), do heri bblico filho de Cam.
Anta Diop associa seu nome ao vocbulo khon, presente em lnguas do
Senegal, como no uolofe, significando "arco-ris", e no serere, significando
"morrer".
COPTA. Grupo tnico habitante de partes do Egito, da Nbia e Etipia; a lngua
desse grupo. A cultura dos coptas, estruturada por volta do sculo III d.C., em
torno de uma lngua e de uma religio peculiares, representaria uma tentativa
de retorno ao fausto dos tempos faranicos, o qual se manifestou na criao
de ricas igrejas, bibliotecas e obras de arte. Lngua e escrita  A moderna
lngua copta (do grego aigiptoi, "egpcio", nome pelo qual  tambm
conhecida) origina-se do egpcio antigo e compreende nove dialetos. Escrita
com caracteres derivados do grego e hoje restrita ao uso litrgico nas
comunidades crists do Egito e da Etipia, foi uma das utilizadas por
Champollion na decifrao dos hierglifos, no sculo XIX. O alfabeto copta
gerou uma literatura escrita rica e diversificada, que, entretanto, declinou aps
a conquista rabe do Egito, em 640 a.C. Igreja Copta  Nascida no Egito e
desenvolvida separadamente do restante da cristandade, inclusive na Etipia,
a religio copta  definida como um rito cristo monofisista. O monofisismo s
admite uma natureza em Jesus Cristo, tendo a divina absorvido a humana. Ver
ESCRITA.
CORDOFO (KORDOFAN). Regio a oeste do Nilo Branco e a leste do Darfur, no
atual Sudo. Representa uma faixa do grande deserto lbio que se estende,
ao sul, at o monte Nuba e os pntanos do Bahar el Gazal.
CRA (KRA). Entre os contemporneos povos Ac, designao da alma. O
vocbulo remete ao ka dos antigos egpcios, que tem significado equivalente.
Ver KA.
CRISTIANISMO. O primeiro ncleo cristo no continente africano foi constitudo
em Alexandria, por membros da comunidade judaica local. Depois, gregos e
egpcios cristianizados estabeleceram suas comunidades. Em 250 era feita a
primeira traduo da Bblia na lngua copta, sendo que por volta de 339 j
existiam 100 bispos, de Alexandria a Siena. Entre os anos 361 e 363 ocorre
uma reao anticrist,  qual, mais tarde, sucede uma violenta contrarreao,
quando, em 391, o imperador Teodsio manda fechar os templos e destruir a
biblioteca de Alexandria. A partir de 450, o Egito  onde o cristianismo foi
introduzido em 61 d.C. por So Marcos, fundador do Patriarcado de
Alexandria  entra em longo perodo de turbulncia religiosa, que s vai
terminar com a conquista rabe. Na Etipia, o reino de Axum j  cristo
desde o sculo IV. Na Nbia, numa rpida sequncia, convertem-se: em 548,
Silco rei dos nobatas; o reino de Macria, em 550; e, em 580, o reino de
Aldia. Segundo Brissaud, "os primeiros reis cristos nobatas tatuavam em
azul a cruz de Cristo sobre a fronte e seu monograma sobre o antebrao". Em
seus cetros de bano, a clebre relha de charrua dos antigos soberanos
nbios foi substituda por uma cruz de ouro.
CROCODILPOLIS. Antiga cidade no Nilo, a 100 km do atual Cairo. O crocodilo
(Crocodilus niloticus) era animal sagrado e venerado na Antiguidade egpcia.
Ver SOBEQ.
CUANDO-CUBANGO. Regio de Angola. Habitada principalmente pelos povos
Ganguela, Quioco e Cuangar, foi o bero dos antigos Estados de Matamba,
Cassanje e Holo, surgidos a partir de vagas migratrias provenientes do Baixo
Congo em c. 100 a.C.
CUBA. Reino formado s margens do rio Casai, na atual Repblica Democrtica
do Congo, antes do sculo XV d.C. por uma federao de vrias comunidades
tnicas, lideradas pelo povo Buxongo. Segundo Obenga (1991), vrios
aspectos ligam esse povo aos antigos egpcios, entre os quais o uso, nas
vestes reais, de um tipo de cinturo privativo do soberano; a poliginia tambm
como prerrogativa exclusivamente real; a organizao matrilinear da sucesso
ao trono; a sacralizao do nyimi, o soberano, comparvel  dos faras
egpcios; e os conhecimentos astronmicos. Ver BAIXO CONGO; BANTOS.
CUBANGO. Rio africano, com cerca de 1.700 km. Nasce em Angola, na regio
de Huambo, no planalto de Bi, serve de fronteira entre Angola e Nambia e
finda seu curso em Botsuana, numa extensa zona pantanosa, conhecida como
delta do Ocavango.
CUNANUP. Personagem do Egito faranico (c. 2040 a.C.). Campons da regio
do Vadi Natron, pobre e sem instruo formal,  protagonista de um episdio
exemplar, no qual, utilizando princpios da sabedoria quemtica do Maat,
enfrentou com sucesso, diante de um magistrado, um opositor rico e influente
que intentava apossar-se de sua propriedade. O episdio  narrado, segundo
M. K. Asante, em um papiro hoje no Museu Britnico.
CUQUIA. Antigo reino do povo Sonrai. Segundo Pedrals, citado por Diop (1979),
esse reino j existia na poca faranica.
CURENEFERTEM. Um dos ttulos do fara cuxita Taharca.
CURRU. Ver NECRPOLES REAIS NBIAS.
CUXE (KUSH). Pas outrora localizado na regio da Nbia, ao sul de Assu, no
Mdio Nilo, estendendo suas fronteiras para oeste, a terras que
compreendiam as zonas do atual Sudo adjacentes ao mar Vermelho, alm de
partes dos atuais territrios de Eritreia, Etipia e Qunia. Mais
especificamente, a denominao se aplica  regio abaixo de Elefantina, da
primeira  quarta catarata do rio Nilo, embora, a partir do Mdio Imprio
egpcio, o nome tenha passado a designar toda a Alta Nbia. O nome  A
denominao "pas de Kush" parece ter sido usada primordialmente pelos
hebreus, j que os egpcios se referiam ao pas e toda a regio da Nbia
como Ta-Seti, "o pas do arco". Para os gregos, o nome "Etipia" serviu como
denominao geral para todo o nordeste africano, da a dinastia cuxita que
governou o Egito no sculo VIII a.C. ser comumente referida como "dinastia
etope". Nos textos bblicos, o nome Cuxe (Kuch, Kush, Kus ou Khus, "o pai do
povo negro") designa um dos netos do patriarca No, filho de Cam; irmo de
Mizraim, Fut e Cana, e pai de Saba, Hevil ou Havil, Sabata, Regma e
Sabataca e, ainda, de Nimrod, descrito no Gnesis como "o primeiro a se
tornar heri neste mundo" (Bblia sagrada, 1986). Alguns modernos
pesquisadores sustentam, segundo M. Bernal, que o nome bblico "Kush"
(Cuxe) referente em geral  Nbia e  Etipia  tambm usado para designar
outras duas regies e seus povos  midianitas, na Arbia ocidental, e cassus
ou cassitas, no leste da Mesopotmia  que dominaram essa regio em
meados do segundo milnio a.C. Entretanto, embora parea ter havido dois
povos distintos a usar o nome, em ambos os casos, segundo Bernal, isso
parece ter sido feito para nomear povos de pele escura, como o foram os
midianitas, habitantes do sudeste de Cana, muitos dos quais seriam, como
os rabes meridionais de hoje, parecidos com os somalis e outros povos do
nordeste africano. Note-se ainda que a civilizao de Querma, de que nos
ocuparemos a seguir e em verbete especfico, pode ser qualificada como
"cuxita", j que florescida no ambiente nbio do bblico "Pas de Cuxe".
Querma e Napata  Durante a XII dinastia egpcia, a Baixa Nbia foi
conquistada pelo poder faranico, sendo fortificada at Senna, estabelecendo-
se a as fronteiras que a separavam do territrio efetivamente governado
pelos faras. A outra parte do territrio, entretanto, que sediava o reino nbio
de Querma, com suas riquezas naturais, principalmente ouro e marfim, e suas
pretenses expansionistas, continuou sendo, at sua queda ante as tropas de
Tutms I, na XVIII dinastia, um contraponto ao poder faranico. Durante o
Segundo Perodo Intermedirio, Cuxe se desenvolve, ameaa o Alto Egito, e a
corte nbia de Querma acaba por aliar-se aos hicsos contra Tebas. Inclusive,
nessa poca, em que Cuxe recupera sua independncia e expande-se, com a
absoro de outros reinos nbios, a ponto de constituir um imprio a partir da
bacia do mdio Nilo, muitos escribas egpcios esto a servio do Estado
cuxita. Entretanto, com a expulso dos hicsos por Amsis e a consequente
instalao do Novo Imprio, inicia-se a retaliao egpcia, que culmina na
destruio de Querma e na submisso das outras chefias nbias a Tutms I.
Com Tutms III, o Estado egpcio atinge o auge de sua expanso imperial.
At sua morte, a Alta Nbia, da terceira  quarta catarata, lhe rendia tributo.
Mas nessa regio a ideia de independncia no parava de fermentar, com os
remanescentes de Querma procurando reorganizar-se livremente em outro
espao. E isso se d aps Ramss XI, quando, durante o perodo de anarquia
conhecido como Terceiro Perodo Intermedirio, o reino de Cuxe no s se faz
independente, como tambm exibe belicosidade e tentativas de
expansionismo. Durante esse perodo, entre 1078 e 945 a.C., uma expedio
cuxita chega at a atual Palestina e saqueia Jerusalm. Durante o reinado do
fara Xexonq I, sacerdotes de Amon, certamente nbios, expulsos de Tebas,
refugiam-se na cidade de Napata, que passa a ser o centro do seu poder. 
nessa poca, ento, que efetivamente se estrutura a civilizao cuxita, a qual,
gestada em Querma, projetando-se principalmente a partir de Meroe e
perdurando at a Era Crist, rivalizou com o Egito em riqueza, poder e
desenvolvimento cultural. Os faras cuxitas  No sculo VIII a.C., emerge em
Napata, capital cuxita do Estado nbio sucessor de Querma, uma dinastia de
cujo seio sairiam, sob inspirao e orientao dos sacerdotes de Amon, os
prximos faras do Egito. O primeiro rei conhecido dessa dinastia  Alara, que
assume o poder depois de derrotar um rival e entregar-se ao culto do deus
Amon. Em um governo de pelo menos 25 anos, Alara elevou a cidade de
Napata  condio de centro religioso de seu reino, quando se manifestava a
decadncia do poder faranico e o Egito era sucessivamente governado por
dinastias estrangeiras. No Delta, reinava Tefnact em oposio a Osorcon IV,
governante de Tebas.  nesse contexto de intensa disputa pelo poder que o
prncipe Cachta, soberano cuxita de Napata  membro de uma antiga famlia
nbia, descendente de antigos prncipes de Querma , orientado pelos
sacerdotes de Amon a tomar a coroa do Egito, ruma para Tebas, onde d
incio  XXV dinastia. A Cachta ope-se tenazmente Osorcon IV, que anuncia
a reunificao do Baixo Egito. Logo depois, o sobrinho de Cachta, Piye,
tambm orientado pelos sacerdotes de Amon, o sucede em Tebas e se bate
contra as tropas fiis ao cl de Osorcon, tornando-se vencedor em
Heraclepolis.  ento que se consolida o domnio de Cuxe sobre o Egito,
reinando os faras da XXV dinastia durante cerca de 85 anos, do Delta at
Cartum, em terras cuxitas e egpcias. Durante o reinado de Piye, a princesa
Amenirdis, filha de Cachta, vai para o delta na condio de esposa do deus
Amon em Tebas, gozando do status de rainha e deusa viva at sua morte,
quando  sucedida por Xepenupet, filha de Piye (Ver DIVINAS ADORADORAS ).
Aps derrotar Osorcon, Piye toma Mnfis e chega a Crocodilpolis, no Delta,
tornando-se, ento, senhor de todo o Egito. De volta a Napata, manda erigir,
no templo de Djebel Barcal, a estela (monumento em coluna) na qual se l
toda a sua saga. Entretanto, mal Piye retorna a Napata, Tefnact se rebela e
autoproclama-se fara, embora tenha apenas o domnio do Baixo Egito.
Depois de sua morte, por volta de 710 d.C.,  sucedido por seu filho Bocoris
ou Baquenrenef, o qual  vencido, torturado e queimado vivo pelas tropas de
Piye. A este clebre rei conquistador sucedem Xabaca, Xabataca ou Xebitcu,
sobrinho de Piye (em cujo reinado os assrios, sendo Ezequias rei de Jud,
tomam Jerusalm); depois sobe ao trono Taharca ou Taraca, filho de Piye e
sobrinho de Xabataca, por quem fora criado, em Mnfis. Ao invadirem o Egito,
porm, os assrios foram Taharca a deslocar o centro do poder para Napata.
A era de Napata  Com a morte de Taharca, em 664 a.C., Tanutamon,
sobrinho de Xabataca,  coroado em Napata e em Tebas, sendo, entretanto,
derrotado pelos assrios de Assaradon trs anos depois. Logo aps a
conquista de Piye, agora rei de Cuxe e fara do Egito, a capital do reino 
transferida de Querma para Napata. Derrotado pelos assrios, Tanutamon (ou
Tanvetamani) volta para Napata e, a partir da, Cuxe, embora sediando uma
dinastia que se queria ainda governante de parte do Egito faranico, comea a
desenvolver-se de forma autnoma, consolidando sua libertao da influncia
egpcia. O reino estava ento dividido em duas regies principais: ao norte, o
pas de Toquens, onde despontavam as cidades de Napata, Dongola, Pnubs e
Atabar, e, ao sul, o pas de Aloa, que ia alm de Cartum, at a plancie de
Sennar. Tanutamon morreu por volta de 655 a.C. Depois dele, reinaram em
Napata, ainda reivindicando o ttulo de faras, Atlanersa, Sencamanisquen,
Anlamani e Aspelta. Enquanto isso, em Sas, os prncipes locais aliam-se aos
conquistadores assrios e estabelecem seu poder em Assu, fronteira entre
Egito e Cuxe. Por vrias dcadas essas dinastias (a sata e a cuxita) ainda
disputaram o controle do Egito faranico. Os satas, no delta do Nilo, eram
considerados usurpadores e traidores, e os cuxitas, em Napata, eram vistos
como estrangeiros e intrusos.  nesse contexto que Aspelta assume o trono,
sucedendo a seu irmo Anlamani, continuando a usar o ttulo de fara e a se
intitular, numa prtica que remontava a Taharca, "rei do Alto e do Baixo Egito".
No segundo ano de seu reinado, Aspelta condenou  morte diversos
sacerdotes que cometeram o crime de manipulao do orculo de Amon, o
qual, segundo eles, teria determinado sua deposio e seu sacrifcio. No
reconhecendo a autenticidade dessa "ordem divina" e recusando-se a aceit-
la, o rei inverteu a situao, mandando executar os sacerdotes. No ano
seguinte, sua me e sua irm propiciaram, em regozijo, grandes oferendas ao
deus Amon. Aspelta foi talvez o ltimo rei de Cuxe a planejar ativamente a
reconquista do Egito. Seus planos, contudo, parecem ter sido descobertos, o
que motivou o ataque das tropas de Psamtico II a Napata, em 593 a.C. Os
egpcios defrontaram-se com os cuxitas na grande curva do Nilo, fazendo mais
de 4 mil prisioneiros. O exrcito de Psamtico, integrado tambm por
mercenrios gregos, avanou at o Djebel Barcal, arrasando templos e outros
edifcios, inclusive incendiando o palcio real. De volta, Psamtico II mandou
destruir tudo o que lembrasse os reis cuxitas no Egito, apagando seus nomes
das inscries e substituindo-os pelo seu prprio, o que, entretanto, no
conseguiu totalmente. Com sua capital arrasada e incendiada, Aspelta
refugiou-se em Meroe, que ento se tornou a sede do poder cuxita. Depois
dessa destruio de Napata, em 593 a.C., Aspelta reinou ainda por alguns
anos, construindo novo palcio e novos monumentos nas cercanias de Meroe.
A civilizao merotica  Com sua capital em Meroe, ainda mais para o sul,
no interior do atual Sudo, os cuxitas comearam a viver uma nova
experincia. Ento, uma nova civilizao, ainda mais brilhante, coerente com
sua antecessora, desabrochou. As pastagens s margens do Nilo, prximas 
sexta catarata, deram lugar a slidas construes de alvenaria, com palcios
e pirmides com estilo e dignidade prprios. Fora isso, como salienta Basil
Davidson, alm de ter sido um importante centro religioso durante o reinado
de Aspelta, entre os sculos III e II a.C., Meroe desenvolveu sua prpria
escrita alfabtica. Ainda segundo o autor, seu crescente progresso se deveu a
fatores estratgicos: Napata j tinha sido alvo de um ataque das tropas de
Psamtico II e deveria sofrer outros mais, enquanto Meroe era bem menos
vulnervel. Mais ainda: com a dessecao contnua do Saara, o deserto
avanava continuamente para o Nilo, as pastagens ao redor de Napata se
tornando cada vez menos prprias para alimentao dos rebanhos.
Finalmente, uma razo fundamental para a crescente superioridade de Meroe
em relao a Napata foi a introduo da metalurgia do ferro. Veja-se a que a
vitria militar dos assrios sobre o Egito se deu principalmente devido ao uso
de armas feitas desse metal, num momento em que os povos locais ainda se
serviam do bronze e do cobre em seus armamentos. Os cuxitas, ento, ao
adotarem essa tecnologia, verificaram tambm que o solo de Meroe, em
termos minerais, era muito mais rico que o de Napata. Meroe devia ter
tambm, na avaliao de Davidson, mais rvores e, consequentemente, mais
carvo. Assim, nos sculos que se seguiram, a nova capital tornou-se um
destacado centro utilizador e difusor da metalurgia do ferro, sendo
provavelmente o ncleo de onde essa tecnologia se expandiu para o sul e para
o corao do continente africano. Depois de Aspelta, reinaram em Meroe
cerca de 17 soberanos, at Amanibaqui. No governo deste, a cidade-Estado
de Meroe j se tinha tornado a sede do poderoso imprio cuxita, dominando
toda a Nbia. A conquista do Egito por Alexandre, em aproximadamente 332
a.C., atraiu para o reino de Cuxe e sua capital Meroe a ateno de todo o
mundo antigo: cordiais relaes diplomticas foram estabelecidas entre o
Egito ptolomaico e o reino, cujas fronteiras chegavam at a primeira catarata.
Devido a diversas inovaes, a chamada "poca merotica" se reveste de uma
importncia capital. A partir do perodo que se estende aproximadamente de
315 a 295 a.C., acentua-se a ruptura com o modelo egpcio. Os traos
culturais locais, efetivamente nbio-sudaneses, afirmam sua preponderncia,
sobretudo no plano religioso.  nesse contexto que ocorre o advento das
clebres "candaces", como ser visto adiante. Identidade nacional  O
advento da indstria do ferro em Meroe no foi, segundo Basil Davidson, a
nica razo da transferncia da capital dos cuxitas. O abandono de Napata
tambm foi motivado, segundo o historiador, pelo anseio coletivo de resgatar
os fundamentos da identidade nacional, mais presentes no novo centro do
poder. Embora muito do Egito tenha continuado a fazer parte da vida diria
dos cuxitas, havia um movimento para manter firmes as crenas e as ideias
locais. Comeando com o reinado de Nastasen, a civilizao merotica adquiriu
traos e caractersticas prprios cada vez mais ntidos. Os hierglifos
meroticos comearam a ser usados, seguidos de um alfabeto e de uma
escrita meroticos; os deuses de Meroe, e suas prprias formas de culto,
substituram os deuses egpcios; estilos novos e originais apareceram na
arquitetura, na cermica etc. Os poucos traos da cultura egpcia que
permaneceram se fizeram notar principalmente no cerimonial da corte e no
uso dos hierglifos nos tmulos reais. No reinado de Arquamani, o carneiro,
animal de grande importncia para os egpcios, foi suplantado por um deus
leo, jamais visto antes, e frequentemente mostrado com trs faces e quatro
braos. Da mesma forma, os cuxitas elevaram outro animal africano, o
elefante, a uma posio de grande importncia. Como os cartagineses, os
cuxitas usaram o elefante como demonstrao de fora blica e como
exibio do prestgio real. Muito mais que isso, entretanto, como lembra
Davidson, os cuxitas de Meroe desenvolveram amplos empreendimentos e
foram grandes comerciantes. Assim, navegaram para o norte at o Egito e
mantiveram seus prprios portos no mar Vermelho, via atravs da qual
comerciavam com a Arbia, a ndia e talvez at mesmo a China.
Exploradores, subiram o Nilo Branco at as atuais fronteiras de Uganda e
levaram sua influncia, na direo oeste, at a regio do lago Chade.
Mantiveram tambm vnculos com gregos e romanos. No sculo I a.C.,
quando os romanos conquistaram o Egito, Cuxe enviou embaixadores a Roma,
alm de receber dois centuries enviados por Nero, em busca de adeso
poltica. A Bblia faz referncia  converso de um eunuco  funcionrio de
uma das candaces de Meroe  ao cristianismo. Um Estado teocrtico  
poca de Napata, o reino de Cuxe constituiu o que os historiadores
denominam uma "teocracia amoniana", isto , os soberanos eram preparados
pelo clero do deus Amon ou Amen no templo do Djebel Barcal. Como
exemplo, veja-se que a iniciativa de conquista do Egito pelos cuxitas de
Napata foi atribuda a uma deciso de Amon, ou seja, foi encarada como uma
misso sagrada, por tratar-se de destituir do poder os lbios, ento senhores
do Egito  especialmente do Mdio e do Baixo Egito, desde 950 a.C. Mesmo
depois de Nastasen, quando se acentuou a ruptura com o modelo egpcio, os
soberanos ostentavam nomes evocativos da divindade, formados a partir do
nome de Amon, como Amenhotep, Amenemat, Thoth-Hotep etc. Observe-se
que o clero amoniano era o nico a admitir mulheres, como era o caso das
Divinas Adoradoras de Tebas e das Tocadoras de Sistro, em Cuxe.
Decorreram da as condies para o surgimento, mais tarde, das soberanas
conhecidas como candaces. Segundo Diodoro da Siclia, citado em Brissaud,
entre os cuxitas os sacerdotes ocupavam o primeiro lugar no Estado, tendo
inclusive o poder de ordenar ao rei que morresse, desde que assim o dissesse
o orculo  numa regra costumeira que subsistiu, no antigo Daom, at o
sculo XVIII da era crist. Ergamene ou Arquamani  tido como "esprito
culto", por ter estudado a filosofia e a literatura dos gregos , ao receber tal
ordem, resolveu contrari-la e acabar com a autoridade da casta sacerdotal.
Auxiliado por mercenrios gregos, marchou contra Napata, apoderou-se do
templo de Amon e matou todos os sacerdotes, instituindo um novo culto e
ampliando seu imprio. A esse soberano, sucederam, at o domnio romano,
cerca de mais oito reis e rainhas. Domnio romano e declnio  Em 29 a.C.,
Cornlio Galo, governador romano do Egito, assinou tratado com enviados do
rei de Meroe tornando a Baixa Nbia um protetorado romano. Mas os cuxitas
logo romperam o acordo, apoderando-se de Semna e outras cidades
prximas  segunda catarata. Por essa poca, provavelmente, outra linhagem
real, paralela  de Meroe, instalou-se em Napata. Nela relacionam-se sete
governantes. Entretanto, no incio da Era Crist, a civilizao merotica sofreu
um eclipse quase total. Esse declnio comea a se verificar por volta de 200
d.C., quando suas vitais rotas de comrcio, em direo ao norte e ao leste,
so obstrudas por novos rivais e inimigos, os ferozes nmades, blmios e
nobatas, das regies desrticas do outro lado do Nilo. Esses nmades
infiltram-se nos povoados de Meroe e, por volta de 300 d.C., tomam o poder.
Em 320, o ltimo rei de Cuxe, o 72 soberano de sua linhagem, estava morto.
Seu nome provvel era Malequereabar. Vrios anos aps sua morte, os
nmades infiltrados em Cuxe foram eles prprios atacados. O invasor era o
rei de Axum, chamado Ezana, o qual deixou para a posteridade em sua
capital, Axum, uma inscrio de valor nico, descrevendo sua invaso. Os
antigos nmades, que Ezana chamou de Nobas Vermelhos e Nobas Negros,
tentaram aliciar os embaixadores e mensageiros de Ezana a fim de que
trassem seu rei. Ento, para aplicar-lhes uma lio, Ezana marchou para o
norte em 330 d.C. e arrasou o que encontrou pela frente. Mas a civilizao
merotica, apesar de tudo, no desapareceu totalmente. Parte dela
prosseguiu com os nobas, que, ao adquirirem gosto pela vida urbana,
abandonaram suas tendas e se instalaram nas casas de alvenaria de Cuxe,
adotando costumes meroticos e dando origem, mais tarde, s civilizaes da
Nbia Crist.
                                   Tabela 1a
GOVERNANTES CUXITAS

                                  NBIA
POCA                 QUERMA                              NAPATA
                                  (VICE-REIS)

C.1850 A.C.           AUAUA

C.1650                NEDJEH

C.1585                ANTEF VII

C.1525                            TURI

C.1475                            NHI

C.1415                            MERIMS

C.1390                            UERSERSATET

C.1370                            TUTMS

C.1350                            HUY

C.1305                            AMENEMEPT

C.1290-1280                       HEQUANEQUETY

C.1280-1270                       EI

C.1270-1260                       MERSUUI

C.1260-1250                       SETI

C.1250-1240                       HORI I

C.1240-1230                       HORI II

C. 1230-1225                      UENTAUAT

C. 1225-1110                                    DESCONHECIDOS

C.1110-1070                       PANEHSI

1070-785

785-770                                                   ALARA

770-750                                                   CACHTA

750-712                                                   PEIE PINQUI

712-698                                                   XABACA

698-690                                                   XABATACA

690-664                                                   TAHARCA

664-653                                                   TANUTAMON

653-643                                                   ATLANERSA

643-623                                                   SENCAMANISQUEN

623-593                                                   ANLAMANI
593-568                     ASPELTA

                            AMTALQUA OU
568-555
                            ARAMATELCO

                            MALENAQUEM OU
555-542
                            MALONAQUEM

542-538                     ANALMAIE

538-519                     AMANI-NATAQUI-LEBTE

519-510                     CARCAMANI

510-487                     AMANI-ASTABARCA

487-468                     SIASPICA

468-463                     NASAQMA

463-435                     MALEUIEBAMNI

435-431                     TALACAMANI

431-405                     AMANI-NETE-IERIQUE

405-404                     BASCAQUEREN

404-369                     HARSIOTEF

369-350           DESCONHECIDOS

353-340                     AQRATAN

340-335                     AMANIBAQUI

335-315                     NASTASEN

                            AQTISANES  IRIQUE-
315-270
                            PIYE-CO-SABRACAMANI

270-260

260-250

250-235

235-218

218-200



170-150



130-110

120-100

100-90

90-50

50-40

40-10

35-20

20-12

12 A.C.-12 D.C.
1-20

20-30

30-40

40-50

50-62

62-85

85-90

90-114

114-134

134-140

NO CONHECIDA                                                       AMANIQUEDOLO

140-155

155-170

170-175

175-190

190-200

200-215

215-225

246-266

266-283

283-300

FONTES:   Brissaud (ver Bibliografia); www.geocities.com/mariamnephilemon/names/libya/kush




                                            Tabela 1b
GOVERNANTES CUXITAS                                                 EGITO

POCA                MEROE

C.1850 A.C.                                                         XII DIN.

C.1650                                                              XIV DIN.

C.1585                                                              HICSOS

C.1525                                                              AMENFIS I TUTMS I

C.1475                                                              TUTMS III  HATCHE- PSUT

C.1415                                                              XVIII DIN.

C.1390                                                              "

C.1370                                                              "
C.1350                                             "

C.1305                                             SETI I

C.1290-1280                                        RAMSS II

C.1280-1270                                        "

C.1270-1260                                        "

C.1260-1250                                        "

C.1250-1240                                        "

C.1240-1230                                        "

C. 1230-1225                                       "

C. 1225-1110                           DESCONHECIDOS

C.1110-1070                                        RAMSS X - XI

1070-785                                           XXI-XXII DIN.

785-770                                            XXIII DIN.

770-750                                            XXV DIN.

750-712                                            "

712-698                                            "

698-690                                            "

690-664                                            "

664-653                                            XXVI DIN.

653-643

643-623

623-593

               ASPELTA (DESTRUDA
               NAPATA, ASPELTA REINA
               EM MEROE,
593-568
               SUPONDO-SE
               QUE SEUS SUCESSORES
               TAMBM)1

568-555

555-542

542-538

538-519                                            DOMNIO PERSA

519-510

510-487

487-468

468-463

463-435

435-431

431-405                                            XVIII DIN.
405-404
404-369                                                      XXIX-XXX DIN.

369-350                                          DESCONHECIDOS

353-340                                                      DOMNIO PERSA

340-335

335-315                                                      DOMNIO GREGO

315-270

                  ARCAMANICO OU
270-260
                  ARCACAMANI

260-250           AMANISLO

250-235           AMANITEQUA

235-218           ARNECAMANI

218-200           ARCAMANI



170-150           XANAQDAQUETE

                  TABIRQUA

130-110           NAGRINSAN

120-100           TANIIDAMANI

100-90

90-50             NAUIDEMAQ

50-40             AMANICABALE

                  AMANIRENAS-AQUINIDA
40-10                                                        DOMNIO ROMANO
                   TERITECAS

35-20             AMANI-XAQUETE

20-12             AMANITARE

12 A.C.-12 D.C.   NETECAMANI (AO LADO DE AMANITARE)

                  ARICACATANI, ARICANCARER
1-20
                  NATACAMANI

20-30             XERCARER

30-40             PISACAR

40-50             AMANITARAQUIDE

50-62             AMANITENMEMIDE

62-85             AMANICATAXAN

85-90             TERITNITNIDE

90-114            TEQUERIDEAMANI I

114-134           TAMERLEDEAMANI

134-140           ADEQUETALI

NO CONHECIDA

140-155           TAQUIDEAMANI
155-170              TAREQUENIVAL
170-175              AMANICALICA

175-190              ARITENIESBEQUE

190-200              AMANICAREQUEREM

200-215              TERITEDACATEI

215-225              ARIESBEQUE

246-266              TEQUERIDEAMANI II

266-283              MALEQUEREABAR

283-300              IESBEQUEAMANI

FONTES:   Brissaud (ver Bibliografia); www.geocities.com/mariamnephilemon/names/libya/kush.




CUXE, Filho  Real de. Ttulo ostentado pelos governadores ou vice-reis da
Nbia ao tempo dos faras Tutms, Amenfis e Seti. Tambm "Prncipe de
Cuxe".
CUXITA. Referente ao antigo reino nbio de Cuxe, em especial  cultura
desenvolvida a partir dele, notadamente em Napata e Meroe. Segundo John
Baldwin, citado por Larkin Nascimento, os povos descritos nas escrituras
hebraicas como "de Cuxe" foram os civilizadores primordiais do sudoeste da
sia e, na mais remota Antiguidade, sua influncia estabeleceu-se em todas
as regies litorneas, do extremo leste ao extremo oeste do mundo antigo.
Em poca muito distante, segundo D. P. Pedrals, uma grande onda migratria
cuxita teria chegado at a Caldeia, entrando em estreito contato com os
hebreus, o que levou o historiador Tcito a afirmar que os judeus teriam
origem etope.
Notas

1
 Os sucessores de Aspelta so mencionados como governantes de Napata. Cf. Derek A. Welsby, in The
Kingdom of Kush: The Napatan and Meroitic Empires, Princeton, Nova Jersey, Markus Wiener Publishers,
1998.
DAFNE.  Cidade do antigo Egito, prxima a Pelusa, situada  margem da antiga
rota de comrcio entre o territrio egpcio e a Sria. Algumas tradies
referem como seu epnimo um irmo do conquistador Sesstris I, grande
fara que estendeu o poder egpcio at a sia Menor. Ver SENUSRET.
DAGBAMBA. Ver DAGOMBA.
DAGMAVI SABACA II. Soberano etope (c. 745-733 a.C.) da dinastia de Meneliq.
Ver XABACA.
DAGOMBA (DAGBAMBA). Povo do noroeste da moderna Gana e de parte do Togo
atual. Sua nao teria surgido, segundo a tradio, por volta do sculo XIII
d.C., sob a liderana do heri fundador Niagse, que conquistou povoaes
vizinhas, neutralizando suas lideranas religiosas e criando um Estado
chamado Dagbon, no contexto do imprio Mossi. No Dagbon, o poder era
conquistado por meio de escolha e, segundo Appyah e Gates, nenhum
indivduo podia ter poder maior do que o de seu pai. Durante o sculo XVII, os
dagombas, ainda empenhados em guerras de conquistas, viram seu poder
ameaado, tendo sido conquistados pelos axantis no sculo seguinte. Ver
UEDRAOGO.
DAMIANA. Mrtir nbia, filha do governador de uma provncia do Delta.
Convertida ao cristianismo, morreu em 284 d.C., ao tempo das perseguies
do imperador Diocleciano.
DNAOS. Personagem da mitologia grega, irmo gmeo de Egiptos.
DANAQUIL. Regio da Etipia, entre as montanhas litorneas da Eritreia e o
macio etope. Nome do povo que nela habita, possivelmente descendente de
antigos egpcios e tambm denominado Afar.
DAOM. Antigo pas do oeste africano, em terras da atual Repblica do Benin.
As origens das antigas unidades polticas locais, estabelecidas entre os
sculos XII e XIII, vm principalmente dos ancestrais dos povos falantes da
lngua eve ou fongb e seus dialetos. Esses povos migraram do oeste, da
regio de Tad, no moderno Togo, e entre eles contam-se os povos Adj, Fon
ou Agadj, Hued ou Pop, fixados na metade sul do atual Benin, onde, na
moderna fronteira nigeriana, alguns se mesclaram com os iorubs. Esses
povos deram origem s cidades-Estado de Arad (Allad ou Ardra) e Abom,
e um subgrupo dos fons, os mahis, fixou-se no norte. Nessa regio, as
tradies dizem, segundo Pachkov, que os fundadores das povoaes locais
foram cavaleiros vindos do leste, da atual Nigria, exibindo cicatrizes na face
esquerda, usando chapus largos e armados com sabres e dardos. Outros
relatos tradicionais do os povos falantes do eve como originrios de Oi, de
onde migraram at o litoral do moderno Togo e as margens do rio Volta. J
Arad ou Allad, que os europeus, chegados no fim do sculo XV,
denominaram Grande Ardra, foi fundada sob a liderana de Dobagrigenu.
DARFUR. Provncia do oeste da atual Repblica do Sudo. Em tempos remotos,
os povos que habitavam a regio mantinham estreitas relaes com as
populaes do vale do Nilo, suas caravanas tendo atingido a regio
provavelmente por volta de 2500 a.C.; por volta de 2300 a.C., seu territrio
teria sido alcanado por uma das clebres expedies de Harcufe. Segundo
alguns historiadores, a regio teria abrigado a elite governante de Meroe,
acossada pelos ataques dos Nobas, ao sul, e dos blmios, ao norte, por volta
do ano 300 d.C. Na atualidade, o Darfur concentra populaes seguidoras de
religies tradicionais que se contrapem ao islamismo dominante.
DEIR-EL-MEDINA. Nome rabe de vila egpcia localizada prximo a Tebas.
Principalmente durante o Novo Imprio, foi local de moradia dos escultores e
escribas que trabalhavam no Vale dos Reis, apresentando por isso um ndice
surpreendentemente alto de pessoas letradas em sua populao. Segundo
McDowell, no Novo Imprio, apenas entre 1% e 2% da populao egpcia
sabia ler e escrever, mas em Deir-el-Medina a maioria dos homens detinha
esse conhecimento. Registros escritos dessa comunidade do conta de que
se tratava de gente excepcionalmente bem instruda, que utilizava sistema de
alfabetizao e materiais de escrita diferentes dos empregados nas demais
cidades egpcias. Embora no haja conhecimento de estabelecimentos
formalmente dedicados ao ensino, sabe-se que l familiares mais velhos
supervisionavam a educao dos jovens e, em algumas ocasies, os
encaminhavam a mestres, em busca de educao mais avanada.
DELFOS. Cidade da Grcia antiga, aos ps do monte Parnaso. Foi fundada,
segundo Obenga, por volta do ano 500 a.C. por um negro africano. Consoante
o mesmo Obenga, uma antiga moeda grega reproduz a cabea desse negro
que, segundo alguns, seria a figura mitolgica de Delfos, filho de Poseidon e
da ninfa Melanto ou Melnia, dita "a Negra". A cabea era a mesma de uma
esttua gigantesca outrora erguida na estrada que levava a Delfos. Ver MITOS E
LENDAS.
DELTA. Esturio martimo ou lacustre de um rio, no qual este, por fora de
depsitos sedimentares, de aluvio, tem seu curso multiplicado em vrios
braos, formando o desenho aproximado de um tringulo. O delta do Nilo, no
Mediterrneo,  importante regio do ponto de vista histrico, assim como os
deltas do Nger, um no Atlntico e outro interno, em regio lacustre do atual
Mali.
DEMTICA. Denominao grega da escrita simplificada, derivada da hiertica,
criada para uso das camadas populares egpcias a partir do sculo VII a.C.
Por extenso, a linguagem desse perodo. Ver ESCRITA.
DEN. Fara egpcio da I dinastia,  poca arcaica ou tinita. Desenvolveu uma
poltica externa voltada para o Oriente Prximo e conduziu os negcios
internos com firmeza. Foi o primeiro governante a intitular-se rei do Alto e do
Baixo Egito.
DENDERA. Cidade egpcia dedicada ao culto da deusa Tfenis ou Hathor. Uma
das cidades mais antigas do Egito faranico, foi a capital do sexto nomo do
Alto Egito e a necrpole do Antigo Imprio. O nome, segundo Daumas, deriva
do egpcio Tentyris, significando "pertencente  Deusa".
DIDRUFI. Ver DJEDEFR.
DINASTIA. Srie de soberanos de uma mesma famlia ou linhagem que se
sucedem no governo de um reino ou Estado.
DINASTIA ETOPE. Expresso costumeiramente usada para designar a XXV
dinastia de faras do Egito, constituda por uma linhagem real de Cuxe.
Segundo Baines e Mlek, o meio sculo de efetivo governo dessa dinastia, de
grande progresso e desenvolvimento econmico, produziu tantos monumentos
no Alto Egito quanto todo o sculo anterior, propiciando um renascimento
artstico digno de nota. Ver CUXE  Os faras cuxitas; EGITO  O Egito cuxita.
DINASTIAS EGPCIAS. Cronologia. Em sua obra Black Atenna, Martin Bernal lista,
para as dataes do Egito faranico, at a XX dinastia, seis cronologias: as
de J.H. Breated e E. Meyer, publicadas em 1907; a do Cambridge Ancient
History; a de W. Helck, de 1971; e a de J. Melaart, de 1979, alm de uma
proposta por ele mesmo. Por outro lado, Molefi K. Asante (2000), apresenta
novas datas. Nesta obra, feitas as devidas aproximaes e adaptaes,
adotamos as cronologias mais recentes, estabelecidas por Asante e por
Baines e Mlek, esta bastante detalhada e esclarecedora, principalmente nos
perodos confusos e obscuros, chamados "intermedirios". Seguem-se, na
histria do Egito dinstico, o segundo domnio persa, a conquista macednia e
o perodo ptolomaico (c. 323-30 a.C.), quando o Egito  governado pela
dinastia macednica dos Lgidas. Ver tabela em EGITO.
DIVINAS ADORADORAS. Sacerdotisas do culto de Amon, soberanas espirituais do
Egito, esposas do deus e foradas ao celibato. Dentre as que passaram 
Histria, incluem-se: Chepenupet I, filha de Osorcon II; Amenirdis I, filha de
Cachta e irm de Piye; Chepenupet II, filha de Piye; Amenirdis II, filha de
Taharca; e Chepenupet III, filha de Psamtico I.
DJEBEL BARCAL. Regio montanhosa no atual Sudo, prxima  quarta catarata
do rio Nilo. Seu conjunto de montanhas, consagrado ao deus Amon,  referido
como "o Olimpo dos nbios". Djebel  vocbulo da lngua rabe que significa
"cadeia de montanhas".
DJED. Objeto sagrado egpcio, amuleto que reproduz espcie de pilar de
mesmo nome, erguido em honra aos deuses Ptah e Osris.
DJEDEFR (DIDRUFI). Segundo fara egpcio da IV dinastia. Sucessor de
Senefuru, foi o primeiro a usar o ttulo de "filho do sol".
DJEDEMONIUFANQ. Prncipe do nomo egpcio de Mendes, ao tempo do fara
Piye.
DJEDCAR ISESI. Penltimo fara egpcio da V dinastia. Antecessor de Unas,
promoveu o recenseamento da populao e dos rebanhos e construiu seu
complexo funerrio em Sacar, mais perto de Mnfis, rompendo com a
tradio dos sepultamentos em Abusir.
DJEDCAURE. Um dos ttulos do fara cuxita Xabataca.
DJEHEUTY. Ver THOTH.
DJEHUTIMS. Uma das transliteraes do nome Tutms.
DJENN-DJENO.    Antiga cidade no delta interno do rio Nger, cerca de 3 km ao
sul da atual Djenn, no Mali. Atingindo seu apogeu aps a chegada do Isl, j
no sculo III d.C., entretanto, era habitada por uma populao que trabalhava
o ferro e dedicava-se ao comrcio. Por volta de 450 d.C., viu erguer-se em
seu territrio uma monumental cidade murada e urbanizada. Seu nome, que
em lngua songai significava "Djenn, a antiga", estaria, segundo alguns
autores, na raiz do topnimo Guin.
DJER. Segundo fara egpcio da I dinastia. Desenvolveu significativa poltica
externa; organizou expedies  Lbia,  Nbia e  regio do Sinai; deu
continuidade  organizao econmica e religiosa do pas, iniciada por
Narmer.
DJESER. Ver DJOSER.
DJIBUTI. Pas litorneo no "chifre" da frica, limtrofe com a Eritreia, Etipia e
Somlia. Desde que as primeiras populaes humanas migraram para fora da
frica, a rea onde  hoje o pas tornou-se porta de entrada para o Oriente
Mdio, atravs do Bab-el-Mandeb. Na contracorrente, tempos depois, a
regio serviu de entrada para falantes de lnguas asiticas que teriam levado
para o continente africano inovaes como o pastoralismo nmade, at hoje
meio de vida de muitos habitantes de Djibuti.
DJOSER (DJESER, DSOJER, GEZER, ZOSER). Fara da III dinastia egpcia. Soberano
respeitado por sua sabedoria e piedade, teve como orientador e conselheiro o
clebre sbio, mdico e arquiteto Imhotep. Celebrizou-se pela construo da
primeira pirmide em degraus da Antiguidade, concebida por Imhotep, o qual,
diante de uma seca que assolava o pas havia sete anos, aconselhou-o a
oferecer sacrifcios a Qhnum, deus da ilha de Elefantina. Com o resultado
positivo das oferendas, o fara promoveu a prosperidade da regio, numa
pioneira obra colonizadora. Data tambm de seu reinado a transferncia da
capital do Egito faranico de Tebas, muito afastada do delta, para Mnfis.
Sua efgie, conforme esttua existente no Museu do Cairo, apesar da
destruio do nariz, faz entrever ainda um rosto de aparncia negro-africana,
com lbios grossos e zigomas proeminentes. Essa aparncia  mencionada
em legenda de ilustrao estampada mencionada na revista Correio da
Unesco (n10, 1979, p. 26), editada no Rio de Janeiro. Segundo Petrie, citado
por Ki-Zerbo, toda a sua dinastia era de origem nbia.
DJUL CARA NAINI. Na tradio mandinga, nome que designa Alexandre, o Grande
(356-323 a.C.), sempre lembrado em comparao com o rei heri Sundiata,
que, vivendo posteriormente, no sculo XIII d.C., o teria ultrapassado em
bravura e herosmo conquistador. Em fulni o nome de Alexandre  traduzido
como Julcarnaina, que significa "aquele que tem dois chifres" (cf. F.W. Taylor,
1995). Essa relao confirma a Antiguidade dos povos mands e peles,
contemporneos da saga de Alexandre. Ver MANDS; PELES.
DODECAXENE. Nome grego da regio nbia compreendida entre Assu e
Takompso.  poca do fara Djoser, todos os agricultores dessa regio
deveriam entregar suas colheitas aos celeiros do deus local, Qhnum, em
oferenda propiciatria e de agradecimento pelas cheias do Nilo. O templo de
Qhnum era a sede do nomo de Elefantina.
DOGBAGRIGENU (DOGBAGRI). Lder do povo Adj, fundador da aldeia de Allad,
ncleo inicial do antigo Daom, entre os sculos XII e XIII d.C. Ver DAOM.
DOGON. Povo da frica Ocidental. Segundo alguns cientistas, so detentores
de conhecimentos, principalmente sobre matemtica e astronomia,
provavelmente herdados da tradio cientfica dos antigos egpcios. Povo
muito antigo, consoante algumas tradies, viveu originalmente no territrio do
assim chamado Egito, mas migrou para a Lbia e depois para a atual
Mauritnia, at fixar-se no Mali, na regio do Bandiagara. Conforme Obenga,
possuem um saber, parcialmente esotrico e muito elaborado, sobre a origem
da humanidade. Seus conhecimentos de astronomia baseiam-se
principalmente na observao da estrela Srius. Como lembra Ki-Zerbo, o
grafismo usado pelos dogons para representar o homem antepassado  o
mesmo que os antigos egpcios usavam para representar o ka, a essncia
espiritual do indivduo; e os apoios para nuca colocados sob as cabeas de
seus mortos so do mesmo tipo dos que eram usados no mobilirio fnebre
do antigo Egito.
DONATISMO. Cisma da Igreja Catlica no norte da frica, irrompido em 311 d.C.
sob a liderana de Donato, o Grande, bispo de Cartago, a partir do ano 315 e
mantendo-se por cerca de um sculo.
DONGOLA. Capital da Nbia, mais tarde reino autnomo. No sculo VII d.C.
suas fronteiras estendiam-se de Assu at a fronteira do reino de Aloa, ao sul
da quinta catarata.
DOUDOUN.   Ver DUDUM.
DRVIDAS. Antigo povo habitante do Dec e de outras regies da sia
Meridional, tido como de remota origem africana. Herdoto, o clebre
historiador grego, afirmou que existiam duas grandes "naes etopes", uma
na frica e outra em Sind, regio correspondente aos atuais territrios de
ndia e Paquisto. Corroborando essa informao, o clebre relato do viajante
veneziano Marco Polo (1254-1323) j noticiava que os indianos de
determinada regio representavam suas divindades como negras e os
demnios com uma alvura de neve, afirmando que seus deuses e santos eram
pretos. No sculo X a.C. os drvidas foram expulsos para o sul pelos rios.
Ver AFRICANOS NA SIA.
DSOJER. Ver DJOSER.
DUAS SENHORAS, As. Expresso pela qual so referidas, nos textos egpcios, a
deusa abutre Neqhbet e a deusa serpente Wadjet, que representam
respectivamente o Alto e o Baixo Egito.
DUAUF. Sbio egpcio (c. 1350 a.C.). Segundo M. K. Asante, a filosofia de
Duauf est ligada aos protocolos da vida em sociedade. Assim, ele ressaltou
 juventude a importncia da leitura, pelo que pode ser considerado o primeiro
intelectual da histria da filosofia. Deu um testemunho importante sobre a
nfase conferida ao estudo na Antiguidade africana. Ensinou que a leitura era
o melhor meio de treinar a mente e revelar o segredo das coisas ocultas.
DUDUM (DOUDOUN). Deus nbio que fornecia aos faras mortos o incenso com
que eles deviam perfumar e propiciar os outros deuses. Foi cultuado pelo
fara Senusret III.
EBEDE-MELEQUE.    Eunuco etope, servo da corte faranica, provavelmente de
Psamtico I. Segundo a Bblia, salvou o profeta Jeremias (c. 640-587 a.C.) de
morrer afogado em uma cisterna. O profeta passou os ltimos anos de sua
vida no Egito, onde faleceu.
ECOLOGIA. Ver PTAH-HOTEP.
EDO. Povo da atual Nigria. Segundo Asante e Abarry, os edos, assim como
os axantis, entre os anos 500 e 1500 d.C., desenvolviam a construo de
tneis subterrneos ligando algumas de suas aldeias. Ver BENIN.
EFRAIM. Segundo filho do patriarca hebreu Jos com sua mulher Azenate,
nascido no Egito, segundo o Gnesis (41,52).
EGPCIO. Denominao sob a qual se renem no domnio lingustico tanto o
idioma falado no Egito faranico quanto a lngua copta (cf. Obenga, 1973).
EGPCIOS, Etnicidade     dos. Da mesma forma que escritores de outrora
tentaram negar as origens negras dos antigos egpcios, a fim de desacreditar
o papel civilizatrio da frica Profunda, hoje, conforme Asante e Abarry,
quanto mais o Egito faranico  visto como uma sociedade relevante para a
civilizao, mais suas origens so disputadas pela hegemonia europeia. Em
outras partes desta obra procuramos mostrar como  apesar de historiadores
revisionistas do sculo XV ao XIX, perodo do comrcio escravo europeu,
tentarem desacreditar os africanos e atribuir todas as conquistas africanas 
presena de genes europeus  a frica, bero da Humanidade, teve um
desenvolvimento cultural endgeno e especfico; e como o Egito pr-dinstico
foi caudatrio, atravs das guas do Nilo, de influxos civilizadores brotados no
interior do continente. No se pretende afirmar com isso, como tambm
advertem os autores citados, que no houvesse pessoas brancas no antigo
Egito, como as h, hoje, por exemplo, na Nigria ou no Qunia. Mesmo
porque o pas foi, durante toda a Antiguidade, uma perfeita encruzilhada entre
o Mediterrneo, a sia Menor, o Saara e a frica Profunda, sendo territrio
por onde passaram e onde se fixaram seres humanos de diversas
procedncias e aparncias. Entretanto, j antes de Herdoto, que afirmou a
fenotipia negroide dos egpcios que conheceu, Em seu livro Physiognomonica,
Aristteles, citado por Asante e Abarry, escreveu: "Os que so
excessivamente negros so covardes, e isto se aplica aos egpcios e
etopes." Segundo Cheikh Anta Diop, os egpcios pr-faranicos eram
efetivamente negros. Fazendo coro com esse grande sbio senegals,
Thophile Obenga garante que a constituio fenotpica dos antigos egpcios
no sofreu modificaes fundamentais do neoltico at a poca histrica: o
tipo primitivo, inicial, pr-dinstico, encontra-se igualmente no perodo
dinstico; e isso significa que governantes e povos de uma nica e mesma
origem negra foram responsveis por toda a pujante civilizao faranica.
      Contudo, os estudiosos continuam a divergir muito sobre o
estabelecimento da realidade fenotpica dos antigos egpcios. Conforme
argumenta Martin Bernal, o racismo europeu do sculo XIX sustentava que o
negro era biologicamente incapaz de civilizao. Ento, com relao ao Egito,
incomodamente colocado no continente africano, s cabia adotar as seguintes
alternativas: ou negar que muitos dentre os egpcios fossem negros; ou negar
que eles tivessem de fato construdo uma civilizao; ou ainda lanar dvida
sobre ambas as proposies. A que "raa", ento, pertenciam os egpcios?,
pergunta Bernal, para responder que desde pelo menos o quinto milnio a.C. a
populao egpcia incorporou elementos da frica Profunda, do sudoeste
asitico e do Mediterrneo. Entretanto, quanto mais para o sul e para o alto
do Nilo se caminhava, mais a populao ficava escura e de aparncia
tipicamente negra. A civilizao egpcia foi, ento, fundamentalmente africana
e os elementos negroides mostraram-se mais fortes no Antigo e no Mdio
Imprio, antes da invaso dos hicsos. Muitas das mais poderosas dinastias
egpcias tinham sua base no Alto Egito, sendo que a I, a XI, a XII e a XVIII
eram constitudas por faras que, segundo Bernal, podemos considerar
efetivamente negros. O mesmo Bernal chama ateno para os vrios critrios
usados, ao longo dos sculos, para descrever e representar a populao
egpcia: Herdoto os via como negros de cabelos "lanosos", crespos, e
difundiu a ideia de que havia duas "naes etopes", uma no Egito e outra em
Zind, na ndia.
      Observemos que o nome gipsy (de egiptian) aplicado aos povos escuros
do noroeste da ndia no sculo XV parte desse mesmo ponto de vista. No
incio do sculo XVIII, o aumento do respeito pelos egpcios, em meio ao
racismo crescente motivado pelo escravismo africano, contribuiu para
"embranquec-los", aproximando-o do universo caucasoide. Para tanto, como
aduz Bernal, parece ter sido fundamental a influncia da maonaria, a qual, na
poca, defendendo o conceito de que todos os humanos so "irmos", fez
questo de separar os aristocrticos egpcios (teosofistas, portadores do
grande saber, formuladores dos textos hermticos) da massa tida como
brbara e selvagem dos africanos fetichistas e polidemonistas, esses, sim,
"negros". Mas houve reaes a esse embranquecimento e  exaltao dos
egpcios como portadores de alto saber filosfico. Elas vieram de pensadores
cristos, j que a viso de um Egito precursor do monotesmo ameaava o
monoplio ariano-semtico sobre a hegemonia religiosa mundial. Considerando
todos esses argumentos, conclumos citando a legenda de uma gravura
estampada na revista Correio da Unesco (n 10-11, p. 26; ver bibliografia, em
"Olderogge"), segundo a qual "traos negroides so frequentemente
encontrados em efgies egpcias de indivduos de todas as classes sociais,
at nas de faras como Ramss III, Qhafra (Quefrm), Djoser e Thutms III".
Veja-se, finalmente, que os 98% de "rabes egpcios" que, segundo as
estatsticas oficiais, compem a populao do Egito moderno, alm do 1% de
"rabes bedunos" contra 1% de nbios (cf. Almanaque Abril), so
obviamente fruto do estabelecimento, na regio, de grandes contingentes
chegados da pennsula Arbica a partir da conquista islmica. Admita-se,
ento, que, na Antiguidade, o elemento local, oriundo do sul e do oeste,
mesmo mestiado a mediterrneos, mesopotmicos e outros extratos
populacionais, era predominante. E observem-se, a ttulo de comparao, as
estatsticas sobre a populao brasileira, em que a presena negro-africana,
para no falar na amerndia, chegou a 65% em 1850 e foi-se diluindo na
populao geral, conforme recenseamentos seguintes. Ver TETI (OTHOES).
EGIPTO-NBIO. Forma pela qual Thophile Obenga expressa a origem comum
de egpcios e nbios, numa relao de ancestralidade destes sobre aqueles.
O contexto cultural egpcio estende-se de Dongola ao Delta, de Cartum a
Tnis; segundo Cheikh Anta Diop, os ancestrais dos quemitas (antigos
egpcios) viveram originalmente na Nbia, provavelmente em Qustul. Ainda
conforme Diop, os nbios, i.e., os povos cuxitas, usaram a escrita dois sculos
antes dos egpcios; e  na Nbia que se encontram os animais representados
na escrita hieroglfica. Ainda segundo Diop, citado em Obenga (1973), todas
as vezes que a nao egpcia foi ameaada por uma invaso de populaes
"leucodermas" provenientes da sia ou da Europa pelo Mediterrneo; todas
as vezes que tais invases desorganizaram momentaneamente a vida
nacional, a salvao, ou seja, a reconquista do poder poltico sobre o invasor
estrangeiro, a reunificao e o renascimento nacional foram sempre obra das
dinastias negras, legtimas, nascidas no sul. Isso s no ocorreu sob
Psamtico I, quando descendentes dos povos indo-europeus, humilhados sob
Meneptah e depois Ramss III, dedicara-se, a partir do Delta, onde se
concentraram, a vencer e destruir o Egito, o que culminou no domnio persa,
solidamente estabelecido. De acordo com informao de Obenga, os egpcios
orientavam-se de frente para o sul, "terra de seus ancestrais". Tambm
destacando essa relao de ancestralidade, o historiador grego Diodoro da
Siclia, citado em Obenga, escreveu que, entre os egpcios, a divinizao dos
soberanos, os cuidados tomados com os funerais e muitos outros ritos eram
instituies nbias. Da mesma forma, o sentido ligado s figuras esculpidas e
o tipo de escrita utilizada pelos egpcios  poca seriam igualmente legados
nbios. E isso na mesma medida que os colgios sacerdotais eram
semelhantes, e os rituais de purificao dos que se consagravam ao servio
dos deuses eram os mesmos. Ainda segundo Diodoro da Siclia, os nbios
mencionavam a Antiguidade de sua "raa" e o contingente de seu povo
migrado, em vagas sucessivas, em direo ao delta do Nilo desde tempos
imemoriais. Segundo o arquelogo Herman Junker, tambm citado em
Obenga (1973), "as populaes pr-histricas do Egito e da Nbia
representam as duas partes de uma nica `raa' que tinha a mesma cultura e
que s se separou mais tarde, por conta de uma mudana nas condies de
vida". Assim, primitivamente, a Nbia e o Egito constituam, como conjunto
tnico e cultural, uma nica e mesma entidade, um s ambiente ou regio,
como atestaram Herdoto, Diodoro da Siclia, Estrabo e outros autores
gregos. Ver CHAMPOLLION; EGPCIOS, Etnicidade dos; QUSTUL.
EGIPTOS (AIGYPTOS). Na mitologia grega, heri epnimo do Egito, irmo gmeo
de Dnaos, rei legendrio de Argos. Em algumas tradies, segundo Luke,
so descritos como negros. Martin Bernal liga o nome Dnaos por meio da
raiz dan, presente no ingls danish, dinamarqus,  tese da antiga presena
negra na Escandinvia.
EGITO. Na Antiguidade, pas limitado ao norte pelo mar Mediterrneo, ao sul e
sudeste por Nbia e Etipia, a leste pelo mar Vermelho e a oeste pelo deserto
da Lbia, referido como Mizraim em hebraico e Quemet na lngua verncula. O
nome "Egito" provm, segundo Hart, do grego Aigyptos, por meio da
expresso egpcia Hewet-ka-Ptah, "manso do esprito de Ptah", que
designava o templo desse deus em Mnfis. Resumo histrico  Por volta de
3000 a.C., duas unidades polticas, uma com seu ncleo no delta do Nilo,
outra no curso superior do rio, estendendo-se, na direo sul, at a atual
regio de Assu, foram unificadas sob a autoridade do lder Narmer ou
Mens. Com ele, iniciou-se, segundo classificao organizada pelo historiador
Mneton, uma srie de trinta dinastias governantes. As dez primeiras dinastias
costumam ser agrupadas no que se denominou Antigo Imprio; da XI  XVI,
tem-se o Mdio Imprio. A partir provavelmente da segunda metade do sculo
XVI a.C., os egpcios organizara o Novo Imprio, no qual, tendo as atuais
Palestina e Sria como provncias e disputando poder com outros adversrios
asiticos, alm de enfrentar foras vindas do oeste e do sul, o poderio
faranico caminhou para a decadncia e a submisso final, ocorrida em 30
a.C., com o domnio romano. Perodo pr-dinstico  Os primeiros grupos
humanos que povoaram o vale do Nilo, entre a catarata de Semna e o
Mediterrneo, segundo Champollion-Figeac (citado por Anta Diop), teriam
vindo da Abissnia ou do Senaar, abaixo de Cartum. O cientista francs
ratificava essa afirmao dizendo que os antigos egpcios pertenciam a um
tipo humano em tudo semelhante aos kennous e aos barabras, habitantes da
Nbia; e que, ao seu tempo, encontravam-se entre os coptas egpcios traos
caractersticos da populao do Egito antigo. J segundo Murdock, citado em
Merlo e Vidaud, uma civilizao neoltica negra, formada no vale do Mdio
Nger, tendo se fundido com elementos vindos do Oriente Prximo,  que teria
dado origem  civilizao do Egito pr-dinstico. Outro ramo dessa civilizao
teria se embrenhado na floresta, para, sculos mais tarde, emigrar e dar
origem ao povoamento banto da frica Equatorial e Meridional.
       Segundo Laffont, a civilizao neoltica egpcia  essencialmente africana
e niltica. Nela, os cls de caadores-pescadores tornados agricultores se
reagrupavam atrs dos chefes, sob o signo de animais com os quais eles
faziam alianas e que talvez considerassem ancestrais e protetores. A
organizao e a religio seriam, ento, provavelmente emprestadas  frica
Profunda, como diria mais tarde Diodoro da Siclia, citado em Laffont. No dizer
de Anta Diop, o corao do continente africano, notadamente a Nbia e a
Etipia, foi sempre considerado pelos egpcios a terra sagrada de onde
tinham vindo seus ancestrais. Acredita-se, ento, que as primeiras culturas
florescidas no Egito nasceram provavelmente no sexto milnio a.C., s
margens do rio Nilo, principalmente como consequncia da desertificao da
regio do Saara, quando grupos de coletores e caadores nmades ali se
estabeleceram, para usufruir os benefcios das cheias peridicas do grande
rio. No vale do Nilo, essa populao valorizou uma terra virgem, inventando um
novo modo de vida e uma nova religio. Mas, como acentua Laffont, no se
tratou apenas do nascimento da agricultura, mas de um qudruplo nascimento:
da terra mas tambm de homens, tcnicas e religio. No Egito pr-dinstico,
anterior a 3400 a.C., as unidades polticas, germes dos futuros nomos ou
provncias, eram independentes entre si, seus lderes exercendo funes de
soberanos, juzes e chefes militares. Nesse contexto, a infiltrao de asiticos,
principalmente no delta, gerou uma fase de grande instabilidade. Do ponto de
vista da religio, aspecto poltico fundamental, na medida em que grupos
menores ou mais frgeis eram por outros assimilados, deuses tambm se
sobrepunham a outros deuses. Mas no caso de divindades comuns a uns e
outros povos  e as havia  essa circunstncia propiciou importantes alianas.
Originrias de Taour, antigo nome de Tinis, as duas primeiras dinastias
egpcias duraram aproximadamente de 3400 a 3000 a.C., perodo
fundamental, no qual as bases da cultura faranica foram estabelecidas,
verificando-se provavelmente nessa poca o nascimento da escrita. Por volta
de 3200 a.C., lngua, religio, escrita, calendrio, organizao poltica etc.
tinham deixado de ser projeto e comeado de fato. O desenvolvimento dessas
culturas foi fruto de obstinado esforo feito por povo e governantes para
dominar as enchentes do rio, tornando-o propcio em meio  desertificao
progressiva das regies circundantes. O Estado centralizado que mais tarde
se criou ali e que durou at o ltimo milnio antes do advento da Era Crist foi
uma das bases da chamada civilizao ocidental. O contexto africano 
Segundo Brissaud, durante os perodos arqueolgicos amraciano e badariano,
o Egito e a regio depois conhecida como Nbia, que hoje integra a Repblica
do Sudo, eram habitados pelo mesmo tipo de povo e conheciam as mesmas
culturas. Pouco a pouco, entretanto, ocorreu um afastamento das duas
regies: o desenvolvimento da Nbia se retardou e o Egito pr-dinstico, sob
as diferentes influncias recebidas do Saara, a oeste, e do interior africano,
ao sul, comeou a experimentar importante surto civilizador. Segundo algumas
tradies, os primeiros dinastas egpcios foram originrios do pas de Punt, na
atual Somlia. Para Diodoro da Siclia, entretanto, a civilizao egpcia teria se
originado de uma civilizao mais antiga, com ncleo no pas de Cuxe ou
Nbia. Diz-se, inclusive, que antes da primeira dinastia sete reis tinham
governado um povo nativo adorador do deus Seth. A tradio copta fala de
reis antediluvianos, como Aram, filho de Adam, e Gancam, fundador do
palcio de Djebel-el-Kmar ("Monte da Lua", denominao que alguns julgam
referir-se ao monte Qunia), no corao da frica tropical. Os antigos
egpcios mencionavam a existncia, para alm de suas fronteiras, de nomos
nbios: Setcher, Quen Setcher, Arthet, Tcham, Aman, Ouaouat, Kaou,
Tathem, os cinco ltimos correspondendo a "pases povoados por negros".
Ainda segundo Diodoro da Siclia, todo ano, em Tebas, a esttua de Amon-R
era transportada para fora da cidade, em direo ao sul, retornando ao fim de
quatro dias, como se o deus voltasse da Etipia. A histria do Egito, ento,
desde as origens se revela no como a de um reino homogneo, mas sim
como a de dois pases  um, mediterrneo, do delta e de Mnfis; e outro de
Tebas, aberto sobre a "frica Profunda". Para alm de suas fronteiras
meridionais, os antigos egpcios distinguiam diversas regies, designadas sob
os nomes de terra de Sti e pas de Cuxe; alm do pas de Punt e a Abissnia
ou Etipia. Os habitantes do pas de Sti e de Cuxe foram interlocutores e
parceiros, desempenhando importante papel na histria do Egito. Segundo
Herdoto, citado em Pedrals, o Egito teve, entre seus 333 faras, 18
soberanos nbios ou etopes.
      A projeo da influncia do Egito at o sul realizou-se seguindo, como
linha normal, o curso do rio Nilo at suas nascentes. A partir dessa linha,
estendeu-se at o oeste, estabelecendo-se rotas comerciais definidas pelo
Cordofo e pelo Darfur, atravessando a parte do Sudo central pelo Chade
at o Sudo Oriental. Esse contato dos antigos egpcios com a frica
Profunda dava-se quase que exclusivamente atravs do vale do Nilo. Eles
tambm navegavam pelo mar Vermelho, mas, em suma, a grande divisria
entre o mundo egpcio e o mundo nbio era Assu, onde a ilha de File,
chamada Elefantina pelos gregos, marcava o limite tradicional entre as duas
civilizaes. Alguns desses contatos eram comerciais, como as expedies de
Harcufe, muito provavelmente at o Darfur, por volta do terceiro milnio antes
da Era Crist. Houve, em seguida, contnuas expedies ao sul: a Nbia era a
terra do ouro e ao Egito interessava, primordialmente, ter  sua disposio
essa fonte de riqueza de que necessitava, tanto do ponto de vista econmico
quanto esttico. Do ponto de vista militar, as inmeras campanhas egpcias
redundaram na construo de fortalezas ao longo do Nilo, at prximo 
regio de Dongola. Em toda essa regio verificou-se um notvel intercmbio
entre nbios e egpcios, com trocas contnuas, de toda ordem, a tal ponto
que, entre os sculos VIII e VII a.C., o Egito foi governado por uma dinastia
cuxita, a XXV, de faras inquestionavelmente negros. Se ento os egpcios
iam at a Nbia, num dado momento os nbios incursionaram tambm at o
Egito, para govern-lo. Do ponto de vista religioso, as trocas tambm foram
significativas. O templo de Abu Simbel, por exemplo, localizava-se
efetivamente em territrio nbio, hoje pertencente ao moderno Egito. Mais ao
sul, por todos os lugares, achavam-se templos e fortificaes. E isso
notadamente em Napata, a primeira grande capital do reino de Cuxe. Toda
essa regio foi dominada pelos egpcios; mas um s corpo cultural unia os
dois pases, sua cultura manifestando-se em expresses ao mesmo tempo
egpcias e cuxitas, vivas at o advento da Era Crist. A convivncia dessas
duas realidades deveu-se naturalmente ao fato de que os egpcios, desde os
tempos mais remotos, compartilharam o patrimnio comum africano, fazendo
parte de um todo cultural que unia o vale do Nilo  regio do lago Chade.
Segundo Asante e Abarry, "no  possvel ter uma apreciao completa das
origens das tradies intelectuais africanas sem que se faa uma conexo
entre o Egito e as naturais relaes que mantinha com as sociedades vizinhas
a ele". Como mostra Obenga (1973), entre o Egito faranico e a chamada
"frica Negra" anterior  colonizao europeia, os elementos culturais
revelveis so to numerosos, to variados, to pertinentes e de tal natureza
que no podem se reportar a uma nica comunidade de origem.
       No Egito e na frica Profunda desenvolveram-se, de maneira intrnseca,
costumes idnticos: sistema matrilinear; rito de circunciso; concepo da
criao dos seres com base em algo preexistente (saliva, ovo csmico,
palavra, pensamento etc.); colgios de iniciados e iniciadores; identificao do
iniciador com os deuses da comunidade alde; uso de barba sacramental
postia; uso da pele de pantera pelos sacerdotes oficiantes; cerimnias e ritos
reais, realizados por ocasio da morte do soberano; aleitamento do rei; lendas
e dramas agrrios semelhantes; identidade de signos grficos (como nas
escritas merotica e demtica, nos hierglifos egpcios e nos grafemas negro-
africanos); identidade de sistemas matemticos (numerao decimal,
multiplicao baseada na duplicao) etc. Do ponto de vista lingustico, um
nico "manto" se estende sobre esse universo construdo pelos negros de
outrora. Por tudo isso, como enfatiza Martin Bernal, a civilizao egpcia foi
fundamentalmente negro-africana, com o elemento definidor dessa
caracterstica sendo mais acentuado antes da invaso dos hicsos. Bernal
afirma seu pleno convencimento de que as mais poderosas dinastias
baseadas no Alto Egito, ou seja, a I, a XI, a XII e a XVIII, eram integradas por
faras que hoje poderamos considerar negros. A Unificao  A tradio
faranica egpcia inclui entre os primeiros governantes do pas soberanos que
carregavam como ttulo o nome "Hrus", sendo assim tidos como divindades
representantes de vrios aspectos desse importante deus. Aps esses  que
surgiria o primeiro fara efetivamente humano, Narmer. Certo  que, antes do
advento desse primeiro fara, o Egito viveu perodos de grande instabilidade e
turbulncia, por conta de divergncias religiosas entre os diversos cls e
tribos, cada qual com suas divindades. Por volta de 3400 a.C., os cls do sul,
do chamado Alto Egito, uniram-se em torno de um mesmo rei, na cidade
chamada pelos gregos de Hieracmpolis, enquanto os povos do delta do Nilo,
no Baixo Egito, uniam-se em torno de outro soberano. Os dois reinos, cujos
soberanos se distinguiam pelo uso de uma alta coroa branca, no sul, e
vermelha, no delta, foram unificados por iniciativa de Mens ou Narmer 
indiscutivelmente negro, segundo Anta Diop , o qual unificou o Alto e o Baixo
Egito, estabeleceu a capital do reino em Tinis e iniciou a I dinastia. Assim, a
fundao do Estado egpcio remonta ao incio do sculo IV a.C., sob o
reinado de Mens, fara que reuniu, sob uma dupla coroa (a vermelha do
norte, consagrada ao deus-falco Hrus, e a branca do sul, consagrada ao
deus-abutre Seth), pequenos reinos ou nomos. Esse perodo tinita da histria
do antigo Egito cobre os reinados da primeira e da segunda dinastias. Mas
aps Mens, transferida a capital para Mnfis, insatisfaes voltariam a se
manifestar. O Antigo Imprio  Djoser, segundo fara da III dinastia,
transfere a capital de Tinis, no Alto Egito, distante mais de 500 km, para
Mnfis, na regio do delta, a menos de 35 km da atual cidade do Cairo. A
partir da, o antigo Egito viveu sua fase mais prspera, com a consolidao do
poder religioso, o aprimoramento da mquina administrativa, a difuso da
escrita hieroglfica etc. Por conta da fertilidade da terra, que garantia
subsistncia e prosperidade, e da prevalncia da religio, o Antigo Imprio
egpcio no contava com um exrcito permanente. A inexistncia de uma fora
repressiva organizada fez-se ento sentir quando a populao comeou a se
rebelar contra a hereditariedade dos cargos pblicos e os altos tributos
cobrados pela administrao faranica. Durante os perodos cobertos pela III
 VI dinastia, alguns nomarcas, governadores dos nomos ou provncias,
rebelaram-se contra o governo central e deram origem a pequenos Estados
independentes. Veja-se tambm que, at c. 2700 a.C., o pas permaneceu
relativamente isolado. As incurses contra os bedunos do Sinai e a conquista
das minas de cobre e pedras preciosas dessa regio, por volta de 2000 a.C.,
comearam a romper esse isolamento. Na contracorrente, o territrio egpcio
comea a ser tambm objeto de infiltraes por parte de outros povos. Nesse
momento, os faras da VII e da VIII dinastia governam a partir de Mnfis,
como sucessores naturais de Pepi II, mas em meio a graves perturbaes.
       O sucesso das expedies comerciais e militares aprofundara as
divises no interior da sociedade egpcia, o que deu causa a revolta, rebelies
e consequente fragmentao do poder, com lutas civis e disputas entre
prncipes e nomarcas. Segundo o historiador Mneton, os governantes da VII
dinastia, em nmero de 70, teriam reinado, cada um, apenas um dia  o que
pode, entretanto, ser um nmero meramente simblico ou irnico. Os da VIII,
consoante a mesma fonte, teriam sido 25, governando um total de 25 anos.
Segundo Cheikh Anta Diop, dataria do Antigo Imprio, com as infiltraes de
povos caucasoides do Levante, o incio do processo de transformao das
caractersticas fsicas da populao egpcia, acentuada, ao longo dos
sculos, pelas invases de persas, gregos e romanos. Primeiro Perodo
Intermedirio  Por esse tempo, ento, o Egito viveu momentos de grande
instabilidade, com o poder central extremamente enfraquecido pelas disputas
entre autoridades locais. Tais fatos acabaram por lanar o pas na bancarrota
e na anarquia por mais de um sculo, durante a poca histrica conhecida
como Primeiro Perodo Intermedirio, em que, inclusive, a capital foi
transferida de Mnfis para a cidade de Het-Nen-Nesut, chamada pelos gregos
de Heraclepolis. Em meio a essa turbulncia, quando provavelmente outras
dinastias procuraram se estabelecer, registrou-se a morte de um governante,
mencionado como cruel e sanguinrio, devorado por um crocodilo  registro
que, entretanto, pode encerrar apenas uma referncia simblica. Na
sequncia dos acontecimentos, Antef, Intef ou Inyotef I derrota Anqtify,
monarca de Nequen (Hieracmpolis), sobrepe-se ao primeiro Mentuhotep,
funda a 11 dinastia e se proclama "rei do Alto e do Baixo Egito e filho de Ra",
governando de Coptos a Dendera. Nesse contexto, enquanto os soberanos de
Heraclepolis debatem-se em condies difceis, os nomarcas de Tebas, os
Antef, afirmam seu poder.  assim que Intef II combate Quety III e conquista
Abidos. Seguem-se Intef III, filho de Intef II com a rainha Iah  pertencente 
XI dinastia, portanto , o qual toma Hermpolis e Heraclepolis, ocupando o
Mdio Egito, impondo-se como fara e dando incio a um novo ciclo de
governo. Mdio Imprio  Aps Intef II, o fara Nebhetepre Mentuhotep ou
Mentuhotep II governou todo o Egito por cerca de 50 anos. Sua vitria sobre o
nomarca de Assiut, capital do XIII nomo do Alto Egito, e outros inimigos deu
margem a que pudesse substituir outros nomarcas por aliados seus.
Prosseguindo na luta contra Heraclepolis, consolidou seu governo e sua corte
em Tebas, no Alto Egito, a cerca de 700 km do delta, fortalecendo o cargo de
vizir, responsvel pelo funcionamento e pela coeso das administraes
provinciais, muitas vezes antagnicas. Com Mentuhotep II, ento, restabelece-
se a unidade do reino. Da, por mais de 250 anos, o Egito se destaca por seu
progresso no campo tecnolgico, aprimorando seus canais de irrigao e
construindo a grande represa conhecida como lago Moeris ou Faium; por seus
avanos na explorao aurfera e tambm por suas incurses comerciais,
principalmente em direo ao Mediterrneo, e por suas investidas
expansionistas. Mentuhotep II, detentor do poder absoluto, ocupando
Heraclepolis, Hermpolis e todo o Mdio Egito, participa pessoalmente de
uma campanha militar na Nbia.
      No campo religioso, por essa poca, os soberanos expandem o culto de
Amon, at ento divindade local de Tebas. Na sucesso desses eventos,
Mentuhotep III, embora subindo ao trono j idoso e reinando por poucos anos,
continuou a poltica do antecessor e empreendeu, inclusive, uma expedio ao
pas de Punt, falecendo, entretanto, antes de concluir seu monumento
funerrio. Com sua morte, assumiu o poder Mentuhotep IV, que reinou por
cerca de dez anos. Em meio a provvel instabilidade civil, seu vizir assumiu o
governo, com o nome de Amenemat I, dando incio  XII dinastia.
Consolidando-se fortemente no poder, esse Amenemat, por razes
estratgicas, transfere a capital para Ithat Taoui, atual Licht, entre Mnfis e o
Faium. Essa regio tinha-se tornado a mais frtil do reino graas a trabalhos
de irrigao realmente notveis (com eclusa e barragem de reteno). No
plano interno, os nomarcas so devolvidos s suas funes administrativas,
como agentes do poder real. Nota-se, segundo Laffont, uma tendncia 
igualdade religiosa, com uma certa diminuio do poder arbitrrio da casta
sacerdotal. Por outro lado, pessoas do povo comeam a ser admitidas ao
servio pblico, como funcionrias do Estado.
      No plano externo, veja-se que desde o declnio de Mnfis, sob os faras
da IX dinastia, o pas de Cuxe j tinha se libertado da tutela egpcia.
Entretanto, com o Egito reunificado, Amenemat I expande o poder faranico
em direo ao sul. Assim, a partir dele, durante cerca de 500 anos as terras
do sul, at o centro do atual Sudo e conhecidas a partir da Idade Mdia
como Nbia, permanecem sob domnio egpcio, governadas por um vice-rei,
louvado como o "filho real de Cuxe" ou "chefe dos pases do ouro de Amon".
As relaes entre o Egito e o pas de Cuxe dependiam de um trajeto fluvial de
cerca de 800 km, no sendo fceis, portanto. Na zona das corredeiras que se
estendia por cerca de 100 km ao redor da segunda catarata, na regio
conhecida como Batn el-Hagar, eram frequentes as emboscadas preparadas
por bandos nmades do deserto. Mas mesmo assim o poder faranico se
manteve na Nbia. Depois de 20 anos de governo, Amenemat I associou ao
trono seu filho Senusret (Sesstris) I, instituindo a prtica da corregncia e
garantindo a tranquilidade de sua sucesso, num costume que perdurou
durante toda a XII dinastia. O corregente comandava as expedies militares
e as atividades que envolviam mais fora fsica, sendo assim considerado o
"cajado" em que, na velhice, o fara se apoiava.
       Amenemat I e seu sucessor realizaram grandes obras, entre elas o
templo de Amon em Carnac. E, quando o primeiro foi assassinado, Senusret I
puniu os culpados e assumiu o trono, num reinado longo, pacfico e prspero,
como o de seus sucessores Amenemat II e Senusret II. Este ltimo realizou
importantes obras de controle e aproveitamento das guas do Nilo e do lago
Moris (Qarun). Subindo ao poder, Senusret ou Sesstris III teve que fazer
grande esforo para manter sob controle as chefias regionais. Para tanto,
tomou enrgicas medidas administrativas, e assim conseguiu levar grande
prosperidade ao Egito, realizando um governo que se tornou legendrio. No
plano externo, durante a XII dinastia, foram construdas 14 fortalezas desde a
ilha de Elefantina a jusante da primeira catarata at Semna, e a jusante da
segunda, na regio hoje inundada pela barragem de Assu. Foi em Semna,
verdadeira praa forte natural, que Senusret (Sesstris) III fez erigir a famosa
estela que marcava a fronteira meridional do Egito, a qual, segundo Laffont,
proibia "todo negro de ultrapass-la, pelas guas ou pela terra". Essa
afirmao (referente a uma poca em que a fenotipia das pessoas, ao que se
sabe, no era determinante de valor) encontra reparo em Jean Vercoutter,
segundo o qual no era por serem negros que povos meridionais, como os
nehsis, eram proibidos de entrar no Egito, e sim por serem senhores de
importantes riquezas naturais, com que abasteciam os egpcios, e, por isso,
potencialmente perigosos. A prosperidade e a paz estabeleceram-se
primeiramente na regio depois conhecida como Baixa Nbia, mas o "pas de
Cuxe" ainda resistiu algum tempo at tornar-se efetivamente uma colnia
egpcia. Quanto  regio de Dongola, tornou-se objeto primordial da
explorao econmica, no s pelas ricas minas de ouro como tambm pela
extrao de incenso, bano, marfim e peles de animais. Com Amenemat III, a
prosperidade se manteve. Ento o Egito empreendeu um bem-sucedido
programa de ocupao da regio do Sinai, para explorao de minas de cobre
e pedras preciosas. Depois desse fara, a XII dinastia teve mais dois
governantes: Amenemat IV e Sobeqnefru ou Neferusobeq, filha de Amenemat
III  dos quais, entretanto, no se conhecem as realizaes, nem os fatos que
motivaram o fim de seus reinados, nem mesmo seus rostos. Na sequncia, o
perodo coberto pela XIII e XIV dinastias marca uma nova era de
instabilidade, repetindo-se a crise de autoridade e a disperso do poder,
motivada por disputas dinsticas, ocorrida  poca da VII e VIII dinastias. At
que o pas  subjugado pelos invasores hicsos, vindos da sia e
estabelecendo o centro de seu poder em Avaris, antiga capital no delta.
Segundo Perodo Intermedirio  Durante essa poca nebulosa, ocorre uma
rebelio popular de grandes propores, que se estende por todo o pas e
instaura a anarquia. Aproveitando-se disso, a confederao de povos
conhecida como "hicsos", vinda da sia, domina o pas por cerca de 150
anos. Essa poca turbulenta inicia-se provavelmente com a morte de
Sobeqnefru ou Neferusobeq, terminando com a tomada do poder por Amsis
ou Ahms, que inicia o Novo Imprio. A sucessora legtima da XII dinastia  a
XIII, que comea com Intef IV e vai at Amenemat VI. Mas ela s governa
num primeiro momento. Ento, novamente o Egito se divide em dois centros
de deciso, com as dinastias hicsas governando em Xois (XIV) e depois
Avaris (XV e XVI), e outra, autctone, a XVII, governando em Tebas. Essa
dinastia, fundada por Neferthotep III, teria nascido de um ramo tebano da XIII.
Por esse tempo, na capital do pas de Cuxe, Nedjeh, aliado aos hicsos, tomou
o poder, instalou sua capital em Buhen e reinou de Elefantina  segunda
catarata, at a conquista de Buhen por Cams ou Camsis por volta de 1570
a.C. Ainda em Cuxe (Querma), a Nedjeh sucedeu Antef VII, contemporneo
do hicso Appi ou Apfis I, referido como o rei hicso que mais assimilou as
tradies e a cultura egpcias. Sob Appi, os reis cuxitas de Querma e os
faras hicsos de Avaris entram em luta aberta contra Tebas, ento governada
pelo fara Taa ou Tao, o Velho, casado com a poderosa rainha Tetixeri. Esse
fara  sucedido por seu filho Sequenenr ou Tao II, que prossegue na luta
contra os hicsos, continuada por seu filho e sucessor e finalmente vencida por
seu outro filho, Amsis, que expulsa os hicsos e d incio  XVIII dinastia e ao
Novo Imprio. Esse domnio estrangeiro, entretanto, desperta nos egpcios
sentimentos nativistas e belicosos.  tambm nesse momento que os hebreus
entram no Egito, chegando um dos seus, Jos,  alta condio de vizir ou
primeiro-ministro. Mas os prncipes de Tebas se organizam e, com Amsis,
cerca de duzentos anos aps a grande invaso estrangeira batem e expulsam
os invasores. O Novo Imprio e o pas de Cuxe  Por volta de 1560 a.C., o
domnio hicso abrangia apenas a regio do Delta: a parte central do pas at
Assu permanecia sob o domnio do fara Cams; e o soberano de Cuxe,
com capital em Querma, mantinha seu poder sobre toda a regio ao sul de
Assu. Destacada por Bernal como uma dinastia de faras oriundos do Alto
Nilo, a XVIII dinastia ento se inicia. Assumindo o trono ainda menino, com
cerca de 10 anos de idade, sob a tutela da av, Tetisheri, e da me, a rainha
Ahhotep, Amsis ou Ahms resiste aos invasores hicsos at finalmente
conseguir expuls-los. Expulsos os invasores, o jovem fara empreende a
reconquista da Nbia e conclui um acordo comercial e militar com Creta,
abrindo o Egito para o mundo grego. A dinastia se instala efetivamente com o
casamento de Amsis ou Ahms com sua irm, a princesa cuxita Nefertari,
filha de Nower Afi, o "senhor das cataratas", a qual se torna rainha, com o
nome de Ahms-Nefertari, sendo a primeira a ostentar o ttulo de "esposa
divina".
      A principal caracterstica do reinado de Amsis e da dinastia que iniciou
foi a consagrao de Amon como um deus do Estado egpcio, alm do papel
preponderante das mulheres na conduo do governo, das conquistas na
Nbia e da presena militar na sia. Mas o crescimento do poder religioso
contrapunha o poder dos sacerdotes de Tebas ao poder civil sediado em
Mnfis, o que mais tarde seria causa de graves acontecimentos, como adiante
se ver. Com a morte de Amsis, sua esposa-irm assegura o trono para o
filho Amenhotep I, que reina continuando a obra do pai. Esse primeiro
Amenhotep ou Amenfis nomeia para a Nbia um vice-rei, Turi, mantido no
cargo at o reinado seguinte. A morte de Amenhotep I, entretanto, gerou um
problema: seu sucessor, Thutms I, por ser filho ilegtimo, no tinha direito ao
trono, mas conseguiu chegar ao poder supremo por meio do casamento com
uma meia-irm, filha legtima de seu falecido pai. Em seu reinado, por
intermdio de bem organizadas aes militares, ampliou seus domnios, para
o sul, at a quarta catarata; e, para o norte, at o rio Eufrates. Tanto que a
Sria e a Palestina integraram o imprio egpcio, pagando tributo ao fara, e
suas elites enviando os filhos para estudar no Egito. Quanto  Nbia,
administrada por um vice-rei ao sul, at a quarta catarata, em seu territrio,
Tutms I, em expedio contra os nehsis, tambm referidos como
"trogloditas", chega at alm da terceira catarata e interdita o acesso  regio
de Dongola, onde se concentravam as maiores riquezas aurferas. Essa
ocupao afeta profundamente os costumes locais, empobrecendo-a
econmica e culturalmente, restando apenas bolses de nvel de vida mais
elevado em algumas regies vizinhas aos grandes centros, como em Bouhen.
       Com Tutms II, os egpcios chegam at a Alta Nbia para reconquistar
Cuxe; e no governo seguinte, a rainha Hatchepsut, por intermdio do vice-rei
Nhi, dirige o pas pacificamente. As expedies egpcias a Cuxe agora so
espordicas, apenas para sufocar ocasionais revoltas. Depois de Nhi, os
vice-reis Uersersatet e Merimes conseguem manter tudo sob controle, mesmo
durante governos dbeis como o de Amenhotep III e apesar do dessecamento
progressivo da regio nbia. Veja-se agora que, assumindo o trono de um
pas dividido entre o poder civil e o religioso e enfraquecido por disputas entre
autoridades provinciais, Amenhotep IV funda um novo culto, o do deus Aton,
adotando o nome Aquenaton e provocando forte reao dos sacerdotes de
Amon, o que acaba desencadeando uma crise que culmina em novas e
profundas transformaes. Morto Aquenaton, reina Semencar ou Nefertite, e
depois seu filho Tutancamon, o qual, embora mais ocupado com o restaurado
culto a Amon, leva o Egito  retomada de sua trajetria expansionista, agora
dirigida especialmente para o sul, para as terras de Cuxe. Em seus poucos
anos de reinado, com o apoio do vice-rei Hui, Tutancamon constri vrios
templos na Nbia. Com sua morte e aps o curto reinado de A, sobe ao
poder em Mnfis o general Horemheb, comandante dos exrcitos que se torna
fara. E ento, ao mesmo tempo que as elites cuxitas se egipcianizam, as
egpcias vo assimilando, por intermdio dos servidores predominantes na
administrao e nos corpos policiais, valores e costumes oriundos da Nbia
ancestral.
       No reinado de Seti I, o pas de Cuxe  governado pelo vice-rei
Amenemept, que revitaliza a atividade de explorao aurfera, a qual ser o
ponto forte do reinado seguinte, com Ramss II. Sob esse fara, Cuxe v
erguerem-se ou conclurem-se seis templos, entre eles o de Abu Simbel, alm
de abrirem-se poos para melhorar o abastecimento de gua. Com Ramss
II, o Egito reencontra seu antigo poder. Mas depois de sua morte, o imprio,
debilitado pela guerra contra os hititas e acossado pelos chamados "povos do
mar", inimigos vindos do leste do Mediterrneo e da sia Menor, comea a
perder suas colnias e a experimentar novo perodo de turbulncia e
desagregao. Os sucessores de Ramss II, o qual reinou mais de 60 anos,
foram responsveis   exceo de Ramss III  pela decadncia e pela
anarquia que se instaurou, com vrios chefes locais se confrontando na
disputa pelo trono de fara. Aps o dcimo primeiro Ramss, Cuxe torna-se
independente (Ver CUXE). Terceiro Perodo Intermedirio  Chega-se, ento,
 poca compreendida aproximadamente entre os reinados da XXI e da XXXI
dinastias, conhecida como "Terceiro Perodo Intermedirio". Nela, novos
distrbios, motivados pelo enfraquecimento poltico e pela luta de classes,
comeam a ocorrer, estabelecendo-se dinastias paralelas, de fa-ras no norte
e de grandes sacerdotes em Tebas. Entre a XXI e a XXV dinastias, o governo
central do Egito faranico cede  fragmentao poltica, com lbios e nbios
conquistando importncia cada vez maior no controle do Estado, dividido em
vrias unidades autnomas.
       Com a morte de Ramss XI, Smendes assume o poder, fortalecendo-se
por meio do casamento com a filha do soberano falecido e transferindo a
capital de Pi-Ramss para Tnis, no delta. Mas  nesse momento que o poder
de Tnis se v confrontado pelos militares e altos sacerdotes amonianos de
Tebas. Assim, enquanto no Baixo Egito reinava uma linhagem de faras ligada
a Ramss, na Tebaida sucedem-se outros, apoiados por "divinas adoradoras".
Tambm no fim do perodo dos Ramss, Cuxe separa-se, agora
definitivamente, do Egito, formando um reino independente. Isso motiva os
cuxitas a se organizarem melhor e, em seu expansionismo, conquistar o Egito.
O Egito cuxita  Por volta de 760 a.C., Cachta, soberano cuxita de Napata,
apoiado por sacerdotes de Amon, toma Tebas e d incio  XXV dinastia
faranica. A ele sucedem-se, como faras, Piye, Xabaca, Xabataka, Taharca
e Tanutamon. Visto como o maior dos soberanos da XXV dinastia, Taharca 
o nico rei cuxita citado nominalmente na Bblia, s vezes como "Tiraca".
Xabaca, por sua vez, foi reconhecido pelos egpcios como um regenerador
das instituies tradicionais, garantindo, com seu poder, a independncia do
Egito ante os invasores asiticos. Sob Tanutamon, o Egito  acossado e
tomado pelos assrios de Assaradon, sendo o poder cuxita banido para o sul.
Mas a lembrana dessa linhagem de reis nbios, algumas vezes referida como
"dinastia etope", de traos fsicos perfeitamente negroides, mostrados nos
monumentos que a arqueologia descobriu, parece ter ficado entre os antigos
egpcios como a de um tempo de paz e prosperidade. E isso  atestado em
Draper (2008), onde se l: "Os faras negros reunificaram um Egito
fragmentado e marcaram sua paisagem com monumentos gloriosos, criando
um imprio que se estendia desde a divisa meridional, na atual Cartum,
seguindo na direo norte, at o Mediterrneo. Eram poderosos o bastante
para enfrentar os sanguinolentos assrios, e talvez com isso tenham salvado a
cidade de Jerusalm." Domnio greco-romano  De 332 a 30 a.C., o Egito
permanece sob domnio grego: Alexandre Magno o entrega a um de seus
generais, Ptolomeu. Da em diante, at 395 d.C., ano da morte do imperador
Teodsio, o pas permanece sob domnio de Roma, associando-se  Sria em
determinado momento histrico. Cheikh Anta Diop observa que na
Antiguidade, enquanto sumrios, acdios e outros povos produziam
cermicas, vasos, afrescos e essencialmente bens materiais, o Egito produzia
um monumental conjunto de obras, nos campos tico, espiritual e moral,
consistente o bas-tante para ser considerado Filosofia. Assim, durante a
poca faranica, essa civilizao clssica africana no teve rival. Foi a cultura
seminal do perodo, e todas as outras civilizaes do seu tempo viam o Egito
como o auge das conquistas humanas.


EGITO FARANICO

PERODO                    DINASTIA       CAPITAL-JURISDIO

PR-DINSTICO TARDIO

DINSTICO PRIMITIVO        I

                           II

                           III

ANTIGO IMPRIO             IV

                           V

                           VI

1 PERODO INTERMEDIRIO   VII-VIII

                           XI (1 FASE)   TEBAS  TEBAS

MDIO IMPRIO              XI (2 FASE)   TEBAS  TODO O EGITO

                           XII

                           XIII

                           XIV

                           XV (FARAS
2 PERODO INTERMEDIRIO
                           HICSOS)

                           XVI

                           XVII           TEBAS
IMPRIO NOVO                   XVIII

                               XIX

                               XX

3 PERODO INTERMEDIRIO       XXI

                               XXII                  BUBASTIS

                                                     TEBAS, HERMPOLIS, HERACLEPOLIS, LEONTPOLIS E
                               XXIII
                                                     TANIS

                               XXIV                  SAS

                               XXV (NBIA  1
                                                     NBIA E REGIO DE TEBAS
                               FASE)

PERODO TARDIO                 XXV (2 FASE)         NBIA E TODO O EGITO

                               XXVI                  664-525 (A PARTIR DAQUI TODAS AS DATAS SO EXATAS)

PERODO TARDIO (1 DOM.
                               XXVII
PERSA)

                               XXVIII

                               XXIX

                               XXX

PERODO TARDIO (2 DOM.
PERSA)

OBS.: Cronologia baseada na datao proposta em Asante (2000), sendo, dentro dela, adaptados e
aproximados os perodos de governo informados em Baines e Mlek. As datas superpostas numa
mesma dinastia indicam corregncias. A superposio de dinastias indica governo em regies
diferentes do pas.




EGITO FARANICO

                POCA
PERODO                     GOVERNANTES
                (APROX.)

PR-DINSTICO
                            ZEQUEN; NARMER
TARDIO

DINSTICO
                3500-2980   MENS (3500-); DJER; UADJI; DEN; ADJIB; SEMERQUET; CAA (-2980)
PRIMITIVO

                            HETEPSEQUEMUI (2980-); NEBR; NINETJER; UADJI; SENED; SEQUEMID; CASEQUEMUI
                2980-2685
                            (-2685)

                            SANAQHT/NEBCA (2685-2680); NETJERIQUET/DSOJER (2680-2650); SEQUEMKHET
                2685-2615
                            (2650-2640); CABA (2640-2635); HUNI (2635-2615)

ANTIGO                      SENEFURU (2615-2610); CUFU (2610-2580); DJEDEFR (2580-2570); CAFR (2570-?);
                2615-2495
IMPRIO                     MENCAUR (2535-2515); CHEPSESCAF (-? 2495)

                            USERCAF (2495-2485); SAHUR (2485-2475); NEFERIRCAR (2475-2465); XEPSESCAR
                2495-2345   (2475-2465); NEFEREFR (2465-2455); NIUSERR (2455-2425); DJEDCAR ISESI (2425-
                            2385); UNAS (2385-2345)

                            TETI (2345-2325); USERCARE (?); PEPI I (2325-2275); MERENR (2275-2265); PEPI II
                2345-2180
                            (2265-2200); MERENR (2200); NITCRIS NETIQUERTI (2200-2180)
1 PERODO
              2180-2135   VRIOS GOVERNOS EFMEROS, ENTRE OS QUAIS O DE NEFERCARE
INTERMEDIRIO

              2135-2065   MENTUHOTEP I (2135-?); ANTEF I (-2120); ANTEF II (2120-2070); ANTEF III (2070-2065)

                          MENTUHOTEP II (2065-2015); MENTUHOTEP III (2015-2000); MENTUHOTEP IV (2000-
MDIO IMPRIO 2065-1990
                          1990)

                          AMENEMAT I (1990-1960); SENUSRET I (1970-1925); AMENEMAT II (1930-1890);
              1990-1785   SENUSRET II (1900-1880); SENUSRET III (1880-1840); AMENEMAT III (1845-1800);
                          AMENEMAT IV (1805-1790); NEFERUSOBEQ (1790-1785)

                          REINARAM CERCA DE 70 FARAS, EM CURTSSIMOS PERODOS DE GOVERNO. OS MAIS
                          CONHECIDOS, CF. BAINES E MLEK, FORAM: AMENEMAT V; HETEPIBRE; AMENIQUEMAU;
              1785-
                          SEBECOTEP (C. 1750); HOR; AMENEMAT VI; SEBECOTEP II; USERCARE; SEBECOTEP III
              c.1635
                          (C. 1745); NEFERHOTEP (1740-1730); SEBECOTEP IV (1730-1720); AIA (1704-1690);
                          DJEDANQRE; DJEDENEFERRE; NEFERHOTEP III

                          FARAS DE MENOR IMPORTNCIA, PROVAVELMENTE CONTEMPORNEOS DA XIII OU DA
                          XV DINASTIAS

2 PERODO
              1640-1535   SALITIS; XEXI; CAIAN; APFIS (1585-1545); CAMUDI (1545-1535)
INTERMEDIRIO

                          SOBERANOS HICSOS DE POUCA IMPORTNCIA, CONTEMPORNEOS DA XV DINASTIA

                          REINARAM NUMEROSOS FARAS, SENDO OS PRINCIPAIS OS SEGUINTES: ANTEF V
              1640-1550   (1640-1635); SEBEQUEMSAF I;NEBIREIERAU;SEBENQUEMSAF II; TAO I; TAO II; CAMS
                          (1555-1550)

                          AMSIS (1550-1525); AMENHOTEP I (1525-1505); TUTMS I (1505-1495); TUTMS II (1495-
                          1480); TUTMS III (1480-1425); HATCHEPSUT (1475-1460); AMENHOTEP II; TUTMS IV;
              1550-1320
                          AMENHOTEP III (1390-1355); AQUENATON (1355-1335); SEMENCAR (1335-1333);
                          TUTANCAMON (1333-1325); A (1325-1320); HOREMHEB (1320-1310)

                          RAMSS I (1310-1305); SETI I (1305-1290); RAMSS II (1290-1225); MENEFT (1225-1215);
              1310-1195   SETI II (1215-1205); AMENEMSS (USURPADOR, DURANTE O REINADO DE SETI II);
                          SIPTAH (1205-1200); TAUSERET (1200-1195)

                          SEQNACT (C. 1195); RAMSS III (1195-1165); RAMSS IV (1165-1155); RAMSS V (1155-
              1195-1070   1150); RAMSS VI (1150-1135); RAMSS VII (1145-1135); RAMSS VIII (1135-1130);
                          RAMSS IX (1130-1115); RAMSS X (1115-1100); RAMSS XI (1100-1070)

                          SMENDES (1070-1045); AMENEMNESU (1045-1040); PSUSENES I (1045-995);
3 PERODO
              1070-945    AMENEMOPE (995-985); OSORCON I (985-980); SIAMON (980-960); PSUSENES II (960-
INTERMEDIRIO
                          945)

                          XEXONQ I (945-925); OSORCON II (925-910); TAQUELOT I (910-?); XEXONQ II (? -885);
              945-715     OSORCON III (885-855); TAQUELOT II (860-835); XEXONQ III (835-785); PAMI (785-775);
                          XEXONQ V (775-735); OSORCON V (735-715). XEXONQ IV NO CHEGOU A REINAR

                          GOVERNARAM, AO MESMO TEMPO, VRIAS LINHAGENS DE FARAS, COM VRIAS
                          CAPITAIS E JURISDIES DIVERSAS, ENTRE OS QUAIS OS SEGUINTES: PADIBASTET
                          (830-805); OSORCON IV (775-750); PEFTJAU-AWYBAST (740-725)

                          TEFNACT (725-710); BOCORIS (715-710)

              770-715     CACHTA (770-750); PIYE (750-715)

PERODO
              715-655     XABACA (715-700); XEBITCU (700-690); TAHARCA (690-664); TANUTAMON (664-655)
TARDIO

              664-525 A
              PARTIR
              DAQUI     NECAU (672-664); PSAMTICO I (664-610); NECAU II (610-595); PSAMTICO II (595-589);
              TODAS AS APRIS (589-570); AMSIS II (570-526); PSAMTICO III (526-525)
              DATAS SO
              EXATAS)
PERODO
                             CAMBISES (525-522); DARIO I (521-486); XERXES I (486-466); ARTAXERXES I (465-424);
TARDIO (1         525-404
                             DARIO II (424-404)
DOM. PERSA)

                   404-399   AMIRTEUS (404-399)

                   399-380   NEFERITS I (399-380); PSAMUTIS (393); HACOR (393-380); NEFERITS II (380)

                   380-343   NECTANEBO I (380-362); TEOS (365-360); NECTANEBO II (360-343)

PERODO
TARDIO (2         343-332   ARTAXERXES III (343-338); ARSES (338-336); DARIO III (335-332)
DOM. PERSA)

OBS.: Cronologia baseada na datao proposta em Asante (2000), sendo, dentro dela, adaptados e
aproximados os perodos de governo informados em Baines e Mlek. As datas superpostas numa
mesma dinastia indicam corregncias. A superposio de dinastias indica governo em regies
diferentes do pas.




EIRPANOM.         Rei da Nobcia aps Silco.
EJE.   Ver   AY.
ELLA AMIDA.  Nome de quatro reis de Axum, que governaram provavelmente
entre os sculos III e IV d.C.
ELAM . Antigo pas asitico, localizado em parte dos atuais territrios de Iraque
e Ir. Segundo Cheikh Anta Diop, h evidncias arqueolgicas, no Iraque e no
Ir, de que muitos elamitas e sumrios eram negros. Conforme W. Hinz,
citado por Bernal, entre os guarda-costas do rei persa Dario (c. 500 a.C.)
contavam-se elamitas do interior do pas, de pele muito pigmentada, quase
como a dos negros africanos, e, mesmo hoje, homens de pele muito escura
mas no negroides na aparncia podem ser vistos na regio do Cuzisto. Ver
FRICA  Os africanos na sia.
EL-AMRA. Stio arqueolgico, 120 km ao sul de El-Badari, no Alto Egito.  o
local onde floresceu a chamada cultura "amratense" ou "amraciana", na
segunda etapa do perodo pr-dinstico inicial, entre c. 4780 e 3900 a.C.
Essa civilizao, tambm conhecida como "cultura de Naqada", em aluso 
principal cidade da regio na Antiguidade, teria dado origem  realeza
quemtica. Nesse perodo, Naqada e Nequem eram cidades adversrias, a
primeira cultuando o deus Seth e a segunda, Hrus. Os primeiros soberanos
dessa realeza, reinando em Nequem, a Hieracmpolis dos gregos, teriam
sido, segundo a tradio, os semideuses Hrus Sereq, Hrus Ny-Hor, Hrus
Hat-Hor, Hrus Iry Ro, Hrus Ca e Hrus Scorpion. Ver FARA  Nomes e
Ttulos.
EL-BADARI.  Stio arqueolgico no Alto Egito.  o local onde floresceu,
irradiando-se at a Nbia, nas duas margens do Nilo, a chamada cultura
"badariense" ou "badariana", na primeira etapa do perodo pr-dinstico inicial,
c. 5500 a.C.
ELEFANTINA. Um dos nomes de File, ilha do Alto Nilo, na atual Assu. Com seu
nome devido ao comrcio de marfim que ali se praticou, foi, segundo a antiga
tradio local, o lugar a partir do qual Ra deu vida a todas as coisas. Seu
desenvolvimento iniciou-se  poca do fara Djoser, e com aconselhamento
do sbio Imhotep. Depois do ano 2000 a.C., os contatos entre as cortes de
Jerusalm, Tnis e depois Sas se estreitaram. Da terem os hebreus
estabelecido uma colnia na ilha, por volta de 400 a.C. Segundo algumas
fontes, esses colonos praticavam cultos no contemplados nas doutrinas do
Deuteronmio, mas resistiram  adoo de deuses locais, como Qnum e
Hnoub.
EMBALSAMAMENTO. Ver MUMIFICAO.
ENDUBIS. Rei de Axum (c. 270 d.C.).
ENGARUCA. Antigo ncleo de civilizao localizado na atual Tanznia e datado
do sculo XV d.C. Pesquisas arqueolgicas do conta da existncia no local
de um grande conjunto de aldeias ligadas por um extenso canal feito de blocos
de pedra, alm de um intrincado sistema de irrigao. Segundo Asante e
Abarry, o stio foi pea-chave no florescimento dos imprios da frica Central.
Segundo D. W. Phillipson, citado por Obenga (1985), a povoao do norte da
Tanznia iniciou-se com a chegada, entre os anos 100 e 200 d.C., de povos
falantes de idiomas bantos provenientes do Baixo Congo.
ENUPHIS (EUNIPHIS). Sacerdote de Helipolis, mestre de Pitgoras.
POCA BAIXA. Denominao usada para adjetivar o perodo da histria egpcia
compreendido entre o governo da XXVII dinastia e o domnio persa.
ERDA AMEN AUSEIA (URDEMANE). Soberano etope (c. 674-668 a.C.) da dinastia de
Meneliq, segundo listagem provavelmente extrada do Kebra Nagast, cf. www.
rastafarionline.com. Ver ARCAMANI; ERGAMENE.
ERGAMENE (ERGAMENES). Ver ARCAMANI.
ERITREIA. Pas da frica Oriental, localizado no "chifre" da frica, s margens
do mar Vermelho. O nome se origina do grego erythros, vermelho, em aluso
 cor do mar local. Outrora provncia mais setentrional da Etipia, vrios
sculos antes da Era Crist, pastores semitas que emigravam da Arbia para
a Mesopotmia chegavam  regio. Pinturas rupestres nas provncias de
Akele Guzai e Sahel, datadas de 6000 a.C., demonstram, segundo alguns
arquelogos, que povos falantes de lnguas nilticas das florestas do atual
Sudo meridional foram os primeiros habitantes locais. Esses pioneiros foram
seguidos por povos pastores, falantes de lnguas cuxitas, vindos do deserto
setentrional, provavelmente entre 3500 e 4000 anos atrs (cf. David P.
Johnson Jr., in Africana, 1999). O litoral do mar Vermelho  um dos lugares
mais quentes e secos do continente africano; entretanto, sendo a maior parte
do pas montanhosa, os frios planaltos centrais tm vales frteis, apropriados
para a agricultura.
ERVAS AROMTICAS. Erva  a planta de pequeno porte, nem rvore nem arbusto.
Os antigos egpcios usavam ervas (e tambm resinas) aromticas na
medicina, na cosmtica, na culinria, na arte do embalsamamento etc. Ver
ESPECIARIAS; MEDICINA EGPCIA; RESINAS.
ESCANDINVIA, Africanos na. Ver EUROPA E FRICA: Relaes.
ESCORPIO. Artrpode da classe dos aracnoides. Na Antiguidade egpcia, era
animal sagrado, ligado ao deus Seth, da ser relacionado ao lendrio
governante da poca pr-dinstica conhecido como Hrus Scorpion ou
Escorpio-Rei. Ver EL-AMRA.
ESCRAVIDO. A escravido, regime socioeconmico em que o indivduo 
privado da liberdade por meio de sujeio absoluta a um senhor, nasceu com
a substituio gradativa das economias de caa, coleta ou pastoreio pela
agricultura e por tcnicas mais complexas de produo, quando, por exemplo,
a difuso da metalurgia fez com que o trabalho manual se diversificasse, indo
alm das simples tarefas agrcolas. Quanto maior o avano tecnolgico, pela
utilizao do bronze e depois do ferro, maior a riqueza acumulada por
indivduos e sociedades. Com o advento da propriedade privada, os mais ricos
passaram a obrigar os pobres a trabalhar em seu benefcio e a reunir grupos
de guerreiros para atacar outros grupos, apossando-se de seus bens e
transformando prisioneiros em escravos, alm de, dentro do prprio grupo,
escravizar tambm os empobrecidos e endividados. Essa forma de explorao
do trabalho existiu em toda a Antiguidade, inclusive em Roma e Atenas. Na
frica Antiga, em geral os escravos podiam ser comprados, vendidos ou
dados de presente; tinham de fazer o que lhes era ordenado, mas, embora
fossem propriedade de outras pessoas, gozavam de alguns direitos, inclusive
o de herana sobre os bens de seu amo, podendo tambm constituir famlia e
adquirir propriedades. No Egito faranico, os escravos, em geral provenientes
da Nbia e da Somlia, mas tambm do Sinai e de Biblos, realizavam os
diversos trabalhos domsticos, a lavra dos campos e as obras civis.
ESCRIBAS. Entre os povos letrados, indivduos empregados no ofcio de
escrever, por cpia ou sob ditado. Responsveis pelo registro escrito do
movimento das colheitas, pela medio dos campos, por cobrana de
impostos, inventrio de bens, controle de estoques, redao de leis e
decretos, os escribas gozavam de grande prestgio no Egito antigo. Tidos
como "os olhos e os ouvidos do Fara", eram, segundo L. Bacha, admitidos
por meio de provas, nas quais se aferiam conhecimentos de matemtica,
histria, geografia, leis, gramtica etc., e podiam, em certas circunstncias,
legar o cargo aos filhos. Entre os israelitas, a instruo dos escribas baseava-
se principalmente na tradio egpcia. Segundo Cazelles, o rei Salomo
chegou a levar escribas egpcios para o servio de seu palcio.
ESCRITA. Representao da linguagem falada por meio de signos grficos.
Criada a princpio com fins meramente administrativos, contbeis ou
religiosos,  no Egito, segundo Lpez-Davalillo, que a escrita, embora ainda
no alfabtica, ultrapassa esses objetivos apenas utilitrios, para falar, por
exemplo, de construes monumentais e da magnificncia dos governantes.
De acordo com E. A. Wallis Budge, citado em Asante e Abarry, provavelmente
desde c. 4500 a.C. os egpcios usavam em seus rituais funerrios textos
escritos para acompanhar seus mortos. Esses documentos primevos no tm
datao comprovada, mas a partir do perodo dinstico inicial j  possvel
obter evidncias concretas. Documentos da V dinastia j informam listas de
oferendas, preces e biografias. Na dinastia seguinte, aparecem os
"ensinamentos de sabedoria", que constituem verdadeiros tratados de
filosofia. As inscries feitas dentro das cmaras morturias, sobre
cerimoniais e rituais, so fartamente documentadas em toda a histria do
Egito antigo. A escrita foi tambm utilizada para registrar, nos tmulos, a
identificao do morto, com a distino de sua classe social e de seus bens.
As "listas de oblao" egpcias (oferendas feitas ao defunto para sua viagem
final), como lembram Asante e Abarry, talvez constituam o primeiro exemplo
perfeito de escrita. Segundo Obenga, reportando-se aos historiadores
anglfonos das escritas e dos alfabetos David Diringer, Walter Durfee e Isaac
Taylor, a escrita rnica, do noroeste europeu, originou-se da escrita etrusca,
que descende da grega, que deriva da fencia. Esta, por sua vez, origina-se
da semtica, que provm da sinaica, a qual remonta aos hierglifos e aos
sinais grficos da escrita dos antigos sacerdotes egpcios. Segundo Asante e
Abarry, uma das caractersticas das sociedades secretas africanas  a
criao de sistemas grficos, de escritas cifradas, por meio das quais os
indivduos se intercomunicam. Consoante esses autores, uma das mais
conhecidas dentre essas escritas , na atualidade, a do povo Vai, da Libria.
Outros povos, porm  como Bamum, Bini, Bacongo, Peul, Ac , tambm
criaram seus sistemas grficos de comunicao, usados nos monumentos
sagrados e mantidos sob a guarda de sacerdotes especialmente dedicados a
esse fim, ou utilizados de maneira geral. A adoo desses sistemas trouxe
consigo tanto poder e influncia que os africanos da Antiguidade reservavam
esse conhecimento e essa habilidade, envoltos em aura de magia e mistrio,
aos sacerdotes e reis. Ver ALFABETO; COPTA; DEMTICA; GUES; GICNDI;
HIERTICO; HIERGLIFOS; MEROTICA; NSIBIDI; ROSETA.
ESCULTURA. O Egito faranico legou ao mundo uma arte escultrica
monumental, solene e hiertica, expressa em obras como a esfinge de Giz,
as esttuas de Abu Simbel e o colosso de Ramss em Carnac. Da mesma
forma, a civilizao merotica, seguindo o modelo egpcio, tambm produziu
esculturas de valor. Em pocas diversas, muitos outros antigos povos
africanos, como, por exemplo, os de Noq, If, Benin os de Esie, os do reino
Cuba etc., destacaram-se na arte de esculpir.
ESFINGE DE GIZ. Escultura talhada em pedra viva, s margens do Nilo, na atual
localidade de El-Giza ou Giz, prxima ao Cairo, antes do reinado do fara
Quefrm. Construda em dimenses gigantescas, 72 m de comprimento e 20
m de altura, o rosto humano medindo mais de 4 m de largura (cf. O. S.
Boyer), era uma representao de Harmquis, uma das manifestaes do
deus-sol. Sobre essa esfinge, assim se pronunciou C. F. Volney, viajante
francs do sculo XVIII, citado por Obenga (1973): "Vendo essa cabea
caracteristicamente negra em todos os seus traos, lembrei-me da passagem
de Herdoto que diz: `Para mim, os clquidos so uma colnia dos egpcios
porque, como aqueles, eles tm a pele negra e os cabelos crespos', ou seja,
que os egpcios eram negros, da espcie de todos os naturais da frica." Ver
tambm GIZ.
ESIE, Esculturas de. Conjunto de cerca de 200 peas esculpidas em pedra,
encontradas em Ilorin, na Nigria, e datadas de c. 6000 a.C. Sua existncia
atesta, j em poca remota, a presena de uma arte africana anterior,
inclusive,  da civilizao faranica egpcia.
ESOPO. Legendrio fabulista do sculo VII ou VI a.C. Segundo Cheikh Anta
Diop, foi um "negro egpcio" que introduziu na Grcia o gnero fbula,
tipicamente cuxita, que consistia em colocar em cena animais como
personagens.
ESPECIARIAS. Substncias odorferas de origem vegetal usadas, nos tempos
antigos, como condimentos e agentes conservantes de certos alimentos. A
procura por especiarias, bem como por ervas aromticas na Arbia
meridional, foi motivo de incurses africanas atravs do estreito de Bal-el-
Mandeb e do mar Vermelho.
ESPOSA DIVINA. Principal ttulo religioso feminino do Egito faranico,  poca do
Imprio Novo, primeiro atribudo  rainha Ahms-Nefertari, irm e esposa do
fara Amsis I, iniciador da XVIII dinastia. Detentoras desse ttulo, as rainhas
e princesas eram consideradas encarnao da deusa Mut. Ver DIVINAS
ADORADORAS.
ESTELA. Espcie de monumento de pedra, em forma de coluna ou placa, no
qual os povos antigos faziam inscries, em geral funerrias.
ESTRABO. Historiador grego (58 a.C.-25 d.C.). Segundo M. K. Asante,
sacerdotes do Egito faranico atraram filsofos e matemticos gregos, como
Eudoxos de Cnidos e Pitgoras, para estudar na frica e se beneficiar da
instruo quemtica, no lhes transmitindo, entretanto, todo o conhecimento
de que eram detentores. Ver QUEMTICO.
ETOPE. Natural da Etipia. O termo aithiops, significando talvez "cara
queimada", segundo a etimologia comumente aceita, foi inicialmente usado
pelos antigos gregos para designar as populaes localizadas entre a bacia
do Nilo e a regio do "chifre da frica", estendendo-se depois a todas as
populaes ditas "afronegras". Segundo Diop, para os gregos, "etopes" eram
as populaes essencialmente "negras" (de pele escura e cabelos crespos),
tanto as "civilizadas" do Sudo merotico quanto aquelas consideradas mais
asselvajadas, que habitavam as vizinhanas, como os "xilfagos" (comedores
de madeira), "estrutfagos" (comedores de avestruzes), "ictifagos"
(comedores de peixes), "condutores de elefantes" etc. Segundo Herdoto, os
etopes seriam, "de todos os homens, os de maior estatura e de mais bela
compleio fsica, tendo tambm costumes diferentes dos outros povos; entre
eles, o mais digno de usar a coroa  o que apresenta maior altura e fora
proporcional ao seu porte". A maioria, segundo o historiador grego, chegava
aos 120 anos. Alimentavam-se de carne cozida, sendo o leite sua bebida
principal. "Etope", em latim Aethiope, era tambm o antigo nome da ilha de
Lesbos, no mar Egeu, segundo Saraiva.
ETOPES MACRBIOS. Povo referido por Herdoto mas no exatamente
identificado. Cultivavam a mesma lavoura dos que o historiador grego
designou como "indianos caltios", moravam em habitaes subterrneas e,
de trs em trs anos, levavam oferendas ao seu rei.
ETOPES ORIENTAIS. Denominao dos drvidas na literatura grega.
ETOPES, O s. Texto pico romntico de autoria do escritor grego Heliodoro
(sculo III d.C.). O enredo conta a histria de uma princesa cuxita levada para
a Grcia para casar-se com um nobre grego. A narrativa exerceu grande
influncia sobre as literaturas da Europa ocidental nos sculos XVI e XVII.
ETIPIA. Na Antiguidade, o nome Etipia, de origem grega, era genericamente
aplicado a toda a frica ento conhecida. Com o tempo, passou a designar
especificamente a regio montanhosa entre o rio Nilo e o mar Vermelho, que
compreende hoje os territrios de Eritreia, Djibuti, Etipia e Somlia.
Aproximadamente a partir do ano 2000 a.C., com o estabelecimento de
migrantes do povo Habbashat, proveniente da Arbia meridional, a poro
norte do territrio ficou conhecida como Abissnia, distinta, pois, da outra
parte, mais ao sul  o chamado "pas de Punt" , localizada aproximadamente
na atual Somlia. Para os hebreus, o nome Etipia parece ter designado,
consoante mapa estampado em Boyer (ver Bibliografia), toda a regio
localizada abaixo de Mizraim (Egito), nas proximidades das atuais cidades de
Atbara e Cartum, no Sudo. Os hebreus chamavam o pas de Cuxe porque,
segundo eles, fora fundado por Cuxe, um dos filhos de Cam, na tradio do
Gnesis; e  regio do atual Djibuti chamavam Havil. Abissnia e Punt  A
hegemonia do povo Habbashat sobre o norte da atual Etipia parece ter
perdurado por cerca de dois sculos. Nesse tempo, formaram-se as primeiras
etnias, como a dos tigreses, a dos amharas e a dos xoas, at que a partir do
sculo XIX a.C. a regio entrou na esfera de influncia dos cuxitas de
Querma, que,  poca do Segundo Perodo Intermedirio da histria egpcia,
absorveram vrias unidades polticas vizinhas, fortalecendo-se para tomar o
poder no Egito faranico  inclusive aliando-se aos invasores hicsos. Durante
o domnio hicso, por volta do sculo XVI a.C., nova leva de migrantes
proveniente da Arbia meridional atinge a poro sul do territrio, o "pas de
Punt". A Etipia cuxita  Antes do perodo faranico, isto , antes de 4000
a.C., existiram relacionamentos de tipos diversos entre a Nbia, o vale do Nilo
egpcio e o norte-nordeste africano. A unidade geogrfica, tnica e cultural
das regies nilticas (Etipia, Nbia e Egito) j era afirmada por autores
gregos anteriores a Herdoto, como Diodoro da Siclia e Estrabo. Ressalte-
se a influncia fundadora da Nbia sobre o Egito e o mundo saaro-magrebino,
ao contrrio da origem sumeriana ou do Oriente Prximo atribuda  civilizao
faranica: o Egito e a Lbia foram povoados por povos migrados da regio do
Alto Nilo. Alm disso, em Christianity, Islam and the Negro Race, livro de
1887, Edward Wilmot Blyden j revelava os laos estreitos existentes entre as
concepes religiosas da antiga Etipia e as religies ditas "reveladas".
Entretanto, os registros mais precisos do passado etope ou abissnio vm da
XXV dinastia do Egito faranico, representada por governantes nbios ou
cuxitas e, por isso, dita "etope". Dessa forma, a antiga histria etope est
efetivamente ligada ao reino de Cuxe, do qual, provavelmente por meio de
vrias pequenas unidades provinciais, teria feito parte em algum momento.
Tanto assim que,  poca do profeta Isaas, entre 740 e 687 a.C., sob o
reinado egpcio dos faras nbios, etopes e egpcios uniram foras contra os
assrios de Sargo II. Fustigados por esse monarca, os palestinos pediram
auxlio  unio etope-egpcia, mas se sentiram desatendidos.  nesse
contexto que, na Bblia, o Livro de Isaas proclama: "Durante trs anos o meu
servo Isaas andou meio nu e descalo como um sinal e aviso daquilo que vai
acontecer com o Egito e a Etipia. O rei da Assria levar como prisioneiros
os egpcios e os etopes, tanto os moos como os velhos. Eles iro meio nus
e descalos, com as ndegas descobertas, trazendo assim vergonha para o
Egito. Ento, aqueles que confiavam na Etipia e que se gabavam do Egito
ficaro desiludidos e decepcionados. E os povos que vivem no litoral do mar
Mediterrneo diro: `Vejam s o que aconteceu com aqueles em quem ns
confivamos e a quem fomos pedir proteo contra o rei da Assria'." (Isaas,
20, 3-6). Os povos do litoral do Mediterrneo confiavam na liderana da
aliana Egito-Etipia (ou Cuxe) contra os assrios de Sargo II. Mas as foras
"etope-egpcias" do cuxita Tanutamon foram derrotadas. A Etipia sabeia 
Por volta do ano 1000 a.C., povos semitas do reino de Sab (Sheba), no atual
Imen, comearam a migrar atravs do estreito de Bab-el-Mandeb e
absorveram as populaes cuxitas do litoral da Eritreia e dos planaltos
adjacentes. Esses migrantes ergueram as bases do reino de Axum, o qual, no
fim do sculo IV d.C., dominou o norte da Etipia. Como consequncia dessas
migraes, entre 800 e 300 a.C., uma civilizao avanada floresceu nos
planaltos da Eritreia e na regio de Tigr. Suas elites dirigentes se
autorreferiam como os "mucarribs de Da'amat e Saba", em referncia ao
territrio etope no qual se estabeleceram  Da'amat  e  sua terra de
origem. O ttulo "mucarrib" indicava algo como governador de uma unidade
federada, e, na Arbia do Sul, atual Imen, o ttulo se referia a cada um dos
governantes de tribos ligadas por um pacto. Esse antigo povo de Da'amat, na
Etipia, deixou inscries em lngua e escrita muito semelhantes a registros
encontrados no sul da Arbia; assim, presumivelmente, os povos de ambos os
lados do mar Vermelho compartilharam um passado cultural comum.
       Entretanto, apesar da grande influncia da civilizao rabe meridional,
uma forte personalidade africana soube destacar-se na regio. Por isso, como
salientado no Dictionnaire des civilisations africaines, as ideias de que a
Arbia meridional forjou a etnicidade etope, de que ela dominou politicamente
o pas, gerando seus primeiros reinos, de que o idioma gues deriva
diretamente da lngua falada pelos sabeus so inexatas. Esses emprstimos
foram decisivos, sim, mas s proliferaram por conta da existncia de um caldo
de cultura propcio e autctone, como os prprios egpcios muito antes
reconheciam. Nessa fase "etipico-sabeia", a cultura local se destaca pelas
inscries em escrita monumental, pela cermica vermelha encerada e por
monumentos arquitetnicos e esculturais de grande valor artstico. Outra fase
complexa que parece estender-se do sculo III a.C. ao sculo I d.C., com
caracteres novos na escrita, na cermica e nas construes, apresenta uma
influncia sabeia mais difusa, resultado talvez de contatos mais efetivos com
Meroe, com o Egito e provavelmente tambm com a ndia. Axum: origens 
Provavelmente a partir da segunda grande migrao proveniente da Arbia
meridional,  poca do domnio hicso no Egito, a regio de Punt passa a ser
dominada por uma casta sacerdotal chamada Aroue (Arue), dedicada ao culto
da serpente Arevie. Por essa poca, o planalto da Etipia foi em vrias
ocasies alcanado por outras tribos vindas da Arbia, que se miscigenavam
aos nativos. Nesse tempo, um prncipe de nome Baessi Angabo derrota a
casta sacerdotal Aroue e funda uma dinastia na qual nascer Maqueda, a
futura Rainha de Sab. Os ancestrais de Maqueda, entre eles seu pai, Ze
Caouissian, edificam, com o auxlio dos hicsos, grandes templos, semelhantes
aos da Nbia. A capital do reino se estabelece, segundo a tradio, primeiro
em Sab, depois se transfere para Axum, onde Caouissian ergue um palcio.
Meneliq  Segundo a tradio, da unio da Rainha de Sab com Salomo, rei
de Israel, nasce Ben-el-Haquin ("o filho do rei") ou Meneliq I, criado em
Jerusalm, de onde mais tarde vai para Sab (ou para Axum) para suceder
sua me. Meneliq I reina por 25 anos, durante os quais a frota de Sab
acompanha as naus do rei Hiram em expedies pelo oceano ndico. Com
Meneliq o reino ganha autonomia e se transforma em imprio. Mas o
fortalecimento de Axum e sua ligao com a sia preocupam o Egito e a
Nbia. Tanto que, aps a morte de Salomo, em c. 920 a.C., o fara Xexonq I
envia expedio militar a Jerusalm. Por volta do ano 600 a.C., Axum 
atacada pelos cuxitas; mas quando os persas conquistam o Egito (525 a.C.),
Nbia (Cuxe) e Etipia (Axum) se unem. Quando Alexandre domina o Egito
(332 a.C.), a Nbia faz um pacto de neutralidade com Axum, j conquistada
por Alexandre. A partir da a lngua grega  introduzida na corte axumita. Com
o domnio romano, nbios e axumitas se aliam novamente para defender seu
territrio e partem para o ataque. Em 29 a.C., essa coligao enfrenta as
tropas do general romano Cornlio Galo. No embate, Napata, a capital de
Cuxe,  arrasada, e a Baixa Nbia se torna protetorado romano. Axum, ao
contrrio, constituindo-se no centro do comrcio entre o vale do curso superior
do rio Nilo e os portos do mar Vermelho, experimenta desenvolvimento sem
precedentes. O apogeu  A partir do fim do primeiro sculo da Era Crist,
Axum se torna a capital do reino da Etipia, em substituio  antiga cidade
de Yeva, provavelmente localizada no territrio da atual provncia de Tigr. No
sculo III, altamente desenvolvida, Axum  a sede de um dos quatro grandes
reinos do mundo, ao lado de Roma, Prsia e China. Seu principal porto,
Adulis, no mar Vermelho, destacava-se como um grande centro comercial. Por
ele, exportavam-se marfim, ouro e escravos, ao mesmo tempo que se recebia
grande variedade de mercadorias, como tecidos de algodo, recipientes de
vidro, metais brutos e produtos manufaturados  espadas, ferramentas e
outros utenslios , tudo vindo em especial do Egito, do Mediterrneo e da
ndia. A partir, principalmente, do reinado de Afilas, no terceiro sculo d.C., os
axumitas passaram a cunhar suas prprias moedas, em ouro, prata e bronze.
Axum construiu tambm grandes palcios, templos e monumentos, nos quais
inscries em gues, sabeu e grego nos permitem conhecer hoje um pouco de
seu passado.
       Segundo o historiador romano Rufino, citado em R. Pankhurst, o filsofo
Merpio, de Tiro, fez uma viagem  ndia, de onde trouxe dois rapazes, os
quais educou. Chamavam-se Frumncio e Edsio, e, aps a morte do mentor
num ataque dos romanos ao seu navio no mar Vermelho, foram adotados pelo
rei de Axum. J adultos, aps a morte do rei, os dois educaram e
cristianizaram o prncipe herdeiro, que mais tarde seria o celebrado rei Ezana,
responsvel pela converso de Axum ao cristianismo em 330 d.C. Frumncio,
hoje santo da Igreja Catlica e cultuado como o "santo apstolo da Etipia",
foi bispo de Axum, onde faleceu em 380 d.C., cerca de cinquenta anos depois
da conquista de Meroe por Axum. A cultura material de Axum, particularmente
nos domnios da arquitetura, da literatura e do comrcio, foi brilhante. As
runas de seus edifcios e monumentos, com suas inscries, so
impressionantes em todos os aspectos. Seu comrcio por terra e por mar lhe
garantia no s riquezas, mas tambm contatos com os Estados africanos
situados ao norte e ao sul, e at mesmo com os imprios bizantino, persa e
do Extremo Oriente. Isso at seu declnio, j na Idade Mdia europeia, entre
os sculos VII e VIII d.C. O declnio  No ponto mais alto de seu
desenvolvimento, o reino de Axum foi alm do Mediterrneo, dominando parte
da Arbia meridional. Nessa poca, as tentativas romanas de conquistar o sul
da Arbia por caminhos terrestres foram frustradas, ao passo que os etopes
axumitas seguidamente intervinham nos destinos da regio: no ano 525 d.C.
ocuparam e dominaram o reino de Sab; em 570 d.C., seus exrcitos
tentaram chegar a Meca, utilizando elefantes, para arrebatar aos persas o
domnio da cidade, o que no conseguiram. Cinco anos depois, derrotados
pelos sassnidas, dinastia de reis persas, tiveram que abandonar a regio.
Chegada, enfim, a era islmica, as rotas de comrcio foram modificadas e o
progresso foi interrompido. Nesse contexto, outro fator do declnio de Axum foi
a converso de sua classe dirigente ao catolicismo, o que isolou o reino dos
pases vizinhos. Dinastias e linhagens reais  Baseadas nas alegadas
ascendncias salomnica e sabeia de seu povo, algumas tradies etopes
fazem iniciar sua genealogia no sculo XXI a.C., entre os arameus, na
linhagem de Ori ou Aram. Outra linhagem cuja origem  tida como da mesma
poca seria iniciada nas figuras bblicas de Cam, Cuxe e Sabt. Do encontro
dessas linhagens, paterna e materna, assentado no episdio da unio do rei
Salomo com a Rainha de Sab, chega-se  dinastia de Meneliq, conforme
tabela a seguir, reproduzida at o sculo X d.C. Observe-se que nela muitos
nomes remetem aos de faras egpcios e de soberanos de Cuxe, como
Pinqui, Aspelta e Tanutamon, de registros aproximadamente sincrnicos com
dataes do Egito faranico e do reino de Cuxe tambm constantes desta
obra. Ver AXUM; CUXE.


ETIPIA  LINHAGENS REAIS                                          EGITO

PERODO
           DINASTIA             GOVERNANTE
APROXIMADO

                                                                   1 PERODO
2255-2177    CAM, CUXE, SABT   CAM OU HAM
                                                                   INTERMEDIRIO

2177-2127                       COUT OU CUXE, FILHO DE HAM

2127-2087                       HABASSI

2087-2057                       SEBTAH                             MDIO IMPRIO

2057-2027                       ELEQTRON

2027-1997                       NEBER

1997-1976                       QADAMAVI AMEN I

1976-1946                       RAINHA NEHASSET NAIS

1946-1917                       HORCAM

1917-1887                       DAGMAVI SABA II

1887-1857                       SOFARD
1857-1832                           ASQNDOU

1832-1797                           HOHEY

1797-1777                           ADGLAG

1777-1747                           ADGALA

1747-1722                           LAQNIDUGA

1722-1687                           MANTURAI

1687-1657                           RACU

                                                                                   2 PERODO
1657-1627                           QADAMAVI SABE I
                                                                                   INTERMEDIRIO

1627-1597                           AZAGAN

1597-1577                           SOUSEL ATOZANIS

1577-1562                           DAGMAVI AMEN II

1562-1542                           RAMENPAHTE                                     NOVO IMPRIO

1542                                VANUNA  REINOU APENAS 3 DIAS

1542-1527                           PIORI II.

                                    25 SOBERANOS DA TRIBO DE CAM, ENTRE OS QUAIS
1527-975
                                    OS DA LINHAGEM DA RAINHA DE SAB

                                                                                   3 PERODO
975-950     DINASTIA DE MENELIQ I   QADAMAVI MENELIQ I
                                                                                   INTERMEDIRIO

950-949                             HANION

949-923                             QADAMAVI SERA I OU TOMAI

923-892                             AMEN-HOTEP ZAGDUR

892-872                             AQSUMAI RAMISSU

872-834                             DAGMAVI AUSEIO SERA II

834-813                             DAGMAVI TAVASIA II

813-781                             DAGMAVI ABRALIUS VIIANQUIHI II

781-758                             AQSUMAI VARADA TSAHAI

758-745                             CASHTA HANYON                                  XXV DINASTIA

745-733                             DAGMAVI SABACA II

733-723                             RAINHA NICAUTA CANDAQUE

723-674                             TSAVI TERHAQ VARADA OU NSGASH

674-668                             ERDA AMEN AUSEIA OU URDEMANE

668                                 GASIYO ESQUICATIR (GOVERNO EFMERO)

668-664                             NUATMEAUN OU TANAUTAMUN

664-652                             SALSAVI TOMADION PIIANQUIHI III                XXVI DINASTIA

652-636                             AMEN ASERO

636-602                             PIIANQUIHI IV OU AUTET

602-561                             ZAUARE NEBRET ASPURTA
561-549   DAGMAUI SAIFAI HARSIATAU II
549-535   RAMHAI NASTOSSANAN

535-524   HANDU VUHA ABRA

524-493   SAFELIA SABACON

493-471   AGALBUS SEPECOS

471-450   PSMENIT VARADANEGASH

450-438   AWSEIA TARACOS

425-415   APRAS

415-395   CASHTA VALDA AHUHU

395-385   ELALION TAAQUE                        XXX DINASTIA

385-375   SALSAVI ATSERQ AMEN III

375-365   ATSERQ AMEN IV

365-355   RAINHA HADINA

355-345   ATSERQ AMEN V

345-335   ATSERQ AMEN VI

                                                PERODO
335-325   RAINHA NICAULA CANDAQUE               GRECO-
                                                ROMANO

325-318   BASSIO

318-308   RAINHA SALSAVI AKAUSIS CANDAQUE III

308-298   DAGMAVI ARCAMEN II

298-288   AUTET ARAVURA

288-278   DAGMAVI COLAS II OU CALETRO

278-262   ZAURE NEBRAT

262-248   STIO

248-235   SAFAI

235-225   RAINHA NICOSIS CANDAQUE IV

225-215   RAMHAI ARCAMEN IV

215-200   FELIIA HERNEQUIT

200-180   HENDE AUQUERARA

180-170   AGABU BASEHERAN

170-150   SULAI CAWSUMENUN

150-142   MESSELME QUERARMER

142-132   NAGEI BSENTE

132-122   ETBENUQUEVER

122-102   SAFELIIA ABRAMEN

102-92    SANAI

92-81     RAINHA AUSENA
81-71                                      DAGMAVI DAVIT II
71-63                                      AGLBUL

63-53                                      BAVAUL

53-43                                      BARAWAS

43-33                                      DINEDAD

33-28                                      AMOI MAHASSE

28-18                                      NICOTNIS CANDAQUE V

18-13                                      NALQUE

13-1                                       LUZAI

1 A.C.-17 D.C.                             BAZEN

                 SOBERANOS DA ERA
17-38                                      SARTU TSENFA ASSEGD
                 CRIST  AT O SCULO X

38-46                                      ACAPTAH TSENFA ARED

46-48                                      HOREMTACU

48-58                                      RAINHA GARSEMOT CANDAQUE VI

58-86                                      HATOZA BAHR ASAGED

86-93                                      MESENH GERMASIR

93-102                                     METVA GERMA ASFAR

102-112                                    DAGMAVI ADGALE II

112-113                                    AGBA

113-129                                    SERADA

129-133                                    MALIS ALAMEDA

133-139                                    HACABE NASOHI TSION

139-151                                    HAQLI SERGUAI

151-161                                    DEDME ZARAI

161-163                                    AUTET

163-170                                    ALALI BAGAMAI

170-200                                    AVADU JAN ASAGAD

200-205                                    ZAGUN TSION HEGEZ

205-208                                    REMA TSION GEZA

208-215                                    AZEGAN MALBAGAD

215-216                                    GAFALE SEB ASAGAD

216-220                                    TSEGAI BEZE VARC

220-229                                    GAZA AGDUR

229-237                                    AGDUBA ASGUEGUE

237-238                                    DAVIZA

238                                        RAINHA VACANA  REINOU APENAS 2 DIAS

238                                        HADAU  REINOU APENAS 4 MESES
238-241                             AILASSAN SAGAL
241-255                             ASFEHI ASFEHA

255-261                             ATSGABA SEIFA ARAD

261-278                             AIBA

278-287                             TSAHAM LAQNDUGA

287-297                             TSEGAB

297-307                             TAZER

                                    RAINHA AHIVA SOFIA E SUA FILHA ABREHA ATSBEHA
307-314   REIS E RAINHAS CRISTOS
                                    (314-340)

314-352                             ABREHA ATSBEHA

352-359                             ASFEH DALZ

359-373                             SAHLE

373-377                             ARFED GEBRA MASCAL

377-382                             RAINHA QADAMAVI ADHANA I

382-383                             RITI

383-384                             DAGMAVI ASFEH II

384-389                             DAGMAVI ATSBEHA II

389-404                             AMEI

404                                 DAGMAVI ABREHA II  REINOU APENAS 7 MESES

404                                 ILASSAHL  REINOU APENAS 2 MESES

404-406                             QADAMAVI ELAGABAZ I

406-410                             SUHAL

410-420                             SALSAVI ABREHA III

420-426                             RAINHA DAGMAVI ADHANA II

426-436                             IOAB

436-438                             QADAMAVI TSAHAM I

438-439                             DAGMAVI AMEI II

439-441                             SAHLE AHZOB

441-444                             TSEBAH MAHANA CRISTOS

444-446                             DAGMAVI TSAHAM II

446-452                             DAGMAVI ELAGABAZ II

452-453                             AGABI

453-455                             LEVI

455-458                             AMEDA III

458-472                             ARMAH DAVIT

472-477                             AMSI

477-486                             SALAIBA

486-494                             ALAMEDA
494-501                               PAZENA EZANA
            DINASTIA DO IMPERADOR
501-531                               CALEB
            CALEB

531                                   ZA ISRAEL  REINOU APENAS 1 MS

531-545                               GABRA MASCAL

545-573                               COSTANTINOS

573-588                               VASAN SAGAD

588-611                               FERE SANAI

611-631                               ADVENZ

631-639                               ACALA VEDEM

                                                                                       CONQUISTA
639-654                               GERMA ASAFAR
                                                                                       RABE

654-664                               ZERGAZ

664-690                               DAGENA MICAEL

690-709                               BAHR EQLA

709-733                               GUM

733-738                               ASGUAGUM

738-754                               LATEM

754-775                               TALATAM

775-788                               GADAGOSH

                                      AIZAR ESCACATIR  REINOU APENAS METADE DE UM
788
                                      DIA.

788-793                               DEDEM

793-803                               VEDEDEM

803-833                               VUDME ASFARE

833-838                               ARMAH

838-857                               DEGENNAJAN

857-858                               GEDAJAN

858-898                               GUDIT

898-918                               ANBASE WEDEM

918-928                               DEL NAAD

FONTE: www.rastafarionline.com.
OBS.: Nesta tabela, o deslocamento do governo do clebre rei Ezana (Pazena Ezana) para o perodo de
494 a 501 d.C. parece reafirmar a impreciso da listagem cronolgica, provavelmente extrada do Kebra
Nagast.




ETIPIA INFERIOR. Uma das antigas denominaes de Angola.
EUARE.    Consolidador do Estado Edo e primeiro grande ob (rei) do Benin.
Reinou por cerca de 30 anos, em meados do sculo XIII. Mencionado como
grande mago e guerreiro, organizou as linhagens de seu povo; estruturou
administrativa, econmica e militarmente o Estado; e introduziu importantes
rituais, enfatizando a natureza divina de sua realeza. Segundo a African
Encyclopedia, chamava-se originalmente Ogum, sendo o nome Euare um
epteto. Ver BENIN.
UDOXO (EDOXOS DE CNIDO). Astrnomo e filsofo grego (c. 406-335 a.C.).
Segundo a Delta Larousse, levou do Egito para a Grcia um conhecimento
mais amplo do calendrio, tendo dado ao ano a durao de 365 dias e .
Segundo Bernal, inclusive rapou ritualisticamente a cabea para ser iniciado
nos mistrios do saber quemtico.
EUEC I. Ob do antigo Benin, no sculo XII. Segundo a tradio, era filho de
Orani e Eriuind, sendo chamado o "Bem-Amado". Ver ODUDUA.
EUED. Ob (Rei) do Benin, reinou provavelmente na segunda metade do
sculo XIII, sucedendo de Euek. Mudou o nome do reino de Edo para Ubini
(Bini, Benim) e ampliou-lhe os limites, por fora de ao militar.
EUNIPHIS. Ver ENUPHIS.
EUNUCO. Homem castrado, em geral empregado nos harns do mundo antigo.
Segundo o livro bblico Atos dos Apstolos, o apstolo Felipe converteu ao
cristianismo um camareiro "etope", eunuco e tesoureiro-mor da rainha
"Candace da Etipia". Ver JEN DARABA.
EUROPA E FRICA: relaes.  poca da VI dinastia egpcia, por volta do sculo
XX a.C., tempo em que, segundo Anta Diop, a Europa inteira no passava de
um continente selvagem, em que Paris e Londres no eram mais que grandes
extenses pantanosas, e Roma e Atenas dois lugares desertos, a frica
contava j, no vale do Nilo, com uma pujante civilizao, onde pulsavam
cidades populosas; onde o paciente esforo de vrias geraes trabalhava o
solo e erguia grandes obras pblicas; onde as cincias e as artes alcanavam
alturas insuspeitas, e onde, inclusive, a f j havia criado deuses e deusas por
muito tempo venerados (cf. Diop, 1979, vol. I, p. 231, nota 1, a partir de J.
Weulersse, 1934, p. 11). Nesse tempo, as rotas comerciais do vale do Nilo
incluam um ramo que comeava no litoral egpcio, estendia-se para o oeste
atravs do Mediterrneo, e para o norte, ao longo do litoral da Europa
ocidental, no mar Bltico, do qual os africanos extraam mbar. Segundo Don
Luke, essa rota chegava s Ilhas Britnicas e  Escandinvia. Ver CLQUIDOS;
ROTAS DE COMRCIO.
XODO. Movimento de retorno de uma frao do povo hebreu  sua terra de
origem, Sinai e Palestina, aps um longo perodo de escravido no Egito.
Segundo algumas tradies, quando os hebreus deixaram o Egito, um grupo
se dirigiu  regio do Sinai sob o comando de Moiss. Outros teriam tomado a
direo contrria, adentrando o continente africano e dando origem, pela
miscigenao com populaes locais, a outros povos, como os peles.
Consoante outra verso, os hebreus teriam sado do Egito em duas ocasies
distintas. Na primeira, por volta de 1540 a.C., findo o domnio dos hicsos, eles
teriam sido expulsos pelo fara Amsis (Ahms), juntamente com os
invasores. Na segunda, por volta de 1250 a. C., sob o domnio de Ramss II
ou Meneft, as tribos de Manasss, Efraim e Benjamim, lideradas por Moiss,
fugiram do cativeiro, no delta do Nilo e, depois de percorrerem a pennsula do
Sinai, atravessaram o mar Vermelho, rumando para o sul e acampando no
deserto, onde teria se dado o episdio bblico dos "Dez Mandamentos".
EXU. Orix primordial iorubano. Segundo algumas tradies dos iorubs, antes
da criao do mundo s havia a escurido total, onde morava Exu. Essa
circunstncia o liga ao egpcio Shu, primeira divindade criada por Aton,
juntamente com sua irm gmea Tefnut, cujo nome, segundo George Hart,
vem de uma raiz que significa "nada" ou "vazio".
EZANA (PAZENA EZANA). Imperador de Axum (sculo IV d.C.). Seus feitos constam
de inscries gravadas em pedra, nos idiomas sabeu, gues e grego. Cada
uma delas fala de expedies que realizou: a Begemder, onde estabeleceu
parte de seu povo; a diferentes regies ao longo da costa do mar Vermelho,
onde puniu malfeitores; s montanhas de Semien, onde promulgou leis; e a
Meroe, onde destruiu templos e plantaes de algodo dos adversrios locais.
Ao final de seu reinado, por volta de 330 d.C., por influncia de seu antigo
tutor, Frumncio, converteu-se ao cristianismo, tornando-se o primeiro
soberano cristo de Axum e estabelecendo as bases da Igreja Copta. Ento,
em substituio s moedas que cunhava e emitia, com smbolos pagos,
passou a cunhar outras, agora com o smbolo cristo da cruz.
FAIUM (EL FAIYUM).Regio do vale do Nilo. Localiza-se numa grande depresso
do terreno, cerca de 40 metros abaixo do nvel do mar. Nos tempos antigos,
quando das cheias do Nilo, transformava-se num inspito e pantanoso lago,
infestado de crocodilos. O fara Amenemat III, construindo diques e
comportas, transformou o Faium numa enorme rea agrcola, localizada, como
 at nossos dias, em uma das regies mais fecundas do planeta. A partir de
certa poca, a regio passou a constituir uma provncia.
FALACHAS (FALASHAS). Denominao pela qual so conhecidos os etopes
seguidores do judasmo. Supostamente descendentes da Rainha de Sab e
de Salomo, rei dos hebreus, os falachas constituiriam um povo cujos
ancestrais, segundo suas tradies, teriam migrado do Oriente Mdio na
Antiguidade. Consoante outras verses, teriam se originado de grupos de
refugiados judeus que, no sculo V d.C., forados por perseguies crists,
buscaram abrigo em Axum.
FANTI (BORIBORI IMFANTSI). Grupo tnico do litoral da atual Repblica de Gana.
Ver AC.
FARAN MACAN BOT. Heri fundador do povo Sonrai.
FARA. Denominao usada para os soberanos do antigo Egito. O adjetivo
"faranico", que designa algo ostentatrio ou sunturio, tem como origem as
exteriorizaes de poder desses governantes, manifestas em templos e
tmulos monumentais. Nomes e ttulos  Os mltiplos e complexos nomes
pelos quais so chamados os faras resultam de que, aps a VI dinastia, todo
rei egpcio recebia, quando de sua coroao, mais quatro nomes,
acrescentados ao de nascimento, a saber: o nome de coroao propriamente
dito; os dois que o relacionavam ao deus Hrus; e o que estabelecia sua
ligao com as "Duas Senhoras" (segundo Clayton, 2004). Faras nbios 
Segundo Herdoto, citado por Pedrals, o Egito teve entre seus 333 faras 18
soberanos nbios ou etopes. Ao longo desta obra so mencionados como de
suposta ou comprovada aparncia negroide, alm dos cuxitas da XXV
dinastia, os seguintes governantes do Egito faranico: Adjib, A, Amenemat III,
Amenhotep I e sua me Nefertare, Amsis ou Ahms, Den, Djer, Intef, Caa,
Narmer, Semerquet, Senusret III, Tutms II, Uadji, alm de, segundo Bernal,
todos os outros das XI e XII dinastias.
FARMACOLOGIA. Estudo sobre aplicao, dosagem e efeito dos medicamentos.
No Egito, j por volta de 3300 a.C., segundo descobertas arqueolgicas em
papiros, preparavam-se drogas medicinais segundo receitas. Mais tarde,
entre outros povos africanos, como os do grupo banto, desenvolveram-se
empiricamente diversos medicamentos depois assimilados pela prtica
cientfica. Ver MEDICINA.
FAROL DE ALEXANDRIA. Torre iluminada construda no sculo III a.C. na ilha de
Faros, no delta do Nilo, e considerada uma das sete maravilhas do mundo
antigo. O vocbulo "farol" tem origem remota no nome "Pharos" dado  ilha
pelos gregos.
FARUSIANOS. Antigo e lendrio povo africano, citado na Histria Natural, de
Plnio, o Velho. O mesmo que "farsios". Segundo o Dicionrio Latino-
Portugus, de F. R. dos Santos Saraiva, trata-se dos Pharusii, iorum,
farsios, povo da Mauritnia. Observe-se que a antiga Mauritnia situava-se
em territrio do atual Marrocos e tambm que esses farsios so, em alguns
textos, referidos como nmades de pele escura, que viviam na orla do
deserto.
FENCIOS. Antigo povo litorneo da Sria, fundador na frica Setentrional, a
partir do sculo IX a.C., das colnias de Utica e Cartago. Segundo Leo
Frobenius, empregavam negros do golfo da Guin, na frica Ocidental, como
escravos, transportando-os para a regio mediterrnea por via martima,
atravs do Atlntico. No sculo VII a.C. as cidades fencias de Sidon e Tiro
estiveram sob o domnio egpcio. Ver CARTAGO.
FRON. Nome referido por Herdoto como o do filho e sucessor de Sesstris,
que teria ficado cego logo depois de assumir o poder, assim permanecendo,
por castigo dos deuses, por cerca de dez anos. Seu sucessor teria sido um
menfita chamado pelos gregos de Proteu. Provavelmente, Herdoto, com
esses nomes, estaria se referindo respectivamente aos faras egpcios
Amenemat II e Senusret ou Sesstris II.
FERREIROs. Embora variasse de uma regio para outra, a posio do ferreiro,
artfice do ferro, nas antigas sociedades africanas era, como at hoje nas
comunidades tradicionais, a de um personagem de alta estirpe, um indivduo
de ocupao polivalente, tcnico e artista. Em vrias regies, notadamente na
frica Ocidental, os ferreiros, em geral, no s detm o monoplio da
tecnologia como desempenham papel preponderante em cerimnias e rituais,
como oficiantes da liturgia e curadores de doenas. Por fora da importncia
econmica de sua profisso e da sacralidade que envolve seu mister, so
considerados pessoas de grande credibilidade e respeito. Veja-se, por
exemplo, que em quicongo e quimbundo, lnguas do grupo banto, os termos
correspondentes ao portugus "ferreiro" esto sempre presentes no ttulo dos
heris civilizadores: Ngangula-a-Congo, o forjador do Congo; Ngola-Musudi
ou Msuri, ttulo ambundo que significa "rei ferreiro" (ngola era tambm o nome
de cada um dos pequenos pedaos de ferro que simbolizavam as linhagens
principais dos ambundos) etc. Ver METALURGIA.
FETI. Heri fundador do povo Ovimbundo, do sudoeste de Angola. Segundo a
tradio, teve trs esposas: Tembo, Coia e Tchivi. Seus trs filhos teriam
sido, Viie, fundador do reino do Bi, no planalto central; o primeiro Ngola,
fundador do Ndongo; e Ndumba, antepassado do povo Quioco. Em abono 
tese da existncia real desse heri, registre-se a existncia do imenso stio
arqueolgico de Feti la Choya, situado na extremidade meridional do planalto
angolano, no encontro do rio Cunhangama com o Cunene. Descoberto em c.
1893, foi quase totalmente destrudo por conta de escavaes grosseiras e
da posterior construo de uma barragem hidreltrica, no sculo XX.
Entretanto, os instrumentos e artefatos l encontrados (400 folhas de enxada,
parte delas com formato inusitado, e outros utenslios de ferro, como um
martelo de ferreiro e um buril, bem como flechas de ferro, arcos de cobre,
sinos, gongos e a figura de um co em metal) do conta da importncia da
civilizao ali desenvolvida. Tudo isso  e mais um baluarte de defesa de 10 a
12 km de comprimento, com 6 m de fundura, entre os dois rios; de uma
pirmide de pedra de cerca de 5 m de altura e 15 m de largura; mais jazigos e
objetos de cermica  aponta para a existncia, no local, da capital de um
primeiro reinado dos ovimbundos, o qual teria se formado ao longo do sculo
XIII e existido at o sculo XVI. Outros estudos, consoante A. Costa e Silva,
entre outros autores, datam o stio do sculo VIII, sendo a civilizao local
provavelmente caudatria das vagas migratrias que, segundo Phillipson,
citado por Obenga (1985), provenientes do Baixo Congo, alcanaram os
atuais territrios de Angola e Nambia a partir do sculo I a.C. O vocbulo feti
tem, segundo o Dicionrio Etimolgico Bundo-Portugus, do padre Albino
Alves (Lisboa, 1951), o significado de "comeo", "incio".
FEZNIA (FEZZAN). Regio de osis no sudoeste da Lbia. Habitada pelos
garamantes, desenvolveu intensas relaes com a frica Subsaariana e
resistiu bravamente ao Imprio Romano.
FILE. Outra denominao para a ilha de Elefantina. Esse nome (do grego
philein, amar) foi dado pelo imperador romano Diocleciano (284-305 d.C.),
para celebrar uma suposta amizade com os insurretos blmios e nobatas.
FILOSOFIA. Cincia do saber e do conhecimento. Segundo Obenga (in Asante e
Abarry), a palavra "filosofia" tem como timo remoto o antigo egpcio seba,
conhecimento, vocbulo do qual deriva o grego sophia. Filosofia na Grcia e
no Egito  Para os gregos da Antiguidade, escreve Obenga, o Egito era o
nico pas a gozar de uma slida reputao nas cincias e no saber filosfico.
Isto era ponto pacfico, como diz M. Sauneron (citado por Obenga). Assim,
Tales, Pitgoras, Plato e muitos outros sbios helnicos fizeram viagens de
estudos ao vale do Nilo. A prpria escola de Alexandria foi fecundada e
sustentada pela tradio cientfica egpcia. Surgiu, ento, com fora, uma
profunda corrente civilizatria que deu  Humanidade progressos
considerveis  corrente que comea no Egito, alcana o mundo grego, passa
ao mundo rabe e chega ao mundo europeu antes da Renascena. Segundo
Champollion, citado por Obenga (1973), "a interpretao dos monumentos do
Egito faranico coloca ainda mais em evidncia a origem egpcia das cincias
e das principais doutrinas filosficas da Grcia; a escola platnica  apenas
egipcianismo, sado dos santurios de Sas; a velha seita pitagrica propagou
teorias psicolgicas que so desenvolvidas nas pinturas e nas lendas sacras
dos tmulos dos reis de Tebas, no fundo do vale deserto de Biban-el-Moluk".
Alexandre Moret, tambm citado por Obenga (1973), afirma que, quando os
reis satas da XXVI dinastia abrem o Egito aos estrangeiros, os gregos so os
primeiros a chegar: "O Egito se oferecia a eles como um conservatrio da
civilizao humana, desde suas origens; era a matriz das artes, das cincias,
da religio, das instituies (...), milagrosamente conservada desde tempos
imemoriais, para a instruo das sociedades ento modernas." Ver
AMENEMOPE; AMENHOTEP; CAGEMNI; DUAUF; HELENIZAO DO EGITO; IMHOTEP; PEDRA DE
XABACA; PTAH-HOTEP; SEHOTEPIBRE.
FINEIAS. Personagem bblico, neto de Aro. Seu nome, de origem egpcia,
significaria "o nbio" ou "o negro", segundo Bernal.
FIRMINO. Chefe berbere. Em 372 d.C., levantou as tribos do Djurdura contra
Roma e proclamou-se rei. Trs anos depois, trado pelo prprio filho,
enforcou-se. Esse personagem parece ser o mesmo referido em Obenga
(1973), como o prncipe mouro "Firmus", o qual teria lutado contra os romanos
com o apoio de um batalho de soldados negros da atual Mauritnia.
FORTALEZAS NBIAS. Denominao do conjunto de fortificaes, com grossas
paredes e muros com mais de 10 m de altura, e providos de seteiras,
erguidos durante a XII dinastia na fronteira meridional do Egito. Significam um
reflexo do perigo que o pas de Cuxe,  poca de Querma, representava para
o Egito faranico e que se agigantou  poca da invaso dos hicsos, com os
quais os cuxitas teriam planejado aliana. Cadeia de poderosas fortificaes
como jamais antes o mundo antigo havia visto, quatro mil anos depois de sua
construo e trezentos anos depois de seu abandono, as paredes ainda
impressionavam. Foram aparentemente construdas num perodo de cem
anos, durante os reinados dos faras Senusret I a III, e evidentemente
concebidas para formar um nico complexo sob um comando unificado. As
similaridades das plantas sugerem que as vrias fortificaes foram
desenhadas pelo mesmo arquiteto e construdas simultaneamente. Segundo
Bernal, so uma evidncia de que o poder militar egpcio  poca dos
Senusret ou Sesstris concentrava-se na regio da Nbia.
FOUDH. Segundo a Bblia, povo originrio da Mesopotmia que, depois de um
longo contato com egpcios e etopes, estabeleceu-se, por volta de 600 a.C.,
no interior da frica (cf. Pedrals). Segundo alguns entendimentos, tratar-se-ia
de ancestrais dos atuais fulas, fulnis ou peles.
FRUMNCIO. Ver SO FRUMNCIO.
FULNI. O mesmo que pele ou peul. Ver PELES.
FULAS. Ver PELES.
GA. Povo do grupo Ac localizado, atualmente, no leste da Repblica de Gana.
Segundo tradies nativas, sua origem remonta ao Egito, de onde emigraram,
na direo leste-oeste, para seu stio atual, atravs do antigo Benin (segundo
Asante e Abarry), chegando  regio j no sculo X d.C.
GABO. Pas litorneo da frica Central, limtrofe com Guin Equatorial,
Camares e Repblica do Congo. Por milhares de anos, pigmeus, tidos como
ancestrais do povo Bongo, habitaram a floresta tropical que cobre trs quartos
do atual territrio. Por volta de 200 a.C., as primeiras migraes dos
ancestrais dos bantos atuais teriam chegado  regio, estabelecendo
pequenas comunidades de agricultores nas bordas da floresta e expandindo-
se gradualmente. Aproximadamente no sculo VII d.C., desenvolveram
tcnicas de metalurgia do ferro e dominaram a floresta e seus arredores. A
exemplo do que ocorreu em outras regies do continente, o surgimento de
famlias extensas e cls propiciou a organizao de uma estrutura social, os
lderes ganhando importncia como caadores, guerreiros, comerciantes e
ritualistas, conforme a extenso de suas famlias. As mulheres cuidavam das
crianas, moldavam vasos de cermica e cestos, cultivavam hortas etc.; os
homens utilizavam-se do ferro na manufatura de armas e adornos. Muitas
aldeias cultuavam ancestrais comuns, com pequenas diferenas rituais para
cada cl. No sculo XIV d.C., cerca de cem anos antes da chegada dos
primeiros portugueses, quando o reino do Luango estendeu sua influncia para
alm da atual fronteira do Congo-Brazzaville, ao longo do litoral gabons,
algumas aldeias tinham j um esboo de organizao estatal. Organizadas em
confederao, essas unidades tinham uma estrutura do tipo feudal e talvez
matriarcal, na qual as mulheres dos cls dominantes desempenhavam papel
bastante significativo. Ver BANTOS; LUANGO; MATRIARCADO; PROTOBANTOS.
GABRA MASCAL (GEBRE MESKEL). Rei de Axum, governante no sculo VI d.C.
GADARAT.   Rei de Axum no sculo I d.C.
GALENA. Sulfeto de chumbo. Ver MAQUIAGEM DOS OLHOS.
GALAS. Ver OROMOS.
GAMFASANTES. Antigo e lendrio povo africano, citado na Histria Natural, de
Plnio, o Velho.
G ANA, Antigo. Estado constitudo aproximadamente onde hoje se situam a
poro norte do territrio do Senegal, a parte oeste do territrio do Mali e o
sudeste da Mauritnia, com capital em Kumbi Saleh. Embora tenha granjeado
importncia no sculo IX d.C., quando controlou toda a regio do Ungara,
entre o alto Nger e o rio Senegal, o antigo reino do Gana tem registro na
Histria desde o sculo III d.C. A tradio, entretanto, listando cerca de 144
soberanos, situa o surgimento do Estado por volta do sculo VII a.C., seu
ncleo tendo-se desenvolvido, provavelmente, entre 800 e 300 a.C., com um
complexo sistema poltico. O nome era Uagadugu, entretanto rabes e
europeus tomaram a palavra gana, grandioso, perfeito, um ttulo do soberano,
como o nome do reino, da mesma forma que, mais tarde, no atual Zimbbue,
o fizeram com o ttulo "monomotapa". Para alguns historiadores, no primeiro
milnio da Era Crist, um grupo de cls do povo Soninqu ou Saracol, no
territrio do atual Senegal, foi unificado sob a liderana de um rei divino, de
origem estrangeira, chamado Dinga Ciss. Essa unio foi uma resposta aos
constantes ataques de povos nmades vizinhos. Mais para oeste ficava o
reino de Taqrur, no vale do rio Senegal. Consoante outras verses
tradicionais, o Uagadugu foi fundado por Diabe, filho de Dinga, um migrante
vindo do leste, ancestral de todos os saracols, em c. de 770 d.C. A partir
da, at a invaso dos sossos (sussus) em 1076, o pas gozou de grande
prosperidade. Sua capital, Kumbi Saleh, era uma vasta cidade, com edifcios
de pedra de vrios andares, onde, segundo Ki-Zerbo, algumas prticas, entre
elas as pompas funerrias dos reis falecidos, eram em tudo semelhantes s
realizadas na civilizao cuxita de Querma. Primeiro reino e depois imprio,
Gana conseguiu poder graas ao seu ouro. A introduo do camelo no Saara,
no sculo VII a.C., foi fundamental para que esse ouro e outras mercadorias
tivessem maior circulao. As minas situavam-se em Bambuq, no curso
superior do rio Senegal; os soninqus tambm forneciam escravos, sal e
cobre, em troca de tecidos, miangas e outros bens. Assim, em pouco tempo,
seus governantes controlaram toda a regio do Uangara, entre o alto Nger e
o rio Senegal, produtora de grandes quantidades de ouro, comercializado
atravs do Saara. Tanto que seu soberano era chamado de o "senhor do
ouro". A capital Kumbi Saleh tornou-se o ncleo comercial por excelncia,
inclusive com um sistema eficiente de cobrana de taxas e impostos; mais
tarde, Audaghost firmou-se tambm como centro comercial. A fora do Gana
estava, alm disso, ligada ao mito de Bida, a serpente negra. Segundo a
tradio, essa serpente exigia um grande sacrifcio anual em troca da garantia
da prosperidade do reino. Todo ano uma virgem lhe era oferecida, at que,
em determinada ocasio, o noivo de uma futura vtima, chamado Mamadu
Sarol, a resgatou. Impedido o sacrifcio, Bida teria resolvido vingar-se: uma
terrvel seca, por volta do sculo XII, comprovada pela arqueologia, assolou o
Gana; e as minas de ouro, as mais ricas do mundo em seu tempo, entraram
em declnio. O reino de Gana, que nunca se converteu ao Isl, foi derrotado e
destrudo em 1076 pela dinastia berbere dos almorvidas.
GAO. Cidade da atual Repblica do Mali. Antiga capital do reino Songhai. Ver
SONRAI.
GARAMA. Capital do reino dos garamantes.
GARAMANTES. Conjunto de tribos mencionadas por Herdoto como habitantes
da regio da Feznia, na Lbia, no sculo V a.C. Sua capital, Garama, ficava
situada prxima  moderna cidade de Djerma. Segundo Herdoto, foram as
caravanas garamantes que abriram a rota do Sudo ao comrcio
transaariano. Considerados apenas "negroides" por alguns autores, segundo
Duveyrier, citado por Ki-Zerbo, eram incontestavelmente negros,
propagadores, no Saara, de uma civilizao de pura negritude. Para alguns,
os garamantes so os ancestrais dos modernos tedas, habitantes do Sudo.
GAZER. Ver GEZER.
GEBRE MESKEL. Ver GABRA MASCAL.
GEEZ. Ver GUES.
GEOMETRIA. Ver PIRMIDE; TALES DE MILETO.
GESSEN. Cidade no delta do Nilo onde, segundo a Bblia, se estabeleceram os
descendentes dos patriarcas Jos e Jac. L, Jos reencontra seus
familiares, os perdoa e os leva para morar numa pequena aldeia egpcia. A
cidade est tambm relacionada aos eventos miraculosos protagonizados por
Moiss, segundo a tradio.
GETLIA. Antiga regio africana, limitada ao norte por Numdia e Mauritnia, ao
sul pelo Saara e a oeste pelo Atlntico. Alguns de seus habitantes, chamados
getulos, integraram a cavalaria do exrcito nmida durante as guerras de
Jugurta contra os romanos. Segundo alguns autores, "getulos" era o nome
pelo qual os gregos se referiam aos berberes.
GEZER (GAZER). Cidade egpcia. Foi conquistada e dada de presente pelo fara
Siamon, da XXI dinastia tebana,  filha, como dote, para o casamento dela
com o rei Salomo de Israel. Ver tambm DJOSER.
GEZIRA (EL JEZIRA). Regio da Nbia, entre o Nilo Branco e o Nilo Azul.
GIBRALTAR, Estreito      de. Brao de mar que liga o oceano Atlntico ao
Mediterrneo, separando a frica da Europa. Esse nome, entretanto, foi-lhe
dado aps o advento do Isl.
GICNDI. Sistema de escrita do povo Quicuio, da atual Repblica do Qunia.
Aps o desaparecimento dos hierglifos e da escrita merotica, ao contrrio
do que muitas vezes se afirma, povos africanos continuaram a usar sistemas
grficos de escrita. A escrita Gicndi, at hoje praticada,  uma prova dessa
afirmativa. Constituda de sinais gravados sobre cabaas usadas durante
rituais coreogrficos, cada um dos caracteres ou sinais representa o ttulo de
uma cano ou um poema a ser interpretado em determinado momento da
performance ritual. Descoberto por W. Scoresby Routledge e Katerine
Routledge em 1910, embora os quicuios no tivessem como datar a inveno
desse sistema de escrita, desenvolvido por seus ancestrais, todos os indcios
levam a crer ser ele praticado desde tempos imemoriais. Thophile Obenga,
por exemplo, na obra Sistematic Comparison Between English Script and Vai,
Mende, Loma, Kpelle, Nsibidi, Bamun and Gicandi Scrips (Paris, 1973), viu
analogias entre ele e os hierglifos egpcios. Ver GICUIU; NSIBIDI.
GICUIU. Heri epnimo do povo Quicuio (Gekoyo, Gikuyu). Viveu provavelmente
entre 100 e 200 d.C., poca da instalao no atual Qunia dos primeiros
migrantes bantos oriundos do Baixo Congo. Neto da filha mais velha do
fundador de sua etnia, governou, segundo a tradio, de forma autocrtica,
no permitindo que seu povo cultivasse a terra nem tivesse moradias
permanentes. Essas determinaes teriam provocado a revolta do povo, que
o deps, instalando um regime democrtico com o primeiro conselho reunido
em Mokorve va Gathanga.
GIMNETAS. Antigo e lendrio povo africano, citado na Histria Natural, de Plnio,
o Velho.
GIZ. Cidade do Egito,  margem esquerda do Nilo, na zona suburbana da
atual Cairo. Importante stio arqueolgico, nela situam-se as grandes
pirmides dos faras Cufu, Cafra e Mencaure, alm da famosa esfinge. 
tambm mencionada como Giza. Ver tambm ESFINGE DE GIZ.
GLOTOCRONOLOGIA. Conjunto de tcnicas e mtodos cientficos usados para
determinar a poca de formao de uma lngua, a glotocronologia tem sido de
grande utilidade como cincia auxiliar no estudo da histria da frica.
GOCOMERE. Stio arqueolgico no Zimbbue onde, segundo A. Costa e Silva,
acharam-se vestgios de aldeias, datados dos sculos II, IV e VI d.C. Esses
achados incluem estatuetas antropomrficas de argila, fios e fragmentos de
cobre, contas de ferro, vidro e conchas. A povoao local se iniciou, segundo
Phillipson, citado por Obenga (1985), em c. 530 d.C., com a chegada de
migrantes provenientes da atual Zmbia.
GRANDE ESPOSA REAL. Cargo cerimonial na corte faranica do Egito antigo,
institudo por Amenhotep III em favor de sua mulher, Tiy, conferindo-lhe poder
na conduo dos negcios de Estado. Ver NEFERTITE.
GRANDES LAGOS. Expresso pela qual  conhecido o conjunto de sete lagos
(Alberto ou Mobutu, Eduardo, Quivu, Tanganica, Niassa, Quioga e Vitria)
situados na poro centro-oriental do continente africano, entre Uganda,
Qunia, Congo-Quinshasa, Tanznia, Zmbia e Moambique. No perodo
compreendido entre 400 e 300 a.C., intensificaram-se as vagas migratrias
dos povos bantos da savana camaronesa na direo leste. Encontrando a
terras frteis e regime de chuvas propcio  agricultura sedentria que j
praticavam, esses povos fixaram-se na regio. Como consequncia desses
assentamentos bantos, as populaes autctones foram assimiladas e as
provenientes do vale do Nilo, em geral dedicadas ao pastoreio, buscaram
pastagens ao sul e a oeste. Essas ocorrncias foram dando nascimento, ao
redor dos lagos e ao longo dos sculos, a unidades tnicas e polticas
diversificadas. Delas, surgiram, entre os sculos XIII e XV d.C., os reinos de
Buganda, Bunioro, Ancole, Carage e Ruanda.
GREAT RIFT VALLEY. Ver RIFT VALLEY.
GRUPO A.   Denominao aplicada pela arqueologia convencional  civilizao
florescida na Baixa Nbia  poca do surgimento da I dinastia faranica
egpcia.
GRUPO C. Nome pelo qual a arqueologia convencional menciona a civilizao de
Querma.
GRUPO X. Denominao utilizada pela arqueologia convencional para referir-se
 civilizao desenvolvida na Nbia, da metade do sculo III d.C.  metade do
VI d.C. Essa civilizao provinha de um dos dois povos que  poca viviam na
regio, os blmios e os nobatas. Por no saber precisar a origem exata, os
cientistas a batizaram como do "Grupo X". Segundo W.B. Emery, citado por
Brissaud, os agentes dessa civilizao eram de uma "raa de mestios"
aparentada com a dos meroticos, "possuindo, entretanto, uma grande
herana negroide". Ver BLMIOS; NOBATAS.
GUES. Antiga lngua etope. Sua escrita, criada por volta de 1000 a.C.,  uma
das poucas formas de grafia desenvolvidas no prprio continente africano.
Deriva da escrita dos sabeus, com a peculiaridade de ser em zigue-zague: a
primeira linha, da direita para a esquerda; a segunda, da esquerda para a
direita; a terceira, em sentido contrrio, e da por diante.  igualmente
conhecida como "escrita etipica". Diz-se tambm "guezo". Ver ESCRITA.
GUERRAS. Foustel de Coulanges chama ateno para o fato de que, na
Antiguidade, tal era a importncia da religio na vida das comunidades que
uma guerra representava no s um combate entre os homens, mas tambm
entre os deuses de cada uma delas. Os povos antigos acreditavam que os
deuses combatiam com o exrcito, defendendo os soldados e sendo por eles
defendidos. Por conseguinte, os deuses dos inimigos eram tambm inimigos e,
assim, tambm precisavam ser combatidos, eliminados ou aprisionados. Os
relatos da batalha de Kadesh, travada entre as tropas de Ramss II e o
exrcito hitita, em c. 1274 a.C., do conta de que as foras egpcias
organizavam-se em divises com nomes de deuses, como as brigadas de
Amon, Ra, Ptah e Seth. Veja-se tambm que, em algumas sociedades
africanas, a agressividade, o valor individual, a conscincia de superioridade
foram sempre qualidades essenciais. Assim, a guerra no era um fator de
desequilbrio social, uma crise, e sim um momento de vida intensa, um
fenmeno institucionalizado e integrado na organizao econmica e poltica.
Ver   RELIGIES.
GUIN. Nome outrora atribudo, no Ocidente africano,  regio que se estendia
da Senegmbia ao Congo. Segundo alguns autores, a origem da palavra
estaria no berbere akal-n-iguinawen, que significa "pas dos negros". Entre os
sculos XI e XIII d.C., grandes movimentos populacionais ocorreram na
regio, ocasionando a formao de unidades polticas importantes, como os
Estados dos povos Ac, Iorub, Eve-fon etc. Esses eventos provavelmente
tiveram como consequncia indireta o movimento dos almorvidas, confraria
de guerreiros berberes que,  poca, imps seu poder e sua f do Marrocos
 Arglia. Ver DJENN-AJENO.
GURMANTCH (GURMAS). Povo localizado nos modernos Burquina e Mali, falante
do gurma. Sua denominao, assim como a dos vizinhos coromantis, parece
guardar eco do nome "Garamantes". Ver UAGADUGU.
HAAIBRE. Ver HOFRA.
HABBASHAT. Etnia iemenita que teria emigrado para a frica por volta de 1000
a.C. constituindo-se em um dos grupos fundadores da Etipia ou Abissnia.
Seu nome, tambm mencionado como "habash", teria sido dado por rabes a
uma das primeiras tribos etopes com que fizeram contato. Dele derivam os
etnnimos "abexim" e "abissnio", bem como o topnimo Abissnia.
HACOR. Fara egpcio da XXIX dinastia, reinante de c. 393 a 380 a.C.
HAIA. Povo da atual Tanznia, estabelecido s margens do lago Vitria, at o
pas Niamuezi. Notabilizou-se, segundo os cientistas Donald Avery e Peter
Schmidt (citados por Appiah e Gates), pela produo, em poca anterior 
Era Crist, de ao em fornos abertos preaquecidos, com tecnologia
metalrgica s adotada na Europa no sculo XIX.
HAMITO-SEMITA. Antiga denominao da famlia lingustica afro-asitica, hoje
descartada por sua implcita conotao racial, a qual d margem a equvocos.
HANON (HANO). Navegador cartagins do sculo VI a.C. Em um de seus
relatos, informa que descobriu uma "montanha muito alta" onde se escutam
"rudos de chamas", ou seja, um vulco, que ele denomina "carruagem dos
deuses" e que, segundo Jean Imbert, parece ser referncia ao monte
Camares, na regio do Adamaua, cuja atividade vulcnica se manifesta de
tempos em tempos. Entretanto, segundo alguns autores, citados por Ki-Zerbo,
o clebre "priplo de Hanon" teria sido uma contrafao, uma mentira, ao
contrrio da viagem exploratria do romano Polbio.
HAPY. Nome egpcio do rio Nilo.
HARAQTI. O mesmo que Harmaquis.
HARCUFE (HARKUF). Governador do Alto Egito, filho de Iri, nomarca de
Elefantina, durante a VI dinastia. As relaes do Egito com Cuxe e a regio da
Nbia tinham chegado a uma dimenso quase colonial, principalmente no
comrcio com o pas de Punt, interessante tanto para os faras quanto para
os intermedirios. Assim, Harcufe, que dominava vrias lnguas, fez diversas
expedies ao sul do pas para chamar  responsabilidade os nmades que,
com sua turbulncia, constituam um obstculo s atividades comerciais. Em
sua terceira expedio, penetrou ainda mais para o interior do continente, para
a frica Profunda. De volta, teria transportado, em cerca de 300 muares,
incenso, bano, perfume, peles de pantera e dentes de elefante. Quando de
sua quarta misso, recebeu uma carta do jovem fara Pepi II manifestando
seu interesse em adquirir um "ano danarino", que hoje se supe fosse um
pigmeu, provavelmente das florestas da frica Central. Tambm mestre-
sacerdote, Harcufe legou  posteridade importante texto filosfico quemtico.
Ver IAM.
HARMAQUIS. Deus nbio conhecido como "Hrus do horizonte". Tutms III lanou
as fundaes de seu templo, concludo por Amenfis II e ampliado por Tutms
IV. Seu nome  transliterado tambm como Haraqti.
HARSIOTEF. Rei de Cuxe em Meroe, c. 404-369 a.C.
HARU. Nome egpcio da Fencia.
HATCHEPSUT. Rainha do Egito na XVIII dinastia. Filha de Tutms I e viva de
Tutms II, dominou o reinado de Tutms III por cerca de duas dcadas. No
satisfeita em ser rainha corregente e atribuindo seu poder a um dom divino,
tornou-se rainha por direito prprio, adotando o protocolo completo dos
faras, usando trajes reais masculinos e at mesmo a barba postia, smbolo
da autoridade faranica. Reinando sem conflitos blicos, dedicou-se a
realizaes arquitetnicas e expedies comerciais, tendo promovido viagem a
terras iemenitas para obter resinas de incenso e mirra, utilizadas com fins
teraputicos e como substncias aromticas. Aps sua morte, Tutms III
ainda reinou brilhantemente mais 25 anos.
HATHOR. Deusa egpcia, mencionada tradicionalmente como governante do
Egito nos tempos pr-dinsticos. Filha dileta de R, um dia, enciumada com a
ateno dada pelo pai s outras divindades, retirou-se de Quemet, deixando o
pas mergulhado em grande desolao e tristeza, indo residir no deserto de
Ta-Seti, onde, transformada numa leoa, destroava o corpo de qualquer
criatura viva que dela se aproximasse. Ver MITOS E LENDAS.
HATNISU (HET-NEN-NESUT). Nome quemtico de Heraclepolis.
HAUS.   Povo das atuais regies norte da Nigria, sul do Nger e norte de
Camares. Antes da Era Crist, seus ancestrais constituam uma comunidade
de pastores, agricultores e artesos. Segundo a tradio local, certo dia, o
heri de nome Bavo, numa aldeia chamada Daura, matou a serpente sagrada
que impedia o povo de tirar gua do poo onde vivia. A morte da serpente
alegrou tanto a rainha de Daura que ela deu sua filha em casamento ao heri.
E dessa unio nasceram sete filhos, que fundaram os sete Estados haus, a
saber: Daura, Gobir, Kano, Rano, Katsina, Biram e Zaria, os quais
constituram a confederao conhecida como "Banza Bokwoi". Gobir, na
posio mais ocidental, ganhou a incumbncia da defesa contra os poderosos
inimigos do oeste.  poca da queda do antigo Gana, destrudo pelos
almorvidas no sculo XI d.C., vagas migratrias e invases consecutivas no
eixo Nilo-Chade e nas circunvizinhanas teriam motivado a fundao de
dinastias cujos fundadores ou alguns de seus lderes tornaram-se soberanos
de diversos reinos, como os dos iorubs e haus, estes j sob influncia
islmica. Entretanto, Baumann verificou na moderna cultura hau alguns
traos de origem mais antiga, como o modelo de sucesso ao trono de Kano,
regulado pelo matriarcado, como em Cuxe; o boi de sela mantido pela rainha
de Daura, semelhante a costume dos antigos garamantes; alm de relacionar
outras prticas a costumes correntes no Cordofo e na Nbia.
HAVIL. Regio da frica Antiga correspondente ao atual territrio de Djibuti,
localizado no tringulo de Afar, em frente ao Imen, na frica Oriental. Rica
em ouro, bdlio e pedra de nix, segundo C. R. Boxer, era um dos limites do
territrio dos ismaelitas e dos amalequitas.
HEBREUS. Antigo povo nmade tido como originrio da Baixa Mesopotmia.
Sob o comando de Abrao, fixaram-se em Cana por volta de 1850 a.C.,
poca provvel do reinado do fara Sesstris III no Egito. Sob o patriarca
Jac, uma nova leva de migrantes estabeleceu-se no local, formando o ncleo
da "casa de Israel". Com a invaso do Egito pelos hicsos, no sculo XVII ou
XVIII a.C., novas levas de hebreus os seguiram, estabelecendo-se a leste do
delta do Nilo. Experimentaram um perodo de prosperidade quando o hebreu
Jos tornou-se ministro do fara.
HEH. Nome egpcio para a regio de Siena, atual Assu.
HECANACT. Vice-rei da Nbia no reinado de Ramss II.
HECA-NEFER.    Prncipe de Nefer, chamado o "grande de Miam",  poca de
Tutancamon. Trata-se de personagem cujo epteto evoca o centro
administrativo da Baixa Nbia, atual Aniba. Chefe do servio de transportes do
Nilo, foi retratado como um alto dignitrio de pele escura e com o fentipo dos
negros, trajado com vestes tradicionais nbias e portando acessrios da
tradio cuxita.
HELENIZAO DO EGITO. De c. 323 a 30 a.C. o Egito esteve sob domnio grego.
Dispostos a colonizar culturalmente o povo local, os gregos tornaram sua
lngua a oficial em Alexandria, impuseram nomes gregos s localidades e at
mesmo aos faras outrora reinantes, proibindo os nacionais do pas de
frequentar o museu e a biblioteca l existentes, bem como de exercer
atividades comerciais. No mbito da religio, os gregos organizaram uma
comisso de telogos, incluindo sacerdotes egpcios, para compatibilizar, por
meio de sincretismo, as divindades das duas culturas, o que redundou em
deturpao e abastardamento de muitas das concepes originais. Durante o
perodo ptolomaico, os sacerdotes egpcios pugnavam por preservar a
personalidade africana e niltica de sua religio e por desenvolver o lado
hermtico das crenas e dos ritos, recusando-se a participar da efervescncia
intelectual e festiva provocada pelos gregos em Alexandria. Segundo Bernal,
tempos depois, a maonaria, adotando, a partir dessa helenizao, princpios,
smbolos e rituais da tradio hermtica, mas recusando-se a admitir serem
esses elementos produto de uma cincia da frica Profunda, teria sido um dos
fatores responsveis pela construo de uma imagem no africana do Egito
antigo, at hoje presente no imaginrio mundial. Ver FILOSOFIA; HERMES
TRISMEGISTO.
HELIPOLIS. Nome grego da antiga cidade egpcia chamada Onu ou Iunu pelos
habitantes locais e dedicada ao culto de Aton ou Atum, o sol (em grego,
helios). Localizava-se na parte nordeste da atual Cairo.
HENA. Espcie de arbusto (Lawsonia inermis) de cujas folhas, secas e
pulverizadas, extrai-se um produto corante, empregado na frica, desde a
Antiguidade egpcia, como cosmtico.
HEQUANEQTI. O mesmo que Hecanact.
HERACLEPOLIS. Nome grego da cidade egpcia de Het-Nen-Nesut ou Hatnisu,
situada  entrada do lago Mris ou Faium e hoje denominada Ahnas-el-
Medinet. Significa "cidade de Hracles", em aluso ao heri grego, identificado
com o Hrcules romano; o local foi assim chamado pela associao de seu
deus, o carneiro Herixef, com esse heri. Bero da IX e da X dinastias, foi,
durante o Primeiro Perodo Intermedirio e o incio do Mdio Imprio, a sede
da oposio e da resistncia ao poder emanado de Tebas.
HERIHOR. Sacerdote de Amon em Tebas, com domnio sobre parte do Egito
em c. 1070 a.C. Ver EGITO  Terceiro Perodo Intermedirio.
HERMES TRISMEGISTO. Representao grega do deus egpcio da sabedoria,
Thoth, criador de todas as artes e cincias. Os gregos viram na memria do
sbio Imhotep, venerado como um deus pelos antigos egpcios, uma espcie
de avatar de Thoth e associaram os dois a essa representao divina do
saber. Os Textos hermticos constituem uma coletnea de documentos
mgicos, msticos e filosficos criados, no todo ou em parte, provavelmente
por Imhotep, que viveu por volta de 2700 a.C.
HERMPOLIS. Nome grego de duas cidades egpcias: Qemnu ou a "grande
Hermpolis",  margem esquerda do Nilo, no stio da atual El-Achmuneir e
referida como a "Cidade dos Oito Deuses"; e a "pequena", no Baixo Egito,
atual Damanhur. Quemnu, capital de um dos nomos do Alto Egito e sede de
um grande templo do deus Thoth, era tida como a terra onde o Deus Supremo
descansou aps a criao do mundo. Seu nome helnico resultou da
associao que os gregos fizeram de Thoth, deus da sabedoria, com o seu
Hermes. Durante um momento de sua histria, a cidade abrigou uma grande
comunidade judaica.
HERDOTO. Historiador grego. Por volta de 445 a.C., visitou o Egito, subindo o
Nilo at Elefantina. Deixou para a posteridade um clebre relato sobre o Egito
e a Etipia de ento.
HET-NEN-NESUT. Ver HATNISU.
HICSOS. Nome pelo qual passou  histria o contingente multitnico de
invasores, tidos por alguns como de origem hurrita, chegados atravs do
Mediterrneo, e que no sculo XVII a.C. bateram a dinastia tebana que
reinava sobre o Nilo e dominaram o Baixo Egito por cerca de um sculo. Seus
principais governantes reinaram em Avaris, na parte leste do delta do Nilo,
enquanto em Tebas fundava-se um novo ncleo egpcio. As dinastias
apresentadas por Mneton como governantes  poca dos hicsos, ou seja, da
XIV  XVII, reinaram, ento, em diversas partes do territrio egpcio, inclusive
com poder paralelo ao de Tebas, at serem expulsas por Amsis. Conhecidos
como "reis pastores", a costumeira afirmao de que teriam levado um
inestimvel aporte civilizatrio ao continente africano merece reparos: os
governantes hicsos adotaram irrestritamente os costumes egpcios, inclusive
os deuses locais. O vocbulo "hicso" teria se originado da expresso egpcia
hqa-khasut, significando "chefe de um pas estrangeiro"; segundo algumas
verses, esse povo estaria relacionado  formao do povo hebreu. Ver
XODO.
HIERACMPOLIS. Ver NEQUEN.
HIERT ICA, Escrita. Denominao grega da escrita cursiva utilizada pelos
sacerdotes egpcios, resultante de uma simplificao dos caracteres
hieroglficos. Surgiu aps a descoberta da utilidade do papiro como suporte da
escrita, quando os sacerdotes passaram a grafar os hierglifos de forma
esquemtica.
HIERGLIFOS. Sistema de smbolos da escrita dos antigos egpcios, usado pelo
menos desde o terceiro milnio a.C. e abandonado por volta do sculo IV a.C.
Ver ESCRITA.
HIMANTPODES. Antigo e lendrio povo africano, citado na Histria Natural, de
Plnio, o Velho.
HIPONA. Cidade fencia da Numdia, s margens do Mediterrneo. Depois de
ser colnia de Cartago, passou ao domnio romano, sob o qual foi importante
ncleo catlico, e mais tarde foi ocupada pelos vndalos.
HIPPO ZARITUS. Cidade colonial romana no norte da frica, na regio da atual
Benzert ou Bizerta, na Tunsia.
HITITAS. Povo da regio de Anatlia, na atual Turquia. Militarmente poderosos,
foram tradicionais adversrios dos egpcios no controle sobre a Sria, rica em
florestas de cedro, cidades e emprios comerciais, e a Palestina. No sculo
XIII a.C., entretanto, aps a batalha de Kadesh, seu rei Hatusil III firmou com
Ramss II um dos mais antigos tratados de paz da Histria.
HOFRA (HAAIBRE). Fara do Egito (589-570 a.C.), tambm conhecido como
Apris, reinante  poca de Nabucodonosor. Recebeu apoio dos babilnios
contra a revolta do general Amsis, que, vencedor, o sucedeu no trono do
Egito, reinando de c. 569 a 526 a.C.
HOGGAR.   Macio do centro do Saara, no sul da atual Arglia, habitado pelos
tuaregues de mesmo nome.
HOMENS AZUIS. No sculo IX d.C., denominao dada, na Irlanda, a escravos,
provavelmente africanos, que navegadores viquingues iam buscar nos portos
do mar Negro e do mar Cspio. Ver ESCANDINVIA.
HOREMHEB. ltimo fara egpcio da XVIII dinastia (sculo XIV a.C.), no Imprio
Novo. Chefe dos exrcitos de Amenhotep IV, depois Aquenaton, e dos faras
seguintes, at Ay. Pai de Seti I, coroou-se fara, em substituio a Ay, em
1343, e apagou os nomes dos faras Aquenaton, Semencar, Tutancamon e
Ay de todas as inscries ento existentes.
HORI. Nome comum a dois vice-reis da Nbia (Hori I e II)  poca de Ramss
II.
HRUS. Deus nacional do antigo Egito, filho de sis e Osris. Era representado
principalmente como um homem com cabea de falco, ostentando duas
coroas, uma branca, simbolizando o Baixo Egito, e uma vermelha,
simbolizando as terras do Alto Nilo. Divindade com mltiplas atribuies, seu
nome era usado como ttulo pelos reis da era pr-dinstica. Da mesma forma,
na Nbia, seus vrios aspectos recebiam sobrenomes ou eptetos referentes
s diversas localidades onde lhe era rendido culto. Um desses era "Hrus do
horizonte" ou Harmaquis. Sua origem nbia parece clara no epteto "touro da
Nbia assentado em Tebas", por meio do qual era invocado. Por outro lado,
segundo Baines e Mlek, a filiao ao culto de Hrus era expressa nos ttulos
dos faras. Da, alm do "nome de Hrus", adotado pelos reis a partir da VI
dinastia, as referncias, na poca pr-dinstica, a faras denominados "Hrus
Sereq", "Hrus Escorpio" etc. Este ltimo, originrio de Nequen, cidade
chamada Hieracmpolis pelos gregos, por volta de 3150 a.C., teria
conquistado o norte do Egito e comeado a organizar o pas, preparando a
unificao completada por Narmer. Ver FARA  Nomes e Ttulos.
HOTENTOTES. O mesmo que khoi-khoi. So semelhantes em aparncia aos
povos san ou bosqumanos, a cuja histria, lngua e cultura esto intimamente
relacionados.
HOTEP. Elemento presente em diversos antropnimos egpcios, inclusive de
faras. A julgar-se pelo que escreveu Save-Sderberg sobre Thoth-Hotep,
denota origem nbia. Segundo Asante, o elemento "hotep" (paz), posposto a
nomes de divindades para formar antropnimos, tem o significado de "est
satisfeito" ou "est em paz". Ex.: Ptah-Hotep, "Ptah est satisfeito";
Amenhotep, "Amon est em paz".
HOTEPSEQUEMUI. Fara egpcio, fundador da II dinastia. Foi provavelmente o
fixador da capital em Mnfis.
HU (HUY). Vice-rei da Nbia  poca de Aquenaton e Tutancamon (cf. A. Costa
e Silva). Sua tumba foi descoberta em Tebas, atual Luxor.
HUNI. Fara egpcio da III dinastia, poca menfita, sculo XXVI a.C. Sua
pirmide, cuja construo foi iniciada durante seu reinado, foi a ltima das
primitivas pirmides em degraus da arquitetura egpcia.
HURRITA. Natural ou habitante de Hurru.
HURRU. Primitiva denominao de Cana, a atual Palestina, a qual, segundo
Cazelles, foi registrada principalmente por escribas de Tutms III. Ver MITANI.
IAM (YAM) ,  Pas de. Na Antiguidade africana, pas de localizao incerta, de
onde o nomarca Harcufe, em uma de suas viagens, teria levado para o fara
Pepi II um "ano danarino". Por esse fato, Laffont aventa a hiptese da
localizao em Ituri, no atual Congo-Kinshasa, habitat de pigmeus. Outra
possibilidade  que o nome "Iam" se refira ao Imen, uma vez que nos relatos
de viagens de Harcufe h referncias a Punt, incenso, perfumes etc., que
induzem a essa especulao.
ICTIFAGOS. Denominao usada por Herdoto para os habitantes de
Elefantina; significa "comedores de peixe". Falavam a lngua cuxita e alguns
deles foram enviados por Cambises, durante o domnio persa do Egito, para
espionar Meroe, com o pretexto de levar uma mensagem de paz. Entre vrios
povos do nordeste africano at hoje a ingesto de peixes  grande tabu, j
que eles seriam materializao de espritos das guas.
IEBU. Antigo nome da localidade de Elefantina, bero da escola cosmognica
de Abu.
IEHA. Cidade da Etipia na atual provncia de Tigr. Foi a primeira capital dos
povos falantes do gues, funo mais tarde desempenhada por Axum, mais
ao sul.
IMEN. Pas do sul da pennsula arbica. Na Antiguidade, a regio foi bero de
uma forte cultura na qual floresceram cidades depois unificadas em reinos,
como o dos sabeus, o legendrio reino de Sab, cuja estreita ligao com a
costa africana deu origem ao reino etope de Axum. Em contrapartida, sculos
depois, os axumitas estenderam seu domnio sobre o Imen.
IESBEQUEAMANI. Rei de Cuxe em Meroe, c. 283-300 d.C. O derradeiro de sua
linhagem,  referido como o ltimo rei cuxita de Meroe. Aps seu reinado,
outros soberanos governaram provavelmente em Napata.
IF (IL-IF). Cidade-Estado no sudoeste da atual Nigria, situada na orla da
floresta equatorial. Habitada, segundo Adky, possivelmente desde o sculo
VI d.C., foi o ncleo de origem e centro religioso do povo iorub, liderado por
Agbonmiregun ou Setilu. No dizer de Fabunmi, citado por Adky, de Il-If,
especificamente da localidade de Itajer, teriam sado 27 descendentes de
Odudua para fundar vrias cidades e provncias, inclusive a que constituiria,
mais tarde, o reino de Benin. O povo de Il-If destacou-se pelo
desenvolvimento de sua arte, notadamente por suas esculturas em bronze.
Essa arte transmitida ao reino de Benin, onde experimentou um novo
desenvolvimento, e tambm a presena da escultura em pedra, tudo isso
prova a existncia de um grande polo de civilizao na regio. A comparao
dessas tcnicas e formas artsticas com outras surgidas na Nbia pode
apontar sua origem; e para alguns autores essa filiao nbia da arte de If
teria sido um prolongamento da influncia helenstica. Outros autores, ainda,
buscam explicar a surpreendente arte do eixo If-Benin por meio de uma
suposta colonizao fencia, com base na legendria expedio de Hanon. Ver
IORUBS.
IGBO-UKWU. Stio arqueolgico no centro-sul da atual Nigria, territrio do povo
Ibo. Abrigou importante civilizao na Idade do Bronze entre os sculos VIII e
IX d.C.
IJEBU. Estado iorubano, oriundo da dinastia fundada por Adjibot ou Acarigb.
Nele, consoante Pedrals, na cidade de Ijebu Od, uma filha da Rainha de
Sab, chamada Shongbaou ou Barquisso, teria edificado uma poderosa
cidadela fortificada, afirmao que, entretanto, resulta em anacronismo, j que
a legendria rainha teria vivido no sculo X a.C. Ver IL-IF.
IL-IF. Ver IF.
IMBANGALA. Grupo tnico da atual Angola. As primeiras organizaes polticas
do povo Imbangala formaram-se no vale do rio Cuango, nos atuais territrios
de Angola e Repblica Democrtica do Congo, antes do sculo XV d.C.,
dando origem depois ao reino de Matamba. Ver BAIXO CONGO; BANTOS; KINGURI.
IMHOTEP. Sbio egpcio. Viveu por volta de 2700 a.C., durante a III dinastia, 
poca do fara Djoser, destacando-se como mdico, astrnomo, matemtico
e arquiteto. Segundo M. K. Asante, foi a mais antiga personalidade da histria
a formular questes relativas a espao, tempo, volume, natureza das
enfermidades, diferena entre males fsicos e mentais, bem como sobre a
imortalidade da alma. Durante toda sua vida ativa, refletiu sobre o significado
e a origem das coisas, bem como sobre seu desenvolvimento e sua
concluso. Ainda segundo Asante, foi o primeiro entre os sbios humanistas.
Nesse sentido, pode ser considerado o pai da medicina, da arquitetura e da
filosofia em todo o mundo. No campo mdico, sacerdote da mais alta
hierarquia, detentor de conhecimentos ancestrais, foi a primeira personalidade
a escrever sobre diagnstico de doenas, sendo por isso considerado o
grande patrono das artes mdicas. Associado pelos gregos a Hermes
Trismegisto e venerado como um deus, foi a primeira personalidade
multidimensional do mundo, e sua contribuio aparece no mais remoto
alvorecer da razo e da cincia, colocadas a servio da sociedade humana.
Gnio da matemtica, inventou muitos dos mais antigos instrumentos de
medio, sem os quais seria impossvel conceber, por exemplo, o complexo
da pirmide de degraus do fara Djoser, cuja construo planejou. Na famosa
esttua de bronze, reproduzida fotograficamente em Hart (1992), na qual
aparece sentado, um rolo de papiro no colo, cabea coberta e tnica longa,
"como incorporao da sabedoria dos escribas", segundo a legenda, sua
aparncia fisionmica  a de um homem negro. O elemento "hotep" de seu
nome, a julgar pelo que escreveu Save-Sderberg sobre Thoth-Hotep, denota
origem nbia. Outro Imhotep, filho de Hapu e igualmente sacerdote, viveu
durante a XVIII dinastia, tendo sido o mentor espiritual do fara Amenfis IV,
depois chamado Aquenaton. O nome Imhotep parece ser uma das
transliteraes de "Amen-hotep" ou "Amenfis".
IMPRIO, Antigo. Perodo da histria egpcia compreendido aproximadamente
entre os governos da III e da VI dinastias.
IMPRIO, Mdio. Perodo da histria egpcia compreendido aproximadamente
entre os governos da XI e da XII dinastias.
IMPRIO, Novo. Perodo da histria egpcia compreendido aproximadamente
entre os governos da XVIII e da XX dinastias. Instaurado aps a expulso dos
hicsos, foi poca de grande esplendor e desenvolvimento, com o Egito
ascendendo  condio de grande potncia.
INCENSO. Espcie de resina aromtica. Durante a Antiguidade, o ativo e
rendoso comrcio de incenso movimentou somas fabulosas, a ponto de os
historiadores reconhecerem uma "rota do incenso" que inclua parte da costa
oriental africana. A fonte principal dessa riqueza era a regio de Dhofar, na
atual Eritreia, seguida da regio de Ras Hafun, na costa somaliana de
Berbera. Os egpcios, que desenvolveram importante indstria de cosmticos,
faziam largo uso ritual de incensos e perfumes. Ver ERVAS AROMTICAS.
INCESTO REAL. Entendido como a consumao de relao sexual entre parentes
consanguneos em grau prximo, o incesto, com justificao religiosa, foi
largamente praticado nas antigas linhagens reais africanas. No Egito antigo
era comum o casamento real entre irmos, o qual, justificado pelo mito de sis
e Osris, irmos e esposos, era realizado tambm por motivao poltica. Da
mesma forma, o fenmeno  assinalado na formao de outras dinastias
reais, como a fundadora do povo Luba.
NDIA MDIA. Expresso pela qual se referia  costa oriental africana na poca
medieval. Essa referncia parece ser um eco da afirmao de Herdoto sobre
a existncia de uma "nao etope" na ndia.
INSTRUES. Gnero de literatura do Egito antigo, consubstanciado em textos
de cunho pedaggico, filosfico e religioso. Segundo diversos autores, muito
dessa literatura constituiu a base de textos bblicos como os Provrbios de
Salomo, o Eclesiastes e os Salmos. Quanto a estes, Lourdes Bacha destaca
especialmente o contedo dos de nmeros 6, 37, 51, 101, 129, 142 e 150.
INTEF. Ver ANTEF.
IORUBS. Conjunto de povos da frica Ocidental, localizados principalmente no
sudoeste da atual Nigria e na fronteira do Benin. Tm como ancestral comum
o heri fundador Odudua e como ncleo inicial Il-If ou simplesmente If,
cidade fundada entre 900 e 1200 d.C. Origens  Lpez-Davalillo data o
estabelecimento dos ancestrais dos modernos iorubs em seu atual stio entre
os anos 600 e 700 a.C. Outros autores, como P. A. Talbot, autor da obra
People of Southern Nigeria, defendem a tese da origem egpcia do povo
iorub, cujos ancestrais teriam migrado do norte africano para o oeste por
volta do ano 800 a.C. Cheikh Anta Diop, fazendo eco a esses autores e
alinhando argumentos lingusticos, histricos e religiosos, esposa a tese. Mas
acrescenta que as migraes desses ancestrais dos iorubanos para seu stio
histrico foi certamente posterior ao contato dos egpcios com gregos e
romanos. Ao chegarem a seu ambiente subsaariano, os migrantes
protoiorubanos encontraram a resistncia de povos autctones. Baseado na
lingustica e em relatos tradicionais, J. A. Atnd (citado por Adky) afirma
que, antes da chegada do fundador Odudua, o povo de If era liderado por
um chefe chamado Agbonmiregum e j falava a lngua iorub. Afirma ainda
que Odudua teria lutado contra povos vizinhos e que a faco liderada por
Mormi Ajsor, ou simplesmente Moremi, era constantemente assediada
pela agressividade do povo Ugboh ou Ibo, seu vizinho. Esse ibos so descritos
nas tradies iorubanas como criaturas horrendas, mas apenas porque se
cobriam de palha para atacar os inimigos. Graas, entretanto, a Moremi, eles
foram afinal derrotados e afastados. O padre Olumide Lucas tentou provar a
origem egpcia dos iorubanos por meio da lingustica. Saburi O. Biobaku
achava que o antigo reino de Meroe tinha sido a origem dos iorubanos. Mas a
lingustica liga os iorubanos ao ramo Nger-Congo da grande famlia lingustica
Congo-Cordofaniana, que inclui muitas lnguas oeste-africanas. Segundo W.
Bascom, ento, se os iorubanos vieram do leste, no vieram de muito alm do
Nger, o que  mais provvel. Se eles migraram de algum outro lugar mais
distante, a direo de seu movimento migratrio foi no sentido de oeste para
leste. Observe-se que Nok teve ligaes com Cartago, na atual Tunsia.
Adky, depois de enumerar e discutir as vrias teorias sobre as origens dos
iorubs, expe a tese de F. A. Fabunmi, na seguinte linha: "Os ingleses
receberam sua civilizao de Roma; os romanos da Grcia; a Grcia da
Prsia; a Prsia da Caldeia; a Caldeia da Babilnia; a Babilnia e os hebreus
do Egito; e os egpcios de Il-If." Sobre essa origem ainda mais remota, o
Dictionary of World History consigna que, para alguns linguistas, os falantes
do iorub fixaram-se em seu ambiente oeste-africano por volta de 2000 a.C.
Veja-se, finalmente, que para Molefi K. Asante as concepes dos iorubs
sobre o universo revestem-se do mesmo holismo e da mesma harmonia
encontrados na concepo quemtica do Maat. Migraes  De If, grupos
iorubs partiram na direo das florestas e savanas ao norte, bem como na
direo das nascentes do rio Nger; outros, ainda, rumaram para outras
regies do oeste africano. Assim, integrariam essa dispora iorubana os
bavas e gogobiris, no atual Estado de Kano; os beriberis, em Socoto; os
badagris, em Lagos; os baribas, no antigo Daom; os Ga, na atual Gana etc.
Ver IF; NOQ; ODUDUA; OR; OI.
IQNATON. Uma das transliteraes para o nome "Aquenaton".
IRIQUE-AMANNOTE. Ver AMANI-NETE-IERIQUE.
IRIQUE-PIYE-CO. Governante de Cuxe aps Nastasen e antes de Arnecamani,
provavelmente em uma dinastia paralela, reinante em Napata.
IRRIGAO, Obras de. Extremamente dependentes da agricultura, os antigos
egpcios desenvolveram, j na poca arcaica, importantes obras de irrigao,
por meio de sistemas de barragens e canais de distribuio, para
aproveitamento racional das inundaes do rio Nilo. Essas obras contam-se
entre as primeiras da Humanidade. Na Antiguidade da frica Central, povos
como o de Engaruca tambm desenvolveram complexos sistemas de
irrigao.
IRTJET. Uma das unidades polticas da Nbia, prxima a Elefantina, tributria
do Egito  poca da VI dinastia.
ISAAS. Profeta bblico atuante no reino de Jud entre 740 e 687 a.C., durante o
domnio da XXV dinastia cuxita, dita "etope", no Egito. Na Bblia, os captulos
de 18 a 20 do "Livro de Isaas", conjunto de mensagens oraculares a ele
atribudo, aludem ao povo da "Etipia", certamente em referncia aos cuxitas,
qualificando-os como "povo forte e poderoso", cujos mensageiros "descem o
rio Nilo em barcos feitos de junco", "gente alta e de pele lustrosa, um povo de
quem muita gente tem medo e que vive numa regio dividida por rios". Sobre o
Egito, o profeta, entre outras referncias, condena os "dolos e os adivinhos,
os mdiuns e os feiticeiros".
ISHANGO. Vilarejo s margens do lago Rutanzige, na atual Repblica
Democrtica do Congo, na fronteira com Uganda. Nessa localidade, pesquisas
arqueolgicas descobriram, na dcada de 1950, o que se conhece como o
primeiro instrumento utilizado por seres humanos para efetuar operaes
aritmticas, datado de mais de 20 mil anos.
SIS. Importante divindade egpcia, irm-esposa de Osris e me de Hrus.
Deusa da medicina, da magia e do culto aos mortos. Segundo a tradio, as
cheias do Nilo eram consequncia de suas lgrimas pela morte do marido,
morto e esquartejado por Seth. Deusa especialmente adorada pelos nbios,
seu culto estendeu-se at York, na Inglaterra.
ISL, Advento do. A adoo progressiva do islamismo em cada uma das
regies africanas a partir do sculo VII d.C. delimita, para os fins desta obra,
o final da Idade Antiga nessas regies. Assim, estabelecemos (cf. Appiah e
Gates) a seguinte sequncia aproximada para o incio do processo de
islamizao, nas vrias regies do continente, at a chegada das primeiras
expedies europeias  evento histrico que, por sua vez,  outro marco do
trmino da Antiguidade para cada regio onde ocorreu: a) sculo VII  Norte-
nordeste da frica; b) sculo X  Somlia e litoral do ndico; c) sculo XI 
Nigria setentrional, Mauritnia, Senegmbia; d) sculo XIV  Nigria central;
e) sculo XVI  Chade; f) sculo XVIII  Magreb, Somlia e Nbia.
ISMAELITAS. Descendentes de Ismael, filho do patriarca hebreu Abrao com
Agar, sua escrava egpcia. Seu territrio, na frica, estendia-se at Havil, no
atual Djibuti.
ISCRATES. Filsofo grego (c. 550 a.C.). Passou vrios anos de sua vida
estudando com sbios egpcios em Busiris.
ISRAELITAS. Na Antiguidade, denominao dos hebreus da tribo de Israel ou
Jac, em contraposio aos "judeus", da tribo de Jud. Entre c. 1197 e 1165
a.C., os israelitas viveram sob forte presso egpcia. O enfraquecimento do
Egito, que impunha pesados tributos na regio da Palestina, possibilitou o
surgimento, em c. 1020 a.C., de um Estado forte em Israel. Alm disso, a
invaso do Egito pelos chamados "povos do mar" levou a acordos entre as
tribos que acabaram evoluindo para um governo central. Em 920 a.C., porm,
o fara Xexonq I invadiu Israel.
ITAM'RA. Ver SAMSI.
ITITAVI. Capital fundada por Amenemat I na regio do Faium.
ITSEQUIRI. Reino estabelecido a oeste do delta do Nger, na atual Nigria, em
meados do sculo XIV d.C., sob a influncia do antigo Benin.
IUNTIU. Povo nbio repelido para o sul durante o reinado do fara Adjib, da I
dinastia egpcia.
IUNU. Nome egpcio para Helipolis.
JAC.  O ltimo dos patriarcas hebreus, contemporneo da XV dinastia egpcia.
Segundo a tradio bblica, aos 97 anos recebeu de Deus o nome "Israel".
Morreu no Egito, para onde seu filho Jos o chamara quando de uma grande
seca em Cana.
JALOFO. Antiga forma portuguesa para o nome tnico "uolofe".
JEN DARABA. Personagem da histria etope, mencionado como o favorito da
rainha Gersemat Candaque VI (c. 86-93 d.C.), o qual fez peregrinao a
Jerusalm em cumprimento  lei dos antepassados, tendo, na viagem de
volta, recebido do apstolo Felipe ensinamentos sobre o Evangelho. Ver
AMANITARE; ETIPIA; EUNUCO.
JEROBOO. Rei de Israel. Segundo Cazelles, teria aprendido no Egito, onde foi
acolhido por Xexonq I, o modelo de governo que empreendeu. Ver XEXONQ.
JEZIRA. Ver GEZIRA.
JOLOF. Reino florescido nas savanas do noroeste do atual Senegal, no sculo
XIII, aps a queda do Teqrur ante o imprio do Mali. No sculo seguinte,
dominou os reinos sereres de Sin Salum, opondo firme resistncia ao avano
do Isl. Ver UOLOFE.
JOS, Planalto de. Ver NOK.
JOS. Patriarca hebreu, filho de Jac e Raquel (sculo XVI a.C.). Vendido
como escravo e levado para o Egito, transformou-se, segundo a Bblia, em um
dos lderes mais poderosos do delta do Nilo. Com seu poder de decifrar
sonhos, teria aconselhado o fara (provavelmente Caian ou Apfis, na XV
dinastia egpcia, durante o domnio dos hicsos) a aproveitar melhor a
produo agrcola e reservar alimentos para os perodos de seca. Assim,
acabou sendo elevado  condio de vizir ou primeiro-ministro.  tambm
referido como "Jos do Egito". Ver SAFNAT-PNEAH.
JUBA I. Rei da Numdia de 60 a 46 a.C., era filho de Hiempsal II. Aliou-se a
Pompeu na guerra civil contra os exrcitos imperiais romanos e, depois que
suas hostes foram derrotadas por Csar em Thapsus, em 46 a.C., cometeu
suicdio, juntamente com Cipio e Cato. Seu antigo reino tornou-se a
provncia romana de frica Nova.
JUBA II. Rei da Mauritnia, filho de Juba I, governou entre 25 e 24 a.C. Ainda
criana, por ocasio da morte do pai, foi levado para Roma e educado pela
irm de Otvio. Depois de casar-se com Clepatra Selene, filha de Antnio e
Clepatra VII, foi colocado por Augusto no trono de uma Mauritnia j
expandida. No detendo nenhum poder concreto, dedicou-se aos estudos e ao
embelezamento de seu reino com obras de arte. Intelectual e
humanista -- falando e escrevendo fluentemente grego e latim, alm de sua
lngua materna --, interessou-se por vrios ramos do conhecimento cientfico.
Observe-se que, na Antiguidade, a Mauritnia, localizada a oeste da Numdia,
correspondia aproximadamente ao atual territrio do Marrocos.
JUDEU. Na Antiguidade, qualificativo aplicado a cada um dos hebreus da tribo
ou do reino de Jud (aplica-se a pessoas, enquanto o termo "judaico" qualifica
coisas), em contraposio a "israelita", que  o hebreu da tribo de Israel ou
Jac. Os judeus e israelitas constituam o povo Hebreu. Ver CUXITA.
JUGURTA. Rei da Numdia (118-104 a.C.), neto de Massinissa. Filho ilegtimo
de Mastanabal, aps a morte do pai foi educado e finalmente adotado pelo tio
Macipsa. Com a morte deste, em 118 a.C., dividiu o reino com dois de seus
primos, Hiempsal I e Aderbal, mas logo os assassinou, o que provocou a
interveno armada de Roma. Antes, porm, obteve o apoio de seu sogro
Boco I, rei da Mauritnia, sendo, porm, mais tarde abandonado por ele nas
mos dos romanos, que o carregaram em triunfo para depois o estrangular. A
resistncia de Jugurta  dominao romana mereceu um relato do escritor
romano Salustio, cerca de 50 anos depois, justamente chamado Bellum
Iugurthinum, i.e., A guerra de Jugurta. Ver NUMDIA.
KA.   Entre os egpcios, ao lado do akh e do ba, um dos trs princpios
constituintes da identidade humana. Nascia com o corpo, do qual era a fora
vital ou personalidade. Depois da morte, o ka se deslocava atravs da porta
falsa existente entre o tmulo e a capela, para consumir as oferendas.
KAA. ltimo fara egpcio da I dinastia, encerrada em c. 2980 a.C., na poca
arcaica ou tinita.
KADESH, Batalha de. Confronto ocorrido na cidade sria que lhe d nome, em
c. 1299 a.C., entre o exrcito egpcio de Tutms III e os hititas. As duas
potncias disputavam o controle da Sria e da Palestina; a batalha foi vencida
pelos hititas sob o comando de Mutalu. Apesar da derrota, os egpcios, com
Ramss II, recuperaram a regio, celebrando um tratado que propiciou a
vitria definitiva contra a coalizo liderada por Mitani.
KAKONG. Ver CACONGO.
KAMSIS. Ver CAMS.
KARAGWE. Ver CARAGE.
KARNAK. Ver CARNAC.
KEBRA NAGAST (KEBRE NEGUEST). "Glria dos Reis". Repertrio da histria e das
tradies da Antiguidade etope, escrito em lngua copta no incio do sculo
XIV d.C. Contm as leis de toda a Etipia e os nomes dos shuns
(governadores), das igrejas e provncias. Em 1872, o prncipe Casa o
reivindicou  rainha Vitria, da Inglaterra, pois o livro se encontrava no Arquivo
Nacional de Londres; e a Inglaterra o devolveu. Os primeiros captulos contm
interpretaes de textos do Antigo Testamento; tradies folclricas e
histricas; a histria do estabelecimento da religio dos hebreus na Etipia, e
a afirmao tanto da soberania como da divina autoridade dos reis tidos como
da linhagem de Salomo e da Casa de Davi.
KEMET. Ver QUEMET.
KERMA.  Ver QUERMA.
KHABA. Ver CABA.
KHAFRA. Ver QUEFRM.
KHAMS. Ver CAMS.
KHARTUM. Ver CARTUM.
KHEMS. Ver QUEM.
KHOI-KHOI. Grupo de lnguas da frica Austral antes conhecido como
"hotentote". Ver SAN.
KHOI-SAN. Ver BOSQUMANOS; SAN.
KHONS. Ver CONS.
KHUFU. Ver QUEPS.
KISAMA. Ver QUISSAMA.
KORDOFAN. Ver CORDOFO.
KOSHEISH, Represa de. A represa mais antiga da Histria.Tratava-se de um
dique de 15 m de altura construdo no Nilo para abastecer Mnfis, a capital do
fara Mens. Ver IRRIGAO.
KUMBI SALEH. Capital do antigo Gana. Estudos arqueolgicos descobriram
nesse stio tmulos de grandes dimenses, sarcfagos, oficinas de metalurgia,
runas de torres e de diversos edifcios, ou seja, vestgios de que a cidade j
existia  poca do Egito faranico (cf. Diop II, 1979, p. 348).
KUSH. Ver Cuxe.
KWALE. Stio arqueolgico localizado desde o interior da atual Mombaa at a
vertente meridional do monte Kilimanjaro, no Qunia de hoje. No local, um
povo em estado bastante adiantado desenvolveu uma das mais antigas
tradies africanas em produo de utenslios de ferro, como panelas e
caarolas. O incio da povoao local, segundo Phillipson, citado por Obenga
(1985), verificou-se com a chegada de migrantes oriundos do Baixo Congo,
entre c. 100 e 200 d.C.
LAQUIDEAMANI.  Rei de Cuxe em Meroe, em c. 300-308 d.C.
LEBU (LEBOU). Povo nmade da Antiguidade africana que teria dado origem ao
topnimo "Lbia". Ramss II lhes deu combate, imps tributo e vedou seu
acesso ao Egito, com a construo de fortificaes nas modernas localidades
de Marsa Matrouq e El-Alamein, segundo Laffont. A atualidade conhece um
povo Lebou, negro, de pescadores e agricultores, que vive na pennsula de
Cabo Verde, prximo a Dacar, no Senegal.
LEMBAS (VHALEMBA). Povo negro do Zimbbue, tido como de origem judaica. 
poca de Baumann, viviam dispersos entre os vendas e os xonas, formando
uma populao misteriosa, sem chefes, sem qualquer tipo de organizao
poltica, que morava em cabanas espalhadas por aldeias. Destacando-se
como comerciantes e ferreiros em sua rea cultural, caracterizavam-se por
usos e costumes que os ligariam a antigos judeus, rabes, fencios etc. Os
modernos lembas constituem um cl endgamo e, embora de aparncia
negro-africana, reivindicam ancestralidade judaica, comprovada, segundo
alguns autores como Rudo Mathiva www.haruth.com), por testes genticos
recentes.
LEOPARDO. Ver PANTERA.
LEVANTE. Denominao da regio litornea no leste do Mediterrneo.
LEVIAT. Nome pelo qual se designa, no Velho Testamento, um animal
monstruoso, de grande porte e fora. No salmo 73, na figura de um drago,
simboliza o Egito faranico.
LIBAO. Cerimnia religiosa que consiste em encher um recipiente com lquido
e, depois de prov-lo, derram-lo sobre o altar de uma divindade ou no cho,
em sua honra. A libao  parte inicial obrigatria dos ritos da tradio
africana, certamente desde a Antiguidade.
LBIA. Regio do norte da frica, habitada originalmente por povos berberes.
Segundo Diop, o mais antigo substrato da populao da Lbia foi uma
populao negra do Saara meridional. Os berberes lbios comearam a
fustigar o Egito no sculo XIV a.C, sendo duramente reprimidos no tempo de
Ramss I e Seti I. No sculo X, tomaram o poder em Tebas e reinaram sobre
grande parte do Egito por meio da XXII dinastia. A Lbia foi colnia fencia e
mais tarde tornou-se domnio romano, dividido em trs provncias: Cirenaica,
Tripolitnia e Feznia; esta, em permanente contato com a frica
Subsaariana.  poca de Herdoto, segundo seus escritos, a regio era
habitada por "quatro naes: duas indgenas e duas estrangeiras". Os
"indgenas" eram "lbios" (berberes) e "etopes" (negros); aqueles habitavam a
parte norte do pas e estes, a parte meridional. As duas "naes estrangeiras"
eram constitudas por fencios e gregos. Ver BERBERES; LEBU; TEMEHU; TEHENU.
LIBONGO. Denominao de um tecido de fibra de palmeira usado tambm como
moeda na Antiguidade da atual Angola. O mesmo que sambu ou zamba.
LIMPOPO. Rio do leste da frica Austral. Com 1.600 km de curso, desgua no
oceano ndico e marca as fronteiras entre Botsuana, Zimbbue e frica do
Sul. Ver TRANSVAAL.
LNGUAS NEGRO-AFRICANAS. Toda lngua  resultado da criao de um grupo
social. Da a utilidade de se compreender o desenvolvimento de uma lngua
quando se estuda a histria do povo ao qual ela pertence. Partindo dessa
constatao, cientistas como Thophile Obenga, usando o mtodo lingustico
comparativo, tm estabelecido a transio entre a pr-histria e os tempos
antigos, para revelar o imenso panorama da herana da frica Profunda,
inclusive em suas relaes com a Antiguidade egpcia e do norte do
continente. Unidade  A unidade entre diversas lnguas negro-africanas e a
lngua egpcia moderna  comprovada pela lingustica desde M. N. Reich, no
incio do sculo XX. Cheikh Anta Diop, concentrando seus estudos na
comparao entre o egpcio e o uolofe, falado principalmente no Senegal e no
Mali, reafirmou essa unidade. M. Delafosse defendeu a existncia de uma
famlia lingustica negro-africana e da similitude entre as lnguas bantas e as
sudanesas. Mais recentemente, Bernal comprovou a existncia tambm de um
grande conjunto de lnguas aparentadas, expandido a partir da Nbia para dar
origem  famlia lingustica que denominou afro-asitica. Ver NEGRO-EGPCIO.
LINHAGEM. Na tradio africana, agrupamento de vrias famlias extensas que
reconhecem a descendncia de um mesmo ancestral, em linha paterna ou
materna. O cl  um agrupamento de vrias linhagens. Presente em todas as
sociedades tradicionais africanas, notadamente na frica Subsaariana, e em
cada uma referido por um nome especfico, esse tipo de agrupamento baseia-
se no parentesco consanguneo, podendo ser estabelecido, como j foi dito,
tanto pela ascendncia materna quanto pela paterna. O fundador de cada
linhagem  sempre a pessoa que deixou um exemplo marcante de vida, seja
por seu saber, seja por sua riqueza, seja por um ato ou ao de importante
consequncia. Os membros de uma mesma linhagem entendem o lao que os
une como uma comunho profunda e essencial. Por isso, no plano religioso,
costumam celebrar essa comunho por meio de oferendas ao ancestral
comum, feitas periodicamente ou em situaes especiais, principalmente de
crises ou problemas, para solicitar sua proteo e seus bons ofcios junto s
foras superiores. A linhagem , ento, acima de tudo, um grupo de pessoas
solidrias entre si; e sobre ela, como instituio, repousa, desde a
Antiguidade, a estrutura da sociedade africana tradicional, tanto do ponto de
vista espiritual quanto do material, em tempos de paz ou em tempos de
guerra, na defesa contra as agresses  humanas ou naturais , e nos
ataques contra eventuais e possveis inimigos. Rompidos esses laos de
solidariedade, por fora de uma disputa ou at mesmo de uma migrao 
quando um grupo resolvia partir, e outro, ficar , a linhagem em geral dava
nascimento a outra, pela emergncia de um novo lder, futuro ancestral de
outras geraes.
LINHO. Tecido feito com as fibras da planta de mesmo nome ( Linum
usitatissimum), tambm medicinal. Os antigos egpcios, por considerar
impuras as peles de animais e dominando a tcnica da tecelagem de fibras,
usavam preferencialmente roupas de linho. Com esse material, teciam o
kalasiris, uma tnica longa drapeada, usada, por ambos os sexos, sobre uma
espcie de tanga.
LITERATURA EGPCIA. Os antigos egpcios escreviam sobre os temas mais
diversos, servindo-se, para tanto, de variados suportes, desde o papiro at as
bandagens que envolviam as mmias, alm de grafar inscries em paredes
de templos, tmulos e residncias. Essas inscries abordavam os mais
diferentes assuntos, tais como ritos religiosos, biografias, cartas comerciais e
pessoais. O conjunto desses textos, nos quais se destacam ensinamentos de
cunho cientfico e pedaggico, alm de contos, lendas, fbulas e poesia,
constitui um rico acervo literrio, de grande influncia e valor. Ver ESCRITA;
INSTRUES.
LIVRO DOS MORTOS. Ttulo dado por egiptlogos  coletnea de textos egpcios
relativos  morte e  vida no outro plano da existncia. Contm textos
religiosos, bem como frmulas mgicas heterogneas, compostas durante
vrias geraes e por meio das quais se acreditava que a alma de um
indivduo conseguiria superar os obstculos em seu caminho at o alm.
LOBI. Grupo tnico localizado na atual fronteira entre a Costa do Marfim e o
Alto Volta. Em seu territrio chamam a ateno runas de construes em
pedra que se estendem por vrios quilmetros, como vestgio de uma antiga
civilizao ainda no identificada.
LOTFAGOS. Nome atribudo pelo historiador Herdoto a um antigo povo
africano que, segundo ele, se alimentava basicamente de frutos de ltus. Ver
ICTIFAGOS.
LTUS. Planta da famlia das ninfeceas (Nymphaea lotus). Muito cultivada
como ornamental e pelos rizomas e sementes comestveis. Smbolo do Alto
Egito,  tambm conhecida como "ltus-sagrado-do-egito".
LUA, Montanhas da. Conjunto de elevaes na Etipia, onde na Antiguidade se
supunha que estivessem localizadas as nascentes do rio Nilo.
LUANGO. Antigo reino africano formado no litoral dos atuais Gabo e Repblica
Democrtica do Congo antes do sculo XV d.C. Ver BAIXO CONGO; BANTOS;
GABO.
LUBA. Povo da regio de Catanga (Shaba), na atual Repblica Democrtica do
Congo, tambm referido como Baluba. A origem de sua organizao poltica
remonta ao sculo VIII d.C., quando j tinham constitudo importantes
unidades das quais a mais significativa foi o Luba Lomani; a povoao da
regio, entretanto, remonta a migraes provenientes do leste do continente,
em vagas progressivas, a partir do sculo V. Seu poder e influncia
estendiam-se ao nordeste de Angola, ao sul do Congo e ao norte da Zmbia.
Os restos de uma necrpole encontrados s margens do rio Quisale, no norte
de Catanga, datados de c. 800 d.C., so indcios de uma civilizao antiga.
Segundo Obenga (1991), diversos aspectos de sua cultura e da organizao
de seu poder, como entre o povo Cuba, ligam os lubas ao Egito faranico. Ver
CATANGA; QUIBINDA ILUNGA.
LUNDA. Regio do nordeste da atual Angola. O incio da povoao local deu-se
provavelmente em consequncia de correntes migratrias provenientes do
Baixo Congo em c. 100 a.C. Entre os sculos XIII e XIV d.C., os lundas
formaram um reino nos campos ao longo do curso superior do rio Casai
(Kasai), o qual evoluiu para um Estado importante, bastante desenvolvido no
sculo XV. Seu soberano ostentava o ttulo de mwata yamwo, aportuguesado
para "muatinvua", e dividia parte do poder com sua real esposa, intitulada
lukocheka. Num claro exemplo de matrilinearidade, seu sucessor era
escolhido, por um conselho, entre seus irmos e no entre seus filhos, como
ocorria, por exemplo, na Nbia, entre os cuxitas,  poca de Meroe. Ver
QUIBINDA ILUNGA.
LUXOR. Cidade do Alto Egito, na margem direita do Nilo, antes da primeira
catarata e a cerca de 3 km de Carnac.
MAAT (MA'AT).  Sistema filosfico da Antiguidade egpcia. Cincia da verdade,
definia e valorizava os princpios bsicos da justia e da vida em comum:
ordem, equilbrio, harmonia, justia, retido e reciprocidade, os quais eram,
segundo a tradio, recebidos pelo fara diretamente do Ser Supremo, Ra ou
Amon. Conforme M. K. Asante, o grande objetivo da sociedade quemtica era
a manuteno do Maat. Representado como uma deusa, era o princpio
bsico do equilbrio da sociedade.
MABVENI. Stio arqueolgico na Zmbia, datado de 140 d.C.
MACRIO DO EGITO. Ver SO MACRIO.
MACIPSA (MICIPSA). Rei da Numdia entre 148 e 118 a.C. Foi tio e educador de
Jugurta.
MACRIA (MACURRA). Reino independente da Nbia, entre a terceira e a quarta
cataratas, convertido ao cristianismo no sculo VI. No sculo seguinte uniu-se
 Nobcia sob um mesmo rei, que governou a partir da antiga Dongola, em
seu territrio. Ver NBIA CRIST.
MADAGASCAR. Ilha no oceano ndico, separada do continente africano pelo canal
de Moambique. Foi colonizada por negros africanos e povos asiticos,
provavelmente entre os sculos I e V d.C., segundo alguns autores, ou no
primeiro milnio antes de Cristo, conforme outros, citados por Appiah e Gates.
Os primeiros migrantes teriam sido navegantes malaio-polinsios que, sados
da Indonsia em diferentes vagas migratrias, no rumo sudoeste, alcanaram
o continente africano. Em algumas dessas migraes, parte dos grupos teria
ido diretamente para a costa oriental da ilha, enquanto outros foram primeiro
para o litoral do continente, de l chegando a Madagascar, j miscigenados s
populaes negro-africanas.
MAGIA. Definida como prtica ou conjunto de prticas rituais, utilizadas com o
objetivo de controlar ou influenciar os processos naturais do Universo, a magia
era parte integrante do cotidiano das antigas sociedades africanas e foi
largamente usada tanto pelas cortes quanto pelo povo, para fins teraputicos
e nos negcios de Estado. Magia egpcia  Entre os antigos egpcios, cada
deus era relacionado com um astro celeste, um dia da semana e uma hora do
dia. Essa relao fazia com que cada indivduo, ao nascer sob a regncia de
uma divindade, permanecesse a ela ligado por toda a vida. Assim, segundo
Bacha, a cada nascimento, a primeira providncia paterna era levar a criana
ao templo, para que a divindade regente, por meio de um sacerdote
especializado, informasse o traado do destino do recm-nascido. Tal prtica
remete-nos a procedimentos tradicionais at hoje vigentes, como, entre os
iorubs, o estabelecimento, pelo orculo If, da trajetria vital
consubstanciada no odu (signo regente do destino) de cada criana que
nasce. Os antigos egpcios costumavam tambm, ainda segundo Bacha,
canalizar e direcionar, em benefcio dos humanos, as foras vitais emanadas
das divindades. Isso era realizado por meio do pensamento e da visualizao,
bem como pela aposio de mos ou pela energizao de objetos, que eram
utilizados como amuletos; ou mesmo pela gua, depois bebida com fins
teraputicos. Cientes de que a palavra falada ou escrita, quando empregada
adequada e corretamente, reveste-se de grande fora, os sacerdotes faziam
uso constante de evocaes e invocaes rituais, alm de conjuraes,
sempre em voz alta, inclusive para comunicao com os mortos. A exemplo de
todas as sociedades africanas posteriores, a dos egpcios repudiava a magia
malfica, o "feiticeiro" sendo considerado um ser antissocial, desagregador,
constituindo, portanto, uma ameaa ao equilbrio do grupo. Entretanto, como
salienta L. Bacha, e como comprovam diversos achados arqueolgicos, o uso
da magia com fins nem sempre benficos era popularmente disseminado.
Frmulas e poes para alcanar favores pessoais, propiciar conquistas
amorosas, provocar catalepsia ou morte de um desafeto povoam o universo
mgico do passado egpcio. Magia nbia  Com sistemas religiosos e
prticas mgicas tidos como ancestrais dos similares egpcios, os antigos
nbios contavam em suas cortes com magos temidos e respeitados. Amen-
hotep (Amenfis) II, conforme Brissaud, recomendou a seu vice-rei na Nbia,
Uesertatet, que no se fiasse nos nbios e se protegesse contra sua magia.
Magia berbere  A histria romana registra um episdio em que, no sculo I
d.C., o general Hosidius Geta, em campanha no deserto do Saara, vendo
seus exrcitos acossados e quase derrotados pela sede, resolveu aceder ao
conselho de um aliado nativo para que recorresse  magia. Segundo Dion
Cassius, citado em Laffont, assim feito, caiu do cu gua em abundncia,
saciando os soldados e afugentando os adversrios, que ento optaram pela
rendio.
MAGON. Cientista cartagins (sculo I a.C.), ao tempo de Sila. Redigiu um
tratado de agricultura em 28 volumes, sendo por isso considerado "o pai da
economia rural".
MAGREB. Regio do norte da frica situada entre o Mediterrneo e o Saara.
Ver BERBERES; LBIA.
MAHARRACA. Localidade no Egito, ao sul de Assu. Stio arqueolgico
importante. A descoberta de uma necrpole merotica nessa regio atesta
quo distante de Meroe, no rumo norte, a cultura cuxita imps sua influncia.
MALANDELA. Ancestral considerado o pai do povo Zulu. Ver NGUNI.
MALAPATI. Stio arqueolgico no Zimbbue onde se acharam vestgios de
aldeias, datados dos sculos VI, IV e II d.C., segundo A. Costa e Silva. Esses
achados incluem fios e fragmentos de cobre, contas de ferro, vidro, conchas e
estatuetas antropomrficas de argila. Ver ZMBIA; ZIMBBUE.
MALAQUITA. Carbonato de cobre. Ver MAQUILAGEM DOS OLHOS.
MALEQUEREABAR. Rei de Cuxe em Meroe, em c. 266-283 d.C.
MALENAQUEM (MALONAQUEM). Rei cuxita em Napata, em c. 555-542 a.C.
MALEUIEBAMANI (MALOWIEBAMANI). Rei cuxita em Napata, em c. 463-435 a.C.
MANASSS. Primognito egpcio de Jos e Azenate. Tornou-se patriarca de uma
das 12 tribos de Israel.
MANDINGA. Etnnimo que inclui vrios povos da frica Ocidental (do Mali 
Costa do Marfim) falantes de lnguas do grupo mand. O mesmo que
malinqu, mandenca e maninca. Segundo N'Diaye, os povos mandingas teriam
vindo do leste, numa poca muito remota, numa invaso lenta e progressiva
at atingir as regies onde se fixaram definitivamente, deixando, entretanto, ao
longo de seu percurso, grupos mais ou menos importantes. Na opinio de
Winters, os ancestrais desses povos, cumprindo uma rota nilo-saariana,
teriam, entre c. 3700 e 1300 a.C., vivido no atual Sudo e depois na Feznia e
em outras regies altas do Saara. Consoante Lpez-Davalillo, seus primeiros
ncleos no oeste africano formaram-se entre 500 e 400 a.C. Segundo Clyde
Winters, migrantes de fala mand teriam ido para a Amrica por volta de 1700
a.C., constitudo o ncleo inicial do povo olmeca. Ver OLMECAS.
MANEROS. Filho nico de Mens. Sua morte prematura deu origem a cantos
fnebres entoados em sua honra e por isso chamados "maneros".
MNETON (MANETO). Sacerdote egpcio, natural de Sas. Viveu durante a
ocupao grega. Historiador anterior a Herdoto, escreveu um tratado
completo, de cunho histrico, literrio, filosfico e teolgico sobre seu povo.
Nesse tratado, estabeleceu a listagem clssica dos governantes egpcios,
divididos em trinta dinastias. Sua obra, destruda em parte por ordem do
imperador Diocleciano e por muito tempo menosprezada, vem sendo aos
poucos reabilitada, mostrando-se, em muitos aspectos, mais confivel que a
de Herdoto.
MANICONGO. Deturpao da expresso mwene-e-kongo, designativa do rei do
Congo. Conforme lembra Ki-Zerbo, as insgnias do exrcito do "manicongo", 
poca da chegada dos portugueses, eram dolos levantados sobre hastes,
como as do exrcito faranico egpcio. Ver BAIXO CONGO; CONGO, Rio.
MAPUNGUBUE. Ncleo populacional banto florescido na margem direita do rio
Limpopo, no nordeste do Transvaal, frica do Sul, entre os anos 1000 e 1200
d.C. Antecessor do Grande Zimbbue, seus construtores, na Idade do Ferro,
quando l estabelecidos, desenvolveram uma economia baseada na atividade
agropastoril, na produo de vveres e bens de consumo, como revelou a
presena, no local, de restos arqueolgicos, miangas etc., alm de objetos e
utenslios feitos de ouro e marfim. Segundo pesquisas recentes, esses
fundadores teriam vindo da regio dos Grandes Lagos. Sendo, provavelmente,
o primeiro centro da civilizao xona, a povoao foi abandonada com o
apogeu do Grande Zimbbue. Ver TRANSVAAL; XONAS.
MAQUEDA. Rainha de Sab (c. 1005-950 a.C.). Foi soberana de um reino que
se estendeu, em dado momento histrico, do Egito  Etipia, Arbia, Sria e a
regies da ndia (cf. Larkin Nascimento).  tambm referida, em alguns textos
antigos, como Belkiss. Ver SAB.
MAQUILAGEM DOS OLHOS. Durante todos os perodos e dinastias, a maquilagem
dos olhos foi obrigatoriamente usada por mulheres e homens egpcios. Mas
esse uso no era somente decorativo e ornamental, servindo tambm a fins
medicinais, mgicos e espirituais. Para tanto, os egpcios usavam malaquita
(carbonato de cobre, que produz uma tinta verde) trazida do Sinai  regio
que, por suas minas, era considerada sob o domnio espiritual de Hathor,
deusa da beleza, da alegria, do amor e da feminilidade. Utilizavam tambm
galena, sulfeto de chumbo, extrada das cercanias de Assu, no litoral do mar
Vermelho. A galena inclusive constava entre os materiais buscados pela rainha
Hatchepsut em sua clebre expedio ao pas de Punt e costumava ser-lhe
entregue como tributo por nmades asiticos. A galena possui propriedades
desinfetantes e repelentes de insetos; e os egpcios acreditavam que ela
tambm protegesse contra as radiaes solares intensas. A maquilagem dos
olhos propiciava ainda proteo psquica e mgica, contra os efeitos do
chamado "mau-olhado" (cf. Judith Illes em www.touregypt.net.magazine).
MAR ERITREU. Ver PRIPLO DO MAR ERITREU.
MAR ETIPICO. Antiga denominao para o oceano Atlntico.
MARROCOS. Ver MAURITNIA.
MASQUIR. Ver SOFER.
MASSESSILOS e MASSILOS. Povos berberes da Numdia.
MASSINISSA. Chefe berbere dos massilos (c. 201-148 a.C.). Aliado dos
romanos, foi o maior entre os soberanos do noroeste africano em sua poca.
Propagou a agricultura, desenvolveu a vida urbana e estendeu seus domnios
da antiga Mauritnia  Cirenaica. Ver NUMDIA.
MASTABA. Espcie de tmulo usado pelos antigos egpcios com a forma de uma
pirmide truncada. A cmara funerria era subterrnea e o acesso a ela se
fazia por um poo.
MATAMAN. Antiga denominao da regio de Hula e Namibe, no sul da atual
Angola. Segundo D.W. Phillipson, citado por Obenga (1985), a povoao local
comeou a se estabelecer por volta de 100 a.C., com a chegada de povos
bantos provenientes da regio entre os rios Cunene e Cubango, num longo
fluxo migratrio iniciado no Baixo Congo. O reino de Mataman, formado em
poca muito antiga, foi, bem mais tarde, dividido em dois: Hula e Hmbi.
MATAMBA. Regio a norte do rio Lucala, entre este e o Cuango. No vale do
Cuango, nos atuais territrios da Repblica Democrtica do Congo e de
Angola, antes do sculo XV d.C., formou-se o reino de Matamba, fundado
pelo povo Imbangala. A regio foi tambm importante centro de comrcio. Ver
BANTOS; CATANGA.
MATEMTICA.   Ver ARITMTICA e LGEBRA; ISHANGO.
MATDIA. Sogra do imperador romano Adriano (76-138 d.C.). Dela, o imperador
herdou suas terras africanas, provavelmente na Mauritnia Cesariana, cujas
fronteiras fixou.
MATRIARCADO. Regime social e poltico em que a mulher desempenha papel
preponderante. Nele, o parentesco conta-se pela linha materna e o chefe da
famlia  no o pai, mas o tio, irmo da me. Herda-se precisamente a
posio social da me, responsvel pela educao do filho. Assim, quando
exercido pelos homens, o poder poltico se transmite no de pai para filho, e
sim de tio materno para sobrinho. Vigente em muitas sociedades africanas, o
matriarcado foi notrio, por exemplo, no reino nbio de Cuxe, especialmente 
poca de Meroe. Ver CANDACES; LUNDA.
MAURITNIA. Antiga regio do noroeste africano, cujo territrio correspondia
aproximadamente ao do atual Marrocos e de parte da Arglia. Habitada por
povos nmades dedicados ao pastoreio, no sculo II a.C., a introduo do
camelo na regio determinou a fixao dessas populaes. O poderio e o
expansionismo de Cartago logo subjugaram os povos locais, colocando-os sob
seu domnio. Entretanto, mesmo assim os mauritnios chegaram, sob
proteo romana, a constituir um reino autnomo cujo apogeu artstico e
cientfico foi alcanado com Juba II (25 a.C.-24 d.C.). Com a vitria romana
sobre Cartago, a dependncia tornou-se mais estreita. Em 40 d.C., sob
Calgula, a Mauritnia foi feita provncia romana, dividida em Mauritnia
Cesariense ou Cesariana, a leste, e Mauritnia Tingitana, a oeste, sendo
frequentemente perturbada pelas incurses ou revoltas dos nmades. O nome
Mauritnia foi dado em aluso aos habitantes autctones da regio, berberes
do grupo mouro  mauri, em latim. A atual Repblica da Mauritnia localiza-se
em territrio onde, na Antiguidade, floresceu o imprio de Gana. Ver GANA,
Antigo.
MBANZA-A-CONGO. Povoao principal do reino do Congo, local de residncia do
Ntotila. Situada em territrio da moderna Angola, na atual provncia de Zaire,
prximo  fronteira com o Congo-Kinshasa, era tambm importante centro
comercial. O termo mbanza significa em quicongo exatamente "aldeia
principal, capital"; e a povoao era tambm denominada Mbaji-a-Econgo,
Mbaji-a-Ncano e Econgo-dia-Ngngu.
MBUNDU.  Ver AMBUNDOS.
MEDICINA. Conjunto de conhecimentos relativos  manuteno da sade fsica e
mental. Medicina egpcia. Segundo M. K. Asante, nenhum outro povo antigo
praticou a medicina no mesmo grau e com a mesma perfeio que os
egpcios. Suas escolas mdicas, ligadas ao clero e aos templos, eram
conhecidas por sua habilidade na cura dos males da humanidade.
Provavelmente no sculo IX a.C., o poeta grego Homero afirmou que, em
termos de medicina, os egpcios suplantaram todos os povos de seu tempo.
Cerca de dois mil anos antes da chegada de Homero ao Egito, Imhotep j se
destacava como pioneiro nas cincias mdicas. Os egpcios tinham, alm
disso, suas divindades curadoras, como Ptah em Mnfis, Auset em File e
Qnum em Siena. Os sacerdotes mdicos do Egito desenvolveram
especializaes como cirurgia, gastroenterologia, oftalmologia, odontologia e
veterinria; isso , mostrado no livro The Physicians of Pharaonic Egypt, de
Paulo Ghalioungui et al., publicado na Alemanha Ocidental em 1983. A
medicina do Egito antigo, chamada sunt, compreendia quatro aspectos
bsicos: a cura pelos contrrios; a cura pelos semelhantes; a preveno de
doenas e a magia. Cada um desses aspectos envolvia, na prtica,
especializao e sistematizao, com registro de sintomas, diagnstico,
prognstico e prescries, alm de tcnicas cirrgicas. Em Quemet, o mdico
era sempre um sacerdote, de maior ou menor grau hierrquico, formado nos
templos, que funcionavam tambm como locais de atendimento aos pacientes.
Por volta de 2000 a.C., os mdicos quemticos j realizavam testes de
gravidez por meio da urina e receitavam medicamentos anticoncepcionais.
Segundo documentos de poca um pouco posterior, seus sucessores faziam
teste de acuidade visual e prescreviam remdios preventivos de infeces no
globo ocular (aplicados em volta dos olhos e equivocadamente percebidos,
nas esculturas e pinturas que nos chegaram, apenas como maquilagem).
Tambm por esse tempo, os sbios egpcios detinham conhecimentos
anatmicos, inclusive sobre o crebro e a medula humanos, que lhes
permitiam realizar delicados procedimentos cirrgicos. Da mesma forma que
dominavam complexas tcnicas de cirurgia plstica reparadora, ortopedia e
odontologia, esses mdicos-sacerdotes serviam-se tambm da chamada
"medicina dos excretos", utilizando secrees e excrementos animais, bem
como mofo, lama, ervas e metais danosos em combinaes farmacolgicas
que anteciparam a composio de alguns dos modernos antibiticos e anti-
inflamatrios. No campo da medicina preventiva, o Egito desenvolveu prticas
contra doenas como clera, lepra, tuberculose, tifo e molstias venreas.
Isolamento, quarentena, cauterizaes e imunizaes por meio de fumigaes
ou banhos purificadores eram prticas corriqueiras em tempos de epidemias
ou por conta de eventuais ameaas de contaminao. O conjunto de
documentos conhecido como "Papiros Eberts", datado de c. 1500 a.C. e hoje
no Museu de Leipzig, relaciona cerca de 120 plantas medicinais e fornece 811
receitas de cataplasmas, drgeas, elixires, gargarejos, inalaes, instrues
para fumigao, lavagens intestinais e unguentos. Segundo Adele Dawson, os
diagnsticos e medicamentos desses papiros aplicam-se a uma vasta gama
de males, de afeces do aparelho respiratrio a doenas cardiovasculares;
de leucemia a males gastrointestinais, de queimaduras a afeces do
aparelho geniturinrio; de inchao de gnglios a oftalmias. Mas paralela e
complementarmente a essa medicina (sunt) que tratava do corpo, mdicos-
sacerdotes egpcios serviam-se tambm de procedimentos curativos
ritualsticos, ditos peck-har, por entenderem que a base das doenas fsicas,
morais e espirituais dos indivduos estava no desequilbrio entre sua relao
com o Cosmo e sua natureza humana, desequilbrio provocado por
comportamentos excessivos ou faltosos de todo gnero. Segundo esse
entendimento, o "mau comportamento" provocava sempre malefcio ao corpo,
manifestado numa perturbao de ordem fsica ou mental. O sacerdote-
mdico, ento, trabalhava para reequilibrar a relao do paciente com o
Cosmo, por meio de passes, canalizao da energia vital da divindade afim ao
paciente; e, em casos extremos, do recolhimento temporrio desse paciente
ao templo, para contato mais direto com as divindades. Em qualquer desses
procedimentos, a palavra falada representava papel importante. Da o uso, em
qualquer processo de cura, de frmulas pronunciadas tanto para conjurar
influncias e presenas espirituais negativas, chamadas afrits, quanto para
invocar e atrair espritos e energias benfazejas (cf. Lourdes Bacha). No sculo
IV d.C., fanticos cristos incineraram, com cerca de 700 mil livros, quase
todos os textos que concentravam os conhecimentos mdicos dos antigos
egpcios. Entretanto, o sistema grego, oriundo da escola egpcia de medicina
fundada em Alexandria em c. 300 a.C., conseguiu conservar muito desse
saber. Medicina e farmacopeia dos povos bantos  A medicina tradicional
dos povos bantos e sua farmacopeia  o conjunto representado pelos
mtodos, tcnicas e substncias utilizados pelos terapeutas tradicionais com o
fim de proteger e curar os indivduos das consequncias da quebra do
equilbrio vital, bem como restabelecer esse equilbrio. Com base em um
conhecimento emprico, de fundo mstico e religioso, os terapeutas
desenvolveram medicamentos, muitos deles assimilados e industrializados
pela prtica dita cientfica, a qual, no obstante, muitas vezes rotulou essa
farmacopeia como retrgrada e ineficaz. Entretanto, como salienta a cientista
angolana Maria Manuela Batalha, esse conjunto de prticas teraputicas, que
remonta aos primrdios das descobertas sobre a utilidade das plantas,
envolve inclusive uma medicina preventiva. Herdados dos antigos bantos e
transmitidos atravs das geraes, esses sistemas mdicos tiveram suas
racionalidade, validade e eficcia atestadas por missionrios catlicos
europeus no sculo XVI, os quais validaram tambm a competncia dos
terapeutas tradicionais na prescrio de remdios e na realizao de
procedimentos curativos, inclusive cirurgias.  assim que Del Priore e
Venncio reproduzem extenso ndice de drogas medicinais angolanas, com as
respectivas aplicaes, mencionadas em documentos dos sculos XVI-XVIII,
conforme publicado na edio n 45/1995 da Revista Portuguesa de
Farmcia.
MDIO IMPRIO. Ver IMPRIO, MDIO.
MEDJAYU. Cada um dos nmades nbios engajados no exrcito egpcio  poca
de Senusret III, segundo Vercoutter.
MEGIDO. Cidade cananeia. Palco da vitria de Tutms III sobre uma
confederao de povos no incio de seu reinado; e de Necau II sobre Jud no
sculo VII a.C.
MELANO-AFRICANOS. Expresso frequentemente usada para adjetivar africanos
de pigmentao epidrmica mais acentuada, tidos, por alguns, como os
"verdadeiros negros", em oposio, por exemplo, aos etopes, antigos e
contemporneos. Segundo antigas formulaes, essa classificao abrangeria
sudaneses (da regio da Senegmbia etc.), guineanos (do Golfo da Guin),
sul-africanos ou zambezianos (da frica Austral) e nilticos (da regio
pantanosa do Alto Nilo e do Bahr-el-Ghazal, de Cartum at o lago Vitria). A
moderna cincia, baseada em distines principalmente etnolingusticas,
questiona esse tipo de classificao, que se funda apenas em caractersticas
exteriores dos indivduos. Ver MESTIAGEM; NEGRO.
MELANTO (MELNIA). Ninfa da mitologia grega, filha de Deucalio e Cefisa e me
do heri Delfos. Seu nome significava "negra". Ver MITOS E LENDAS.
MMNON. Legendrio rei de Susa, filho de Titono, usualmente referido como
"Mmnon, o Etope". No sculo XIII a.C., liderou uma fora de 20 mil
guerreiros susianos e etopes em defesa de Troia contra a Grcia. Morto em
combate por Aquiles, foi louvado por Homero, Ovdio, Virglio e Diodoro da
Siclia. Consoante a tradio, era negro "como bano", extremamente belo e
muito valente. Segundo relatos gregos, matou Antiloco, filho de Nestor, mas
foi morto por Aquiles. Herdoto aponta Susa, no Elam, como "a cidade de
Mmnon". Colosso de Mmnon  Nome grego da esttua monumental
erguida em Tebas, junto ao templo funerrio de Amenhotep III, s margens do
rio Nilo, representando a imagem de um rei negro. Os gregos associaram-na a
Mmnon, cuja me, depois de sua morte, chorava por ele todas as manhs.
Por isso, a figura foi clebre no tempo dos romanos, pelos estranhos fulgores
que emitia s primeiras claridades da aurora, fenmeno que desapareceu
aps a restaurao do monumento em 200 d.C.
MEN NEFER. Ver MNFIS.
MENCAURE. Fara egpcio, o penltimo da IV dinastia, comumente mencionado
como Miquerinos. Filho e sucessor de Quefrm, seu reinado foi breve.
Segundo Brancaglion Jnior, seus restos mortais perderam-se em um
naufrgio, quando eram transportados para a Inglaterra.
MENCAUTOR. Fara egpcio, sucessor de Niuserr (sculo XXV a.C.).
Empreendeu expedio at o Sinai.
MENDS. Cidade no delta do Nilo, chamada pelos locais Tell el-Rub'. Foi um
dos centros do culto de Qnum, um deus com cabea de carneiro, e o bero da
XXIX dinastia egpcia.
MENEFT (MINEPTAH). Fara egpcio da XIX dinastia tambm mencionado como
Merneptah e Merenptah. Filho de Ramss II, subiu ao trono com 60 anos,
segundo Brissaud. Impediu as primeiras tentativas de invaso do Egito pelos
"povos do mar" e assegurou a supremacia egpcia sobre Cana, ao sul do
Lbano. Segundo algumas correntes, era o fara  poca do xodo bblico. E,
segundo Cazelles, por meio da estela que narra seus feitos foi que se
estabeleceu boa parte dos registros da histria de Israel.
MENEFT-SIPTAH. Ver SIPTAH.
MENELIQ (QADAMAVI MENELIQ) I. Filho lendrio da rainha de Sab e de Salomo,
rei de Israel, no sculo X a.C. Segundo o Kebra Nagast, Meneliq saiu de
Israel com toda a elite governante, levando consigo a Arca da Aliana,
smbolo da unio do Deus Supremo com o povo daquele reino. Com 22 anos,
teria voltado a Israel para as festas do jubileu do rei Salomo, seu pai, nas
quais seria efetivamente consagrado. Segundo ainda o Kebra Nagast,
Qadamavi Meneliq I fundou uma dinastia e reinou na Etipia, provavelmente
em Axum, de 975 a 950 a.C.
MENS. Nome dado pelos gregos ao fara Narmer.
MNFIS (MEN NEFER). Cidade do Egito, capital do Antigo Imprio, fundada por
Narmer ou Mens em c. 3200 a.C. Localizava-se no delta,  margem
esquerda do Nilo, a 30 km da atual Cairo. Tambm conhecida como Nofe e
chamada por Herdoto, devido s suas fortificaes, de "Grande Muralha
Branca", foi importante centro teolgico, onde se reverenciava o deus Ptah, na
forma ou qualidade de Ptah-Sequer-Asar, ou Socaris, associada a Osris-
Sequer ou Neb-H, uma das manifestaes mais importantes de Osris.
Primeira capital do Egito faranico, perdeu importncia aps a conquista do
pas por Alexandre.
MENFITA. Relativo a Mnfis.
MENILEQ. Uma das transliteraes do nome Meneliq.
MENMAR. Nome pelo qual Seti I era chamado por Hatuzil, rei dos hititas (cf.
Laffont).
MENPEHTIR. Nome pelo qual Ramss I era chamado por Hatuzil, rei dos hititas
(cf. Laffont).
MENQUEPERR. Na histria egpcia, nome ou ttulo comum a um alto sacerdote
de Tebas, governante durante a XX dinastia; a Tutms III; e tambm ao fara
nbio Piye.
MENTHOU RA e RACOU. Prncipes nbios que teriam feito, por volta de 5500
a.C., segundo D. P. Pedrals, a codificao do culto solar.
MENTUHOTEP. Nome de seis faras egpcios, os quatro primeiros integrando a
XI dinastia (c. 2130-1990 a.C.) e os dois ltimos a XIII e a XIV, entre 1733 e
1567 a.C. Mentuhotep II  Entre c. 2190 e 2050 a.C., o Egito v-se envolvido
em convulses polticas que culminam na ciso em dois pases distintos. 
Nebhetepre Mentuhotep ou Mentuhotep II, que, governando em Tebas,
reunifica novamente o pas e inicia a XI dinastia. Nesse reinado, vence o
nomarca de Assiut, um dos nomos do Alto Egito, que substitui alguns
nomarcas por seus aliados e d continuidade  luta contra Heraclepolis.
Segundo Anta Diop, legendando foto de uma esttua em que  representado
sentado, braos cruzados sobre o peito, esse fara era um "negro tpico".
Mentuhotep III  Governa pouco tempo (c. 2010-1998 a.C.), mas,
preocupado com a defesa, constri inmeras fortalezas. Do ponto de vista
comercial, organiza expedio a Punt, em busca de especiarias e resinas
odorferas. Mentuhotep IV  Governou entre c. 1998 e 1990 a.C. Seu vizir,
Amenemat I, o sucedeu como fara, iniciando a XII dinastia. Os ltimos faras
Mentuhotep reinaram durante o tumultuado Segundo Perodo Intermedirio,
que culminou no domnio do Egito pelos hicsos.
MEQUETATON. Ver ANQUESENPAAMON.
MERCA-MERCARE. Nome monrquico do rei cuxita Aspelta.
MERENPTAH. Ver MENEFT.
MERENPTAH-SIPTAH. Ver SIPTAH.
MERENR. Nome de dois faras da VI dinastia egpcia (c. 2345-2180 a.C.). O
segundo, antecessor de Netiquerti ou Nitcris, foi entronizado mas no chegou
a reinar.
MERICARE. Filsofo egpcio (c. 1990 a.C.). Escreveu sobre a importncia do
falar bem e do uso do bom-senso nas relaes humanas. Segundo M. K.
Asante, seus ensinamentos, principalmente sobre a arte de bem falar,
atravessaram geraes.
MERIMS. Vice-rei da Nbia  poca de Amenfis II e Tutms IV.
MEROE. Antiga cidade-Estado cuxita, situada na Nbia,  margem direita do
Nilo Azul, a cerca de 200 km a norte da atual Cartum, nas proximidades da
sexta catarata. Do sculo VI a.C. ao IV d.C., foi a capital do reino de Cuxe e a
residncia dos seus soberanos, condio antes ocupada por Napata, at ser
conquistada pelas tropas etopes de Axum. Segundo V. C. Ferkiss, foi de
Meroe que a metalurgia, a instituio da realeza dinstica, bem como novas
formas de organizao poltica e militar propagaram-se para as pores oeste
e sul do continente, criando as bases para o surgimento de quase todas as
grandes civilizaes africanas posteriores. Ver CUXE.
MEROTICA, Escrita. Denominao do sistema usado para grafar a lngua falada
em Meroe, utilizado pelos cuxitas quando a escrita egpcia, que era de uso
oficial nos tempos de Napata, caiu em desuso. Desenvolveu-se em duas
formas  a hieroglfica e a cursiva , e os signos, naturalmente baseados no
modelo egpcio, tinham valores alfabticos. A mais antiga inscrio merotica,
em hierglifos, data do tempo da rainha Xanaqdaquete e foi encontrada em
Naqa, prximo a Meroe. A escrita merotica cursiva substituiu gradualmente a
hieroglfica, mas, aps o reinado de Netecamani, ainda era empregada.
Embora os valores fonticos do alfabeto merotico sejam conhecidos e
algumas inscries possam ser lidas, as palavras ainda no encontram
traduo nas lnguas atuais (cf. Dictionary of World History). Sabe-se apenas
que os merotas usavam um sinal para separar as palavras umas das outras,
o que os gregos no faziam. Mas, embora pesquisadores se empenhem
nesse trabalho, a chave para a decifrao da escrita e da lngua do povo de
Meroe ainda no tinha sido encontrada at a poca desta obra.
MEROVE. Cidade contempornea, no Sudo; ocupa o lugar da antiga Napata, a
300 km ao norte da Meroe antiga.
MERSUVI. Vice-rei da Nbia  poca de Ramss II.
MESTIAGEM. As modernas historiografia e antropologia africanas rejeitam a
afirmao da mestiagem, principalmente com povos ditos "hamitas" na
Antiguidade, como fator excludente da negritude. Na frica e em Madagascar,
povos nativos de peles menos ou mais pigmentadas, narizes mais ou menos
aquilinos, cabelos menos ou mais crespos compartilham da mesma
experincia histrica e cultural e, portanto, podem todos, sem distino, ser
considerados povos negro-africanos. Ver PELES.
METALURGIA. Conjunto de tcnicas utilizadas na extrao e no aproveitamento
dos metais. Na frica, segundo E. Belinga, a metalurgia tradicional data de
5000 a.C. Esse , com efeito, o perodo em que o Egito antigo conheceu o
cobre. Sobre o ferro, consoante Obenga, a obteno desse metal em altos-
fornos, a partir do minrio, foi introduzida no Egito em c. 3000 a.C. A partir
da, essa tecnologia desenvolveu-se em vrias partes da frica ao mesmo
tempo; mas tudo leva a crer que a expanso tenha se dado da frica
Ocidental para a regio interlacustre, chegando  frica Oriental e da at a
parte austral do continente. Entre 600 e 350 a.C. extrai-se, funde-se e forja-se
o ferro, particularmente em trs regies: Nok, centro da atual Nigria; zona
interlacustre (noroeste da Tanznia atual); e vale mdio do rio Nilo. No atual
Gabo, o ferro foi conhecido desde o incio da Era Crist. Algumas pesquisas
fazem supor que a produo desse metal fosse muito antiga na regio, tendo-
se difundido ao longo do litoral gabons na direo norte-sul. Entre os sculos
V e I a.C., Meroe tornou-se um importante centro de metalurgia do ferro; e,
conforme Basil Davidson, pouco depois do advento da Era Crist, habitantes
da regio de Catanga, na atual Repblica Democrtica do Congo, comearam
a explorar os ricos files de minrio de cobre existentes no local. A metalurgia
do bronze e do lato chegou  frica Ocidental antes do sculo X d.C., como
exemplifica a variedade de estilos de trabalho nesses materiais encontrados
nos atuais Camares, Chade, Benin, Costa do Marfim, Gana, Nigria etc. Os
mais antigos e marcantes trabalhos em bronze e lato so os da atual Nigria,
onde as artes do antigo Benin e de If conquistaram lugar entre as melhores
do mundo. Ver FERREIRO; HAIA.
METEMPSICOSE. Teoria filosfico-religiosa baseada na crena de que a alma 
imortal e, depois do falecimento do indivduo, transmigra para outros corpos
em reencarnaes sucessivas mas sem o sentido de expiar faltas e evoluir,
como no espiritismo kardecista. Foi a base da religio do Egito antigo e
subsiste em sociedades africanas contemporneas.
MIDIANITAS. Povo da Antiguidade, relacionado na Bblia a Mdi, um dos filhos
de Abrao. Habitantes do sudeste de Cana, so mencionados, segundo
Bernal, como um povo de pele escura. Ver CUXE.
MIGRAES. Os deslocamentos de grandes contingentes populacionais, em
busca de condies ideais de vida, desempenharam desde a Antiguidade
importante papel na histria africana. Essas migraes, em vrios locais e
direes do continente, contriburam de modo decisivo para a formao e o
desenvolvimento das diversas regies, tanto pela difuso de conquistas
culturais e tcnicas quanto pela adoo, direta ou indireta, de novas prticas
culturais. Graas aos contatos entre migrantes e povos locais, autctones ou
no, as regies perifricas acumularam, durante largos perodos, as
realizaes culturais emanadas dos grandes centros, o que lhes permitiu
saltos em seu desenvolvimento sociocultural.
MIN. Deus de Coptos, ao norte de Tebas, associado s populaes negro-
africanas do sul. Parece ser um aspecto de Osris, pois, segundo algumas
tradies, tinha sis como esposa e Hrus como filho. Ver MENS.
MINEPTAH. Ver MENEFT.
MIQUERINOS. Ver MENCAURE.
MIRIAM. Personagem bblica, irm de Moiss.  descrita como "uma menina de
pele escura" no livro Aspectos do Egito antigo (Ordem do Graal na Terra,
2004).
MIRRA. Planta da famlia das Burserceas (Commyphora myrrha.), natural da
Arbia e do nordeste africano. Produz resina oleogomosa, aromtica, quando
cortada. Essa resina inclua-se entre os itens valorizados no comrcio afro-
asitico da Antiguidade. Ver ERVAS e INCENSO.
MISR. Nome rabe para o territrio do antigo Egito. Ver MIZRAIM.
MISSAROU (MISSROU). Grafias francesas para o antigo topnimo rabe que
designava o Egito. Variantes rabe-africanas: Missouri, Missour, Missouret.
Ver MISR; MIZRAIM.
MITANI. Reino do povo hurrita, situado a leste do rio Eufrates, nas proximidades
da atual Armnia, florescido aproximadamente entre 1500 e 1365 a.C. Em seu
apogeu, no sculo XV a.C., manteve boas relaes com o Egito, do qual foi
inclusive aliado. Mais tarde foi, com os reinos dos hititas, arzavas, cassitas e
elamitas, uma das foras que se opuseram ao poderio faranico durante o
Imprio Novo.
MITOS e LENDAS. Os relatos mticos e lendrios no podem ser desprezados
como fonte histrica pois no so apenas fruto da imaginao ou da
criatividade dos antigos. Sempre constituem verses alteradas de
acontecimentos reais, originados entretanto de uma verdade. O que  preciso
, em cada um deles, identificar o respectivo mitologema, o fato gerador do
mito, para chegar  essncia do fato narrado por meio de sua interpretao.
MITUMBA, Montes. Cadeia de montanhas na atual Repblica Democrtica do
Congo, ao longo da fronteira com Ruanda. Entre os anos 100 e 200 d.C., teria
sido local de fixao de contingentes bantos provenientes do Baixo Congo. Ver
KWALE.
MIZRAIM. Nome hebraico do Egito, dado em funo de ser, segundo a Bblia,
habitado pelos descendentes do personagem de mesmo nome, filho de Cam,
tido como "pai do povo negro".
MOAMBIQUE. Moderno pas da costa oriental africana. No sculo III d.C.,
migraes bantas ultrapassaram o rio Rovuma em direo  regio da atual
Maputo e cerca de cem anos mais tarde chegaram  regio de Manica. Esses
migrantes, segundo Obenga (1985), provinham da regio interlacustre, tendo
passado pelas terras altas a oeste do lago Niassa. Repetindo o mesmo
processo ocorrido na atual Angola, esses bantos, em sua passagem, foram
deslocando populaes Khoi-khoi ou Khoi-san (bosqumanos) cujos ancestrais,
por sua vez, j tinham sido deslocados para o norte por fora de outras
migraes bantas. O trao caracterstico de cada uma das sociedades a
surgidas definiu-se fortemente em funo da geografia fsica: no sul, os xopes
e tongas, descendentes de grupos provenientes da atual frica do Sul,
organizaram-se em chefaturas de tipo aldeo; nas regies centrais, em torno
do rio Zambeze, estabeleceram-se os barus, maravis, macuas e xongas.
Esses grupos, entretanto, no eram homogneos entre si, e se organizavam
de formas diversas. Alguns, como os maravis, reuniam-se em pequenos reinos
descentralizados, enquanto outros, como os macuas, organizavam-se em cls
que se aliavam constantemente contra grupos invasores, como os prprios
maravis. Mais para o norte ficavam os macondes e iaos, vivendo isolados
entre as montanhas do planalto Mueda (cf. Eric Young, in Appiah e Gates,
verbete "Mozambique"). No sculo X d.C., a foz do Zambeze j sediava um
importante comrcio de marfim e ouro. Ver BANTOS; MADAGASCAR; OFIR; RIFT
VALLEY; SOFALA; SUALE; ZAMBEZE; ZMBIA; ZIMBBUE.
MOCORVE VA GATHANGA. Localidade mtica, sagrada, no territrio do atual
Qunia. Na tradio local,  tido como o lugar de origem das instituies do
povo quicuio. Ver GICUIU.
MOERIS. Nome grego do lago Mer-our ("o grande lago", em egpcio) ou Qarun,
situado no Faium. s suas margens Amenemat III construiu um templo em
honra do deus crocodilo Sobq, alm de suntuoso complexo arquitetnico, que
inclua seus palcios e seu monumento funerrio, alm de duas grandes
esttuas emergindo da gua.
MOERO (MWERU). Lago na fronteira da Tanznia com a Repblica Democrtica
do Congo, formado pelo rio Luvua e com cerca de 4.500 km2 de superfcie.
Em quicongo, o vocbulo mwelu significa "grande abertura".
MOGO VA QUEBIRO. Profeta quicuio. Em poca no determinada, no dizer de
Kenyatta, previu em sonho a chegada dos europeus e a tragdia que isso
acarretaria ao seu povo. Ver GICUIU.
MOISS. Primeiro grande chefe do povo de Israel, legislador e lder religioso.
Nascido prximo a Mnfis, no Egito, em c. 1250 a.C., segundo a tradio, foi
recolhido no rio Nilo e criado na corte do fara, provavelmente Ramss II. Seu
nome  derivado do egpcio msw (mosu), vocbulo ligado  ideia de
nascimento e presente em antropnimos como Ahms (Amsis) e Tutms
(Tutmsis). Sua rebeldia em relao ao Egito revelou-se, segundo a Bblia, ao
tempo do "fara da opresso", talvez o prprio Ramss II ou seu sucessor
Meneft. Casamento  "Moiss tinha-se casado com uma mulher da Etipia,
e Miriam e Aro comearam a critic-lo por causa disso" (Nmeros, 12,1).
Segundo o livro do xodo, Moiss casou-se com Sfora ou Zpora, filha do
sacerdote de Madi, chamado Jetro ou Reuel; e, segundo a Bblia (Vozes,
1986), "os madianitas so uma tribo nmade da Transjordnia e da pennsula
do Sinai". H. Cazelles levanta dvida sobre esse casamento ter sido madianita
ou cuxita. Alguns estudiosos afirmam que Moiss teria sido instrudo nas
cincias quemticas. Ver ZPORA.
MON. Ver AMON.
MONOMOTAPA. Ver ZIMBBUE.
M OSSI, Imprio. Estado fundado no planalto central do moderno Burquina-
Fasso por uma faco guerreira proveniente do norte da atual Repblica de
Gana, liderada por Uedraogo. Nasceu da assimilao de dois reinos locais:
Uagadugu, provvel remanescente do antigo Gana, e Iatenga, florescido entre
os sculos XI e XII. Dois sculos mais tarde, Iatenga, o mais setentrional dos
dois, iniciou sua expanso, convertendo-se em imprio. Em seu mpeto
expansionista, os exrcitos do Mossi saquearam Tumbuctu e atacaram outras
cidades, como Ualata, at o sculo XV. Os contra-ataques vieram
principalmente do Sonrai; mas no os conseguiram derrotar nem converter ao
islamismo. O Isl s penetrou na regio no sculo XIX.
MOUROS. Denominao dada pelos romanos aos berberes independentes da
antiga Mauritnia. Os mouros atuais so tidos como descendentes de diversas
populaes do noroeste africano, entre os quais zenagas e garamantes.
MUARES.    Antes da introduo do camelo e do cavalo, o animal
preferencialmente utilizado para transporte de cargas no continente africano
era o jumento, usado sobretudo pelos egpcios. Graas a esse animal, por
exemplo, Harcufe teria feito sua clebre viagem entre o Assiut e o Darfur. O
cavalo chegou  frica pela mo dos hicsos, como animal de trao e no de
montaria; a utilizao geral do camelo, como animal de montaria e transporte
de cargas, ocorreu provavelmente j quase na Era Crist.
MUATINVUA, Reino do. Ver LUNDA.
MULEMBA. Ficus doliaria. rvore da famlia das morceas, conhecida no Brasil
como gameleira ou figueira-brava. Entre os ambundos, plantada  frente das
aldeias, simbolizava a autoridade do chefe e a ligao entre os ancestrais e os
vivos. Na moderna Luanda, o stio histrico e religioso chamado Mulemba
Uaxa Ngola, marcado por uma dessas rvores centenrias,  local de culto 
memria do primeiro Ngola-a-Kiluanje, grande ancestral dos ambundos.
MMIA. Resultado da mumificao.
MUMIFICAO.     O costume de conservar cadveres por meio de
embalsamamento baseava-se, entre os egpcios, na crena de que a vida no
alm s se tornava possvel com a preservao do corpo do defunto, que
assim recebia de novo sua alma. A mumificao, ento, requeria um ritual
complexo, que durava, segundo L. Bacha, cerca de 70 dias, envolvendo
sacerdotes de diversos nveis hierrquicos e dividido em duas fases distintas:
a cirrgica, com a retirada das vsceras e os necessrios cuidados para
preservao; e o enfaixe, referncia simblica  reconstituio da pele do
deus Osris aps seu esquartejamento.
MUSAWARAT-AS-SAFRA. Stio nbio, no atual Sudo, onde se localizou, prximo a
Meroe, o grande centro religioso dos cuxitas a partir de 500 a.C.
MUSEU NACIONAL DE CARTUM. Instituio criada a partir das obras de
preservao arqueolgica realizadas na Nbia quando da construo da
represa de Assu, nas dcadas de 1960-1980. Rene um acervo por meio do
qual se pode reconstituir o passado da Nbia, desde o Paleoltico at o
advento do Isl.
MUT. Deusa egpcia, representante por excelncia do instinto materno, me de
Cons.
MUTOTA. Soberano da etnia Xona, falecido por volta de 1450 d.C. Iniciador das
monumentais construes do Grande Zimbbue, entre os rios Zambeze e
Limpopo. Ver ZIMBBUE.
MUXICONGO. Indivduo dos bacongos. Segundo Parreira, o termo  designativo
de todos aqueles que "reivindicavam parentesco com as linhagens associadas
a Mbanza-a-Kongo".
MWERU. Ver MOERO.
NAGRINSAN(NAKIERINSAN). Rei de Cuxe em Meroe, em c. 145-120 a.C.
NAHAL MUSUR. Expresso hebraica que designava a fronteira do reino de Israel
com o Egito no sculo VIII a.C.
NAKIERINSAN. Ver NAGRINSAN.
NALDAMAQ (NAWIDEMAK). Governante cuxita em Meroe, em c. 90-50 a.C. Esse
nome , em algumas fontes, atribudo a uma candace e, em outras, a um rei.
NAPATA. Cidade cuxita sucessora do poder de Querma situada na Nbia, abaixo
da quarta catarata do Nilo. Originalmente, posto alfandegrio egpcio, Napata
ficava no cruzamento do Nilo com rotas de caravanas vindas do interior. Ao
tempo de Tutms III constitua o limite meridional do Egito. Aps Ramss XI,
quando Cuxe tornou-se independente do Egito, uma linhagem dinstica
permaneceu em Querma e outra constituiu, por volta de 920 a.C., um reino
independente, com capital em Napata, mais ao sul, apoiado pelo clero de
Amon, expulso de Tebas. Ento, o djebel Barcal foi sacralizado como o centro
do culto desse deus. No sculo VIII a.C., a dinastia reinante conquista o Egito,
por ela governado durante quase um sculo. Com a derrota de Aspelta pelos
egpcios em c. 593 a.C. e a destruio da cidade, a capital cuxita 
transferida para Meroe. Mas alguns registros parecem indicar o erguimento de
uma nova Napata, onde teriam reinado alguns soberanos dissidentes. Em
algumas referncias histricas, o etnnimo "Napata" designa o prprio Estado:
o "reino de Napata".
NAQADA. Ver EL-AMRA.
NARMER. Soberano egpcio, chamado Mens pelos gregos. Segundo alguns
autores, o nome "Mens" parece ser um ttulo, ligado  ideia de unificao, e
no um antropnimo. Para outros, Narmer seria apenas o nome sagrado ou
inicitico de Mens no culto ao deus Hrus. Tido como o primeiro fara
efetivamente humano do Egito, uma vez que os anteriores so, pela tradio,
considerados semideuses, por volta de 3500 a.C. unificou os reinos do Alto
Egito e do delta do Nilo, iniciando a primeira dinastia faranica. Ento, fundou
Mnfis, levantou os grandes diques que protegiam a cidade contra as cheias
do Nilo e introduziu o culto de Sobeq, o deus crocodilo, e o do boi pis no
Faium. M. Bernal estabelece intrigante correlao entre esse fara, chamado
Min por Herdoto e introdutor do culto do boi pis no Egito, e o talvez lendrio
rei Minos, soberano cretense de Cnossos, senhor de vasto imprio martimo,
filho de Zeus e Europa, o qual, segundo um mito, teria dominado o monstro
minotauro, trancando-o num labirinto. Lembra ainda Bernal que o labirinto era
uma tradio egpcia. Em abono a essa afirmao, veja-se que Herdoto
descreveu com esse nome o palcio de Amenemat III, prximo ao Faium,
formado por uma infinidade de cmaras idnticas. Segundo Anta Diop, a partir
de exame de uma escultura que o representa, reproduzida no primeiro tomo
de sua obra Nations ngres et culture, Narmer "no era, seguramente, ariano,
indo-europeu nem semita, mas indiscutivelmente um negro". Ver HRUS NARMER.
NASAQMA. Rei de Cuxe em Meroe, em c. 468-463 a.C.
NASALSA. Rainha cuxita, mulher de Sencamanisquen, me de Anlamani e
Aspelta.
NASAMES (NASAMONS). Povo da Lbia, habitante de Sirta ou das proximidades
do osis de Aoudjila, segundo Herdoto. No sculo V a.C. teriam feito
incurso at o Nger, atravs do deserto, na direo oeste, e chegado a uma
cidade  margem de um grande rio, provavelmente o Nger, onde todos os
habitantes eram negros.
NASTASEN. Rei de Cuxe em c. 335-315 a.C. Em seu reinado, marcado por
expedies e guerras contra povos invasores, e que assinalou o verdadeiro
incio da formao da identidade merotica, Meroe arrebatou  antiga capital,
Napata, a primazia de ser o local de coroao e sepultamento dos soberanos
cuxitas. Durante seu governo e at o de Amanibaqui, provavelmente, outra
dinastia reinou em Napata.
NATECAMANI. Ver NETECAMANI.
NAUCRTIS. Antiga cidade do Egito, fundada pelos gregos em meados do
sculo VII a.C. e tomada pelos persas em c. 525 a.C.
NAWIDEMAX. Ver NALDAMAQ.
NDAURA QUIARUBINDA. Ver BUNIORO.
NDIAYE SABUR MINGU.  Ver SABUR MINGU N'DIAYE.
NDONGO. Estado ambundo, limitado a norte pelo reino do Congo, a leste pela
Matamba, a sul pelos Estados ovimbundos e pela Quisama e a oeste pelo
oceano Atlntico. Ver AMBUNDOS.
NEBCA. Fara da II dinastia egpcia, filho e sucessor de Casequemui, reinante
 poca arcaica ou tinita (c. 2980-2686 a.C.), num perodo de estabilidade
poltica e paz externa.
NEBR (RANEB). Fara egpcio, o segundo da II dinastia, sucessor de
Hotepsequemui.
NECAU (NECO). Nome de dois faras egpcios da XXVI dinastia, sata. O
primeiro, fundador de sua linhagem dinstica, reinou talvez entre 672-664 a.C.,
no deixando nenhum registro importante. O segundo, reinando de 610 a 595
a.C., aproximadamente, refora o poder egpcio sobre a Palestina,
aproveitando-se do fim da hegemonia assria. Lanando-se sobre Jud,
derrota o rei Josias, matando-o em Megido, em c. 609 a.C. Estabilizado o
front, impe pesado tributo aos hebreus, prende Joacaz, aclamado pelo povo
como sucessor de Josias, e leva-o cativo para o Egito, onde esse nobre
permanece at a morte. Ato contnuo, nomeia Eliaquim, irmo de Joacaz;
muda, numa demonstrao de poder, seu nome para Joaquim e estabelece
um protetorado sobre os hebreus. Tentando impor-se sobre a Babilnia ,
entretanto, derrotado em Carquemis, perto do rio Eufrates, pelas tropas de
Nabucodonosor. Ento, volta-se para interesses menos explicitamente blicos
e mais polticos e comerciais. Assim, projeta abrir um canal ligando o Nilo ao
mar Vermelho, na atual regio de Suez. Abandonado esse intento, comanda
um priplo na frica, contornando as Colunas de Hrcules, montanhas que
ladeiam o estreito de Gibraltar, por volta de 600 a.C. No obstante, Necao
teve ainda que conter os exrcitos do rei cuxita Aspelta, que se preparavam
para investir contra o Egito, com o objetivo de restabelecer sua dinastia em
Tebas. A concluso dessa tarefa caberia, entretanto, a seu sucessor,
Psamtico II.
NECRPOLES REAIS NBIAS. J por volta do sculo IX a.C., a necrpole de Curru,
na margem direita do Nilo, cerca de 13 km ao sul do djebel Barcal, recebia a
sepultura dos faras da XXV dinastia, com exceo de Taharca. Os restos
desse fara inauguraram o cemitrio de Nuri, 10 km acima de Napata, na
margem esquerda do Nilo, o qual recebeu os despojos de todos os soberanos
de Napata e Meroe, de Atlanersa a Nastasen, num total de 82 tmulos,
pirmides na maioria.
NECTANEBO. Nome de dois faras egpcios, respectivamente o primeiro e o
ltimo da XXX dinastia, entre 378 e 341 a.C. O ltimo deles, vencido pelos
invasores persas, foi buscar refgio em territrio nbio, provavelmente em
Napata.
NEDJEH. Soberano cuxita de Querma (c. 1550 a.C.). Aliado aos hicsos, tomou
o poder, instalou sua capital em Buhen e reinou de Elefantina  segunda
catarata, at a conquista de Buhen por Camsis.
NEFER. Elemento presente na formao de antropnimos egpcios, conota a
ideia de beleza, bondade ou perfeio.
NEFEREFR (RANEFEREF). Fara da V dinastia egpcia, poca menfita. Sucessor
de Chepsescar, desfrutou de reinado pacfico e prspero.
NEFERIRCAR. Fara da V dinastia egpcia, poca menfita, sucessor de Sahur.
NEFERCARE. Um dos ttulos do fara nbio Xabaca.
NEFERITS. Nome de dois faras egpcios da II dinastia, sediada em Mends.
O primeiro fundou sua linhagem dinstica.
NEFERNEFRUATON. Nome de trono do governante egpcio Smenqcar. Segundo
alguns autores, poderia tratar-se de um nome crptico, assumido por Nefertite
aps a morte de Aquenaton.
NEFERTARE. Nome comum a duas rainhas egpcias. A primeira foi irm e
esposa do fara Amsis ou Ahms (sculo XVI a.C.), e por isso  tambm
referida como Ahms-Nefertri. Princesa cuxita,  retratada como uma mulher
negra em um papiro reproduzido na capa do livro L' Antiquit africaine par
l'image, de Cheikh Anta Diop; sendo essa condio tnica comprovada por
clculos antropomtricos realizados por E. Chantre, conforme Obenga (1973).
Segundo Pedrals, que grafa seu nome como "Nowertari", era filha de Nover
Afi, o "senhor das cataratas". A segunda foi a esposa favorita de Ramss II,
que mandou construir, em sua honra, o primeiro e mais impressionante
monumento funerrio do Vale das Rainhas.
NEFERTITE. Rainha do Egito, esposa do fara Amenhotep IV, depois
Aquenaton, no sculo XIV a.C. Famosa por sua beleza, desempenhou papel
poltico importante, entrando em choque com os sacerdotes de Amon quando
da adoo do culto de Aton e da mudana do nome de Amenfis para
Aquenaton. Segundo algumas verses, aps a morte de Aquenaton, e sendo
ainda o futuro Tutancamon bem criana, teria assumido uma personalidade
masculina e governado sob o nome Nefernefruaton, mantendo sua filha
Meritaton no cargo cerimonial de "Grande Esposa Real". Segundo outras
correntes, teria morrido antes de Aquenaton, provavelmente assassinada,
sendo este, sim, sucedido pela filha Meritaton,  qual seguiu-se Tutancaton,
cujo nome foi logo mudado para Tutancamon. Outra corrente histrica ainda
menciona o nome Smenqcar como a terceira das identidades de Nefertite.
NEFERTUM . Deus egpcio cultuado na regio de Mnfis. Um dos nomes ou
aspectos de Hrus.
NEFERUSOBEQ. Ver SOBEQNEFRU.
NEGRO. Indivduo pertencente a cada um dos grandes grupos humanos
portadores em maior ou menor grau de caractersticas fenotpicas como pele
escura, cabelos crespos, narizes largos e lbios grossos, e distribudos pela
frica, parte da Oceania, Amricas e outras regies do mundo. A cor escura
da pele dos negros  determinada por granulaes microscpicas do
pigmento chamado melanina. Os indivduos assim caracterizados dividem-se,
segundo Obenga, em dois grandes grupos: os de cabelos ondulados ou
frisados, chamados cimtricos; e os de cabelos lanosos e crespos, chamados
ultricos. Entre os primeiros, encontram-se os negros do nordeste africano, da
ndia e da Austrlia; entre os segundos, os negros da frica Ocidental, Central
e Austral, bem como os da Melansia. Segundo Herdoto, os antigos egpcios
e os habitantes da Clquida, seus aparentados, incluir-se-iam entre os
ultricos. Como denuncia a publicao Histria de Angola, constante da
bibliografia desta obra, antigas teorias afirmam que o elemento
caracteristicamente "negro" no  originrio da frica e sim do continente
asitico. Assim agindo, segundo a publicao, essas teorias pretenderiam
lanar tambm sobre os negros a mesma pecha de "invasores" que recaiu
sobre os colonizadores europeus do continente. Para completar essa teoria,
afirmam seus formuladores que, em certo momento histrico, teriam chegado
 frica povos camitas, tidos como "brancos". A partir dessa construo
terica, todos os grandes passos da civilizao no continente africano teriam
sido atribudos a influncia externa, o que  falso: as mais modernas teses
cientficas comprovam que o elemento negro formou-se e desenvolveu-se na
prpria frica. Ver NEGRO-AFRICANO.
NEGRO-AFRICANO. Relativo s populaes negras da frica. Como acentua
Joseph Ki-Zerbo, as atuais civilizaes negro-africanas tm alto grau de
parentesco com a antiga civilizao egpcia e, em termos culturais, esto mais
prximas dela do que qualquer outra civilizao conhecida. Enfatiza ele que a
causa do progresso dos egpcios deveu-se a condies econmicas,
demogrficas e sociolgicas e no a razes etnorraciais. Quando do
dessecamento do Saara, os povos que se dirigiram para o sul, em vez de
demandar o leste e atingir o vale do Nilo, ficaram  merc de outras
condies: terras menos frteis e no tolerantes  explorao intensiva e 
charrua; disperso do povoamento, convidando  vida itinerante; falta de
contato com outros povos de mesmo nvel de desenvolvimento; rigores do
clima e das doenas tropicais etc. Entretanto, traos de parentesco cultural
muito marcantes subsistiram entre as duas zonas de disperso a partir do
Saara. Migrantes partidos da Nbia levaram at a frica Tropical ecos da
civilizao do Nilo. Assim, as insgnias do exrcito egpcio e as do reino do
Congo eram dolos levantados sobre hastes; os tmulos dos agnis da atual
Costa do Marfim lembram em muito os do vale do Nilo; os apoios para nuca
colocados pelos dogons sob as cabeas de seus mortos so do mesmo feitio
dos utilizados nos funerais do Egito antigo; as barbas entranadas das
mscaras bauls so semelhantes s da famosa mscara de Tutancamon etc.
Alm disso, como lembra Ki-Zerbo, a circunciso, o casamento real entre
irmos, o culto da serpente so apenas algumas entre as muitas similaridades
que ligam a frica Negra  antiguidade egpcia. Por fim, conclui Ki-Zerbo pela
existncia de um "fundo comum paleoafricano" centrado no Saara e por um
contnuo intercmbio entre a frica Negra e o vale do Nilo durante milnios.
Baseados no fato de que, nos dias atuais, alguns grupos tnicos da frica
Oriental e Central apresentam o que se convencionou como "perfil grego" ou
nariz adunco, do tipo tido como "semtico" (apesar da pele escura), alguns
antroplogos recusam-se a enquadrar esses tipos como negro-africanos.
Entretanto, na defesa de interesses polticos e econmicos, pensamento da
mesma linha eurocntrica qualifica modernos afromestios, mesmo com "perfil
grego", "nariz hamtico" ou cabelos lisos, como mulatos, colored, oitaves,
quadrares etc., pospondo-lhes, sem hesitao, o qualificativo de "negros". O
conhecimento estabelecido serve-se, em geral, de definies lingusticas para,
com base nelas, estabelecer classificaes ditas raciais. Assim,
denominaes como "niltico" ou "etipico", em termos biolgicos, no fazem
nenhum sentido, expressando to somente classificaes de base lingustica
ou cultural, em acepo mais ampla. Ento, um "niltico" (shilluq, dinca ou
nuer), apesar das diferenas fsicas,  to negro-africano quanto um "etipico"
(galla, copta, omoro etc.) ou, ainda, quanto um "sudans" iorubano ou, mais,
quanto um "banto" da frica Meridional. A cincia eurocntrica, segundo
Obenga, abusou de classificaes como a de "negroide", por exemplo, para
descaracterizar e desvirtuar a origem autctone de boa parte das construes
culturais negro-africanas. Ver FRICA; MELANO-AFRICANOS; NEGRO.
NEGRO-EGPCIO. Expresso (em francs, ngro-gyptien) empregada por
Thophile Obenga para designar o territrio comum  antiga lngua egpcia e
ao copta, bem como s modernas lnguas da chamada "frica Negra". Com
base em um minucioso estudo comparativo, Obenga (1973), provou a
existncia de parentesco gentico entre elas. Ver ONTOLOGIA EGPCIA E NEGRO-
AFRICANA.
NEHANDA. Ver XAMINUCA.
NEHSIS. Antigo povo negro da Nbia, ferrenho adversrio dos egpcios,
vencido por Senusret ou Sesstris III. Segundo Jean Vercoutter, no era por
serem negros, como durante muito tempo se difundiu, que os nehsis eram
proibidos de entrar no Egito e, sim, por pertencerem a uma nao que
representava um perigo potencial para os habitantes do baixo vale do Nilo. Os
nehsis forneciam gado, bano, incenso, marfim, peles, plumas, animais vivos
etc. ao Egito. Sendo o principal fornecedor do imprio, era uma nao rica e
poderosa, perigosa portanto. O etnnimo "nehsis" (tambm grafado
"nehsiu" ou "nehsyu") deriva do antigo egpcio nhsw (nhasou, nahasou),
nome com que, conforme Obenga, os egpcios designavam os habitantes do
pas de Cuxe, significando "os do sul", segundo Ki-Zerbo. Ver RACISMO, Nbios
e.
NHI. Vice-rei da Nbia  poca de Tutms III.
NEITH. Deusa egpcia pr-dinstica cujo santurio principal se localizava na
cidade de Sas. Reunindo todos os atributos das divindades femininas, era
invocada reverentemente como "Me", tanto por sua antiguidade quanto pelo
mistrio que envolvia seus rituais. Segundo a tradio, nas guerras, era ela
que se punha  frente dos exrcitos, para proteg-los e garantir-lhes a vitria.
Saraiva a tem como correspondente  deusa Minerva.
NEITH-IKERET. Ver NETIQUERTI.
NEMROD (NIMROD) [1]. Personagem do Gnesis bblico, filho de Cuxe, tido como
o primeiro grande conquistador do mundo. Caador e desbravador, teria
conquistado, em Sinar, as cidades de Babilnia, Eraque e Acade. De Sinar,
teria ido para a Assria, onde lhe  atribuda a fundao de Nnive, Rebote-Ir,
Cal e Resm. Heri mtico, sua saga integra tambm tradies rabes e
persas, alm de, na mitologia iorubana, ser s vezes associado ao heri
fundador Odudua.
NEMROD (NIMROD) [2]. Prncipe da cidade de Hatuered, vassalo do fara nbio
Piye, ops-se a Tefnacte, prncipe de Sas, mas depois, insurgindo-se contra
o fara, passou-se para o lado do inimigo. Derrotado por Piye, foi perdoado
por interveno de sua mulher, Nestent.
NEOPLATONISMO e RELIGIES AFRICANAS. Ver PLOTINO.
NEQUEN. Nome egpcio para Hieracmpolis, cidade do Alto Egito. Fundada no
perodo pr-dinstico, em c. 3.000 a.C., segundo Lpez-Davalillo, a cidade
era palco de um pioneiro surto de urbanizao. Tambm referida sob o nome
rabe Com El-Ahmar, expresso que significa, ao que consta, "o morro
vermelho", foi a mais venerada das capitais antigas do Alto Egito.
NESUT TAUI. Outro nome para Napata.
NETECAMANI. Rei de Cuxe em Meroe, em 12 a.C.-12 d.C. Reinou juntamente
com a mulher, a rainha Amanitare.
NETER. Vocbulo egpcio que significa "divino". Segundo alguns autores, estaria
na origem etimolgica do latim natura, natureza.
NETIQUERTI (NEITH-IKERET). Rainha do Egito, encerrou a VI dinastia. Tambm
referida como Nitcris, sucedeu Merinr II, seu marido, morto durante curto
reinado. Outra personagem da histria egpcia tambm chamada Nitcris ou
Nitquerti, porm em outra poca, foi a filha do fara Psamtico I.
NGANGULA-A-CONGO. Ttulo do heri civilizador dos bacongos: o "forjador do
Congo". Ver FERREIRO; NIMI-A-LUQUENI.
NGOLA. Antigo ttulo, equivalente a "rei", da principal autoridade dos ambundos.
O termo est na origem do etnnimo Angola.
NGOLA-A-ARI.  Ttulo dos principais chefes ambundos da regio de Mpungo-a-
Ndongo, mais tarde reconhecidos como soberanos do Dongo, atual Angola.
NGOLA-A-NZINGA. Lder africano ao redor do qual, no sculo XIV d.C., uniram-se
todos os cls e tribos dos ambundos, para formar o reino de Ndongo ou
Ngola.
NGOLA-A-QUILUANJE. Ttulo dos reis ambundos do Ndongo. Segundo a tradio,
o primeiro a usar esse ttulo, provavelmente Ngola-a-Nzinga ou Ngola-a-
Quiluanje-quia-Samba, filho de Feti e Coia, teria recusado o poder no Estado
ovimbundo de Huambo para fundar o Ndongo.
NGOLA-INENE. "O grande Ngola": ttulo honorfico do grande lder fundador do
povo ambundo, Ngola-a-Nzinga.
NGOLA-MUSUDI. Ttulo do heri civilizador dos ambundos: o "rei ferreiro,
forjador"; o mesmo que o precedente. Ver FERREIRO.
NGOYO. Antigo reino africano formado no interior da atual Repblica do Congo
antes do sculo XV d.C. Ver BANTOS; CATANGA.
NGNI. Conjunto de povos bantos localizados na poro mais meridional do
continente africano. Compreendem, hoje, entre outros grupos tnicos, os zulus
(e os lalas, seus aparentados), ndebeles, xhosas (outrora chamados "cafres")
e suazis. Receberam sua denominao do nome de um lder chamado Nguni
que, aproximadamente entre 300 e 400 d.C., teria comandado uma vaga
migratria em direo  regio dos Grandes Lagos. A essa migrao seguiu-
se outra, passando pelas terras altas a oeste do lago Niassa e alcanando o
Transvaal. Por volta de 1000 d.C., grupos ngunis, notadamente os lalas,
motivados pelo crescimento populacional e de seus rebanhos, empreendiam
novo movimento migratrio, nas direes leste e sudeste, chegando s bordas
do litoral do ndico, defrontando-se a com o poder dos xonas e tambm com
os povos bosqumanos, vivendo ainda na Idade da Pedra. Contornados e
acomodados os conflitos, alguns grupos fixaram-se nessa luxuriante e
aprazvel regio e outros prosseguiram sempre em direo ao sul. No sculo
XVI, outros grupos do povo Nguni chegam  regio dos montes Inianga,
colocando o estilo de vida dos bosqumanos sob extrema presso, o que os
empurra para o deserto de Calaari e compele o povo Lala a se integrar ou
afastar-se tambm.  nesse momento que surge a liderana de Malandela,
cujo nome, em zulu moderno, parece significar "aquele que prossegue, que vai
em frente". Indo, efetivamente, em frente, Malandela chega  regio da atual
provncia sul-africana de Natal, no extremo sudeste do continente. Ao fim de
sua vida, segundo a tradio, seu filho, Zulu, um jovem de esprito forte e
determinado, cujo nome significa "cu", fundava ali sua Quazulu, a "terra do
Cu", dando seu nome ao povo, bastante conhecido, principalmente a partir do
sculo XVIII, como Umzulu ou Zulu, o "povo do Cu".
NIASSA. Lago do sudeste africano, antigo lago Malaui, localizado no moderno
pas de mesmo nome. Com cerca de 30 mil km2 de superfcie,  o terceiro
maior do continente. Segundo Phillipson, citado por Obenga (1985), o
povoamento de suas margens est ligado a correntes migratrias vindas da
regio do lago Vitria, entre 300 e 400 d.C., em direo ao sul do continente.
Ver BAMBANDIANALO.
NICAULA CANDAQUE. Rainha etope da dinastia de Meneliq I, tendo governado,
supostamente, entre 335 e 325 a.C. Segundo alguns autores, seria ela a
candace referida como a guerreira que, em 332 a.C., montada sobre um
elefante e diante de suas tropas, garbosa e ameaadoramente colocadas em
posio de combate, fizeram Alexandre Magno recuar para o Egito. Observe-
se, entretanto, que, conforme dataes disponveis, no ano mencionado,
Meroe no estaria sob o governo de uma candace e sim sob o do rei
Nastasen.
NIFURIRIA. Transliterao (cf. Laffont) do nome pelo qual o fara Tutancamon
era chamado em cartas de Burraburiaxe, rei de Caraduniaxe, a Babilnia.
NGER. Rio da frica Ocidental. Nasce com o nome de Djolib no limite da
Guin com Serra Leoa, atravessa o Mali, chega  Repblica do Nger e, aps
receber, j na Nigria, as guas do Benu, desgua no golfo da Guin, num
largo delta, depois de correr por cerca de 4.160 km. Entre os sculos XI e
XIII, suas margens e proximidades foram cenrio de importantes eventos
geopolticos, determinantes na histria da regio. Ver GUIN.
NGERO-CHADIANO. Relativo  regio entre o rio Nger e o lago Chade.
NIGRETAI (NIGRETES). Antiga tribo da Lbia. Seus integrantes corriam o territrio
do pas, da costa ao interior, a cavalo ou em charretes. Segundo Bernal, sua
bela negritude teria dado origem ao vocbulo latino niger, raiz etimolgica do
termo multilingustico "negro". A Histria Natural, do romano Plnio, o Velho,
refere-se a um antigo povo africano como "nigritas".
NIGRITAS.    Antiga denominao, em latim nigritae, arum, dos habitantes das
margens do rio Nger, segundo Saraiva.
NI HOR. Manifestao do deus Hrus, mencionado pela tradio como
governante do Egito em poca pr-dinstica indeterminada.
NILO (Al-Nil). Rio africano, com 6.450 km de extenso. Nasce num curso de gua
no Burundi, com o nome de Cagera, depois se lana no lago Vitria, em
Uganda. Atravessa o lago Quioga e o lago Rutanzige, recebe vrios afluentes
e penetra no Sudo. Mais alm, chega a Cartum, onde encontra o Nilo Azul,
vindo do lago Tana, na Etipia. Suas cheias peridicas, levando hmus
fertilizante at o delta, foram o vetor da prosperidade do Egito faranico. O
Nilo transbordava todo ano, inundando durante trs meses todo o vale.
Quando as guas baixavam, ele deixava suas margens pantanosas cheias de
papiros onde se debatiam crocodilos e hipoptamos. Para os habitantes
locais, segundo Laffont, a observao da intensa fora vegetal que se sucedia
 inundao anual impunha a inveno da agricultura e at mesmo a forma
religiosa de reconhecimento ao rio que os alimentava. Cataratas  As
cataratas do Nilo so corredeiras e no quedas d'gua, provocadas por
barreiras rochosas. Algumas delas desapareceram com a construo de
barragens, como a de Assu. A primeira, prxima a essa localidade, com 5
km de extenso e 1 m de desnivelamento, permanece abaixo de Sadd El-
Aaali; a segunda, abaixo de Uadi Halfa, j no atual Sudo, estendia-se por 17
km; a terceira, abaixo de Querma, tinha 7 km; a quarta, abaixo de Carima,
corria por cerca de 6 km; a quinta, abaixo de Gananita, estendia-se por 10
km; a sexta, situada abaixo de Cartum, corria por 18 km. Vale do Nilo  Na
condio mpar de nico rio africano ligando o interior ao mar num curso
navegvel de mais de 6 mil km, o Nilo foi, por excelncia, um vetor de
civilizao. Assim, da regio de seu vale, homens e mulheres, como tambm
utenslios, artefatos e bens dos mais diversos gneros, chegaram, em
sucessivas vagas migratrias, a diferentes pontos do continente, do Saara
montanhoso s savanas do Barh-el-Ghazal e do Chade. Esses focos culturais,
quando devidamente mostrados, evidenciam e consolidam a unidade cultural
dos negros da frica. O vale do Nilo, compreendendo a Nbia e o Egito
faranico, foi o grande bero das comunidades negro-africanas tradicionais.
NILO AZUL (Al-Bahr al-Azraq). Um dos formadores do rio Nilo. Nasce no lago
Tana na Etipia e corre aproximadamente 1.600 km at encontrar em Cartum
o Nilo Branco e formar o Nilo propriamente dito.
NILO BRANCO (Al-Bahr al-Abyad). Nome que toma o rio Nilo ao deixar as
regies pantanosas do Sudo meridional (entre o lago N e sua confluncia
com o Nilo Azul).
NILO-SAARIANO. Relativo ao conjunto de populaes da parte setentrional do
continente africano, no eixo entre o Vale do Nilo e o deserto do Saara,
correspondente a partes dos atuais territrios de Sudo, Chade, Nger, Mali,
Mauritnia, Saara Oriental, Marrocos, Arglia, Tunsia, Lbia e Egito.
NILTICOS. Denominao que abrange as populaes autctones da bacia do
Nilo Branco. Os primeiros contatos entre povos falantes de lnguas nilticas e
populaes cuxitas deu-se, de acordo com Martin e Martin, entre o segundo e
o quarto milnio antes de Cristo nos confins dos atuais territrios de Etipia,
Sudo e Qunia. Depois, desenvolvendo-se em permanente interao, esses
povos pastores, por meio de sucessivos movimentos migratrios, alcanaram
a regio dos Grandes Lagos, onde, compelidos por bem-sucedidos
agricultores bantos, viram-se obrigados a buscar pastagens mais ao sul e a
oeste. Todos esses eventos deram margem ao surgimento de novos povos e
unidades polticas, como os importantes reinos florescidos na regio
interlacustre, principalmente a partir do sculo XIII d.C. Ver GRANDES LAGOS;
SHEVA.
NIMI-A-LUQUENI. Chefe africano, tambm chamado Ntinu Uen, sob cuja
liderana, no sculo XIII d.C., todos os cls e tribos dos bacongos se uniram
para formar o reino do Congo. De origem luba, aparece nas tradies locais
como o ngangula, ferreiro primordial, que deu ao seu povo as armas de
guerra e os utenslios agrcolas. Ver CONGO, rio; FERREIRO.
NIMROD. Ver NEMROD.
NINETJER. Fara egpcio da II dinastia, poca arcaica, sucessor de Nebr ou
Raneb.
NITCRIS. Ver NETIQUERTI.
NIUSERR. Fara egpcio da V dinastia,  poca menfita, sucessor de
Neferefre. Lutou contra os lbios e enviou expedio a Punt.
NKORE. Antigo nome para Ancole, um dos tradicionais reinos de Uganda.
NOBCIA. Reino cristo da Nbia, localizado ao norte. Reino independente,
estendendo-se da primeira  terceira catarata, sua capital foi transferida de
Ballana para Faras, antiga Pachoras, no sculo VI d.C. Segundo Bernal,
"nobatai" era o nome de um antigo povo nmade do Saara oriental que se
fixou no Nilo superior, na Nbia, na cidade que ficou conhecida como Nabata
ou Napata. Segundo o mesmo Bernal, esse povo esteve presente num trip
formado por Lbia, Nbia e Arbia. Ver ALDIA; MACRIA; NBIA CRIST; SILCO.
NOBAS. Povo da antiga Nbia, tido como ancestral dos atuais nubas do Sudo.
De hbitos nmades, infiltraram-se em Meroe,  poca da decadncia da
civilizao cuxita, abandonando suas tendas, instalando-se nas casas de
alvenaria l existentes e adotando costumes meroticos. Em 350 d.C.,
entretanto, foram duramente atacados pelo rei Ezana de Axum, que arrasou
seus estabelecimentos. Descrevendo essa campanha, inscries axumitas
distinguem-nos como "nobas vermelhos" e "nobas negros". Ver NOBCIA.
NOFRETETE. Ver Nefertite.
NOK. Localidade na frica Ocidental. Ncleo de importante civilizao
florescida da confluncia dos rios Nger e Benu at as proximidades do lago
Chade, no planalto de Joz, na atual Nigria, entre o sculo V a.C. (ou no
primeiro milnio, segundo alguns autores) at cerca do ano 200 da Era Crist,
quando talvez mantivesse relaes com Meroe. Segundo I. E. A. Yeboah, a
civilizao de Nok destacou-se por sua metalurgia do ferro e pelas ligaes
comerciais mantidas com Cartago, atravs do Saara  o que teria despertado
a cobia dos primeiros romanos na frica , e tambm com Meroe. Nok teria
sido ainda, segundo alguns pesquisadores, o centro de expanso das cidades-
Estado iorubanas. Os restos arqueolgicos deixados por seu povo,
notadamente esculturas em terracota e sinais de trabalho metalrgico,
continuam a ser estudados para o estabelecimento do real perfil de sua gente.
NOMARCA. Governante de um nomo.
NOMES FARANICOS. Ver FARAS, Nomes e ttulos.
NOMO. Aportuguesamento de noms (diviso territorial, provncia, distrito),
palavra com que os gregos designavam cada uma das unidades polticas do
antigo Egito, governadas por um nomarca. O Egito faranico era dividido em
42 nomos, sendo 22 no norte e 20 no sul. Cada um tinha sua denominao
especial, provavelmente de origem totmica: Chacal, Coelho, Falco, Monte
das Serpentes, Vaca Negra etc.
NOVO IMPRIO.  Ver IMPRIO, Novo.
NSIBIDI. Sistema de escrita desenvolvido na regio do Calabar, na atual Nigria,
no habitat dos povos efik ou eki (subgrupos akaju, atam, ejagham, keaka,
manta, nde, obang, olulumaw). No sculo XX de nossa era, estudos
arqueolgicos de pedras nas quais se registravam inscries nesse sistema,
como os de P. A. Talbot, citados por Obenga, afirmavam sua alta antiguidade
e seu largo uso, contra os argumentos segundo os quais, aps o
desaparecimento dos hierglifos e da escrita merotica, os povos africanos
no mais usaram sistemas grficos de escrita. Ver GICNDI.
NTINU UENE. Um dos nomes ou ttulos do heri fundador do Congo. O termo
ntinu, em quicongo, traduz-se como "rei". Ver NGANGULA-A-CONGO.
NTOTILA. Forma para ntotila, um dos ttulos do rei do Congo.
NUATMEAWN. Ver TANAUTAMUN.
NBIA. Denominao usada a partir da Idade Mdia para designar a regio ao
redor do rio Nilo, entre as atuais localidades de Assu, no Egito, e Dongola,
no Sudo, geogrfica e historicamente subdividida em Baixa Nbia, entre a
primeira e a segunda cataratas do rio Nilo; Dongola, aps a terceira catarata;
Cuxe, entre a quarta e a quinta cataratas; e Uauat, mais ao sul. O nome
"Cuxe", graas ao importante Estado l florescido, foi usado, na Antiguidade,
para denominar toda a regio. Em alguns perodos, entretanto, por conta de
divises polticas numerosas, as fronteiras nbias foram imprecisas. O nome
 O etnnimo "Nbia" foi durante algum tempo tido como derivado da palavra
hieroglfica nub, ouro, que teria originado o rabe nuba, de mesmo significado.
Entretanto, Ali Osman Mohammed Sali, no verbete "Nbia" da enciclopdia
Africana, organizada por Gates e Apiah, defende a ideia de que os nomes
Cuxe, Sudo e Nbia significariam a mesma coisa: "a terra negra", ou "a terra
do lodo negro", ou "a terra dos negros", sendo que, em rabe, sud, elemento
que est na composio do vocbulo "Sudo",  o plural de aswad, negro, da
mesma forma que n u b seria uma derivao de nuger. O certo  que os
antigos egpcios chamavam a regio Ta-Seti, o pas do arco; os hebreus,
Cuxe; e os gregos, Etipia. Em latim, nos primeiros anos da Era Crist, o
termo correspondente ao portugus "nbios" era Nubae, nubarum. Nesta
obra, at mesmo por razes didticas, o nome "Nbia" refere-se sempre 
regio onde floresceram as civilizaes de Napata e Meroe, herdeiras do
antigo reino de Cuxe. Importncia socioeconmica  Durante cerca de 3 mil
anos, antes da Era Crist, o rio Nilo e o corredor s suas margens
constituram a nica rota comercial ligando o centro e o leste africano ao
Mediterrneo. At o efetivo surgimento de atividade comercial martima no
mar Vermelho, os nbios detiveram o monoplio do comrcio de bens com o
norte do continente. Dessa forma, a Nbia participou de todos os movimentos
civilizatrios ocorridos no litoral da frica Mediterrnea. Tanto assim que,
como sustenta W.Y. Adams, at mesmo as tradies faranicas persistiram
por mais tempo entre os nbios que no prprio Egito. Segundo Anta Diop, a
Nbia seria um ponto de partida tanto para a civilizao egpcia quanto para
os grandes imprios oeste-africanos florescidos a partir da Idade Mdia
europeia, como os de Gana, Mali e o Sonrai de Gao. O mesmo autor,
advogando a tese da Nbia como bero da civilizao e da religio, informa
que o poeta grego Homero, em um verso da Ilada, dizia que todo ano Jpiter
descia,  frente do cortejo dos deuses, at a Etipia  ou seja, ao corao da
frica  para se revigorar. No sul do atual Sudo, nos stios arqueolgicos de
Ondurman e Qoz Regat, tmulos datados de c. 3000 a.C. atestam a
antiguidade da civilizao local. De fato, entre aproximadamente os sculos
XXXV e XXX a.C., a Nbia constituiu um todo poltico unificado, com os
atributos de uma civilizao suficientemente forte para reunir, sob o mesmo
comando, povos de origens diferentes. A Nbia e o Egito faranico  Nos
primrdios do poder faranico, Nbia e Egito mantinham equilibradas e
pacficas relaes comerciais. Entretanto, provavelmente a partir da III
dinastia, fortalecendo-se econmica e belicamente, os egpcios passaram a
expropriar as mercadorias nbias em vez de compr-las. Assim, j por volta
de 2500 a.C., as populaes originais da Baixa Nbia tinham sido dizimadas
ou expulsas. Mas no sculo XX a.C., aproximadamente, constitua-se, na Alta
Nbia, a civilizao de Querma, firmando-se como contraponto histrico para o
Egito dos faras. E  nesse contexto egipto-nbio que a grande civilizao do
nordeste africano vai-se desenvolver, paradoxalmente ameaada, entretanto,
durante a XII dinastia, com Amenemat I, cuja me era natural da regio. Em
meio ao confuso perodo que se segue  XIII dinastia, os nbios de Querma
aliam-se aos invasores hicsos, o que vai determinar a represlia e a
destruio chegadas com o Novo Imprio, por meio de Amsis e Tutms I.
Correlaes de foras  parte, Egito e Nbia mostram-se sempre como
contrapartes de um mesmo universo cultural. Thophile Obenga, por exemplo,
observa que, apesar de no Novo Imprio o Egito faranico ter exercido
controle militar e econmico sobre vasta regio da sia Menor, nenhum fara
construiu, por menor que fosse, um templo na Sria ou na Palestina para
adorar os deuses egpcios e os deuses locais  o que, ao contrrio, muitas
vezes ocorreu na Nbia. Veja-se ainda que, durante o domnio colonial egpcio,
alm dos vice-reis que governaram a regio, o poder faranico honrou jovens
nobres nbios cuja memria foi perpetuada em inmeros monumentos
descobertos no sculo XX de nossa era. Esses nobres, sabe-se hoje, foram
quase sempre educados na corte egpcia ao lado dos prncipes locais, para
depois retornarem a seu pas como membros da elite governante. Ver ANBIS;
CUXE; FORTALEZAS NBIAS.
NBIA CRIST. Nome pelo qual  referido o conjunto dos trs reinos da antiga
Nbia, descendentes da civilizao merotica: Nobcia, ao norte; Macria, no
meio; e Aldia, ao sul. Esses reinos, segundo Davidson, floresceram
principalmente graas ao trabalho missionrio de monges de Constantinopla,
notadamente um de nome Juliano, que chegou  regio do antigo reino de
Cuxe no ano 543 d.C. A partir de 548 d.C., com a converso de Silco (ou
Selqui), rei dos nobatas, desenvolveu-se a uma brilhante civilizao,
testemunhada principalmente pela cidade de Faras, seu principal centro
poltico e religioso. Ver ALDIA; MACRIA; NOBCIA; SILCO.
N  B IO , Velho (Old Nubian). Expresso usada para designar uma lngua
africana, ainda hoje falada, e outrora escrita com alfabeto copta, ao qual se
acrescentaram alguns caracteres meroticos. Seu mais antigo documento data
do ano 795.
NUMDIA. Antiga regio da frica, entre Cartago e a Mauritnia, cujo territrio
correspondia aproximadamente ao da moderna Tunsia, alm de partes de
Lbia e Arglia. A partir do sculo III a.C., os nmidas constituram dois reinos
poderosos e adversrios: o dos massessilos, no oeste do territrio, e o dos
massilos, na poro leste. A fama da cavalaria desse reino do leste levou
tanto Roma quanto Cartago a pleitear sua aliana. Sob o rei Massinissa, os
massilos celebraram aliana com os romanos, ao lado dos quais lutaram na
segunda Guerra Pnica. Mais tarde, anexaram o territrio dos massessilos e
expandiram seus domnios sobre Cartago, tendo entretanto, que aceitar um
acordo imposto pelos romanos, os quais, aps a revolta de Jugurta, entre 112
e 105 a.C., transformaram a Numdia em protetorado e depois colnia, com o
nome de frica Nova. No ano 17 d.C., o chefe Tacfarinate rebelou-se contra
Roma, lutando por cerca de dez anos, sem sucesso, contra a opresso
colonial. Durante vrios sculos, a provncia foi grande produtora de trigo,
abastecendo as demaggicas distribuies gratuitas de po feitas pelo poder
de Roma ("panis et circensis"), que a explorou at a exausto. Observe-se
que, embora o termo numidae (em grego, nomades) fosse aplicado a uma
variedade de povos do norte africano desde o incio do sculo III a.C., a partir
de Massinissa, o nome Numdia significou especificamente a regio habitada
pelos massessilos e massilos, situada entre a Mauritnia, a oeste, a dos
getulos ao sul, e Cartago a leste. Depois do ano 42 d.C., consoante o
Dictionary of World History, a denominao Numdia passou a aplicar-se
somente ao territrio entre o rio Ampsaga (Oued el Quebir) e a frica Nova. A
regio foi conquistada pelos vndalos no sculo V. Ver PNICAS, Guerras.
NUN. Na filosofia quemtica, segundo L. Bacha, estado de latncia ou inrcia,
anterior  Criao; guas primordiais; oceano primordial; o elemento csmico
gua, "de onde tudo veio". Essa formulao, que situa a gua como o princpio
fundador do Universo, foi levada do Egito e difundida no Ocidente por Tales de
Mileto.
NRI. Ver NECRPOLES REAIS NBIAS.
NUT. Deusa egpcia que simboliza o Cu, como complemento de Geb, a Terra.
OSIS. Nos desertos, pequenas zonas com vegetao e gua. Herdoto
descreve uma cidade denominada Osis, chamando-a "Ilha dos Bem-
Aventurados". Ficava a sete dias de Tebas e era habitada pelo povo
conhecido como Smios.
OCAVANGO. O mesmo que Cubango.
ODUDUA (ODDUW). Patriarca do povo Iorub, tido como fundador de Il-If
entre os sculos IX e XII d.C. Segundo citao em Adky, teria vindo do
leste com seu povo, sendo, segundo a tradio, um prncipe do povo Edo, no
antigo Benin, onde seu nome seria Idoduwal ou Ekaladerhan. Consoante a
tradio, cada um de seus filhos fundou um reino iorubano, entre os quais
Ijebu Od, Ilex, Ond, Aqu, Acur e Ad Equiti. Odudua teria sido um ldimo
representante do que a frica conheceu, desde o Egito faranico, como
realeza divina. Segundo A. Costa e Silva, a ser real sua existncia, teria sido o
lder de um grupo, vindo provavelmente de oeste, do Borgu, que imps sobre
If um novo regime poltico, de chefia centralizada e dinstica. Ver
AGBONMIREGUM; IF; IORUBS; MITOS e LENDAS.
OFIR. Localidade mtica, citada no Antigo Testamento como a regio para onde
o rei Salomo enviava navegadores fencios em busca de ouro e pedras
preciosas. Para alguns autores, sua localizao estaria em Moambique ou no
atual Zimbbue, onde, durante a Idade Mdia, floresceu a civilizao do povo
Xona. Ver ZIMBBUE.
OGUN. Ver EUARE.
OGUOL. Ob (rei) do antigo Benin, na atual Nigria, na segunda metade do
sculo XIII d.C. Sucessor de Eued, fez vir de If mestres e artistas
fundidores, pelo que a arte escultrica de seu reino tornou-se sucessora da
majestosa arte de If.
OI. Cidade-Estado iorub no sudoeste da atual Nigria, fundada, segundo a
tradio, por Orani, filho de Odudua. Sediou, na Antiguidade, um dos maiores
e mais poderosos imprios do oeste africano e manteve-se livre da influncia
europeia at o sculo XIX. Ver IORUBS; ODUDUA; XANG.
OLMECAS. Antigo povo da Amrica Central, tido como de origem africana.
Segundo Clyde Winters, por volta de 1700 a.C.  provavelmente  poca do
Mdio Imprio egpcio , migrantes africanos estabeleceram-se no istmo de
Tehuantepec, no Mxico atual. Tidos inicialmente como nbios ou cuxitas,
esses migrantes seriam, no entanto, segundo pesquisas lingusticas
destacadas por Winters, falantes de uma lngua do grupo mand ou mandinga.
Os olmecas, artistas, cientistas e tecnlogos, criaram um sistema de escrita,
decifrado por Winters na dcada de 1970, que foi adotado por maias e outros
povos americanos. Tradies locais referem-se a um povo que veio do leste,
"quando Deus lhes franqueou os 12 caminhos do mar". Essa frmula
tradicional parece, segundo Clyde Winters, ser uma aluso a 12 migraes de
africanos ocorridas nos tempos antigos.
ONTOLOGIA QUEMTICA E NEGRO-AFRICANA. Ontologia  o conjunto de noes que
o ser humano tem sobre si mesmo, sobre o mundo, o presente, o passado e o
futuro. Assim, a moderna cincia afrocntrica mostra que a ontologia
quemtica, ou seja, o esprito e o pensamento do Egito faranico, constitui
parte integrante do universo cultural negro-africano em seu conjunto, como o
sublinham as relaes ntimas entre a lgica egpcia e a lgica de grupos
tnicos como o dos mboxi, estudado por Thophile Obenga. Com base em
evidncias lingusticas, Obenga estabeleceu relaes definitivas entre as
expresses do passado e do futuro em egpcio antigo e na lngua dos mboxi.
Assim tambm com os repertrios de povos como os bacongos, cuja dispora
nas Amricas gerou produtos civilizatrios altamente relevantes. Para os
antigos egpcios, da mesma forma que para todos os povos chamados
"negro-africanos", o ser humano  uma reunio definitiva de elementos fsicos
e entidades espirituais; assim tambm, entre egpcios e outros africanos
contemporneos, encontram-se definies e representaes correlatas: o
conjunto de foras que permitem ao homem subsistir como ser biolgico e
como pessoa moral; o nome, como parte transcendente da personalidade
humana; a sade fsica e moral ("Vida, sade e prosperidade!" era uma
saudao egpcia); a morte, como evento capaz de fazer do indivduo outro
ser tambm dotado de fora; passando do estado "terroso" para o estado
luminoso. Em suma, os laos que existem entre o Egito faranico e outras
comunidades da frica Tropical so de natureza totalmente ntima e profunda;
e, por isso, Cheikh Anta Diop destacou que os traos de parentesco que
existem entre o Egito e a frica Profunda so tantos que, na verdade, um e
outro so a mesma coisa.
ORANI. Filho de Odudua, fundador mtico de Oi.
ORGENES. Telogo e exegeta nascido em c. 185 d.C. em Alexandria.
Falecendo com aproximadamente 70 anos, foi um dos mais fecundos autores
do mundo antigo.
ORION DE ALEXANDRIA. Sacerdote egpcio, mestre do filsofo neoplatnico
Proclus. Os rabes o chamavam por seu nome copta: Maris.
OROMOS. Grupo tnico do que so hoje os territrios de Etipia e do Qunia,
s vezes referidos como galas, termo que eles repelem como injurioso.
Ocupam uma rea que se estende, ao norte, dos planaltos meridionais da
Etipia  regio de Ogaden, a leste, at a Somlia, a oeste, at a fronteira
com o Sudo, e ao sul, atravs da fronteira do Qunia, at o lago Tana.
Falam uma lngua pertencente  famlia cuxita oriental, do grupo das lnguas
afro-asiticas, assemelhada ao somali. A essa famlia lingustica pertencem o
antigo egpcio, hoje s usado nos rituais da Igreja Copta, e tambm o etope
antigo, o que destaca os oromos como descendentes das primitivas
populaes da Etipia, emigradas dos planaltos da Eritreia e de Tigr.
OSRIS. Um dos deuses primordiais do Egito antigo. Filho de Nut e Geb,
representaes do Cu e da Terra, era irmo e marido de sis, que o
ressuscitou depois de morto e esquartejado por seu irmo Seth. Deus da gua
e da vegetao, tornou-se depois da ressurreio tambm o deus do mundo
subterrneo, juiz e soberano dos mortos. Sua morte era associada  estiagem
anual; e seu milagroso renascimento,  cheia do Nilo e ao brotar da
vegetao. Mestre da filosofia do Maat (teoria da verdade, da justia e do
direito), com seus principais centros de culto em Busris e Abidos, viajou pelo
mundo em misso civilizadora.
OSORCON. Nome de cinco governantes egpcios no Terceiro Perodo
Intermedirio. O primeiro integrou a XXI dinastia, tanita; os dois seguintes, a
XXII dinastia, bubastita; e os outros dois, a XXIII dinastia, tanita. Osorcon II e
Osorcon III seriam prncipes do nomo de Bubastis que se autoproclamaram
faras.
OSORTA-SEN. Fara da XVI dinastia. De provvel origem serere, segundo
Cheikh A. Diop.
OTHOES. Ver TETI.
OUALATA. Ver UALATA.
OUANKARAH. Ver UANGAR.
OUNA (UMA). Governador do Alto Egito. Ver Pepi I.
OURO. O continente africano apresenta, em algumas regies, concentraes
importantes desse precioso minrio, a ponto de parte do litoral da frica
Ocidental ter sido chamada,  poca colonial, "Costa do Ouro". Na
Antiguidade, durante a XVIII e a XIX dinastias, a Nbia foi o maior fornecedor
de ouro do Egito. Alm disso, conforme Herdoto, os cartagineses contaram-
lhe que comerciavam com os nativos de um pas habitado, alm das Colunas
de Hrcules, no atual estreito de Gibraltar. Nesse comrcio, depositavam
mercadorias na praia e acendiam fumaa. Assim atrados, os nativos traziam
ouro para o escambo. E os negcios, a acreditar-se nos cartagineses,
transcorriam dentro da mxima equidade, o ouro equivalendo sempre ao valor
estimado, pelos nativos, para as mercadorias.
OVAMBO. Antigo reino africano, no norte da atual Nambia, ao sul do planalto
angolano da Hula. Segundo Phillipson, citado por Obenga (1985), a povoao
banta do local, j habitado por povos khoi-san, comeou a se estabelecer com
a chegada, por volta de 100 a.C., de grupos provenientes da regio entre os
rios Cunene e Cubango, numa onda migratria iniciada no Baixo Congo.
OVIMBUNDOS. Povo banto de Angola,                falante do idioma umbundo,
historicamente dividido em subgrupos como bailundos, bis, huambos,
cacondas etc. Antes do sculo XV d.C., constituram unidades polticas entre
o rio Cuanza e o litoral atlntico. Ver BAIXO CONGO; BANTOS; FETI.
PADIBASTET . Fara egpcio da XXIII dinastia (c. 1085-750 a.C.), tanita.
PAS DOS AROMAS. Expresso pela qual os romanos denominaram a regio da
atual Somlia, fonte do incenso e das especiarias que tanto apreciavam.
PALAVRA. Nas sociedades africanas tradicionais, a palavra, falada ou escrita,
sempre foi instrumento de poder mgico. Tanto que muitos dos rituais
religiosos at hoje se apoiam na fora das palavras, cantadas ou declamadas.
Os hierglifos egpcios que representavam os animais ferozes eram tidos
como passveis de adquirir vida e se tornar perigosos. Engolir um papiro em
que estivessem escritas frmulas mgicas podia fazer um desejo se realizar.
Ver MAGIA; MEDICINA.
PALEOAFRICANO. Relativo s pocas mais remotas do continente africano.
PAMI. Fara egpcio da XXII dinastia, bubastita, reinante durante o Terceiro
Perodo Intermedirio.
PANEHSI. Vice-rei da Nbia  poca de Ramss X e Ramss XI.
PANTERA. Mamfero da famlia dos feldeos. "Desde remota antiguidade, a pele
de pantera ou leopardo representa o traje sacerdotal por excelncia no seio
de todas as civilizaes negras." Esta afirmao de Obenga (1988) est na
legenda de uma gravura representando Ai, fara da XVIII dinastia egpcia,
mostrado como um homem de cor preta, envolto numa pele desse animal e
consumando, segundo o texto, um rito para reanimar a energia vital do
falecido fara Tutancamon. No antigo Daom, a pantera (kp) era o animal
tutelar da famlia real de Abom, sendo o rei sua prpria representao.
PAPAS AFRICANOS. Ver SO GELSIO; SO MILTADES; SO VTOR I.
PAPIRO. Suporte usado pelos escribas egpcios, antecessor do moderno papel,
cujo nome  dele derivado. Era produto do beneficiamento da erva aqutica da
famlia das ciperceas classificada como Cyperus papyrus. Crescendo
abundantemente nos pntanos do Nilo, especialmente no delta, as hastes
dessa planta atingiam a grossura de um brao e ultrapassavam a altura de um
homem. Os rolos utilizados na escrita, feitos de tiras cortadas das hastes (o
miolo era cortado em lminas, depois prensadas e transformadas em folhas),
eram confeccionados em estabelecimentos estatais, templos e tambm em
oficinas particulares. As hastes inservveis para o uso mais nobre e conhecido
eram utilizadas tambm na feitura de sandlias, esteiras, pequenas
embarcaes e coberturas de choupanas. As mais grossas ou defeituosas
eram utilizadas como invlucros de embalagens, e os rizomas tuberosos,
usados como alimento. O papiro era o smbolo por exce-lncia do Baixo Egito.
PASTORCIA. Criao de gado, atividade presente desde o V milnio a.C. no
norte africano, de onde se expandiu Nilo acima e para as terras altas do
Saara central. A partir do III milnio a.C., a desertificao obrigou o gado a
migrar em busca de pastagens, deslocando-se at a costa mediterrnea e a
regio ngero-chadiana. Impedidos pela floresta tropical de expandir-se na
direo sul e oeste, os rebanhos acabaram por fixar-se nas terras altas do
leste africano. Observe-se que a criao de gado obedecia, como at hoje, a
necessidades sociais de maior amplitude do que as simplesmente nutricionais.
Oferecido como dote, presente ou tributo, em sacrifcios rituais etc., o gado
constitua um verdadeiro capital, menos por seu valor econmico intrnseco do
que por sua funo social e poltica. Por meio do rebanho, o indivduo
conseguia mulher e constitua prole, alm de capacitar-se para a produo
agrcola e a realizao de outros mltiplos servios. Ver NILTICOS.
PAUSNIAS. Ver PSUSENES.
PAZENA EZANA. Ver EZANA.
PEDIESE. Prncipe do nomo egpcio de Athribiss, ao tempo do fara Piye.
PEDRA DE XABACA. Placa de granito na qual o fara nbio Xabaca fez gravar
importante texto do pensamento filosfico quemtico. Ver XABACA.
PEDRA DE ROSETA. Ver ROSETA.
PEE. Ver PIYE.
PENEASI (PANEHSI). Vice-rei de Cuxe  poca de Ramss XI. Mais tarde, teria se
tornado rei.
PEPI. Nome de dois faras egpcios da VI dinastia. Pepi I  Empreendendo
expedio at as regies costeiras do mar Vermelho, empregou um regimento
de nbios, comandado por um certo Ouna (Uma), o qual, no governo seguinte,
de Merenr I, tornou-se governador do Alto Egito. Pepi II  Governou,
segundo Laffont, por cerca de 95 anos, aps Merenr, no reinado mais longo
da histria do Egito faranico.
PERIBSEN. Fara egpcio da II dinastia. Foi contemporneo e opositor de
Senedj. Substituiu o falco de Hrus pelo hipoptamo de Seth como smbolo
de seu poder, o que evidencia a dissidncia entre ele e o poder estabelecido
em Mnfis.
PERODO INTERMEDIRIO, Primeiro. Perodo da histria egpcia compreendido
aproximadamente entre os reinados da VI e da XI dinastias e iniciado com o
fim do reinado de Pepi II.
PERODO      INTERMEDIRIO,   Segundo.      Perodo    da    histria   egpcia
aproximadamente entre os reinados da XIII e da XVII dinastias.
PERODO INTERMEDIRIO, Terceiro (Perodo Tardio). Perodo da histria
egpcia compreendido a partir do governo da XXI dinastia, em c. 1085 a.C.
PERODOS DE OURO. M. K. Asante destaca como primeiro, segundo e terceiro
"perodos de ouro" da histria do Egito faranico, respectivamente, os da III,
XI e XXV dinastias, esta ltima, a dinastia cuxita, dos faras Piye, Xabaca,
Taharca e Xabataca.
PERODO TARDIO. Denominao do perodo da histria egpcia transcorrido entre
a conquista persa, em 525 a.C., e o incio do domnio romano, com o fim da
civilizao faranica, em 30 a.C.
PRIPLO DO MAR ERITREU. Documento escrito no incio da Era Crist por um
mercador martimo no identificado. Um dos textos mais preciosos sobre a
histria da frica pr-islmica, , na verdade, um guia nutico redigido com a
inteno de instruir sobre as possibilidades comerciais da costa oriental
africana. Observe-se que essa poro do continente era frequentada desde o
Antigo Imprio por egpcios em busca de incenso e resinas aromticas e por
fencios desde o sculo X a.C.
PELES (PeUL). Povo de pastores da frica Ocidental, tambm referidos em
portugus como fulas e fulnis, localizados, atualmente, no Senegal, ao norte
de Camares. Envoltos numa aura de lenda, em funo da pigmentao mais
clara ou acobreada da pele de alguns de seus elementos, so muitas vezes
tidos como de origem asitica. Segundo Moussa Lam, citado por Clyde
Winters, os peles migraram do vale do Nilo at o Senegal, atravs do Sahel.
A semelhana entre o fulb ou fulni, lngua dos peles, e outras lnguas
locais, como o uolofe e o serere, confirma a expanso desse povo a partir do
atual territrio senegals. Para Ki-Zerbo, esses peles de pele acobreada ou
mais clara devem seus traos fsicos, em alguns casos, a um cruzamento
mais longo e consolidado, desde h muito, com ramos afro-asiticos, tendo
talvez origem nas terras altas da Etipia ou no vale do Nilo, muito embora os
peles da regio do Adamaua ostentem fenotipia marcadamente negra. Uma
das hipteses tradicionais para a origem dos peles, segundo N'Dyaie, apoia-
se no episdio do xodo dos judeus do Egito, quando um grupo teria se
dirigido  regio do Sinai sob o comando de Moiss e outro teria atravessado
o Nilo e tomado o rumo oeste. Uma parte desses estabeleceu-se no Touat e
no Air e, mais tarde, no Macina, no delta interior do rio Nger, onde os
soninqus os acolheram com boa vontade. Outro grupo ainda, estendendo-se
para o norte do deserto, teria fundado colnias ao sul do Marrocos. No sculo
IX, uma dinastia pele, os Dia Ogo, reinou no Senegal. O que parece certo 
que a longa histria dos peles encerra episdios de interao e miscigenao
com outros povos. Ver LEMBAS; MESTIAGEM.
PI-RAMSS. Cidade erguida por Ramss II no leste do delta, no antigo stio de
Avaris, outrora capital dos hicsos. Foi o ponto de partida dos hebreus em seu
xodo em direo  "terra prometida".
PIANQ. Sacerdote de Amon em Tebas, reinante sobre parte do Egito durante o
Terceiro Perodo Intermedirio.
PINQUI. Ver PIYE.
PIGMEUS. Antigas populaes africanas, habitam, hoje principalmente as
florestas do centro do continente. Caracterizam-se por uma aparncia fsica
peculiar, com altura em geral no superior a 1,55 m e traos fsicos definidos
como acentuadamente arcaicos. Sua existncia histrica, como uma
populao de baixa estatura,  atestada, na frica Central, h milhares de
anos. E sua saga registra, desde o fim da pr-histria, um constante
movimento de fuga e isolamento, repelidos que foram por outros povos. Ver
IAM.
PINEDJEN. Nome de dois sacerdotes de Amon em Tebas, reinantes sobre parte
do Egito durante o Terceiro Perodo Intermedirio.
PIRMIDES. Monumentos funerrios, de forma geomtrica quadrangular, comuns
no Egito antigo. As principais, por tamanho, foram as de Cufu ou Queops,
Cafra ou Quefrm e Mencaure ou Miquerinos; todas elas tinham como anexo
um pequeno templo para culto do fara ali sepultado. Eram feitas de pedra e
destinavam-se a abrigar os restos de faras e nobres, sendo construdas at
a XII dinastia. Smbolo do poder dos governantes e da organizao do Estado
egpcio, originaram-se das mastabas, sepulcros mais simples, construdos at
a III dinastia, s quais se seguiram pirmides de degraus, constitudas de
sries de mastabas superpostas, entre as quais constam as erguidas na
localidade de Giz. Pirmides de degraus  A primeira pirmide de degraus
foi construda em c. 2600 a.C. pelo sbio Imhotep, que a projetou como tumba
para o fara Djeser ou Zoser. Primeiro edifcio egpcio a ser erguido com
pedras, em vez de tijolos de barro, foi em sua poca a maior estrutura
construda no mundo com esse tipo de material. Inicialmente, Imhotep teria
feito construir um andar, depois mais cinco, e finalmente teria coberto a
estrutura com calcrio fino.  frente da pirmide, havia uma estrutura de pedra
contendo uma caixa de madeira perfurada com dois visores. Olhando-se
atravs deles, via-se uma esttua em tamanho natural do fara. O monumento
foi criado para que o ka (essncia espiritual) do rei se comunicasse com o
mundo exterior. A Pirmide de Cufu ou Queops  Celebrada como a "grande
pirmide", seu estudo revela os fundamentos da matemtica e da astronomia,
conhecimentos que, segundo Marcel Griaule, citado por Diop, sobrevivem
entre o povo Dogon. Mais alta construo arquitetnica do mundo at o
erguimento da Torre Eiffel parisiense, segundo Peter Tompkins (1971), na
construo da grande pirmide de Cufu foram empregadas tcnicas
matemticas, de astronomia e geodsia, alm de mensuraes altamente
tcnicas. Seus construtores conheciam com preciso a circunferncia da
Terra, a extenso da rbita do planeta, a acelerao da gravidade, a
velocidade da luz, valores trigonomtricos etc. Observe-se que as primeiras
pirmides egpcias foram construdas mais de 2 mil anos antes do
florescimento da civilizao grega. Pirmides Nbias  Na Nbia, as mais de
80 pirmides descobertas por Caillioud em 1820, prximo  aldeia de Es
Sous, so menores que as do Egito e, embora sejam tambm tmulos, so
todas precedidas de um santurio com a entrada voltada para leste, para o
Oriente. Ver KA; MASTABA.
PISACAR. Rei de Cuxe em Meroe, aproximadamente entre os anos 30 e 40 d.C.
PITGORAS.  Filsofo e matemtico grego (c. 582-500 a.C.). Foi para o Egito
incentivado por Tales de Mileto, para estudar matemtica especulativa, e l
teria se instrudo nos princpios matemticos e filosficos que nortearam a
fundao de sua Irmandade Pitagrica.
PIYE (PINQUI). Soberano do reino nbio de Cuxe e primeiro fara da XXV
dinastia egpcia, tambm referido como Pee Piy ou Meriamon Pinqui e pelo
nome de coroao "Menqueperr". Sucessor de Cachta, inspirado nos feitos
de Ramss II e Tutms III, por volta de 724 a.C., depois de tomar, ao longo
do Nilo, cidade aps cidade, conquistou a fortificada Mnfis. Partindo em
socorro de Tebas, ameaada por inimigos internos, numa expedio que
acabou resultando na conquista do Egito at o Mediterrneo, tornou-se fara
do Baixo e do Alto Egito, mantendo, entretanto, sua capital em Napata, de
onde exigia tributo aos prncipes do delta. Em sua vitoriosa expedio, teria
dito a seus comandados que o deus Amon de Napata o tinha feito soberano
de todos os povos e que o deus Amon de Tebas o fizera, por isso, soberano
do Egito. "Vocs sabem que Amon  o deus que nos comanda", teria dito ele.
Piye estendeu seu poder desde a Tebaida, onde reinou por intermdio de sua
esposa e irm Amenirdis, at Heraclepolis. Ao mesmo tempo guerreiro e
homem piedoso, liderou uma revoluo nas artes e na cultura ao restaurar
templos e monumentos. E depois de unir as civilizaes do vale do Nilo, a
nbia e a egpcia, mudou a capital de Tebas para sua nativa Napata. Grande
apreciador de cavalos, quando de sua morte, oito desses animais de montaria
foram sacrificados e enterrados prximo  sua tumba. Ver CUXE.
PLATO. Filsofo grego (427-327 a.C.). Estudou por 13 anos no Egito, onde
teria adquirido conhecimentos iniciticos e cientficos, o que refora a tese da
anterioridade do saber egpcio em relao s concepes filosficas da
antiguidade greco-latina. Ver FILOSOFIA.
PLNIO, O VELHO. Nome pelo qual passou  Histria o escritor romano Caius
Plinius Secundus (23-79 d.C.).  autor de uma Naturalis Historia (Histria
Natural), na qual, entre outros assuntos, localiza e menciona diversos povos
africanos e seus costumes.
PLOTINO. Filsofo (205-270 d.C.) nascido em Licpolis, no Egito, sob o domnio
romano. Foi o criador do neoplatonismo, doutrina segundo a qual o Ser
Supremo est alm da compreenso humana e no possui qualquer
representao, pelo que era mencionado apenas como "Uno". As religies
africanas tradicionais, como as dos iorubs, axantis, congos etc., tambm
esposam essa viso. Para elas, o Ser Supremo  inacessvel e, embora
reconhecido como a fonte de energia que move o Universo, no tem
representao nem  objeto de nenhum culto, caractersticas essas que so
atributos de divindades secundrias, como orixs e voduns.
POLBIO.   Navegador romano. No sculo II d.C., encarregado do
reconhecimento das colnias cartaginesas no Atlntico, realizou expedio
martima na qual chegou at a regio das ilhas Canrias.
PORTUGAL NA FRICA. Na busca por novas rotas martimas mais viveis que as
rotas comerciais terrestres ento em uso, Portugal iniciou, aps a tomada de
Ceuta, em 1415, o perodo de suas grandes descobertas. Sua posio
geogrfica privilegiada, potencializada pela preexistncia de relaes
comerciais com o norte da frica e a sia muulmana, fez com que as naus
lusitanas, ao longo do sculo XV, marcassem sua presena em vrios pontos
da costa africana, em eventos histricos que indicam o trmino da Antiguidade
para algumas das regies onde ocorreram, tais como: 1418  Canrias; 1420
 Ilha da Madeira; 1444  Arguim, na atual Mauritnia; 1445  Cabo Verde;
1446  Gmbia; 1454  Senegal; 1470  Camares e Gabo; 1472  So
Tom; 1482  Costa do Ouro; 1484  Golfo de Benin e Bacia do Congo; 1486
 litoral de Angola; 1493  Etipia; 1498  Cabo da Boa Esperana e Costa
oriental.
POSEIDON. Deus grego dos oceanos. Segundo Herdoto, seu culto era
originrio da Lbia.
POTFERA. Sacerdote egpcio de Om, em Helipolis, sogro do patriarca hebreu
Jos.
POVOS DO MAR. Expresso com que, na histria egpcia, se designam os
invasores, vindos atravs do Mediterrneo,  poca do fara Meneft e, mais
tarde, de Ramss III. Constituam uma confederao de povos indo-europeus,
tidos como oriundos principalmente da Anatlia, no oeste asitico, e de
Chipre, no leste do Mediterrneo. Por volta de 1185 a.C., Ramss III os
rechaou com grande esforo, o que acabou por esgotar o imprio faranico,
que logo chegou ao seu terceiro perodo de incertezas. Ver HITITAS.
PR-DINSTICO. Denominao do perodo da histria egpcia anterior 
unificao dos reinos do Baixo e do Alto Egito e ao advento da I dinastia,
iniciada pelo rei conhecido como Narmer ou Mens.
PRESTE JOO. Legendrio rei sacerdote da Antiguidade etope, cujo nome 
recorrente em relatos de viajantes europeus. O elemento "preste", padre,
sacerdote,  arcasmo, com a mesma origem do ingls priest.
PROTOBANTOS. Qualificativo dos povos tidos como ancestrais dos atuais
falantes das lnguas do grupo banto, localizados na regio dos montes
Adamaua, na atual Repblica de Camares, antes de sua grande disperso
em direo ao leste e ao sul do continente africano. Esses povos falavam o
"Ur-Bantu", denominao criada pelo alemo Carl Meinhof para designar a
lngua matriz de todas as modernas lnguas do grupo banto, matriz essa hoje
preferencialmente referida como "protobanto". Ver BANTOS.
PROTODINSTICO. Perodo da histria egpcia, tambm mencionado como
"Dinastia Zero", que compreende reis de natureza possivelmente mtica,
reinantes, segundo a tradio, antes da unificao feita sob a liderana de
Narmer.
PSAMTICO (PSAMETEQ). Nome de trs faras da XXVI dinastia egpcia.
Psamtico I  Sucessor de Necao I e inicialmente preposto de Assurbanipal
no Egito, livrou-se do jugo assrio, fundando a XXVI dinastia e estabelecendo
a capital em Sas. Governando de c. 665 a 610 a.C., tentou devolver a seu
pas, segundo Brissaud, os antigos fausto e poder. Para tanto, disps-se
contra o culto das divindades asiticas que se impusera e procurou voltar-se
para as antigas manifestaes artsticas e culturais, dando incio ao
movimento que ficou conhecido como "Renascimento Sata". Mais tarde,
entretanto, transferiu sua capital para Mnfis, ficando Sas como sede da
residncia e da necrpole real. Enfrentando oposio no Alto Egito, bateu-se
contra Napata, onde Tanutamon, o ltimo fara da dinastia cuxita, se abrigara;
teve de enfrentar, tambm, o clero de Amon, dominado pela "divina
adoradora" Xepenupet II, filha do falecido fara Piye. Para tanto, designou sua
prpria filha Nitcris (Netiquerti ou Nitquerti) como substituta dessa
sacerdotisa, com o ttulo Xepenupet III; do ponto de vista meramente militar,
teve ainda de enfrentar a revolta dos soldados de Elefantina, que se passaram
para o lado nbio. Seu objetivo maior era separar toda a regio nbia do Alto
Egito. Em seu reinado, segundo Obenga, os descendentes dos indo-europeus
(srios, palestinos e arameus), escravizados, humilhados e marcados a ferro
sob Meneft e Ramss III, dedicaram-se  vingana para, ao final,
conseguirem minar o poderio egpcio. Psamtico II  Sucessor de Necao II,
reinou em c. 594-588 a.C. Realizou campanhas na Nbia e na Etipia. Embora
tencionasse invadir a sia, foi desviado desse propsito por sua campanha na
Nbia, com a qual tentou apagar a memria dos faras da XXV dinastia.
Dedicou-se a uma poltica martima e  abertura de um canal entre o Nilo e o
mar Vermelho. Psamtico III  ltimo fara da XXVI dinastia, reinou apenas
seis meses, sendo vencido, aprisionado e morto por Cambises em Pelsia por
volta de 525 a.C.
PSAMITUS. Fara egpcio da XXIX dinastia. Teria reinado em Mends no ano
393 a.C.
PSUSENES (PAUSNIAS). Nome de dois faras egpcios da XXI dinastia (c. 1085
a.C.), tanita. Foram, respectivamente, o terceiro e o ltimo dessa linhagem
dinstica, a qual teve sete governantes.
PTAH. Deus dinstico de Mnfis, no Antigo Imprio. Inventor das tcnicas e
patrono dos artesos e artistas,  s vezes associado a Ra.
PTAH-HOTEP. Filsofo egpcio de provvel origem nbia (c. 2400 a.C.). Produziu
o que, no dizer de M. K. Asante, teria sido o primeiro manual de
comportamento tico para a idade madura. Foi um sbio sacerdote de enorme
influncia e poder, e suas instrues e sua filosofia ecoaram atravs dos
sculos. Com seu ntimo conhecimento sobre as condies das classes
dominantes e sobre os negcios de Estado, desfrutou de um ponto de vista
privilegiado, segundo o qual pde ver como os homens de seu tempo
rapidamente dissipavam a mocidade. Acreditava que a vida consiste em
harmonia e paz com a natureza, sendo por isso, talvez, o primeiro formulador
da ideia de ecologia.
P T O L O M AI C O (greco-romano),   Perodo. Perodo da histria egpcia
compreendido mais ou menos entre 323 e 30 a.C., sob o governo da dinastia
macednica dos Lgidas, iniciado com Ptolomeu Ster e terminado com
Clepatra VII.
PTOLOMEU. Nome de 14 governantes do Egito, durante o perodo de domnio
grego. O primeiro, Ptolomeu Ster, era um dos generais de Alexandre e
fundou a Biblioteca de Alexandria. O segundo, Ptolomeu Filadelfo, fez de
Alexandria um centro de cultura helenstica. O ltimo, Ptolomeu Cesariano, era
filho de Clepatra e Jlio Csar. As rainhas de todos esses soberanos eram
irms e esposas, segundo o costume egpcio. Ver CLEPATRA.
PNICAS, Guerras. Srie de conflitos travados entre Roma e Cartago, entre
246 e 146 a.C., a qual terminou com a destruio do Estado cartagins. O
nome "pnico" deriva do gentlico poeni, usado pelos romanos em relao aos
cartagineses. Na disputa pelo controle do Mediterrneo, Roma j tinha travado
com Cartago a primeira guerra, na qual foi morto, em 229 a.C., o lder Amlcar
Barca, resultando da o domnio romano sobre a Pennsula Ibrica e a Siclia.
Criado no dio aos romanos, o filho deste, Anbal, j aos 20 anos promovia
incurses guerreiras ao territrio romano. Tomando uma cidade da Espanha,
Anbal foi instado a devolv-la, e sua recusa deflagrou em 218 a.C. a segunda
guerra Pnica. O lder cartagins, com um exrcito estimado em 40 mil
homens, mais cavalaria e 37 elefantes, atravessou a Espanha, os Pireneus, a
Frana, os Alpes e conseguiu penetrar na Pennsula Itlica, com suas tropas
reduzidas  metade e apenas um elefante. Recrutando mercenrios entre os
gauleses do norte, Anbal refez seu exrcito e infligiu aos adversrios, na
cidade de Canas, em 216 a.C., a mais sria derrota militar da histria do
Imprio Romano. Entretanto, aps essa vitria e impedidos de alcanar
Roma, os cartagineses de Anbal foram vencidos, com os romanos revidando
na Espanha e em Cartago, afinal conquistada em 210 a.C. Anbal fugiu para a
Bitnia, onde, para no se render, ps fim  vida em 183 a.C. Ver AMLCAR
BARCA; ANBAL; CARTAGO.
PUNT, Pas de. Antigo pas localizado, provavelmente, na atual Somlia ou em
partes dos atuais Sudo e Eritreia. Segundo A. Costa e Silva, seu territrio
avanava pelas terras altas do noroeste da Etipia at, na direo do Nilo, os
territrios de Berber e Cassala. Destacando-se como uma espcie de
entreposto no comrcio de ouro, marfim, bano e outras madeiras, alm de
macacos, girafas, leopardos e outros animais, segundo H. Deschamps, era l
que os navegantes egpcios, como os da clebre expedio da rainha
Hatchepsut, iam buscar marfim e incenso. Segundo alguns autores, essa
expedio teria sido ordenada por um orculo do deus Amon, o qual
qualificava Punt como a "terra dos deuses". Segundo descries, os
habitantes da terra portavam, desde poca remota, barba tranada, da forma
peculiar que se v no rosto dos deuses nas representaes egpcias. Os reis
etopes locais afirmavam a origem egpcia de seus ancestrais; e os egpcios,
por sua vez, acreditavam estar unidos por laos estreitos ao povo de Punt. E
segundo Anta Diop, eles acreditavam mesmo em um parentesco biolgico, a
partir de um ancestral comum.  poca do apogeu de Axum, o pas de Punt
foi incorporado a esse reino.
PURMA. Comandante dos exrcitos de Piye.
PUTIFAR. Senhor egpcio de Jos, filho de Jac, no sculo XVII a.C. Foi
intendente do fara e chefe da guarda do palcio.
QA.  Fara egpcio da I dinastia. Teve governo breve, aps Semerquet.
QUAERERE FONTES NILO. "Procurar as fontes do Nilo": antiga expresso latina
que significa empenhar-se em um empreendimento impossvel.
QUEFRM (KHAFRA). Fara egpcio da IV dinastia, sucessor de Radjedef ou
Djedefre e tambm mencionado como Racaef. Construiu em Giz, ao lado da
pirmide do pai, Queops, a segunda pirmide do Egito e a famosa esfinge.
Segundo Ki-Zerbo, tinha acentuada aparncia negro-africana.
QUEM (KHEMS). Vocbulo da antiga lngua egpcia que significa "negro" e
corresponde ao copta kame ou kemi. Ver QUEMET.
QUEMET (KEMET). Nome pelo qual os antigos egpcios chamavam seu pas: "a
terra negra", em oposio  "terra vermelha", o deserto no fertilizado pelo
Nilo. Segundo Asante, antigos povos africanos, antes de os gregos darem o
nome de Aegyptos (Egito)  sua terra, chamavam-na, carinhosamente,
Quemet, a terra dos pretos. As representaes hieroglficas desse nome
comeam com um pedao de carvo e normalmente terminam com um
grafismo significando pas, nao, cidade, lugar, sociedade. Na expresso
"terra dos pretos"  explica Asante  o vocbulo "preto" no tem a conotao
negativa que posteriormente adquiriu, sendo, pura e simplesmente, uma
referncia de distino tnica. Segundo Asante e Abarry, "toda sociedade
africana deve algo a Quemet. Afora as noes de medicina, monarquia,
geometria, calendrio, literatura e arte, as sociedades africanas encontraram
em Quemet os mitos primordiais que orientariam seu modo de educar os
filhos, preservar os valores sociais, rememorar os ancestrais, pintar seus
corpos e suas casas, e cultivar a terra".
QUEMTICO. Qualificativo do que  egpcio na Antiguidade, principalmente
quando se refere ao saber filosfico.
QUMIS. Cidade da Tebaida, prxima a Nepolis, mencionada por Herdoto
como centro importante.
QUNIA. Pas da frica Oriental, limtrofe aos atuais Sudo, Etipia, Somlia,
Uganda e Tanznia, banhado pelo lago Vitria. Seu territrio, principalmente
nas regies do Rift Valley e do lago Tanganica, foi no s o bero do
surgimento da espcie humana, como o palco de encontros entre povos
nilticos e bantos em eventos decisivos para a histria da humanidade. Ver
FRICA; BANTOS; GRANDES LAGOS.
QUEPS (KHUFU). Fara egpcio da IV dinastia. Construiu a pirmide de Giz ou
Giza, a maior do Egito. Era pai de Quefrm e do sbio Hordjedef ou Djedfhor,
autor de conhecida obra de literatura moralista. Patrocinou viagem a terras
iemenitas (Sab) para obter resinas de incenso e mirra, utilizadas com fins
teraputicos e como substncias aromticas. Ver HATCHEPSUT.
QUERMA. Centro poltico nbio e cuxita, durante o perodo compreendido
aproximadamente entre 2500 e 1500 a.C. Seu ncleo inicial teria sido
constitudo na regio entre a terceira e a quarta catarata do Nilo, em c. 2600
a.C., por populaes negras oriundas da Lbia, consoante Diop, citado por
Winters. Durante a IV dinastia egpcia, o fara Snefru ou Senefuru
empreendeu expedio a Querma, fazendo cerca de 7 mil cativos e se
apoderando de 200 mil cabeas de gado, sendo que, a partir da, frequentes
incurses teriam devastado e despovoado a regio da Baixa Nbia.
Beneficiando-se, entretanto, do perodo de desorganizao e instabilidade que
se estabeleceu no Egito aps a VI dinastia, as lideranas de Querma se
fortaleceram e, ento, a partir da Alta Nbia, o reino, principalmente graas ao
seu ouro e ao comrcio do marfim vindo da frica Profunda, tornou-se
prspero e iniciou poltica expansionista. Essa poltica, entretanto, foi freada,
durante o Mdio Imprio, com a construo do conjunto de fortificaes
conhecido como "fortalezas nbias" e com as campanhas empreendidas por
Amenemat I, Senusret I e principalmente Senusret III, as quais culminaram na
ocupao de parte das terras locais. Por esse tempo, ento, reinando em
Cuxe soberanos como Auaua (c. 1850 a.C.) e Nedjeh (c. 1650 a.C.), o antigo
reino nbio de Querma acaba por tornar-se uma provncia colonial egpcia.
Entretanto, com a crise econmica e de poder vivida pelo Egito durante o
chamado Segundo Perodo Intermedirio, aps a XII dinastia, Querma se
recompe para atingir o auge de seu poder no tempo que transcorre da XV 
XVII dinastia. Por essa poca, em que muitos escribas egpcios estiveram a
servio de Querma, o reino prosperou, cresceu e fortaleceu-se a ponto de
absorver outros pequenos Estados nbios, estrategicamente reunidos em
federao, e ameaar libertar-se do poder central. Durante a invaso dos
hicsos no Egito (em c. 1650 a.C.), Querma recupera sua independncia e
estende seu territrio at Elefantina. Seus soberanos, instalados em Bouhen,
empregam hierglifos e administram o pas  moda egpcia. O rei hicso Apfis
chega a enviar a Querma proposta de uma aliana para a tomada do Egito.
Chegado, entretanto, o Imprio Novo, tendo o Egito recuperado a antiga
organizao, Querma sucumbe ante as tropas de Tutms I e a cidade 
totalmente destruda. Ento, toda a Baixa Nbia, com seu centro de poder em
Uauat,  integrada ao Egito; e a Alta Nbia, da qual Querma era o ncleo,
torna-se estabelecimento colonial, governado por um vice-rei, intitulado "filho
real de Cuxe". A conquista egpcia desse poderoso centro poltico propicia a
entrada, no cenrio histrico nbio e africano, de outro Estado cuxita, com
capital em Napata. Na avaliao de Brissaud, o povo de Querma era portador
de uma cultura em alguns pontos semelhante  do Alto Egito, mas
desenvolveu uma civilizao tipicamente nbia. Ver CUXE; TEMEHU.
QUTY. Fara egpcio, fundador da IX dinastia.
QUETY III. Nomarca de Heraclepolis durante a XI dinastia. Conquistou Abidos.
QUIBINDA ILUNGA. Heri fundador do povo Iuba ou Baluba. Grande caador,
certo dia, segundo a tradio, perseguindo um elefante com seu grupo, foi ter
no territrio do povo lunda. L, pediu abrigo e encantou a bela Luji,
sucessora de um chefe recm-falecido. Repudiando o marido para casar-se
com o estrangeiro e investindo-o cerimonialmente na condio de chefe, Luji
provocou revolta em seu povo. A ciso provocada no seio do grupo fez com
que Txingli ou Quingri, irmo da jovem princesa, fosse para o oeste, onde,
no Alto Cuango, deu origem  primeira linhagem do povo Imbangala. No sul,
na nascente do rio Zambeze, outro irmo, Quiniama, deu origem ao povo
Luena; e a oeste, um sobrinho deles fundou a linhagem inicial do povo Quioco.
A histria deste ltimo povo confirma a formao de sua nao a partir de um
pequeno grupo de guerreiros dissidentes vindos da Lunda, que se uniram a
mulheres autctones, e, posteriormente, pela assimilao de grupos vizinhos,
como lubas, pendes, luluas e mesmo lundas. Esses eventos esto
provavelmente ligados a sucessivas migraes de povos bantos que, vindos
do leste, segundo Phillipson (citado por Obenga, 1985) atingiram a regio de
Shaba, de 400 a 1100 d.C.
QUICUIOS. Povo do atual Qunia. Ver GICUIU.
QUMICA AFRICANA. A alquimia era a qumica dos antigos. Entretanto, modernos
estudos confirmam que, ao fabricar sais, sabes, bebidas alcolicas etc., os
antigos africanos utilizavam conhecimentos efetivamente qumicos, ainda que
rudimentares. Ver CONHECIMENTO CIENTFICO.
QUINGRI (TXINGLI). Heri fundador do povo Imbangala. Nobre de origem lunda,
era irmo da princesa Luji. Ver QUIBINDA ILUNGA.
QUINTAMPO, Cultura de. Denominao pela qual se tornou conhecida a
civilizao urbana florescida por volta de 1500 a.C. na regio das montanhas
Boiasi, prximo  atual Kumasi, em Gana. A origem da agricultura na frica
Ocidental subsaariana tem sido associada a essa civilizao, cujas origens se
devem s migraes motivadas pela dessecao do Saara. Esses migrantes
desenvolveram o plantio de milhete e sorgo na savana, alm do cultivo de
inhame, dendezeiros e outras espcies na regio da floresta.
QUINTU. Heri fundador do povo Ganda. Ver BUGANDA.
QUIOCO (TCHOKWE). Grupo tnico do nordeste de Angola. Ver KIBINDA ILUNGA.
QUISALE-A-SANGA. Stio arqueolgico situado na regio de Catanga. Na opinio
de Phillipson, citado por Obenga (1985), a povoao local comeou a se
estabelecer com a chegada, entre o sculo VII e XI d.C., de povos bantos
vindos do leste do continente.
QUISSAMA (KISAMA). Regio ao sul do rio Cuanza, em Angola. L, descendentes
de migrantes vindos do Baixo Congo, em c. 100 a.C., foram-se organizando
em pequenas unidades polticas at darem surgimento aos Estados
independentes de Muxima, Quitangombe, Quizva, Ngola Quicaito e Cafxi,
adversrios do Congo e do Ndongo antes da chegada dos portugueses na
dcada de 1480 d.C. Local das famosas minas de sal de Ndemba, era
tambm prdiga na produo de cera e mel de abelhas.
QUITARA. Reino legendrio, misteriosamente surgido e desaparecido num
passado longnquo, entre os lagos Rutanzige e Vitria, provavelmente
constitudo por ancestrais do povo Ganda e tido como origem de vrios
Estados da regio dos Grandes Lagos. Rico, desenvolvido e poderoso, era
governado por uma dinastia do cl dos Chuezi, pastores de origem etope.
Seus habitantes cultivavam caf, pastoreavam gado de boa raa,
manufaturavam tecidos de fibras vegetais e confeccionavam cestos. A
existncia do Quitara est provavelmente ligada ao ciclo migratrio banto que,
segundo Obenga, vindo do leste entre 400 e 500 d.C., chegou at a regio de
Catanga, no sul da atual Repblica Democrtica do Congo. Ver BUNIORO.
QUSTUL. Regio da Nbia, a nordeste da atual Cartum. Segundo Williams,
citado por Winters, o povo de Qustul foi o fundador da civilizao quemtica.
Para ele, os soberanos de Qustul seriam os governantes egpcios referidos
como reis portadores da coroa (uraeus) vermelha nos documentos mais
antigos.
RA (RE). Um dos aspectos do deus sol dos egpcios, cultuado principalmente
em Helipolis e representado como um homem com cabea de falco.
Segundo alguns autores, o deus manifestava-se sob trs aspectos,
correspondentes s posies do sol: Amon ou Amen, na aurora; Set, no
crepsculo; Re ou Ra, no ocaso. Algumas tradies o diferenciam de Amon,
inclusive lanando sobre os sacerdotes de seu culto a pecha de polticos
arrogantes, corruptos e intrigantes.
RA-HORAQTI. O mesmo que Ra (Re).
RACISMO, Nbios e. Segundo Draper, o mundo antigo no teria conhecido
distines baseadas na cor da pele dos indivduos. Somente no sculo XIX de
nossa era, segundo ele, "os estudiosos ocidentais passaram a atribuir
importncia, de modo pejorativo,  cor dos nbios". Ver NEHSIS.
RAHOTEP. Fara egpcio da XVII dinastia, no Segundo Perodo Intermedirio.
RAINHA DE SAB. Ver MAQUEDA; SAB.
RAMSSIDA. Qualificativo referente a Ramss II e  sua poca.
RAMSS. Nome de 11 faras egpcios cujos reinados se estenderam da XIX
dinastia, fundada em c. 1305 a.C. por Ramss I, at o fim da dinastia
seguinte, em c. 1070 a.C., durante todo o Imprio Novo, perodo de grande
fortalecimento e expanso. Ramss I  Fundador do ciclo dinstico
ramssida, assumiu o trono j septuagenrio e reinou pouco mais de um ano.
Militar de profisso, originrio de Tnis, no delta, foi designado como sucessor
por Horemheb. Ramss II  Terceiro fara da XIX dinastia,  provavelmente o
fara mencionado na Bblia como opressor dos hebreus. Um dos grandes
soberanos do Egito faranico, no plano militar, disposto a reconquistar
totalmente a regio do Retenu e tornar-se imperador da sia, equipou um
poderoso exrcito e marchou contra os hititas. Foi, entretanto, emboscado em
Kadesh, tendo que romper o cerco com bravura e ousadia, assim retornando
a Tebas como vencedor, para preparar nova investida. Seus adversrios, no
podendo suportar a luta contra Egito e Mitani ao mesmo tempo, propuseram
um tratado de paz, que foi aceito. Consolidando essa paz, casou-se com a
filha de Hatuzil, rei dos hititas, firmando-se a, segundo alguns historiadores, o
primeiro tratado de cooperao internacional de que se tem notcia. Apesar
desse casamento, entretanto, a mulher que passou  Histria como sua
esposa predileta foi Nefertare. Ramss II foi tambm, como continuador da
obra de seu pai e antecessor, Seti II, o responsvel pelo restabelecimento do
poder egpcio sobre a Sria. No plano civil, um de seus mais importantes
empreendimentos foi a transferncia do palcio real para Pi-Ramss, na
antiga regio de Avaris. Alm disso, construiu, na Nbia, templos famosos,
como os de Abu Simbel, Derr e Uadi-es-Sebua. A famlia de Ramss II
cultuava o deus Seth, supondo-se que essa divindade seria cultuada apenas
dentro desse crculo familiar. O pai de Ramss II, como j mencionado, era
Seti, nome que significaria "aquele de Seth" (cf. Divindades egpcias, na
bibliografia). Ramss III  Filho de Setnact, foi o terceiro fara da XX dinastia.
Considerado o ltimo grande fara do Novo Imprio, promoveu reforma
administrativa e fortaleceu o poder militar. Assim, repeliu hordas indo-
europeias, venceu os povos do mar, debelou ataques de tribos lbias na
embocadura do Nilo e instalou os filisteus sobre a costa de Gaza, em Acre,
por volta de 1180. Seus exrcitos vasculharam tambm o deserto, batendo-se
contra o povo Shosu at os confins de Edom, conforme Gazelles. Alm disso,
realizou expedies a Punt, morrendo, entretanto, vtima de conspirao
supostamente fomentada em seu harm. Segundo Mauny, citado por Ki-
Zerbo, seus traos fisionmicos guardavam semelhana com o do tipo padro
etope. Ramss IV-XI  Seus governos correspondem ao perodo da
anarquia, em que o Egito encontrava-se em lastimvel situao. Ramss IV
deixou vestgios de sua presena em Megido e Tamna; Ramss VIII e
Ramss IX deixaram registros em Gezer ou Gueser.
RAMSS-SIPTAH. Ver SIPTAH.
RANEB. Ver NEBR.
RANEFEREF. Ver NEFEREFR.
RE. Ver RA.
REALEZA DIVINA. A civilizao cuxita, a partir de Querma, depois em Napata e
mais tarde em Meroe, foi responsvel, segundo Laffont, pela difuso, na
frica Tropical, de inmeras crenas e prticas religiosas inspiradas no Egito
ou que, autctones, j tinham antes influenciado o sistema religioso faranico,
ou, ainda, sincretizadas com elementos desse sistema. Entre essas prticas,
uma das mais vivas e difundidas  o princpio da "realeza divina", encontrado
em inmeras unidades polticas tradicionais negro-africanas. Detentor do
poder, o rei personifica a nao. Assim, dando-se total ateno  sua
integridade fsica, qualquer indcio de envelhecimento de seu corpo
corresponde a uma ameaa de enfraquecimento do Estado. Como todo rei
sacro, o soberano de Meroe, consoante Herdoto e Estrabo, no podia
apresentar defeitos fsicos ou qualquer incapacidade evidente; devia ser forte,
bem constitudo e no velho. Alm de um corpo saudvel, deveria ser versado
na arte militar, na criao do gado, na caa, na agricultura, bem como nas
artes e em outras indstrias. Afora isso, todo monarca divino era o
representante de seu povo perante os ancestrais cultuados, dirigindo os rituais
e sacrifcios. Ao mesmo tempo, era o guardio das tradies e dos costumes
legados pelos ancestrais mais remotos, dos quais era a representao, e
pelos monarcas que o antecederam. Segundo Herdoto, um egpcio no podia
governar seu pas se no tivesse conhecimento das coisas sagradas. Os reis
egpcios eram escolhidos entre os sacerdotes e os guerreiros, duas classes
privilegiadas. Se, por acaso, um homem de outra casta viesse a apoderar-se
do trono, deveria logo ingressar na casta sacerdotal. E quando um guerreiro
era escolhido para rei, admitiam-no logo tambm na ordem sacerdotal, para
ser iniciado nas doutrinas sagradas. Os sacerdotes orientavam todas as
aes dos prncipes, aconselhando-os, censurando-os, fixando os horrios de
seus compromissos e prazeres, inclusive os conjugais. Morte ritual  No Egito
faranico, como em outras sociedades africanas posteriores, depois de um
certo tempo de reinado, o soberano deveria se submeter a cerimnias de
rejuvenescimento espiritual, como no festival do Sed; e, em caso de doena
ou incapacidade, como tambm ocorreu em civilizaes posteriores, como a
do antigo Benin, ele poderia ter decretada sua morte ritual. Em Meroe, era a
casta sacerdotal que decidia pela aplicao dessa drstica medida, mas
muitas vezes ela era aplicada to somente para pr fim aos atos de violncia
do rei. Acrescente-se a essas informaes sobre reis divinos que, no Egito
pr-dinstico, os primeiros governantes, envoltos numa aura de lenda,
confundiam-se com os deuses primordiais. E que, at o sculo XIX, tanto na
Etipia quanto no antigo Benin, manteve-se o costume de enterrar, com um
governante ou aristocrata morto, seus pertences e seus escravos, para que
continuassem a lhe prestar servios no alm, da mesma forma que seus
sditos vivos ficavam com a obrigao de lhe construir uma morada, onde
pudesse continuar recebendo tributos e oferendas. Ver MITOS e LENDAS; ODUDUA;
RELIGIES.
RELIGIES. As religies da Antiguidade, tendo por objeto o culto aos
antepassados e por smbolo principal o fogo em torno do qual se reunia o
grupo, constituram a origem da organizao familiar e das primeiras leis. Mas
alm dos ancestrais divinizados, todas as religies antigas cultuaram
divindades personificadoras das foras naturais ou de caractersticas humanas
 e isso mesmo antes de conceberem a noo de Universo e idealizarem um
ser divino criador de todas as coisas. A princpio exclusivas de cada grupo
parental,  medida que esses grupos deram origem a cls e tribos, as
divindades dos povos antigos se tornaram clnicas e tribais, da mesma forma
que, depois, se transformaram em divindades das cidades que a unio das
tribos veio a formar. Cada cidade, ento, tinha deuses que eram resultado do
somatrio das divindades dos pequenos grupos familiares originais. s vezes,
duas cidades adoravam deuses de nomes iguais. Mas a natureza deles era
sempre diferente, j que nenhuma cidade admitia uma divindade sua
protegendo indivduos potencialmente inimigos, como eram quaisquer
estrangeiros. Esses deuses eram propiciados com qualquer tipo de coisa que
agradasse os sentidos, como bebidas, comidas, perfumes, msica e dana.
Em troca, as cidades esperavam deles resguardo contra todo tipo de
adversidade e proteo contra os inimigos. No Egito antigo, onde, entre outras
crenas, prevaleceu a do deus Ra ou Re como a divindade primordial e
criadora, o papel desempenhado pelos deuses locais (cada povoado tinha seu
"senhor" ou sua "senhora") chamou a ateno de estudiosos como Franois
Daumas. Segundo ele, em Buto adorava-se uma deusa em forma de serpente;
em Mends, um deus com aparncia de bode; em Helipolis, o deus Aton
assumia forma humana; em Atfih, Hathor, embora deusa do amor, exibia
orelhas de vaca atravs da cabeleira; em Heraclepolis, rendia-se culto ao
deus carneiro Harsafs ou Hercheft, e assim por diante. Esse aspecto de
pertencimento a uma localidade  notrio tambm, por exemplo, na antiga
tradio dos orixs iorubanos, mantida no Brasil e em outros pases das
Amricas. Nela, Ogum  orix da cidade de Ir; da mesma forma que Oxum 
de Oxogb; que Oxssi  de Queto etc. No Egito, no s a capital de cada
nomo contava com seus deuses como tambm as aldeias e pequenas
populaes no interior dos nomos possuam deuses diferentes. Quando, por
qualquer razo especial, o deus local era elevado  condio de deus do
imprio, o orgulho de sua cidade de origem e seu poder, como acentua
Daumas, cresciam ilimitadamente. Uma guerra entre cidades era a guerra
entre os deuses dessas cidades. Fustel de Coulanges, escrevendo sobre as
guerras da Antiguidade, nos leva a imaginar dois pequenos exrcitos se
defrontando, entre exortaes e imprecaes, oraes e maldies, cada um
tendo ao seu centro os cones e emblemas de suas divindades, alm do
orculo, que indicava os bons ou maus pressgios para o combate. Embora
Coulanges tenha centrado seu foco na Grcia e em Roma, nossa convico 
de que, em termos africanos, tudo se passava exatamente da mesma forma 
como alis conhecemos, nos relatos sobre a Revoluo Haitiana, no sculo
XVIII de nossa era, o papel desempenhado pelos voduns, incorporados em
alguns guerreiros durante os combates. Origens  Segundo Gromiko, no
continente africano, os primeiros deuses e templos teriam sido criados pelos
egpcios. Entretanto, segundo Anta Diop, e conforme mencionado em outra
parte desta obra, o corao do continente africano, notadamente a Nbia e a
Etipia, foi sempre considerado pelos egpcios a terra sagrada de onde
tinham vindo seus ancestrais. Assim, em vez de os povos cuxitas e etopes
terem absorvido influncias religiosas egpcias, gregas e rabes, como quer a
corrente hegemnica do pensamento ocidental, o processo teria ocorrido,
entre o Egito e a Nbia, de modo ambivalente, com trocas significativas entre
os dois ambientes culturais, da mesma maneira que ocorreu no campo
poltico. A presena, ainda hoje, de elementos arcaicos na religiosidade de
muitos povos africanos liga-os indissoluvelmente a um continuum que tem seu
ponto de partida na Antiguidade. Totemismo  Segundo o j citado Gromiko,
uma das formas mais arcaicas da religio  o totemismo, ou seja, a
associao ntima de um elemento da natureza, animal ou vegetal, a
determinado grupo social humano. O totemismo  caracterstica bastante
observada em religies de muitos povos negro-africanos. Entre os dincas, que
concentram hoje o maior contingente populacional entre os povos nilticos,
certos cls e linhagens veneram, sacralizam e cercam de tabus determinados
animais, como o crocodilo, o leo, a serpente etc. Esses animais totmicos,
dos quais se espera proteo e ajuda, nunca so caados nem perseguidos,
sendo, ao contrrio, objeto de devoo e respeito, como eram, no Egito
antigo, animais como o escaravelho, o abutre etc., notadamente o crocodilo.
Outra caracterstica arcaica da religio dos povos nilticos era a divinizao
do gado bovino, por meio de prticas que envolvem inmeros ritos e tabus. No
Egito antigo, o culto ao boi pis, em Mnfis,  a manifestao mais notria
dessa forma de sacralizao. Para a maioria dos povos nilticos, alguns tipos
de serpentes esto intimamente ligados ao culto dos antepassados; na
mesma medida, por exemplo, que nas crenas ancestrais do povo Fon do
atual Benin o vodum-serpente Dan representa, segundo Segurola e Rassinoux,
o movimento, a vida, a perpetuao da espcie humana e a fonte de toda a
prosperidade. Crenas  Nos territrios outrora dominados pela civilizao
cuxita so tambm ainda hoje bastante difundidas crenas igualmente
arcaicas, como aquela que, segundo Gromiko, atribui a um estrangeiro e a
uma determinada casta de artfices ou caadores a faculdade de, apenas com
o olhar, lanar infortnio a outra pessoa ou, de apenas com presena,
profanar ou macular a casa de um pastor ou agricultor. Da mesma forma, a
crena no poder mgico das palavras, para o bem ou para o mal. Observe-se
tambm que os egpcios, segundo Herdoto, em ateno a um relato
mitolgico, evitavam as pessoas de pele clara e cabelos louros, as quais, "no
tempo em que ainda se sacrificavam homens", eram estranguladas sobre o
sepulcro de Osris ou queimadas vivas. Ainda segundo o historiador grego,
"quase todos os nomes dos deuses passaram do Egito para a Grcia". Culto
 Entre os egpcios, em todos os atos da vida pblica buscava-se a
interveno divina. Como os deuses tanto podiam ser protetores como
disciplinadores cruis, nenhuma ao importante era praticada sem que se
tivesse a certeza de que os deuses estavam de acordo. Segundo Herdoto,
cada deus tinha vrios sacerdotes e um gro-sacerdote, num mister que era
transmitido de pai para filho. Outro aspecto religioso notvel era a existncia,
entre os egpcios, de diversos orculos, cada qual adotando um mtodo
divinatrio particular. Veja-se a tradio segundo a qual o orculo de Dodona,
na Grcia, da mesma forma que outro existente em terras da Lbia, teria sua
criao inspirada por duas pombas negras vindas de Tebas como
mensageiras dos deuses. Interpretando a lenda, diz Herdoto que, na
realidade, os dois orculos teriam sido criados por duas sacerdotisas
referidas como pombas por falarem uma lngua estrangeira, parecida com
arrulhos; e como negras "naturalmente por serem egpcias", em mais uma
referncia do historiador grego  negritude dos habitantes originais do pas.
Com as incurses colonizadoras dos egpcios at a Alta Nbia, primeiro no
sculo XIX, depois no sculo XVI a.C., o refluxo da religiosidade negro-
africana, j mesclada s tradies elaboradas no delta, deu lugar a uma
sntese nica. Nessa sntese, destacou-se mais tarde a religio de Meroe,
sincrtica por natureza, politesta, complexa e rigorosamente canonizada,
segundo Gromiko. Nos arredores da sexta catarata, onde se situava Meroe, a
religio egpcia sofreu um processo de grande africanizao, predominando
nela o culto a deuses do interior da frica Profunda, sendo o mais importante
deles Apedemaq, representado com corpo humano e cabea de leo,
venerado como a "cabea da Nbia", protetor do "fara vitorioso e restaurador
da ordem", provavelmente Xabaca. Essa espcie de sincretismo nbio-egpcio
teria dado origem, por exemplo, s mscaras zoomorfas presentes at
nossos dias em tradies de sociedades secretas em vrias regies do
continente africano. Outra caracterstica que at a poca contempornea
aproxima sociedades africanas das estruturas religiosas da Antiguidade  o
culto de reis sacralizados, o qual, segundo Gromiko, desempenha ainda um
papel poltico importante, como base ideolgica da cultura tradicional. Ver
GUERRAS; REALEZA DIVINA.
RENETUTET. Deusa-serpente dos egpcios cultuada juntamente com Sobeq, o
deus-crocodilo, em templo de Medinet Madi, construdo no Mdio Imprio, na
provncia do Faium.
RESINAS AROMTICAS. Ver INCENSO.
RET. Denominao de um povo do Egito antigo, tido como ancestral dos atuais
fels. O termo ret, como red em ingls, significava "vermelho" em egpcio
antigo.
RETENU. Antigo nome da regio que compreende hoje a rea ocupada por
Israel, Lbano, Sria e o oeste da Jordnia.
RIFT VALLEY.  Fissura de 6.400 km na crosta terrestre, que se estende de
Moambique ao Lbano, tambm referida como Great Rift Valley (Vale da
Grande Depresso). No continente africano, do mar Vermelho at o lago
Manyara, comeando na depresso de Danaquil e atravessando o lago
Turcana, tem seu trecho mais impressionante. Desde muitos milhares de anos,
em grande parte do Rift Valley, inclusive as regies mais brutalmente hostis,
como o deserto de Danaquil, h uma grande complexidade de grupos tnicos,
falantes de lnguas do grupo banto e afro-asiticas.
ROSETA. Localidade no delta do Nilo, de nome rabe Raschid. Tornou-se
clebre devido  descoberta, pelo francs Champollion, da chamada Pedra de
Roseta, suporte dos primeiros escritos hieroglficos decifrados. Ver ESCRITA.
ROTAS DE COMRCIO. Segundo Don Luke (ver bibliografia), as antigas rotas de
comrcio africanas do vale do Nilo incluam um ramal que comeava na costa
do Egito, estendia-se para o oeste atravs do Mediterrneo e, para o norte,
ao longo do litoral oeste europeu at o mar Bltico. Conforme o mesmo autor,
o arquelogo A. H. Sayce refere-se, em The Date of Stonehenge, livro de
1914, a um ramal dessa rota, o qual ligava o vale do Nilo  Europa ocidental,
especialmente s Ilhas Britnicas e  Escandinvia. Da os relatos contidos
em antigas tradies dos povos nrdicos, referidas como Old Norge Sagas,
dando conta da presena de negros africanos na Escandinvia " poca dos
viquingues". Ainda segundo Luke, j durante a VI dinastia egpcia, africanos
iam buscar mbar no mar Bltico. Depois do ano 1000 a.C., conforme
Davidson, duas rotas principais cortavam o Saara: uma ligando o atual
Marrocos ao oeste africano, do Atlntico a aproximadamente o atual Mali;
outra unindo a atual Tunsia e o oeste da Lbia  regio do lago Chade, a
includa Nok, centro de expanso das cidades iorubs, ligada a Cartago por
uma antiga rota de comrcio. Ki-Zerbo refere uma ligao do Alto Nilo ao rio
Nger, atravs do Darfur. E segundo Lpez-Davalillo, entre 200 e 100 a.C.,
tribos berberes organizaram um sistema de caravanas unindo a regio do
Chade ao Alto Nilo, bem como  regio de Nok e  parte mais ocidental do
continente. Segundo Obenga (1973), nas rotas que levavam ao mar Vermelho
e de l  ndia, evitava-se o deserto da Lbia, utilizando-se uma bifurcao que
seguia, pela parte leste do Ennedi, em direo ao Alto Egito, atravs de
Assu. Por volta do sculo V d.C., os povos do deserto comearam a utilizar
cavalos vindos do norte da Arbia. Esses animais facilitaram o comrcio
transaariano: mercadorias como sal, armas de fogo, contas de vidro, e at
mesmo cavalos, eram transportadas para o sul, enquanto mercadores
levavam marfim e especialmente escravos para o norte. A apropriao dos
excedentes da agricultura e o controle sobre esse comrcio deram origem a
sociedades estratificadas, incluindo os trs histricos reinos de Baguirmi,
Kanem-Bornu e Uadai. Ver BERBERES; CHADE.
RUANDA. Pas da frica Central, limtrofe com Repblica Democrtica do
Congo, Uganda, Tanznia e Burundi. Segundo o conhecimento mais difundido,
os primeiros habitantes da regio teriam sido os ancestrais dos atuais povos
Tua. Aps 1000 a.C., ancestrais dos atuais povos bantos vindos da parte mais
central do continente teriam se estabelecido nos frteis planaltos dos
modernos Ruanda e Burundi. Aos poucos, num longo processo de
centralizao poltica, esses povos teriam constitudo o grupo tnico Hutu. Por
volta do fim do sculo XIV, segundo verso mais conhecida, teria chegado do
leste, dominando tcnicas mais avanadas, o povo hoje conhecido como Tutsi,
que estabeleceu na regio uma monarquia centralizada, assimilando e
avassalando os hutus. Entretanto, para outro grupo de historiadores, a teoria
da origem estrangeira dos tutsis seria historicamente falsa. Assim, os povos
que tradicionalmente habitaram os territrios dos atuais Burundi e Ruanda
teriam a mesma origem, partilhando instituies polticas, tradies e um
idioma comum, o Quiiaruanda, sendo todos, em conjunto, denominados
Baniaruanda. O poder dos tutsis sobre os hutus derivaria apenas de
circunstncias econmicas, fincadas na tradio do ubuhake, instituio
tradicional segundo a qual uma pessoa de situao econmica inferior oferecia
seus servios a outra mais abastada em troca do usufruto de uma ou duas
cabeas do rebanho bovino. Os baniaruandas constituram, no sculo XV d.C.,
o reino de Ruanda, uma das importantes unidades polticas da regio dos
Grandes Lagos nos tempos antigos. O reino do Burundi foi fundado j no
sculo XVII.
RUDAMON. Fara egpcio da XXIII dinastia, tanita, irmo e sucessor de
Taquelot III durante o Terceiro Perodo Intermedirio.
RUTANZIGE. Lago na divisa dos atuais territrios de Uganda e Repblica
Democrtica do Congo. Pertence  bacia do Nilo e recebe desse rio as guas
do lago Vitria. Ainda no sculo XX, era chamado lago Alberto.
RUVENZORI. Grupo de montanhas na atual fronteira de Uganda com o Congo-
Quinshasa, numa extenso de 130 km entre os lagos Eduardo e Rutanzige.
SAARA.  Regio desrtica com mais de 8 milhes de km2, cujas fronteiras so o
oceano Atlntico a oeste, a cordilheira do Atlas e o Mediterrneo ao norte, o
mar Vermelho a leste e o vale do rio Nger ao sul. Cobre partes dos atuais
territrios de Marrocos, Arglia, Tunsia, Lbia, Egito, Sudo, Chade, Nger,
Mali e Mauritnia. Entre os anos 5000 e 2000 a.C., grande parte do atual
deserto de Saara era verde e abrigava diversos grupos humanos, vivendo a
Idade da Pedra e deslocando-se em vrias direes. O planalto de Tassili era
coberto de ciprestes; a regio do Hoggar era um campo povoado de
avestruzes e girafas; e a plancie hoje arenosa de Tener era um enorme e
piscoso lago, do qual o ltimo vestgio  o lago Chade. A partir da regio,
segundo algumas correntes,  que inmeras plantas espontneas se
difundiram, como o sorgo; pelo menos uma espcie de arroz; um tipo de
milho; um tipo de algodo etc. Acredita-se inclusive que a agricultura tenha
surgido no Saara,  poca do neoltico, em certas regies submetidas s
inundaes anuais do Nilo. Da mesma forma, a pastorcia parece tambm ter
origem saariana. Por fora, entretanto, de grandes e progressivas alteraes
climticas, os habitantes da regio passaram a migrar em busca de pastagens
para o gado. Uns tomaram a direo norte, outros buscaram as margens do
Mediterrneo, outros permaneceram na regio, como os ancestrais dos
tuaregues de hoje. Uma minoria desses remanescentes, utilizando muares
como meio de transporte e trilhando duas rotas principais  do Mediterrneo
ao Egito, e da Tunsia e da Lbia at o norte dos atuais Chade e Nigria ,
tornou-se comerciante e acabou por fixar-se em cidades que evoluram para
Estados governados por reis (cf. Basil Davidson). Apesar da aridez crescente,
a regio foi, desde tempos remotos, cruzada por inmeras rotas de comrcio,
numa atividade incrementada, no sculo VII a.C., com a introduo do camelo,
animal especialmente dotado para as zonas ridas. Isso permitiu aos grupos
que emigravam para o sul manter-se em contato com a civilizao original.
Segundo o explorador Emile-Flix Gautier, citado por Obenga (1973), antes
da introduo do camelo, a populao dispersa pelo Saara constitua-se de
pastores de "raa negra". Com efeito, estudos de inscries rupestres
mostram essas regies habitadas por pastores de gado bovino; mas no de
boi zebu, como no Sudo atual, e sim de bos africanus, o boi de chifres em
forma de lira, como os do Egito antigo. Os pastores que deles se ocupavam
foram muito provavelmente os ancestrais dos peles. Com o dessecamento
do Saara, esses pastores teriam chegado s terras do atual Senegal, de onde
seriam originrios todos os peles atuais.
SAARO-MAGREBINO. Relativo, simultaneamente, ao Saara e ao Magreb.
SAB. Antigo reino localizado na Arbia meridional. Seu territrio compreendia
provavelmente os atuais Imen e Hadramaut. Teve por capitais Marib e depois
Zufar. Por sua localizao, separado da antiga Etipia apenas pelo estreito de
Bab-el-Mandeb, Sab manteve estreitas relaes com essa parte do
continente africano.  poca do rei Salomo, c. 900 a.C., Sab esteve sob
forte influncia dos cuxitas de Querma, os quais, durante o Terceiro Perodo
Intermedirio da histria egpcia, chegaram at a atual Palestina e saquearam
Jerusalm. Nesse momento  que se teria desenrolado o conhecido episdio
da visita de Maqueda, a rainha de Sab, ao rei de Israel. A unio da rainha
com o rei judeu teria, segundo a tradio, dado nascimento a um filho,
Meneliq, tido como fundador de uma dinastia na Etipia do sculo X a.C. J na
Era Crist, sendo a elite de Sab a fundadora de Axum, os sabeus tiveram, a
partir do sculo I d.C., sua cidade principal, Marib, como centro das decises
do poder axumita. Etopes e sabeus foram tradicionais inimigos dos cuxitas de
Querma, Meroe e Napata, mas uniram-se a eles com a conquista do Egito
pelos persas, em 525 a.C. Controvrsias  Um mapa do mundo do Antigo
Testamento, estampado em Boyer, consigna uma localidade denominada
"Seb", s margens africanas do mar Vermelho; outra, prxima ao golfo
Prsico; e uma "Sab" ou Ofir no atual Imen. O nome "Seb" remete, na
Bblia, ao neto de Cam e bisneto de No; e "Sab", a um neto de ber,
descendente de Sem. Entretanto, o gentlico "sabeu" parece referir-se a
ambos os povos. O Kebra Nagast localiza Sab na regio montanhosa da
Etipia, ao norte do moderno golfo de Aden. Segundo alguns autores, a
confuso com a localidade no atual Imen dever-se-ia provavelmente a textos
medievais rabes, como os do historiador Ibn Ishaq, escritos no sculo VII
d.C. Em 2005, arquelogos da Universidade de Toronto iniciavam pesquisas
na tentativa de provar a localizao do reino de Sab no sudoeste da Nigria.
A propsito veja-se, nesta obra, referncia de Pedrals a uma suposta filha
dessa rainha no verbete "Ijebu". Sobre uma alegada identidade egpcia da
Rainha de Sab, invoca-se a XXVII surata, versculos 22-24 do Alcoro, na
qual um personagem diz ao rei Salomo: "Porm, no tardou a chegar e
disse: `Tenho estado a inteirar-me do que tu ignoras; trago-te de Sab uma
notcia segura. Divisei uma mulher que governa (o povo), provida de tudo e
possuindo um magnfico trono. Encontrei-a, e a seu povo, a adorarem o sol
em vez de Deus, porque Sat lhes alucinou as aes e os desviou da senda; e
por isso no se encaminham.'" Essa "adorao ao sol" seria um indcio de que
realmente se tratava de uma rainha egpcia (ver TON). Entretanto, observe-se
que muitas das tradies religiosas egpcias tm origem nbia, mais
precisamente cuxita, e que Sab, como dito antes, esteve sob forte influncia
de Querma. Ver AXUM; ETIPIA; MAQUEDA; MENELEK; SABEUS DE AXUM.
SABEUS. Habitantes do reino de Sab, no atual Imen. Feminino: sabeias.
Sabeus de Axum  Expresso usada pela arqueloga Sonia Cole em
referncia a um ramo de sditos da rainha de Sab, o que evidencia a
integrao desse reino asitico com a antiga Etipia. Ver AXUM.
SABRACAMANI. Governante de Cuxe aps Nastasen e antes de Arnecamani,
provavelmente em uma dinastia paralela, reinante em Napata.
SABUR MINGU N'DIAYE. Heri civilizador do atual Senegal, tido como originrio de
Mizra, o Egito, na poca faranica. Fundou o reino do Jolof ou Djolof, que
engloba uolofes, sereres e diaogos. Ver JOLOF; SENEGMBIA.
SACAR (SAKKARAH). Plat rochoso prximo a Mnfis, na margem oeste do Nilo,
a 60 km ao sul da atual Cairo. Local da necrpole de Mnfis, l se ergue a
mais antiga pirmide do Egito, a do rei Djoser.
SACRIFCIOS HUMANOS. O sacrifcio ritual tem como motivao a liberao de
fora vital: quanto mais importante for o animal sacrificado maior a energia
vital oferecida  divindade, em agradecimento ou propiciao. Essa a lgica
dos sacrifcios humanos, presente em todo o mundo antigo, onde em tempos
de calamidade ou crise profunda os pais, para aplacar os deuses por meio de
sua maior e mais preciosa oferenda, costumavam oferecer em holocausto os
prprios filhos, como se l em algumas passagens bblicas. Na frica, o
sacrifcio ritual de seres humanos foi praticado, em sociedades tradicionais,
at o fim da Antiguidade nas reas respectivas.
SAFNAT-PNEAH. Nome recebido pelo patriarca hebreu Jos quando promovido a
primeiro-ministro do fara da dinastia hicsa a quem serviu. Alm do nome,
Jos adotou costumes egpcios, casando-se e tendo filho no pas onde viveu.
Segundo a Bblia, entretanto, teria se mantido fiel ao Deus dos hebreus e aos
tabus alimentares de sua origem  o que parece controverso, j que esses
tabus s teriam sido estabelecidos mais tarde.
SAHEL. Regio de estepes secas da frica, intermediria entre o Saara e a
zona tropical do continente.
SAHUR. Fara egpcio da V dinastia, menfita, neto de Mencaur e sucessor de
Usercaf. Reinando no sculo XXV a.C., enviou expedies ao Sinai, ao pas
de Punt e  Lbia.
SAI. Ilha da Nbia. Abrigou uma povoao importante  poca de Querma.
SAS. Cidade do antigo Egito, situada no delta,  margem direita do rio Roseta,
afluente do Nilo. Centro de culto da deusa Neith, foi capital do Baixo Egito e de
todo o pas sob a XXIV, a XXVI e a XXVIII dinastias.
SATA. Relativo a Sas. Denominao da XXIV dinastia de faras egpcios, no
sculo VIII a.C.
SAKKARAH. Ver SACAR.
SAL. Cloreto de sdio, produto natural de alto valor econmico, usado pelos
povos antigos principalmente na conservao de alimentos. Politicamente, o
sal do Saara, extrado de minas de sal-gema, desempenhou um papel
fundamental na histria da frica Subsaariana. A preeminncia poltica e
econmica pertencia aos que controlavam as rotas de importao ou mesmo,
em certos momentos, as prprias minas.
SALDAE. Cidade romana no norte da frica, localizada em territrio da atual
Bejaia, na Arglia. Mais tarde, foi capital dos invasores vndalos.
SALOMO. Rei de Israel entre, aproximadamente, 975 e 935 a.C. Promoveu a
difuso do saber filosfico em Israel, contando, para tal, com o trabalho de
muitos escribas egpcios (cf. H. Cazelles). Por seu casamento com a filha do
fara do Egito, provavelmente Xexonq I ou Siamon, Israel recebeu como dote
a cidade egpcia de Gezer ou Gazer. As boas relaes entre a nova
monarquia representada por Salomo e o enfraquecido Egito da XXI dinastia
foram seladas por esse casamento real. Salomo administrou segundo o
modelo egpcio, do qual tomou os "sinais numricos" bem como
procedimentos de "sabedoria". Ver INSTRUES.
SALSAVI TOMADION PIIANQUIHI. Soberano etope (c. 664-652 a.C.) da dinastia de
Meneliq, segundo listagem provavelmente extrada do Kebra Nagast,
conforme www. rastafarionline.com. Ver PIYE; PINQUI.
SAMSI E ITAM'RA. Casal real de Sab, entre 720 e 705 a.C. Sob seu reinado
construram-se grandes complexos arquitetnicos e a grande represa Marib,
cujos restos ainda existem.
SAN. Denominao do subgrupo de lnguas africanas que, com as do subgrupo
Khoi-khoi, formam o grupo das lnguas Khoi-san, caracterizadas pelos sons de
clique, obtidos pela batida da lngua no cu da boca. Ver BOSQUMANOS.
SANAQT. O mesmo que Nebqa.
SANTA MNICA. Me de Santo Agostinho. Nascida em Tagasta, na atual Arglia,
em 333 d.C.,  considerada pela tradio catlica o modelo ideal de me e
esposa.
SANTA TAS. Ver THAS.
SANTO AGOSTINHO. Filsofo catlico (354-430 d.C.) nascido em Tagasta, atual
Souq-Ahras, na Arglia, de origem berbere, segundo Appiah e Gates.
Convertido ao catolicismo e batizado em Milo em 387 d.C., voltou  frica,
onde foi bispo de Hipona, cidade da Numdia, na qual morreu, durante o cerco
dos vndalos. Filsofo, telogo e pregador incansvel, foi uma das maiores
personalidades da Igreja Catlica. Ver SANTA MNICA.
SANTO ATANSIO. Bispo e doutor da Igreja (c. 295-373 d.C.), nascido e falecido
em Alexandria. Em virtude de suas condies, sempre na defesa da ortodoxia
catlica, entrou em choque com o poder estabelecido e esteve vrias vezes
exilado. Deixou importante obra publicada.
SAO. Povo localizado, em poca remota, no planalto do Chade, em regio
pertencente ao reino do Bornu, sendo seus integrantes tidos como ancestrais
do atual povo Kotoko. So tambm conhecidos como soo, sou, saw, sal,
tsoh ou nsooh. Chegados ao Chade no sculo VII, em vagas sucessivas,
vindos do norte, instalaram-se no curso inferior do rio Logone e no delta do
Chari, onde criaram uma civilizao vigorosa e notvel em sua poca. Suas
tradies, entretanto, falam de poca anterior, quando teriam vindo do leste,
da Palestina ou da Arbia para o Saara. Seriam descendentes de uma mulher
de Jerusalm, me de um casal de gmeos que se uniram em matrimnio e
deram origem ao povo. Segundo alguns relatos tradicionais, foram banidos por
um fara chamado Jitotadi (nome que nos remete, como pura hiptese, ao
hau, uma das lnguas da regio, na qual encontramos: jito, fazer acordo
com um inimigo; tadi, conversao, conversa). Aps atravessarem um "mar
escuro", um deserto, que pode ser o Darfur, os sobreviventes da fuga teriam
chegado ao planalto do Chade. Outra verso tradicional diz tratar-se de um
povo de gigantes, em certo momento invadido em seu territrio por outro
povo, vindo de alm do mar Vermelho, da regio do atual Imen. Segundo a
lenda, teriam sido derrotados quando, ingenuamente, estenderam as mos
para que os iemenitas as tingissem com hena, como era seu costume. Foram
manietados e exterminados (cf. Pedrals). O povo Sao provavelmente manteve
relaes econmicas com os Estados da antiga Nbia e com o antigo Egito:
existem rotas que ligam, desde os tempos pr-histricos, a regio do lago
Chade ao vale do Nilo. Do lago, essas rotas se multiplicavam e se religavam
em itinerrios transaarianos. Ver MITOS e LENDAS; ROTAS DE COMRCIO.
SO CIPRIANO. Tcio Ceclio Cipriano, bispo de Cartago. Padre da Igreja e
mrtir nascido no norte da frica, entre 200 e 210 d.C. Morreu decapitado
pelo poder romano em 258 d.C.
SO FRUMNCIO. Santo catlico. Tutor do ento futuro rei etope Ezana de
Axum, foi o responsvel por sua converso ao cristianismo por volta de 330
d.C. Ver AXUM.
SO GELSIO I. Papa da Igreja Catlica (492-496 d.C.), de origem africana.
Opondo-se, em seus ensaios teolgicos, ao imperador e ao patriarca de
Constantinopla, em questes eclesisticas e doutrinrias, teve pontificado
tumultuado e breve. Entretanto, destacou-se por sua preocupao com os
humildes e por sua sensibilidade musical, como autor de hinos sacros.
SO MACRIO. Eremita egpcio (301-394 d.C.). Retirado no deserto do Baixo
Egito, foi grande pregador cristo, arrebanhando multides de discpulos.
SO MILTADES (MILCADES). Papa da Igreja Catlica (311-314 d.C.), de origem
africana. Em 313,  poca do Edito de Milo, reuniu um conclio em Latro,
contra os donatistas, partidrios da doutrina hertica criada por Donato, bispo
de Cartago.
SO PACMIO. Santo da Igreja Catlica, nascido no Egito em 287 d.C.
SO VITOR I. Papa da Igreja Catlica (189-198 d.C.), de origem africana,
retratado em algumas antigas imagens com feies tipicamente negras.
Destacou-se principalmente por ter fixado a comemorao da Pscoa catlica
num domingo, depois da comemorao judaica. Por isso entrou em rota de
coliso com alguns setores da Igreja.
SARA. Antigo povo autctone da regio do Chade, descrito como agricultor,
caador e animista.
SARACOL. O mesmo que soninqu.
STIROS. Antigo e lendrio povo africano, citado na Histria Natural, de Plnio.
Ver PLNIO, O VELHO.
SATIS e ANUQUET. Deusas egpcias da regio de Assu, respectivamente filha e
mulher de Qnum. Descritas como de acentuado carter africano.
SATJU. Uma das unidades polticas da Nbia, prxima a Elefantina, tributria do
Egito  poca da VI dinastia.
SAVANAS, Reinos das. A vasta zona das savanas que se estende do oceano
Atlntico ao ndico, ao sul da densa e mida floresta equatorial, foi 
principalmente a partir da desertificao do Saara, da introduo da
agricultura na curva do Nger e da descoberta da utilizao do ferro  palco de
numerosos deslocamentos e migraes de diversos grupos humanos. Os
contatos que disso resultaram traduziram-se em emprstimos culturais
recprocos e assim se constituiu, pouco a pouco, um fundo comum e uma
unidade cultural, alm de uma grande multiplicao de povos, como soninqus,
mandingas, sereres, sossos, sonrais etc. Ligao com o Egito  Algumas
reas de savanas no continente africano, na bacia do rio Congo, no interior da
curva do Nger e na regio dos Grandes Lagos, conservaram at a poca
contempornea indcios de ligao com o Egito faranico. A organizao
sociopoltica de alguns reinos florescidos nessas reas constitui o mais forte
desses indcios. Escrevendo sobre o povo Cuba, federao de comunidades
tnicas que teve seu apogeu, no antigo Congo, no sculo XVII, Thophile
Obenga salienta os pontos seguintes: costumeiramente, s o rei tinha direito,
como no Egito dos faras,  poliginia, formando inclusive um harm real; entre
os cubas, como entre os antigos egpcios, o governo sustentava-se sobre uma
organizao matrilinear; as classes sociais eram, grosso modo, as mesmas
(famlia real, nobres, camponeses e escravos de guerra); o rei partilhava o
poder administrativo com as aristocracias regionais e provinciais (semelhantes
aos nomarcas e vizires do Egito faranico). O rei do povo Cuba, o nyimi, era
um monarca sagrado, exatamente como o fara, filho de Amon-Ra, deus solar
e criador. Era o intermedirio entre os vivos e os mortos, o regente de todo o
povo, o dono de todo o pas com todas as suas riquezas. Tal como entre os
egpcios antigos, entre os cubas, toda vez que o poder caa nas mos de
outro cl real ou de um usurpador, iniciava-se uma nova dinastia. Outra ligao
importante entre o povo Cuba e o Egito dos faras residia nos conhecimentos
astronmicos demonstrados por esse povo. Esses indcios fazem supor uma
efetiva ligao, na Antiguidade, desses povos com o Egito faranico. Ver
NEGRO-AFRICANO; ONTOLOGIA NEGRO-AFRICANA.
SCHISCHAQ. Nome pelo qual  referido, em uma verso da Bblia, Xexonq, fara
lbio do Egito.
SEBEQUEMSAF. Nome de dois faras egpcios da XVII dinastia, governante em
Tebas durante o Segundo Perodo Intermedirio.
SEBEQNEFRUR. Ver SOBEQNEFRU.
SEBOIET. Coletnea de textos escritos pelo sbio egpcio Amenemope. Serviu
como modelo para vrios textos antigos do tipo proverbial, inclusive talvez os
de Salomo, rei dos judeus.
SECHNOUPHIS. Filsofo egpcio, mencionado como mestre de Plato em
Helipolis.
SECHSESET. Ver TETI.
SED. No Egito faranico, jubileu festivo peridico que repetia a cerimnia de
entronizao real para o rejuvenescimento espiritual do rei. Era celebrado
quando o fara completava 30 anos de reinado. Na tradio dos povos Ac,
notadamente os axantis, da atual Repblica de Gana, os festivais peridicos
denominados adae e odvira tm tambm como objetivos principais a
purificao e o fortalecimento do corpo e do esprito do soberano.
SEDENGA. Localidade na Nbia onde o fara Amenhotep III fez construir um
templo em honra de sua esposa, a rainha Tiy, deificada e a venerada como
uma das manifestaes da deusa Hathor.
SEHOTEPIBRE.  Filsofo egpcio (c. 1990 a.C.). Foi, segundo M. K. Asante, um
dos primeiros sbios nacionalistas  j que pensava nos interesses da nao
egpcia , embora decididamente "realista", pois acreditava no poder dos reis.
Incentivou a lealdade e a obedincia ao rei e frequentemente usou a si prprio
como exemplo de algum que conquistou grande prestgio por seguir os
conselhos do rei.  chamado de "o legalista" por alguns pesquisadores.
Segundo algumas fontes, "Sehotepibre" seria outro nome ou ttulo de
Amenemat I.
SELQUIS. Ver SILCO.
SEMERQUET. Fara egpcio da I dinastia (c. 3500-2980 a.C.). Teve governo
breve, aps Adjib.
SEMITAS. Denominao de um grupo de povos do Oriente Prximo, entre os
quais costumam ser includos rabes e etopes. Essa incluso  hoje em parte
rejeitada j que deriva de distino de base biolgica altamente discutvel,
diante de mtodos lingusticos tecnologicamente mais eficazes. Segundo
Cheikh Anta Diop, a alegada "raa" semita  resultado de mestiagem,
ocorrida, a partir de 1300 a.C., no norte da frica e na sia ocidental, entre
negros e "povos do mar", falantes de lnguas indo-europeias. Ainda segundo
Diop, no Iraque e no Ir encontram-se evidncias de que os elamitas e
sumrios eram negros. Ver AFRO-ASITICA.
SEMNA. Ver SIENA.
SENAR. Regio no Nilo Azul, abaixo de Cartum, no atual Sudo.
SENCAMANISQUEN. Rei de Cuxe em Napata, em c. 643-623 a.C. Sucessor de
Atlanarsa, era pai de Anlamani e Aspelta.
SENEDJ. Fara egpcio da II dinastia (c. 2980-2686 a.C.), sucessor de Uneg.
Seu poder, no reconhecido por Peribsen, parece ter-se restringido a Mnfis.
SENEFURU (SNEFRU). Fara egpcio fundador da IV dinastia. Segundo Pedrals,
enviou expedio militar  Nbia. Construiu a "pirmide vermelha", a terceira a
ser erguida no Egito.  tambm mencionado como Seneferu.
SENEGAL. Rio do noroeste da frica, com 1.700 km de curso. Nasce na Guin,
no planalto de Futa Djalon, atravessa o sudoeste do Mali e corre pela atual
fronteira entre Senegal e Mauritnia, para desaguar no Atlntico, prximo 
atual cidade senegalesa de St. Louis.
SENEGMBIA. Antiga denominao da regio compreendendo as atuais
repblicas de Senegal e Gmbia, na frica Ocidental. Embora a cincia divirja
sobre o exato momento em que chegaram e a origem dos povos
estabelecidos na regio, a Senegmbia, segundo Obenga, abrigou uma
civilizao megaltica entre 1500 e 800 a.C. Cheikh Anta Diop chama ateno
para similaridades lingusticas e culturais em relao ao antigo Egito
existentes entre povos da regio, fazendo crer que esses povos sejam
originrios do vale do Nilo. A confirmar-se essa procedncia, veja-se a
hiptese de outras etapas migratrias, como  o caso dos mandingas,
provavelmente migrados do vale do Nger. O desenvolvimento da metalurgia
no sculo IV d.C. pode ter contribudo para o surgimento do primeiro Estado
centralizado da regio, o Taqrur, no vale do rio Senegal. Esse Estado manteve
intenso contato com povos do norte da frica, inclusive com os berberes do
grupo Zenaga, povo cujo nome est provavelmente na origem do topnimo
"Senegal". Ver JOLOF.
SENUFOS. Povo localizado nos atuais territrios das repblicas de Costa do
Marfim, Mali e Burquina Faso. Habitam e cultivam as savanas do norte da
Costa do Marfim, provavelmente desde o primeiro milnio da Era Crist.
Entretanto, jamais constituram um Estado, sendo apenas a soma de vrias
clulas sociais, cada uma com seu chefe, o qual s tinha contas a prestar com
os ancestrais, seus e de seu povo. Segundo uma tradio local, a aldeia de
Niel, ncleo desse povo, teria sido fundada na Antiguidade por caadores
nmades de pele clara, vindos do norte, com seus ces.
SENUSRET. Nome de trs faras egpcios da XII dinastia, mais comumente
referidos como Sesstris, transliterao grega de seu nome. Escritores
clssicos confundiram as realizaes do terceiro desses "Sesstris" e
associaram-nas a somente um rei, cujos feitos foram ampliados a ponto de
esse fara mtico ser considerado o maior rei conhecido da Histria. As
realizaes desse governante lendrio estariam talvez associadas aos feitos
de Ramss II, misto de guerreiro e diplomata, ou de Tutms III.  assim que
Bernal, provavelmente incorrendo no mesmo erro de pessoa, mas acertando
no julgamento, afirma que suas conquistas foram desacreditadas a partir do
sculo XIX de nossa era: para o racismo da poca, era inconcebvel que um
monarca africano pudesse empreender expedies militares no apenas ao
Levante (orla do Mediterrneo oriental), como tambm  sia Menor
(extremidade ocidental da sia) e  Europa. Senusret I  Fundador da
dinastia, assumiu o trono aps o assassinato de seu pai, Amenemat I, punindo
os culpados e cumprindo um reinado longo, pacfico e prspero. Dedicou-se
principalmente  construo de templos e monumentos funerrios. Senusret II
 Filho de Amenemat II, sucedeu seu pai depois de cinco anos como
corregente. Realizou grandes obras de irrigao e de desenvolvimento da
regio do Faium. Fotografia de escultura reproduzindo sua cabea,
estampada por Obenga (1973), mostra um rosto com nariz achatado, largo e
lbios grossos, de aspecto tipicamente negro. Senusret III  Aps a morte de
Sesstris II, a Nbia rebelou-se contra o Egito. Ento, Senusret ou Sesstris
III encetou campanha militar contra os rebeldes, abrindo canais fluviais
estratgicos, para melhor trfego de suas naus guerreiras, e erguendo as
clebres Fortalezas Nbias. Foram cinco expedies, com o prprio fara 
frente das tropas, at que se transformasse a Nbia em uma provncia
egpcia. Com o sul dominado, o fara lanou-se contra a Lbia, a oeste, e a
Sria, a leste, estendendo seus domnios at a Palestina, numa poca em que
os egpcios exploraram minas de turquesa e outros minrios na regio do
Sinai. Segundo alguns autores, teria realizado tambm expedies a Punt e
estabelecido relaes com Creta, do outro lado do Mediterrneo. No campo
interno, atravs de profunda reforma administrativa, que diminuiu a influncia
da aristocracia nos negcios do Estado com a criao de um corpo de
funcionrios de carreira, sados da classe intermediria, levou o Egito a uma
era de grande prosperidade econmica. Segundo Bernal, at os anos 1700
d.C., esse "Sesstris" foi sempre referido como um fara negro, assim como
seu filho Amenemat III, o que a historiografia do sculo seguinte teria
comeado a ocultar. Mneton, citado por Brancaglion Jnior, o descreveu
como "um poderoso guerreiro, com 2 metros de altura". Credita-se a Herdoto
uma certa aura de lenda que se criou em torno do nome desse "Sesstris",
por conta, ao que parece, de confuso e cumulao com as tambm
impressionantes realizaes guerreiras e expansionistas dos posteriores
Tutms III, no sculo XV, e Ramss II, cerca de 300 anos mais tarde. Ver
RAMSS II; TUTMS III.
SEQUEMIB. Fara egpcio da II dinastia (c. 2980-2686 a.C.), poca tinita,
sucessor de Peribsen.
SEQUEMQUET. Fara egpcio, sucessor de Djoser.
SEQMET.  Um dos nomes ou aspectos da deusa sis.
SEQUEMTER DJOSER. Governante egpcio da III dinastia.  provavelmente o
mesmo Djoser ou algum a ele associado.
SEQNAKHT. O mesmo que Setnact.
SEQUENENR. Ver TAO.
SERERE. Povo do atual Senegal, localizado na regio entre This e o rio Ferlo.
No sculo XI, vindos do vale do rio Senegal, fugindo da desertificao e da
ameaa do Isl, estabeleceram-se no seu stio atual, onde, aliados aos
uolofes ou jalofos, fundaram o reino de Ualo (Walo). Cheikh Anta Diop atribui
origem serere a alguns faras egpcios dos primeiros tempos, como Peribsen.
Ver SENEGMBIA.
SESHONQ. Ver XEXONQ.
SESSTRIS. Ver SENUSRET.
SETENQUETE. Ver SETNACT.
SETH. Divindade egpcia. Arqui-inimigo de Hrus e Osris, a quem, segundo a
mitologia, retalhou em vrios pedaos. Personificao da Inteligncia do Deus
Supremo ao materializar seu pensamento, e das leis fsicas que regem a
Criao. Associado pelas culturas ocidentais  destruio,  violncia e aos
sofrimentos pelos quais o ser humano passa durante a vida terrena  e da,
erroneamente, ao "mal" , seu nome, segundo L. Bacha, seria o timo remoto
da palavra Sat.
SETI. Nome de dois faras egpcios da XIX dinastia. Seti I  Filho e sucessor
de Ramss I, alm de restaurar e construir templos e monumentos,
empreendeu campanhas no Oriente Prximo, estabelecendo uma srie de
postos fortificados entre o Delta e Gaza e conseguindo recuperar posies
egpcias na Sria. Vendo nos hebreus que viviam no lado leste do delta do
Nilo, sob a proteo de faras anteriores, uma ameaa, resolveu torn-los
escravos do Estado egpcio. Seu nome significaria "aquele de Seth", o deus
cultuado por sua famlia. Seti II  Vice-rei da Nbia durante o reinado de
Ramss II, marchou sobre Tebas para restabelecer a ordem num Egito
tumultuado por srios, lbios e palestinos. Com o apoio do clero de Amon,
desposou Tauseret, viva de Meneft e rainha do Baixo e do Alto Egito. Nessa
condio, destronou o usurpador Amenems. Reinou durante perodo
relativamente calmo, sendo sucedido por seu filho Siptah ou Meneft-Siptah, o
qual, entretanto, antes de assumir efetivamente o trono, por ser ainda criana,
teve como regente sua madrasta, a rainha Tauseret, de origem sria.
STIF (SETIFIS). Antiga cidade africana, pertencente  Mauritnia Cesariense, na
atual Arglia.
SETMIO SEVERO. Imperador romano (146-211 d.C.), nascido em Leptis Magna,
no norte da frica. Aprendeu latim como lngua estrangeira e, segundo Appiah
e Gates, era um berbere.
SETNACT. Fara fundador da XX dinastia egpcia. Pai de Ramss III, expulsou
o usurpador srio Iarsa.
SHABA. Ver CATANGA.
SHABACA. Ver XABACA.
SHANAKHDAKHETE. Ver XANAQDAQUETE.
SHEBITQO. Ver XEBITCU.
SHILLUK. Ver XILUQ.
SHU. Ver XU.
SIASPICA. Rei de Cuxe em Meroe, em c. 487-468 a.C.
SIENA (SIEMNA). Cidade da Tebaida, posto militar importante no primeiro milnio
a.C., na qual se encontravam ricas jazidas de granito, de grande importncia
estratgica. Seu territrio localizava-se s margens do Nilo, prximo 
fronteira da Nbia, nos limites da atual cidade de Assu, abaixo da primeira
catarata. Seu nome egpcio era Heh; o nome Assu foi dado pelos rabes.
SILCO (SELQUIS). Rei dos nobatas. Comeou seu reinado por uma campanha de
reunificao de seu povo, ento dividido em pequenos reinos independentes.
Em 548 d.C., apoderou-se de Talmis (Calabch), capital dos blmios,
mandando gravar, por um escriba egpcio, inscrio na qual se intitulava "rei
da Nobcia e de todos os etopes". Convertido ao cristianismo, foi batizado
segundo o rito monofisista. Seus sucessores foram Eirpanom e Toquiltoton.
SINAI, Pennsula do. Regio do Egito, em grande parte desrtica, a leste do
delta do Nilo e s margens do mar Vermelho, no rumo da antiga regio do
Retenu.
SIND. Regio que compreendia os atuais territrios de ndia e Paquisto, tidos
por algumas tradies como povoados originados por migrantes cuxitas ou
etopes, ancestrais dos atuais povos afro-indianos, emigrados da frica,
provavelmente atravs da Arbia e das costas do Ir e Beluquisto, segundo
Larkin Nascimento. Ao tempo de Herdoto e consoante seu relato, havia duas
grandes naes "etopes", uma no Egito outra em Sind. Observe-se a
existncia, na ndia, de uma regio denominada Cutch (nome que parece
evocar "Cuxe") na regio de Gujerat, na fronteira com o Paquisto. A
separao dos povos de Sind de seus parentes cuxitas teria acontecido em
tempos remotos, antes da chegada dos chamados "arianos"  ndia.
SIPOR. Ver ZPORA.
SIPTAH (MENEFT-SIPTAH). Fara egpcio da XIX dinastia. Sucessor de Seti II, 
tambm mencionado como Ramss-Siptah. Entronizado ainda criana, teve
como regente a madrasta, Tauseret, que efetivamente o sucedeu aps sua
morte.
SIRTES. Zona vizinha  atual Lbia.
SISAQUE. Uma das formas usadas para o nome do fara Xexonq.
SISTEMAS GRFICOS. Ver ESCRITA, Sistemas de.
SISTRO. Nome de dois antigos instrumentos musicais. O primeiro, difundido
entre os egpcios, seria uma trombeta usada nos sacrifcios a sis. O
segundo, de percusso, seria uma espcie de chocalho em forma de raquete,
na qual trs ou quatro varetas de ferro, soltas em uma das extremidades,
produziam som quando agitadas. As sacerdotisas de Amon em Cuxe so
mencionadas como as "Tocadoras de Sistro".
SMENDES. Fara egpcio. Vizir do Baixo Egito; aps a morte de Ramss XI
proclamou-se fara e legitimou seu poder provavelmente por meio do
casamento com a filha de seu antecessor, iniciando assim a XXI dinastia.
Transferiu a capital de Pi-Ramss para Tnis, na regio ocidental do Delta.
SMENQCAR (SMENKHKAR). Fara do Egito, sucessor de Aquenaton. Segundo
algumas verses, era irmo de Aquenaton, a quem sucedeu. Segundo outras,
sob esse nome esconder-se-ia uma das identidades da rainha Nefertite, a qual
teria tambm assumido o nome de trono "Neferneferuaton".
SNEFRU. Ver SENEFURU.
SOBEQ. Deus-crocodilo, citado em textos sagrados como o esprito protetor
dos egpcios. Sob esse nome, o deus Seth era invocado em Dendera.
SOBEQNEFRU (NEFERUSOBEQ). Rainha egpcia no final da XII dinastia. Filha de
Amenemat III e esposa-irm de Amenemat IV. Foi a primeira mulher a assumir
o trono do Egito faranico efetivamente como governante, com todos os
poderes de Estado. Seu nome  tambm transliterado como Sebeqnefrur.
SOFALA. Antiga cidade litornea do ndico, no sudoeste da atual Repblica de
Moambique.
SOFER e MASQUIR. Ttulos correspondentes a funes cananeias de inspirao
egpcia existentes na corte do rei Davi de Israel (c. 1000 a.C.). Um era o
arauto real, o outro uma espcie de secretrio de Estado, conforme H.
Cazelles.
SOFONIAS. Profeta do Antigo Testamento. Deixou mensagens oraculares
reunidas em um livro que leva seu nome, anunciando a destruio da "Etipia",
datado, segundo Cazelles, do reinado de Josias, rei de Jud,  poca da XXV
dinastia cuxita no Egito, a quem suas ameaas se dirigiam.
SOLIMAN TEHAGUI. Personagem da tradio etope, da linhagem de Meneliq.
Com provveis 90 anos, teria morrido em 936 a.C., ano em que recebeu a
notcia da derrota de Zera, vencido pelos hebreus. Ver SALOMO.
SOLON. Estadista ateniense, um dos sete sbios da Grcia. No Egito (c. 550
a.C.), estudou direito, cincias naturais, filosofia e teologia.
SOMLIA. Pas do noroeste da frica, na pennsula de mesmo nome, cujo
territrio abrigou, na Antiguidade, o afamado pas de Punt. Os romanos
chamavam a regio de "pas dos aromas", por causa do incenso que dela era
exportado. Segundo algumas fontes, o atual povo somali, aparentado aos
galas da Etipia e aos haus da Nigria, constituiria um grupo hbrido
originado de casamentos de dois patriarcas rabes com mulheres do grupo
tnico Dir, cujos descendentes, no sculo X d.C., teriam migrado do golfo de
Aden em direo ao norte do Qunia. Na Antiguidade, a deusa egpcia Hathor
era invocada, no litoral somali, como "Senhora de Opon", em referncia a
uma regio local. Ver ETIPIA; SAB.
SONCHIS. Sbio e profeta egpcio, mestre de Pitgoras.
SONGHAI. Ver SONRAI.
SONINQU. Grupo tnico do atual Senegal. Seus primeiros ncleos formaram-
se, segundo Lpez-Davalillo, entre 500 e 400 a.C. Senhores de um passado
histrico importante, representariam, entretanto, um ramo da famlia mand
bastante miscigenado com mouros e peles. Vivendo entre os rios Nger e o
Senegal, seu antigo hbitat  a regio do Macina. Entre os mandingas e os
bambaras, so conhecidos sob o nome marka; em Djen so chamados nono;
e no Saara, nas regies de Taoudeni e Ualata, so conhecidos como azers.
Ver GANA; SENEGMBIA.
SONRAI (SONGHAI). Grupo tnico da frica Ocidental. No incio da Era Crist,
pescadores nmades de etnia sorko estabelecem-se na grande curva do rio
Nger, onde se mesclam aos agricultores soromba, provavelmente originrios
da regio do rio Volta e talvez relacionados, segundo N'Diaye, com os atuais
corombos ou gurmantchs  nome este que parece evocar o dos garamantes,
antigos nmades do deserto. Durante os sculos V e VI, espalhadas ao longo
das margens do Nger, as comunidades que se formam vo integrando outras
e organizando-se em cls.  ento que, segundo a tradio, o heri fundador
Faran Macan Bote (to grande que comia um hipoptamo inteiro e bebia os
charcos do rio de uma s vez) unifica esses cls, funda a dinastia dya e ergue
ao redor dela o reino de Cuquia, semente do futuro imprio songai de Gao.
Algumas tradies locais ligam a origem do povo Sonrai ao episdio bblico do
xodo. Os habitantes da regio de Tiendadi dizem-se descendentes do
"fara", talvez Ramss II.
SUALE, Costa. Faixa litornea do continente africano no oceano ndico, com
cerca de 3 mil km, entre o sul da Somlia e o norte de Moambique. Foi local
de intensas trocas culturais entre a frica e o Oriente desde o sculo II d.C. e
principalmente entre os anos 500 e 800.
SUALES. Denominao dada pelos mercadores rabes, antes do advento do
Isl, aos habitantes do litoral africano no ndico, regio da atual Tanznia.
Esses povos, vindos do oeste, da regio do Baixo Congo, teriam chegado 
costa entre 100 e 200 d.C.
SUDO. Nome (do rabe sudan, negros) durante muito tempo aplicado a toda a
frica ao norte do Equador e ao sul do Saara, do Senegal ao mar Vermelho,
ou seja, ao "cinturo verde semirido" que corre entre o Saara e a regio das
florestas, conforme Ferkiss. O atual territrio da Repblica do Sudo, limitado
principalmente por Egito, Lbia, Chade e Etipia, e cortado pelo rio Nilo, foi na
Antiguidade importante ncleo civilizatrio africano. Sudo merotico 
Expresso moderna usada para designar a Nbia ao tempo em que Meroe foi
sede do governo e capital do mundo cuxita. Sudo niltico  Denominao da
regio do Sudo ao longo do curso do Nilo que na Antiguidade representou o
nascedouro de diversos influxos civilizadores, resultantes do encontro entre o
Egito, a Nbia e a frica profunda. Atravs do Sudo e pelas guas e
margens do Nilo, o Egito faranico difundiu-se at muito longe; a Nbia
fornecia ao Egito guerreiros e trabalhadores, alm de suas prprias riquezas e
outras vindas da frica profunda. Ver CUXE; EGITO; ETIPIA; MEROE; NAPATA; NILO.
SUMAORO CANT. Rei dos sossos, conquistador de Kumbi Saleh, no antigo
Gana, no incio do sculo XIII d.C. Segundo Ki-Zerbo, grande guerreiro e
mago poderoso, foi ferrenho adversrio do Isl.  tambm mencionado como
Sumanguru.
SUMER. Antigo pas localizado no vale dos rios Tigre e Eufrates
(Mesopotmia), nascido por volta de 3000 a.C., a partir de provvel colnia do
pas de Cuxe, com populao oriunda do vale do Nilo. Os sumrios so
costumeiramente referidos como um povo antiqussimo, de cujas origens nada
se sabe. Entretanto, Cheikh Anta Diop lhes atribui essa origem africana. Ver
SEMITAS.
TAA.   Ver   TAO.
TABIRQUA. Rei de Cuxe em Meroe, em c. 200-185 a.C.
TACFARINATE. General nmida, resistiu aos romanos  poca de Tibrio (14-37
d.C.). Ver NUMDIA.
TAFILETE. Antiga regio do atual Marrocos, tida como lugar de origem da
herona Tin Hinan.
TAFNES. Cidade egpcia mencionada no Antigo Testamento, em Jeremias, 2:16:
"Sim, os moradores de Mnfis e de Tafnes raparam a cabea de Israel." O
profeta Jeremias viveu entre 627 e 580 a.C., poca dos faras Psamtico I e
Necau II, tendo provavelmente falecido no Egito.
TAHARCA. Soberano de Cuxe e fara do Egito. Foi o maior dos soberanos da
XXV dinastia, e um dos maiores soberanos da Antiguidade egpcia, tanto que
 o nico rei cuxita citado nominalmente na Bblia. Filho de Piye e sucessor de
Xabataca, quando de sua coroao, sua me viajou cerca de 1.200 milhas
(cerca de 3 mil km) da Nbia a Mnfis para participar das solenidades. Seu
poder estendeu-se do Mediterrneo at a sexta catarata, e possivelmente at
mais para o sul. Governou de Tanis, no delta, mas desenvolveu
extraordinariamente os recursos econmicos da Alta Nbia. Durante seu
reinado, as maravilhas arquitetnicas que ergueu por todo o vale do Nilo, de
Napata a Tebas, atestavam seu poder. Provavelmente foi sob suas ordens
que a metalurgia do ferro foi introduzida em Napata e Meroe. Alm disso,
plantou vinhedos e intensificou consideravelmente a produo aurfera, o que
lhe permitiu construir diversos templos, entre os quais o de Siena, erigido em
louvor aos deuses do fara "Osorta-Son III", provavelmente Osorcon, ao qual
se dirigia  segundo Budge, citado por Anta Diop  como a um pai divino.
Governando absoluto, sem qualquer outra influncia, nem mesmo inimigos
destruindo os narizes de suas esttuas, segundo um costume local, para que
sua alma no tivesse paz na terra dos mortos, ou arrancando os uraeus que o
caracterizavam como "Senhor das Duas Terras", conseguiram apagar sua
marca (conforme Draper, 2008). Seu reinado termina sob os assrios, que
tomam Mnfis em 671 e Tebas em 664.  tambm mencionado como
Taharqua, Tiraca, Tirhaca, Tirhaka etc. Ver CUXE.
TALACAMANI. Soberano de Cuxe, reinante em Meroe, em c. 435-431 a.C.
TALES DE MILETO. Filsofo e cientista grego (624-547 a.C.). Viajou para o Egito
ainda jovem, instruindo-se com sacerdotes do vale do Nilo, principalmente em
cincias como filosofia, astronomia e geometria, e s retornando
definitivamente  Grcia j idoso. Segundo Digenes Larcio, historiador
grego do sculo III d.C. (citado por Obenga, 2002), Tales, em vez dos
mestres mesopotmios e babilnios que lhe so s vezes atribudos, s teve
como instrutores regulares sbios sacerdotes egpcios. Ainda segundo
Larcio, quando descobriu como inscrever um tringulo retngulo num crculo,
Tales de Mileto teria sacrificado um boi a divindades egpcias, em sinal de
agradecimento pela descoberta.
TMARA. Fruto da tamareira, de grande valor nutritivo e diettico, utilizado na
produo de farinha, acar, vinho etc., da sua grande importncia na
Antiguidade afro-asitica. A espcie desenvolvida na Nbia era das mais
apreciadas.
TAMERLEDEAMANI. Rei de Cuxe em Meroe, aproximadamente entre 266 e 283
d.C.
TANA. Lago africano de 3.060 km2.  uma das fontes do rio Nilo.
TANAUTAMUN (NUATMEAWN). O mesmo que Tanutamon.
TA-NETER. Nome, significando "o pas do sagrado", pelo qual os antigos
egpcios designavam a Etipia.
TANGANICA. Lago africano, situado longitudinalmente na atual fronteira entre
Tanznia e Repblica Democrtica do Congo, banhando ainda o sul do Burundi
e o norte da Zmbia. Com cerca de 35 mil km2 de superfcie,  o segundo
maior lago africano. A povoao inicial de seus arredores est provavelmente
ligada s diversas vagas migratrias que, entre os anos 400 e 1000 d.C.,
vindas do leste do continente, alcanaram a regio de Catanga ou Shaba, na
Repblica Democrtica do Congo.
TANIIDAMANI. Rei de Cuxe em Meroe, em c. 120-100 a.C.
TANIS.  Cidade do Baixo Egito, na regio ocidental do delta do Nilo, elevada 
condio de capital na XXI dinastia.
TANITA. Relativo a Tanis. Denominao da XXIII dinastia de faras egpcios,
que reinou aproximadamente entre 1085 e 750 a.C., em aluso a sua capital.
TANUTAMON. Soberano de Cuxe e fara do Egito, entre 664 e 653 a.C.,
tambm mencionado como Tanetamani. Filho de Xabataca e sucessor de
Taharca, foi o ltimo fara da XXV dinastia a efetivamente governar o Egito.
Vencido pelos assrios, refugiou-se em Napata, onde morreu. Seus
sucessores continuaram, em Napata, a intitular-se "reis do Alto e do Baixo
Egito".  mencionado em listagem provavelmente extrada do Kebra Nagast
como soberano da Etipia, na dinastia iniciada por Meneleq ou Meneliq, entre
668 e 664 a.C. Ver TANAUTAMUN.
TANVETAMANI (TANWETAMANI). O mesmo que Tanutamon.
TANZNIA. Pas da frica Oriental, na regio dos Grandes Lagos. Segundo
Phillipson, citado por Obenga (1985), a povoao da poro norte de seu
territrio iniciou-se com a chegada, entre 200 e 100 a.C., de migrantes
provenientes do Baixo Congo. Ver ENGARUKA.
TAQRUR (TEKRUR). Antigo reino dos tuculeres (toucouleurs) do atual Senegal.
Por extenso, o nome designou o antigo Sudo, o "pas dos negros" ou
"Negrcia", ou seja, a vasta regio africana que se estende do sul do Saara,
desde a bacia do Nilo superior, at o oceano Atlntico, a oeste. Seu nome
original era Teqruri. Ver TUCULER.
TAQUELOT. Nome de dois faras egpcios da XXII dinastia, bubastita, e um da
XXIII, tanita. Taquelot I reinou por volta de 909 a.C. e teve seu poder
contestado por seu irmo Iuelot, sumo sacerdote em Tebas; Taquelot II
reinou entre 860 e 835 a.C., abandonando Tebas provavelmente por conta de
uma guerra civil; Taquelot III teria sido sucedido por Rudamon, em c. 757 a.C.
TAQUIEDAMANI (TECORIDEAMANI). Rei de Cuxe em Meroe, em c. 146-165 d.C.
TARACA. Ver TAHARCA.
TAO. Nome de dois faras egpcios da XVII dinastia, tebana. O primeiro,
chamado "Tao, o Velho", era casado com a rainha Tetixeri, que desempenhou
importante papel na conduo dos negcios do Estado. O segundo,
Sequenenr Tao II ou "Tao, o Bravo", dedicou-se  guerra de libertao
contra os hicsos, sendo morto em combate.
TAREQUENIVAL (TAREQUENIDAD).  Rei de Cuxe em Meroe, em c. 85-103 d.C.
TA-SETI (TA-STI). Nome que significa "o pas do arco", pelo qual os antigos
egpcios designavam a Nbia em referncia  grande destreza dos nativos do
pas como arqueiros. O povo de Ta-Seti tinha os mesmos costumes
funerrios, a mesma cermica, os mesmos instrumentos musicais e artefatos
dos egpcios.
TASSILI. Regio do Saara central, na atual Arglia. Foi bero de diversas
civilizaes desde o perodo neoltico, conforme descobertas feitas a partir de
1933.
TAUSERET (TAUSRET). Rainha do Egito na XIV dinastia, Imprio Novo. Madrasta
de Siptah, foi regente nos trs primeiros anos do reinado desse fara. Aps a
morte do enteado, assumiu efetivamente o trono, sendo, como Nefertari,
Hatchepsut, Sobeqnefru e provavelmente Nefertite, uma dentre as raras
mulheres a efetivamente governar o Egito faranico. Ver SETI II.
TCHOKWE. Ver QUIOCO.
TEBAIDA. Uma das trs divises do Egito antigo, o mesmo que Alto Egito.
Tebas era sua capital.
TEBAS. Localidade no Alto Egito, na margem leste do Nilo, a 700 km da atual
cidade do Cairo, em terras correspondentes s atuais Luxor e Carnac, 
margem direita do rio, e Qena,  margem esquerda. Abrigou o maior conjunto
de templos do Egito: o conjunto do deus Montu, construdo sob Amenfis III; o
do grande templo de Amon; e o dedicado  deusa Mut. Lugar santificado por
excelncia, l o cargo de sacerdotisa do deus Amon era privativo de mulheres
originrias de Meroe, o que, segundo Anta Diop, refora a ideia da existncia
de fortes laos, at mesmo biolgicos, do Baixo Egito com os povos
interioranos da Nbia e da Etipia. No Mdio Imprio, durante a XI dinastia,
Tebas sucede Mnfis como capital. Durante o Segundo Perodo Intermedirio,
o Egito em conflito com os hicsos, a cidade  palco da criao de uma nova
unidade poltica, de um novo Estado egpcio. A partir de Tebas, por volta de
1550 a. C., Amsis I expulsa os hicsos e funda o Imprio Novo, mantendo a
cidade como sua capital.  ento que ela se torna um dos maiores centros
urbanos do mundo antigo. Tempos depois, em aluso  destruio de Tebas
por Assurbanipal, em 664 a.C., segundo a Bblia, o profeta hebreu Nahum
lana a seguinte indagao: "Nnive, ser que voc  melhor do que Tebas, a
capital do Egito? Ela tambm era protegida por um rio: o Nilo era como um
muro que a defendia. Tebas dominava o Egito e a Etipia; era a cidade mais
poderosa do mundo, e o pas da Lbia era seu aliado. Mesmo assim o povo
de Tebas foi feito prisioneiro; eles foram levados para fora do seu pas, as
crianas foram esmagadas nas esquinas das ruas, e os inimigos tiraram a
sorte para ver quem ficava com as pessoas mais importantes e depois as
levaram embora presas com correntes" (Naum, 3:8.).
TECELAGEM. A arte de urdir fios ou fibras para confeccionar tecidos j era
conhecida na Antiguidade africana. Talvez ainda na pr-histria, primeiro
usavam-se pelos de animais, como a l do carneiro, depois, comeou-se a
utilizar fibras vegetais transformadas em fios, como foi o caso dos egpcios,
que usavam linho, e dos povos bantos da frica Meridional que, desde tempos
bastante remotos, utilizavam a rfia na confeco de tecidos. Segundo A.
Costa e Silva (2008), em muitas regies africanas, nos tempos pr-coloniais,
o tear era pea indispensvel nas casas de famlia, o que muitas descobertas
arqueolgicas em stios do leste ao oeste africano confirmam. E, j em
tempos mais prximos, no s nesses ncleos familiares, mas tambm em
oficinas profissionais, como as de Kano, no norte da Nigria, fabricavam-se
tecidos de alta qualidade. Desde o sculo XIII, ainda segundo Silva, tecidos
belos e duradouros eram exportados para a Europa, embora os teares
africanos fossem estreitos, produzindo tiras de no mximo 25 cm de largura,
como as do que no Brasil escravista se chamou "pano da costa". Usando
vrios tipos de teares, desenvolvidos ao longo dos tempos, homens e
mulheres africanos dedicavam-se,  arte e ao ofcio da tecelagem. At os dias
atuais, o gosto pelos tecidos vistosos  uma caracterstica dos povos
africanos; gosto esse que remonta, sem dvida, a uma arte e um ofcio
desenvolvidos no prprio continente desde a Antiguidade.
TECORIDEAMANI. Ver TAQUIEDAMANI.
TEDA. Povo habitante do Saara, localizado a cerca de 800 km do
Mediterrneo. Tidos por alguns escritores como "brancos de pele negra", so,
segundo Mauny, efetivamente negros e descendentes de populaes negras
do perodo neoltico. Ver GARAMANTES.
TEFNACTE (TEFNAKHT). Governante egpcio (c. 724-712 a.C.), profeta da deusa
Neith e sacerdote de Ptah. Prncipe do nomo egpcio de Sas e senhor de
todo o oeste ao tempo do fara Piye. Alguns historiadores no o reconhecem
como fara, apenas como prncipe. Governou de Sas, intitulando-se "grande
chefe dos Libu (ver LEBU) e grande prncipe do oeste", e fundou a XXIV
dinastia. Conseguindo desvencilhar-se de Piye, no avano deste at o Delta
com apoio dos assrios, foi, entretanto, derrotado por ele logo depois,
reconhecendo sua grandeza e rogando-lhe clemncia, segundo Draper (2008).
Embora vencido, retomou o poder quando Piye retornou a Napata. Ver PIYE;
XEXONQ.
TEHENU. Nome pelo qual a Lbia  referida numa estela do fara Meneft ou
Mernept. Ver TEMEHU.
TEKRUR. Ver TAQRUR.
TEQUE (BATEQUE). Povo da regio central e meridional da atual Repblica
Popular do Congo. Integrando as populaes que migraram dos Camares
para a bacia do rio Congo entre os anos 1000 e 200 a.C., seus ancestrais
provavelmente criaram o primeiro ncleo de civilizao na frica Central.
Trabalhando o ferro, o cobre, a rfia e a cermica, estabeleceram, na
confluncia dos rios Ogou e Mpasa, um ponto mercantil importante. No
sculo XIII d.C., o imprio Bateque constitua uma poderosa fora na regio.
TEQUERIDEAMANI. Soberano de Cuxe em Meroe, em c. 246-266 d.C.,  poca
do imperador romano Treboniano Gallo.
TEQRUR. Ver TAQRUR.
TEL-EL-AMARNA. Ver AMARNA.
TEMEHU. Nome pelo qual eram chamados os primitivos habitantes da Lbia, os
quais se dividiam em dois grupos: Tehenu, ao norte, e Nehesi, ao sul. Segundo
Winters, por volta de 2200 a.C., os primeiros, deslocados at o Alto Nilo,
teriam comeado a erguer Cuxe, a partir de Querma, na regio de Dongola.
Ainda consoante Winters, Diop lembra que o mais antigo substrato da
populao lbia era uma populao negra do Saara meridional. Ver LEBU.
TENER. Plancie do Saara, a oeste do Hoggar.
TENUTAMON. Ver TANUTAMON.
TEOLOGIA MENFITA. Nome pelo qual se tornou conhecido o conjunto de textos
quemticos sobre a criao do universo, elaborado durante a XXV dinastia e,
por isso, tambm referido pelos egiptlogos de lngua inglesa como The
Shabaka Text, ou seja, "o texto de Xabaca". Ver XABACA.
TEOS.  Fara egpcio (c. 365-360 a.C.) da XXX dinastia, em Sebenytes, poca
Baixa.
TERNCIO. Nome pelo qual passou  histria o poeta Publius Terentius Afer (c.
185-159 a.C.), nascido e falecido em Cartago. Autor consagrado, foi escravo
de Terncio Lucano, que o alforriou. Referido sempre como "de origem
africana", circunstncia presente inclusive em seu sobrenome ou epteto,
"Afer", sua verve humorstica foi modelo para escritores clssicos franceses,
como Molire.
TERITEDACATEY. Rei de Cuxe em Meroe, em c. 194-209 d.C.
TERITNIDE. Ver ARETNIDE.
TERTULIANO. Nome pelo qual era conhecido Quintus Septimius Florens
Tertullianus (c. 155-222 d.C.), sacerdote e mestre catlico nascido e falecido
em Cartago. Pelas obras que legou  posteridade,  reconhecido como
construtor de uma linguagem teolgica inovadora.
TETI (OTHOES). Fara egpcio da VI dinastia (c. 2320 a.C.). Em novembro de
2008 era noticiada a descoberta do tmulo da rainha Sechseset, mencionada
ento como sua me, porm referida como sua filha em Clayton (2004). Em
notcia publicada em O Globo em 12.11.2008: "Pirmide de 4,3 mil anos
achada no Egito...", ressalta-se o fato de que a rainha era "uma grande
colecionadora de frmulas para alisar os cabelos", o que  um dado
importante no estabelecimento das origens tnicas de alguns governantes
egpcios. Ver EGPCIOS, Etnicidade dos.
TETIXERI. Rainha do Egito, mulher do fara Taa ou Tao; av e tutora do fara
Amsis.
THAS. Penitente egpcia do sculo IV d.C., canonizada pela Igreja Catlica
como Santa Tas. Segundo a tradio, depois de viver como cortes, foi
convertida por So Pafncio, que a levou a um convento onde, em penitncia,
depois de dois anos a po e gua, veio a falecer. Seu martrio foi assunto do
romance Thas, de Anatole France, e da pera de mesmo nome, composta
por Massenet.
THOTH-HOTEP. Prncipe da Antiguidade egpcia. Viveu por volta de 1450 a.C.,
poca da rainha Hatchepsut e do fara Ramss III, e era "nascido de pais
nbios, a julgar por seu nome", segundo Save-Sderbergh. O segundo
elemento desse nome, "hotep", est presente ainda em "Amen-hotep",
tambm transliterado como "Amenfis", o que leva a supor a mesma origem
nbia para os faras assim chamados. Nesses, o elemento "Amen" seria uma
forma para o nome do deus Amon, integrando o nome real, da mesma forma
que o do deus Thoth. Ver MENTUHOTEP.
THUTMS. Ver TUTMS.
TIBESTI-HOGGARI. Regio montanhosa e frtil do Saara, estende-se por cerca
de 700 km no nordeste da atual Repblica do Chade, prximo  fronteira com
a Lbia. Seu territrio abriga os pontos culminantes do Saara, bem como
diversos osis.
TICHITT. Civilizao florescida nas proximidades da atual Mauritnia, ao norte
do rio Senegal, provavelmente entre 1400 e 1220 a.C.
TIFO. Nome atribudo por Herdoto ao irmo assassino do deus egpcio
Osris.  provavelmente helenizao do nome Seth.
TIGR. Regio no norte da Etipia, atualmente constitui uma provncia.
Tambm denominao de um grupo tnico natural da regio.
TIN HINAN. Herona fundadora do povo Tubu, no Tibesti, descendente dos
antigos trogloditas. Tida como ancestral dos tuaregues e, pelo lado materno,
de todos os nobres das tribos saarianas. Ver TUA-REGUES.
TINIS. Antiga cidade egpcia prxima a Abidos, a cerca de 550 km ao sul da
atual cidade do Cairo.  tida como o bero dos faras do perodo dinstico
inicial, a chamada "poca tinita".
TINITA, poca. Referente a Tinis, capital do Egito  poca arcaica. A poca
tinita  o perodo da histria egpcia compreendido mais ou menos entre os
governos da I e da II dinastias.
TIRACA. O mesmo que Taharca: "Os assrios souberam que o exrcito dos
egpcios, comandado pelo rei Tiraca, da Etipia, vinha atac-los. Quando o rei
da Assria soube disso, mandou uma carta para o rei Ezequias, de Jud"
(Bblia, Segundo Livro dos Reis, 19:9).
TTULOS FARANICOS. Ver FARAS: Nomes e ttulos.
TIY. Esposa do fara Amenhotep III da XVIII dinastia. Embora no
pertencesse a nenhuma linhagem real, teve grande influncia na conduo dos
negcios de Estado e foi a primeira a usar o ttulo de "Grande Esposa Real".
Segundo Laffont, foi a mais letrada das rainhas do Egito.
TOQUILTOTON. Rei da Nobcia, aps Silco.
TTEM.   Cada um dos espritos benficos que, segundo antigas tradies,
inclusive africanas, protegem determinados grupos, como famlias, cls e
tribos. Ver RELIGIES.
THOTH. Nome adotado pelos gregos para designar o deus Djeheuty, divindade
cultuada principalmente no Alto Egito e na Nbia, criador e patrono da escrita,
dotado de grandes poderes mgicos. Ver HERMES TRISMEGISTO.
TOUCOULEURS. Ver TUCULER.
TRANSAARIANO, Comrcio. O comrcio atravs do Saara baseava-se, na
Antiguidade, principalmente em trs espcies de mercadorias: ouro, sal e
escravos.  poca de Cartago e da colonizao fencia, um intenso fluxo
comercial atravs do grande deserto, interligando vrias partes do continente,
favoreceu a introduo de vocbulos, bem como a difuso de ideias e objetos
novos na cultura negro-africana. Ver ROTAS DE COMRCIO.
TRANSVAAL. Provncia setentrional da frica do Sul. A povoao da rea iniciou-
se aproximadamente entre 300 e 400 d.C., quando migrantes bantos, vindos
da regio dos Grandes Lagos, passando pelas terras altas a oeste do lago
Niassa, alcanaram as proximidades das nascentes do rio Limpopo para
fixarem-se nos stios de Mapunguve e Bambandianalo.
TRIBO. A primeira forma de organizao social humana foi a famlia, assim
compreendido o conjunto de indivduos unidos por laos de consanguinidade e
cultuando um ancestral comum, sacralizado como divindade domstica. Esse
culto exclusivo, segundo Coulanges, no permitia que duas famlias se
misturassem ou confundissem. Mas ocorria tambm a unio de duas ou mais
famlias para celebrar outro culto comum. Assim foi que surgiu o que entre os
romanos se chamou curia e entre os gregos fratria, cada uma com seu chefe
e com sua divindade protetora, propiciada com sacrifcios, alimentos e
bebidas. Essas unidades, por sua vez, crescendo naturalmente, deram lugar
s tribos, cuja divindade principal era tambm seu heri fundador, que lhe
dava o nome. Embora os estudos de Coulanges se restrinjam a Roma e
Grcia, tudo nos leva a entender que essa evoluo tenha ocorrido tambm,
dentro das devidas propores, nos principais polos de civilizao da frica.
Sabe-se hoje que, j a partir do IV milnio a.C., povos africanos, inicialmente
reunidos em pequenas comunidades mais ou menos autossuficientes, teriam
comeado a constituir suas primeiras unidades polticas.
TRIPOLITNIA. Ver LBIA.
TROGLODITAS. Antigo e lendrio povo localizado, de acordo com escritos
clssicos, na Etipia. Seus indivduos so descritos como moradores de
cavernas que se alimentavam de serpentes, lagartos e outros rpteis.
Utilizavam uma linguagem verbal completamente diversa daquelas dos outros
povos, que parecia "guinchos de morcegos", segundo Herdoto. Conforme
Bainier, ao final do sculo XIX d.C., seus descendentes constituam o grupo
populacional dos ababdahs, no Egito, e dos bicharieh, na Etipia. Como
informa Ki-Zerbo, os tubus do Tibesti descendem tambm desses trogloditas.
Ver NEHSIS.
TSAVI TERHAQ VARADA. Soberano etope (c. 723-674 a.C.) da dinastia de
Meneliq, consoante listagem provavelmente extrada do Kebra Nagast; cf.
www. rastafarionline.com. Ver TAHARCA.
TUAREGUES. Uma das tribos berberes do Saara. Provavelmente descendente
dos garamantes ou dos chamados "atlantes", nome genrico das populaes
que habitavam o entorno das montanhas Atlas, sendo talvez os primeiros
habitantes do Saara. Ver TIN HINAN.
TUBU. Povo saariano da regio do Tibesti-Hoggari. Ver TIN HINAN; TROGLODITAS.
TUCULER (TOUCOULEURS). Denominao de um grupo tnico oeste-africano
localizado a partir do atual Mali. Conforme ensina Cheikh Anta Diop, os
tuculeres so originrios da bacia do Nilo, mais especificamente da Nbia. A
partir da existncia na Etipia de um povo conhecido como Teqrouri, Diop
admite que os tuculeres sejam parte desse povo; e que a regio do Taqrur,
em vez de dar seu nome a eles, teria recebido dos teqrouris a sua
denominao. Segundo suas prprias tradies, os tuculeres se dizem
oriundos da regio do Nioro, no atual Sudo. Alguns autores,
equivocadamente influenciados pela forma francesa toucouleurs, traduzem o
nome, em portugus, para "tucolores". Ver TAQRUR.
TUNSIA. Pas africano do litoral do Mediterrneo, outrora parte de Cartago. Na
Antiguidade, fencios, gregos e romanos viram o domnio da regio como
questo estratgica. rea de considervel riqueza agrcola e mercado de
consumo promissor, o atual litoral tunisiano era local de escoamento de
mercadorias e matrias-primas que vinham do interior do continente em
direo ao Mediterrneo. A populao berbere, etnicamente prxima dos
egpcios e semitas, a princpio admitiu a presena dos estrangeiros. Mas
resistiu ao controle sobre extenses mais amplas, como no caso da presena
romana em Cartago (Tunsia e Arglia) e da grega na Cirenaica e na Lbia.
TUTANCAMON (TUTANKHAMON). Fara egpcio da XVIII dinastia, reinante no
Imprio Novo, nascido Tutancaton, filho da rainha Tiy. Subiu ao trono com
cerca de 10 anos de idade, quando da morte de Aquenaton, pai da princesa
Anquesenpaton, mais tarde sua mulher. Sucedendo Semenqcar, assumiu o
poder na capital Aquetaton e, efetivamente no governo, depois de
restabelecer o proscrito culto de Amon, levou a capital do reino novamente
para Mnfis. Embora no tenha sido um governante dos mais importantes, a
descoberta, em 1922, de seu tmulo e sua mmia, praticamente intacta, fez
dele um dos soberanos egpcios mais presentes no imaginrio popular a partir
do sculo XX. Morreu, provavelmente assassinado, com cerca de 18 anos,
sem deixar herdeiro ou sucessor.
TUTMS (THUTMS). Nome de quatro faras da XVIII dinastia egpcia, no Imprio
Novo. Tutms I  Filho e sucessor de Amenfis I. Venceu os nbios de
Querma, expandiu suas fronteiras at os pntanos de Quebeh e desafiou os
assrios. Sob seu reinado, o Egito ascendeu  condio de grande potncia.
Tutms II  Tornou-se fara por casamento com a rainha Hatchepsut, filha de
Tutms I. Foi assassinado, segundo consta, pela prpria rainha, e quem
assumiu seu posto foi seu filho bastardo, com o nome de Tutms III. Tutms
III  Prncipe nbio, era, segundo Obenga (1973), o filho bastardo que o
segundo Tutms levou para a corte faranica. No poder, estendeu seus
domnios at a sia, inaugurando a era do imperialismo egpcio. Com a ajuda
da rainha Hatchepsut, tornou-se o mais brilhante dos faras egpcios,
reinando, depois da morte dela, ainda por mais 25 anos. Antes desse Tutms,
nenhum fara fez a guerra de conquista de forma to organizada e eficiente.
Com ele, o Estado egpcio atingiu o maior momento de sua expanso
territorial, subjugando povos e reinos, da Nbia at a Mesopotmia. Com um
grande exrcito, poderoso e bem preparado, graas a inovaes blicas
aprendidas durante o domnio hicso, fez 17 incurses  regio do Retenu,
atacando Kadesh e cercando Megido. At as vsperas de sua morte, todos
os reinos das margens do Eufrates at a quarta catarata do Nilo, na Nbia,
eram tributrios do Egito, seu poder tendo chegado at a Europa
mediterrnea. Segundo Anta Diop, era filho de me nbia, conforme j
mencionado; e, para Ki-Zerbo, a reproduo de seu rosto mostra evidentes
traos negro-africanos. Tutms IV  Governou aproximadamente entre 1400
e 1390 a.C., sendo provavelmente o mesmo Tutms mencionado por Brissaud
como vice-rei da Nbia.
TUTMSIS. Uma das transliteraes do nome Tutms.
TXINGLI. Ver QUINGRI.
UADJI.  Fara egpcio da I dinastia (c. 2900-2700 a.C.), poca arcaica ou tinita.
Empreendeu expedies ao mar Vermelho, para explorar minas existentes na
regio.
UADJNS. Fara da II dinastia egpcia (c. 2700-2650 a.C.),  poca arcaica ou
tinita.
UAGADUGU. Nome vernculo do antigo Gana. Na atualidade,  a denominao
da capital de Burkina-Fasso.
UALATA (OUALATA, WALATA). Stio arqueolgico na atual Mauritnia, onde, por volta
de 1400 a.C. grupos sedentrios se instalaram, at Tichitt, s margens o
antigo lago de Aoucar, hoje desaparecido, desenvolvendo uma civilizao de
agricultores, pescadores e pastores. Com a dessecao e a insegurana
crescentes na regio, os habitantes retiraram-se para o planalto, onde
construram cidades fortificadas. Ver TICHITT.
UANGAR (OUANKARAH). Um dos antigos nomes da regio entre o Senegal e o
cabo Lopez, no atual Gabo.
UASET. Nome original egpcio da cidade de Tebas.
UAUAT. Nome de uma das provncias ou nomos em que o pas de Cuxe era
dividido. Tributria do Egito  poca da VI dinastia, seu nome, por extenso,
foi usado para designar a Baixa Nbia em antigos textos egpcios.
UBRi. Ver UEDRAOGO.
UEDRAOGO. Fundador do reino Mossi, tambm mencionado como Yamba
Uedraogo. Filho, segundo a tradio, de uma princesa do povo Dagomba
chamada Ienenga, com um caador mand, Riale; ainda na juventude, com um
grupo de seguidores, migrou para o norte, onde fundou a aldeia de
Tencodogo. Mais tarde, enviou trs de seus filhos,  frente de um batalho de
cavaleiros, para a regio do rio Volta, em misso de conquista de novas
terras. No sculo XV, seus descendentes tinham fundado mais de vinte reinos
e assimilado vrios povos, constituindo o grupo tnico Gurmantch. Nessa
descendncia, a mais importante dinastia foi a que deu origem ao Uagadugu,
o antigo Gana, aproximadamente em 1495, fundado por seu neto, Ubri, o qual
se autodenominou "mogho naaba", ttulo que significa "rei do mundo", adotado
pelos soberanos que o sucederam.
UENTAUT. Vice-rei da Nbia  poca de Ramss II.
UMA. Ver OUNA.
UNAS. Fara da V dinastia egpcia (c. 2494-2345 a.C.), poca menfita.
UNEG. Fara egpcio da II dinastia, sucessor de Ninetjer. Seu poder parece
ter-se restringido a Mnfis.
UOLOFE. Povo da Senegmbia, fundador do reino Uolofe ou Jolof, aparentado
ao povo Serere.
UPEMBA, Cultura de. Civilizao surgida entre os lagos Niassa e Tanganica
entre 600 e 500 a.C. Ver GRANDES LAGOS.
URAEUS. Denominao da espcie de coroa que adornava a cabea dos faras
egpcios, simbolizando seu poder, na cor vermelha para o Baixo Egito e na cor
branca para o Alto, com os respectivos smbolos. Quando o soberano
dominava ambas as regies, o uraeus consistia numa combinao das duas
coroas.
URDEMANE. Ver ERDA AMEN AUSEIA.
UREWE. Conjunto de centros metalrgicos localizados, entre 650 e 500 a.C.,
numa vasta extenso territorial compreendida entre os atuais Congo-
Quinshasa e Tanznia, passando por Burundi, Ruanda, Qunia e Uganda.
Criado por povos bantos vindos do centro do continente, foi o mais antigo
ncleo de produo siderrgica em solo africano. Ver METALURGIA.
USERCAF. Fara fundador da V dinastia egpcia, poca menfita, sucessor de
Shepsescaf. Construiu o primeiro templo solar, em Abusir, ao norte de
Sacar.
USERCAR. Fara da VI dinastia egpcia entre os sculos XXIV e XXII a.C.
USERMAATRE. Ttulo comum a vrios faras egpcios, inclusive o nbio Piye, nos
quais se identificam os elementos maat e Re, provveis referncias ao poder
divino desses soberanos.
USERTSEN. Uma das transliteraes para o nome Senusret.
VALE DOS REIS.  Localidade egpcia na parte oeste de Tebas. Sediou a principal
necrpole do Egito faranico, abrigando os restos de quase todos os faras
reinantes do sculo XV ao XI a.C., segundo Hart.
VNDALOS. Grupo de povos germnicos localizados em parte da Escandinvia.
Oriundos da regio entre o rio Oder e o mar Bltico, em 429 d.C. cruzaram o
estreito de Gibraltar e fundaram um reino na atual Tunsia, destrudo pelo
general bizantino Belisrio em 534 d.C., cinco anos depois de terem tomado e
saqueado Roma. Ver FRICA ROMANA.
VHALEMBA. Ver LEMBAS.

VITRIA. Lago africano, com cerca de 68 mil km2 de superfcie, entre Qunia,
Uganda e Tanznia. Ver GRANDES LAGOS.
VIZIR. Primeiro-ministro. Ttulo rabe utilizado pela historiografia tradicional para
designar o auxiliar mais prximo e influente de cada um dos faras do Egito.
VOLTA. Denominao de um rio na atual Repblica de Gana, com cerca de
1.600 km de extenso.  formado pela unio de trs rios nascidos no territrio
da atual Burkina-Fasso, e forma, tambm em solo ganense, o importante lago
Volta.
WALATA. Ver   UALATA.
XABACA(SHABAKA).  Soberano de Cuxe e fara do Egito tambm intitulado
Nefercare. Sucessor de Piye, deu prosseguimento  tomada de Mnfis, levada
a efeito por seu antecessor, utilizando uma fora de ocupao mais
permanente. No primeiro ano de seu reinado em Napata, avanou sobre Sas,
sede do poder da XXIV dinastia, num combate em que tombou morto o fara
Bocoris. Liquidando com sua ao todos os outros prncipes, tornou-se senhor
do delta e do vale do Nilo e estabeleceu-se em Mnfis, como fundador ou
consolidador da XXV dinastia. Embora governantes locais mantivessem
relativa independncia, o Estado unificado do Egito e de Cuxe, sob seu
comando, tornou-se uma grande potncia, tendo como nico rival da Assria,
cuja expanso teve incio no sculo IX a.C. Segundo Cherubini, citado por Anta
Diop, a autoridade de Xabaca foi reconhecida pelos egpcios, menos como a
de um inimigo que impe a lei pelas armas em meio  anarquia reinante, e
mais como a de um regenerador das instituies tradicionais, partilhando as
mesmas ideias e crenas, garantindo, com seu poder, a independncia do
Egito ante os invasores asiticos. Em 705, aps a morte do imperador assrio
Sargo II, promoveu uma aliana com Ezequias, rei de Israel. Seu reinado,
ainda segundo Cherubini, foi sempre lembrado como de tempos felizes e sua
dinastia reconhecida entre as famlias nacionais ocupantes do trono egpcio.
Numa visita de inspeo feita ao templo de Ptah, Xabaca constatou a
destruio de importantes textos sagrados escritos em papiro; ento, ordenou
que os remanescentes fossem entalhados em granito. Sculos depois,
entretanto, a "pedra de Xabaca", como ficou conhecido o que restou desse
acervo, acabou por ser transformada em pedra de moinho, condio em que
foi encontrada por arquelogos, na forma de uma roda com um orifcio no
meio. Mas alguma coisa das inscries contidas nela, que hoje se encontra no
Museu Britnico, ainda pode ser lida e decifrada. Formulado por sacerdotes
de Mnfis e anterior ao nascimento da filosofia grega, esse texto 
celebrizado como Shabaka Text, i. e., o texto ou "inscrio" de Xabaca 
enfeixa a mais antiga viso do mundo ao redor do Mediterrneo e 
unanimemente reconhecido como um dos mais preciosos tesouros do
pensamento egpcio. Observe-se que o nome Xabaca parece encontrar
correspondncia no ttulo kabaka, privativo do rei do Buganda. Ver CABACA;
SOFONIAS; TEOLOGIA MENFITA.
XABATACA. Soberano de Cuxe em Napata, sucessor de Xabaca, tambm
mencionado como Xebitcu. Enviou  sia um exrcito comandado por seu
irmo Taharca, para dar combate a Senaqueribe. Integrando a XXV dinastia
de faras do Egito, teve, entretanto, uma atuao muito fraca e entregou o
poder a Taharca, soberano enrgico e decidido. O nome Xabataca encontra
correspondncia no ttulo Ssaabataka, que designava o chefe dos cabeas de
linhagem no reino de Buganda. Ver XABACA.
XAMINUCA e NEHANDA. Casal real, irmos, heris fundadores do povo Xona, no
territrio do atual Zimbbue. Segundo a tradio, por volta de 300 d.C.,
lideraram seu povo na migrao at o territrio em que se fixaram, ensinando-
lhes a metalurgia e a agricultura. Segundo D. W. Phillipson, citado por Obenga
(1985), os ciclos migratrios bantos que atingiram a regio, provenientes dos
Grandes Lagos, ocorreram exatamente entre 300 e 400 d.C. Ver CASAMENTO
REAL.
XANAQDAQUETE (SHANAKHDAKHETE). Rainha de Meroe, em c. 170-150 a.C. No
foi soberana por direito hereditrio ou rainha-me, mas sim uma governante
por direito prprio, totalmente independente. Eleita pelo colgio eleitoral de
Meroe num momento em que, provavelmente, o direito de primogenitura no
estava em vigor, imps-se como soberana, fazendo triunfar a estrutura
matriarcal que caracterizou a civilizao merotica.
XANG. Heri mtico iorubano, tido como primeiro alafim (rei) de Oi. Sua
existncia real, em torno do sculo XI d.C.,  afirmada por diversos
historiadores. Segundo uma tradio copta, difundida por Morie, citada por
Pedrals e Cheikh Anta Diop e constante, segundo eles, de um opsculo
traduzido do rabe e publicado em Paris em 1666, sob o ttulo L'Egypte de
Mourtadi, fils du Graphiphe, os tempos remotos conheceram um rei nbio-
egpcio chamado Shango, Iacouta ou Quevioso  o que parece remeter a
alguns dos nomes pelos quais  conhecida a divindade oeste-africana dos
raios e troves, Xang, inclusive nas Amricas e no Brasil. Ademais, segundo
ambos, a expresso Obba-Kouso ("Ob-coss", em terra brasileira), que 
um dos eptetos de Xang, seria, no segundo elemento, referncia a Kush
(Cuxe). Morie cita ainda outras divindades iorubanas, associando-as 
civilizao nbia. Ver IORUBS; OI.
XARAXEN. Rei dos blmios. Capitulou ante os romanos tendo que firmar um
severo tratado de paz imposto por Marciano, rei de Bizncio em 453 d.C.
XEBITCU (SHEBITQO). Ver XABATACA.
XEPENUPET. Ver DIVINAS ADORADORAS.
XEPSESCAF. ltimo fara egpcio da IV dinastia, em Mnfis, filho e sucessor de
Mencaure ou Miquerinos.
XEPSESCAR. Fara egpcio, filho e sucessor de Neferircar.
XERCARER. Rei de Cuxe em Meroe, em c. 20-30 d.C.
XESEP-ANQH-N-AMANI. Ver BARTARE.
XEVA (XOA). Antigo principado etope independente, localizado na regio
montanhosa prxima  atual Adis Abeba. Segundo algumas hipteses, teria
sido o local, entre os anos 1000 e 400 a.C., onde se teriam verificado os
primeiros contatos dos ancestrais dos atuais povos bantos com populaes
nilticas. J no sculo XVI d.C., foi governado por um ramo da dinastia
imperial fundada por Abeto Yakob. Ver ETIPIA; NILTICOS.
XEXONQ. Nome de cinco governantes egpcios de origem lbia, integrantes da
XXII dinastia, bubastita, durante o confuso Terceiro Perodo Intermedirio.
Xexonq I  Sua ascenso ao trono, iniciando sua dinastia e sucedendo
Psusenes I, aliado dos hebreus, causou o enfraquecimento do poder de
Salomo em Israel. Sob suas ordens, a capital egpcia passou de Tanis para
Bubastis, mais afastada da fronteira. Em lugar de continuar a velha poltica de
entendimento e casamentos reais, Xexonq acolheu um edomita, inimigo de
Israel, promovendo seu casamento com uma cunhada. Acolheu tambm um
rebelde israelita, Jeroboo (c. 930-910 a.C.), opositor de Salomo, o qual s
voltou a Israel aps a morte deste, para fundar a III dinastia local e governar 
moda egpcia. Soberano audaz, em meio ao retraimento que o Egito
experimentava no sculo X a.C., por volta de 920, Xexonq invadiu Israel.
Xexonq II  Filho de Osorcon I, sucedeu-o no trono, depois de ter sido sumo
sacerdote de Amon em Carnac e seu corregente, mas faleceu
prematuramente. Xexonq III  Seu reinado foi marcado pelo surgimento de
uma dinastia rival, a XXIII, encabeada por Petubstis, em Tanis. Xexonq V 
Governou paralelamente  instalao da XXV dinastia, a cuxita, provavelmente
apenas como nomarca de Busris, sendo, entretanto, desalojado por Tefnact,
prncipe de Sas. Sobre o quarto Xexonq, ao tempo do fara cuxita Pinqui,
consta que foi entronizado mas no chegou a reinar.
XILUQ (SHILLUK). Grupo tnico do atual Sudo, localizado na margem esquerda
do Nilo Branco. Segundo Granguillhome, constitui o nico resduo importante
dos povos chamados "pr-nilticos", pois seus ancestrais teriam migrado do
oeste antes do ano 4000 a.C.
XOA. Ver XEVA.
XONAS. Povo da frica Meridional. Ver ZIMBBUE.
XONOUPHIS. Filsofo egpcio. Tido como mestre de Plato em Mnfis. Tambm
teria recebido como discpulos Eudxio de Cnide, Smias, Elopion.
XU (SHU). Divindade primordial egpcia, juntamente com Tefnut. Representa o
Sopro Vital, o ar que, penetrando pelas narinas, possibilita a vida. Segundo
algumas tradies, Shu e Tefnut teriam vindo da Nbia para serem os
protetores do Egito. Ver EXU.
YAM. Ver   IAM.
ZAGHAUA.  Grande reino mencionado como "pago" pelos rabes no sculo X
d.C. Estendia-se da Nbia ao Nger e compreendia o Cauar, o Canem, o
Ouada e uma parte do Darfur (conforme Lebeuf e Detourbet).
ZAMA. Localidade da Numdia na qual os cartagineses foram derrotados por
Cipio, o Africano, em 202 a.C.
ZAMBEZE. Rio do centro-oeste do continente africano com 2.570 km. Nasce no
noroeste da Zmbia e corre para o sul, por Angola, at desaguar, depois de
um percurso de 2.600 km, no canal de Moambique. Entre 500 e 400 a.C., a
metalurgia do cobre chegou  regio. Mais tarde, a extrao de ouro motivou
o florescimento de vrios reinos como o de Mutapa ou Monomotapa,
Urunguwe, Barue, Manica etc. Ver ZMBIA; ZIMBBUE.
ZMBIA. Pas da frica Central, limtrofe com Angola, Repblica Democrtica
do Congo, Tanznia, Malaui, Moambique, Zimbbue, Botsuana e Nambia.
Localizado bem no corao da frica bantfona, a regio foi cenrio de
intenso intercmbio entre povos e de importantes eventos histricos. Entre c.
400 e 500 d.C., uma vaga migratria de povos bantos provenientes do leste
alcana a rea ocidental da regio, prxima  atual fronteira de Angola. No
sculo VII d.C., habitantes da regio trocam cobre por contas de vidro e
conchas marinhas vindas do exterior, at que cerca de trs sculos mais tarde
chegam, atravs do Zambeze, os primeiros mercadores rabes e indianos,
trazendo roupas, armas e porcelanas chinesas, e levando marfim, ouro e
cobre atravs do oceano ndico. Ver ZIMBBUE.
ZARZAS. Comandante de um corpo de africanos que em c. 240 a.C. deu
combate a Amlcar Barca, a servio dos romanos durante a primeira Guerra
Pnica.
ZAUARE NEBRET ASPURTA. Soberano etope (c. 602-561 a.C.) da dinastia de
Meneliq, segundo listagem provavelmente extrada do Kebra Nagast; cf. www.
rastafarionline.com. Ver ASPELTA.
ZE. Ttulo de alguns soberanos etopes de Axum, como Ze Elauda, Ze Cauissia
etc., e provavelmente Zera. Parece ser ttulo dinstico comparvel ao "De"
dos reis de Abom ou Allada, no antigo Benin, nos sculos XVI-XVII. Por
exemplo: De Troion, De Mis. Esse "d", no idioma fongb, est ligado  ideia
de imortalidade.
ZEQUN. Fara do Egito no perodo pr-dinstico tardio, anterior a Narmer
(segundo Baines e Mlek).
ZENAGAS. Povo berbere expulso do Magreb, numa poca imprecisa, por seus
aparentados zenetes. Seu nome  corruptela de Senhadja. Ver SENEGMBIA.
ZERA. Um dos nomes ou ttulo de Qadamawi Sera I ou Tomai, governante
etope (c. 949-923 a.C.) da linhagem de Meneliq. Leia-se, no Antigo
Testamento, no livro Crnicas: "Um etope chamado Zera marchou contra
Jud com um exrcito de 1 milho de homens e 300 carros de guerra e
avanou at a cidade de Maressa. Asa [rei de Judah em 911-870 a.C.; o rei
de Israel, seu inimigo, era Baasa] saiu para lutar contra ele; e os dois
exrcitos se prepararam para a batalha no vale de Zefata, perto de Maressa
(...) Quando Asa e seus soldados atacaram, Deus derrotou os etopes e eles
fugiram, sendo perseguidos por Asa e pelo seu exrcito at Gerar. Todos os
etopes foram mortos; no ficou nem um s com vida, pois foram derrotados
pelo Deus eterno e pelo seu exrcito" (2 Cr, 14, 9-13). Ver DINASTIAS ETOPES.
ZIMBBUE, Grande. Stio histrico no extremo sul do planalto do Zimbbue,
entre os rios Zambeze e Limpopo. Construes monumentais, com extensos
muros de mais de 10 m de altura, do conta da existncia, no local, de uma
prspera cidade que abrigou, no seu auge, uma populao calculada entre 10
mil e 17 mil pessoas. No incio do sculo XX, o egiptlogo Randall-Mac Iver
estabeleceu a datao aproximada das runas (o stio fora abandonado no
sculo XVII, tendo seus habitantes rumado para o litoral de Moambique) e
descartou a hiptese da origem rabe das construes, como fora suposto,
comprovando serem elas absolutamente africanas em sua concepo e
execuo. Embora o stio onde se situam essas runas tenha sido habitado
desde o sculo III d.C., as edificaes de pedra s comearam a ser
levantadas depois do sculo XI. Elas so tentativamente associadas 
ocupao dos xonas. Entretanto, os mais finos padres de arte arquitetural ali
encontrados datam, segundo o Dictionary of World History, do perodo da
dominao do cl Rozwi, em c. 1440. O arquelogo belga Roger Verly, citado
por Obenga (1973), viu, nas edificaes do Grande Zimbbue, analogias com
as sepulturas egpcias do Antigo Imprio, da poca menfita. Segundo
Obenga, modernas pesquisas arqueolgicas, utilizando o mtodo do Carbono
14, datam Zimbbue do sculo IX e no do XV, como antes se imaginava. O
Reino  O surgimento do reino de Zimbbue marca um momento importante
na histria do povo Xona. Em tempos remotos, tribos da Idade do Ferro
percorriam desorganizadamente as terras altas da regio. Depois, a
explorao das minas, ativada pelo comrcio, obrigou as populaes a se
fixarem ao redor das jazidas e construir aldeias. Formaram-se chefaturas, as
mais poderosas crescendo por meio da submisso de outras. Essa a gnese
do Zimbbue, Estado fundado pelo povo Caranga, j na Era Crist, no sculo
VI, segundo uns, ou no sculo XIII, segundo outros, e que desapareceu no
incio do sculo XVI. Oriundos da regio do lago Tanganica, os ancestrais dos
xonas de hoje deslocaram-se em migraes sucessivas, na direo sul,
chegando s regies mais meridionais e ao sudeste do atual Zimbbue.
Fixando-se na terra, acabaram por subdividir-se em grupos clnicos, como os
at hoje denominados carangas (xonas do sul), zezurus, rzuis (lozis ou
barotses), manicas, tauaras etc. No monte Mntua, o povo Caranga, mais
especificamente o cl dos rzuis, que constitua a classe dominante, ergueu,
em honra dos espritos dos antepassados, um santurio e outras edificaes
s quais deram o nome de Dzimba Dzemaue, "as casas de pedra". Segundo
algumas fontes, os antigos xonas eram guerreiros belicosos e grandes
comerciantes. Seus chefes usavam capas de peles de animais selvagens,
cujas caudas arrastavam pelo cho, como sinal de dignidade e autoridade.
Suas espadas, levadas do lado esquerdo da cintura, eram or-namentadas
com muito ouro; armavam-se tambm de flechas e lanas pontiagudas. A
partir do sculo XI, os xonas comercializam intensamente com o litoral do
ndico. Cerca de dois sculos depois, sua relativa paz  perturbada pela
chegada  regio de outros povos, como os nguni. Ento, o lder Muntoba
Xuru Xamutapa empreende campanha militar e domina toda a regio entre o
Zambeze e o Limpopo, exceto a costa. Passa a ser conhecido como Muene
Mutapa e  sucedido por seu filho Matope, que governa ao lado da irm
Niambita, possivelmente tambm sua mulher. Em 1480 verifica-se a
dissidncia de outro cl, o Xangamir. Mas o lder Cacuio Comuniaca retoma o
poder para o cl Rzui at que chegam os primeiros portugueses. Ver
MAPUNGUBWE.
ZPORA (SIPOR). Mulher de Moiss, filha do midianita Jetro.  mencionada em
Chavot como "a bela morena Sipor". Ver MIDIANITAS.
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no sculo I d.C.
ZOSER. Ver DJOSER.
ZULUS. Povo banto da frica Austral. Os zulus pertencem, como os xhosa, ao
grupo lingustico Nguni e constituem um dos povos bantos mais meridionais.
Os ancestrais dos atuais zulus, no cenrio das longas migraes dos povos
bantos, parecem ter atingido seu atual territrio no segundo sculo da Era
Crist. L se estabeleceram em comunidades de aldeias, cultivando gros
como o sorgo e pastoreando gado, que se tornou para eles um importante
smbolo de bem-estar e de prosperidade. Como outros grupos ngunis, bem
antes de forjarem uma identidade coletiva e uma estrutura poltica
centralizada, os zulus desenvolveram uma lngua distinta. Assim, os falantes
do idioma zulu s emergiram para a histria, como nao, muito mais tarde.
Antes disso, s um cl nguni se identificava como "Zulu", alis, nome de um
dos fundadores do cl, ligado  ideia de coisa celeste, excelsitude: "izulu
eliphezulu, o cu acima", nome sagrado do rei dos zulus segundo C. M. Doke
et al., no English-Zulu: Zulu-English Dictionary. Segundo Asante, as
concepes dos zulus sobre o Universo se revestem do mesmo holismo e da
mesma harmonia encontrados na concepo quemtica do Maat. Ver NGUNI.
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 2. A frica e o Mundo Antigo [1200-100 a.C.]
 3. O Vale do Nilo [Egito e Nbia]
 4. O Vale do Nilo [de Mnfis a Elefantina]
 5. Kerma, ncleo inicial da civilizao nbia [constitudo em c. 2600 a.C.]
 6. O contexto afro-asitico [ligao Punt-Etipia]
 7. Regio dos Grandes Lagos
 8. A disperso dos povos bantos [c. 1000 a.C.-1100 d.C.]
 9. Bacia do Congo e regio do Adamaua [localizao atual]
10. Vale do Nger e regio do lago Chade [localizao atual]
11. Angola [Luanda  Cabinda  Benguela]
12. Moambique  Bacia do Zambeze [atual]
13. Rota s de comrcio [Saara  Mediterrneo  Chade  Nger  Nilo]
14. Sculo XII: Estados do ocidente e oriente africanos
15. frica: mapa poltico atual
16. frica: mapa fsico
                                   MAPA 1




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MAPA 15
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